NOTAS DE RODAPÉ:

[891] Far. Europ. Portug. tom. 2. part. 2. cap. 5. n. 63.

[892] Sousa Histor. Geneal. tom. 2. p. 441.

[893] Sousa Histor. Genealog. tom 7 p. 694.

[894] Garcia de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 77. p. 50. vers. Chron. delRey D. Joaõ III. part. 1. Cap. 25. Far. na Europ. Port. part. 4. cap. 2. n. 26.

CAPITULO XIV.
Das ceremonias, e estylo, que se praticava nas mortes dos Reys.

1 Havia costume antigamente em Portugal, deduzido desde o tempo da gentilidade, tanto que morria alguem, conduzirem a preço certas mulheres, chamadas pranteadeiras, para virem assistir aos defuntos, e acompanhallos até à cova, chorando, e pranteando sobre elles. Por esta ceremonia começava a demonstraçaõ do sentimento; e quando a pessoa era Real, se executava com muito mayor excesso, e mayor numero de pranteadeiras, ou carpideiras, as quaes entre as lagrimas, e os gemidos misturavaõ louvores do defunto, que se era Rey, diziaõ delle o bom tratamento, que fizera ao seu povo, que o naõ vexara com tributos, que introduzira tanto dinheiro no thesouro, accrescentando tanto mais sobre o que herdara; e com estes, e outros elogios gritando, e soluçando faziaõ mais lustuoso aquelle Regio funeral.[895]

2 Assim consta que se fizera no enterro delRey D. Diniz, e no delRey D. Fernando,[896] até que no tempo delRey D. Joaõ I. fez o Senado da Camera de Lisboa extinguir semelhante costume,[897] conservando-se porém ainda até o tempo delRey D. Manoel o luto de burel branco, porque o primeiro luto negro, que se usou neste Reino, foy o que se vestio na morte da Senhora Dona Filippa, tia delRey D. Manoel.[898] Isto supposto, tanto que falecia algum dos Reys Portuguezes, se despachavaõ logo Correyos para as Comarcas do Reino, com a qual noticia se levantavaõ nas Cathedraes, e Paroquias tumulos de madeira cubertos de lutos para se fazerem os Officios, e funeraes, dobrando ao mesmo tempo os sinos.

3 Depois sahia em dia determinado da Casa do Senado a comitiva seguinte: A principal pessoa hia a cavallo vestida de luto, e levava huma bandeira negra ao hombro, que arrastava até o chaõ. Com o mesmo luto, e da mesma sorte o seguiaõ os tres Vereadores daquelle anno acompanhados de toda a Nobreza, e assistidos de tres Ministros, que lhes levavaõ tres escudos pretos; e caminhando para a parte mais publica do lugar, onde já estava prevenido hum estrado com alguns degráos, cuberto tudo de pannos negros, se subia nelle o primeiro Vereador com hum escudo preto nas mãos, e voltado hum pregoeiro para o povo, dizia tres vezes em voz alta: Ouvide, ouvide, ouvide. Logo o primeiro Vereador dizia estas palavras, que levava escritas: Choray, povo, choray a morte do vosso Rey, que vos governou com justiça, e amor de pay. E subindo o escudo sobre a cabeça, o deixava cahir em terra, e se quebrava. Com as mesmas circunstancias se repetia a mesma ceremonia pelos outros Vereadores, levantando ao mesmo tempo o povo grandes clamores, e prantos. Depois caminhavaõ para a Igreja, na qual assistiaõ ao funeral, que tambem se fazia com aquella expressaõ de pena, e dor, que merecia a grandeza da perda. Veja-se a Damiaõ de Goes, Garcia de Resende, e outros Chronistas antigos, que as descrevem com miudeza.

4 Na Corte se fazia este acto com mayor pompa, porque ao Alferes da Cidade pertencia levar a bandeira, aos Vereadores varas pretas nas mãos, a dous Juizes do Crime, e hum do Civel o levarem sobre a cabeqa os tres escudos, que pela referida ordem se quebravaõ, o primeiro no taboleiro da Sé, o segundo no meyo da rua nova, o terceiro no Rocio.[899] As mayores demonstrações de sentimento, que neste Reino se tem feito por pessoas Reaes, foraõ as que se viraõ na morte do Principe D. Affonso, filho delRey D. Joaõ II. refere-as por extenso Garcia de Resende;[900] porém as de mayor formalidade, e pompa foraõ as que se executaraõ no enterro delRey D. Joaõ I. vindo-se a concluir tudo nas breves, e verdadeiras clausulas desta sentença:[901]

Tot mundi Principes, tanta potentia:
In ictu oculi clauduntur omnia.