ACTO PRIMEIRO
Um campo junto á pousada de D. Pedro Framariz, no Burgo de Guimarães.
SCENA I
Entram Besteiros, e Homens d'armas de D. Pedro Framariz, trazendo um Judeu prezo com uma corda
1.º BESTEIRO
Anda perro judeu... anda; vamos, e depressa, que o teu sangue, e a tua pelle hão de tornar-se hoje em bons e finos maravedis.
2.º BESTEIRO
Olá!—O nosso amo bem sabe os meios de lh'os fazer sahir do corpo.—Bons meios, e que nunca falham. Uma tenaz de ferro em braza, uma boa corda de esparto, e ás vezes um cajado de zambujeiro, bastam para fazer de um judeu um sacco de oiro.
1.º BESTEIRO
E agora sobre tudo, que os maravedis são tão necessarios, o sr. D. Pedro ha de empregar os bons meios para tirar prata e oiro do corpo deste judeu. D'aqui a uma hora partimos, para andarmos por lá, Deus sabe quanto tempo.
2.º BESTEIRO
Não nos ha de faltar nada. Nos recontros com os mouros sempre se ganha alguma coisa. Uma fossada pelo Al-Gharb ha de dar para senhores e vassallos. Até nós, pobres besteiros, havemos de apanhar algumas migalhas do que der a conquista.
1.º BESTEIRO
E nesta correria então!... Dizem que são tão ricas essas terras d'Além do Téjo!
2.º BESTEIRO
E que o não fossem! Para nós homens de armas de D. Pedro Framariz sempre ha que apanhar.
1.º HOMEM D'ARMAS
Hei de trazer este meu lorigão forrado de oiro.
2.º BESTEIRO
E a alma de indulgencias.
1.º HOMEM D'ARMAS
Tambem, e porque não? Lá váe o nosso Infante para as ganhar...
1.º BESTEIRO
E tem razão.—E elle dês que a mãe lhe morreu anda triste, e a scismar sempre. A mãe, a sr.ª D. Thereza, era uma brava mulher. Vi-a muita vez, nas guerras com os leonezes, ao lado do conde Fernando Perez, caminhar para o inimigo como um homem.
1.º HOMEM D'ARMAS
(Em voz baixa.) Foi o Infante D. Affonso Henriques quem a matou.—Aquella prizão... e depois aquelle desterro...
2.º BESTEIRO
O sr. Infante não a matou. Cá a mim parece-me que elle fez o que devia. Portugal ía-se pela agua abaixo se fica mais tempo nas mãos de uma mulher.
1.º BESTEIRO
Palavras inuteis... e perigosas!—Vamos levando este maldicto judeu para a pousada do Burgo, e deixemos o resto que nos não importa.
1.º HOMEM D'ARMAS
Não tem pressa. Nosso amo está ainda com o Infante e outros cavalleiros a ouvir a missa no mosteiro de Mumadona.
1.º BESTEIRO
Qual?! Está já de volta, de certo. D'aqui a pouco partimos.
2.º BESTEIRO
(Puxando pelo judeu) Vamos, vamos. (Ao 1.º homem d'armas.) Garcia, faz andar este excommungado. Para que te servem esses braços, senão é para dar nos judeus e nos cães da moirama?
1.º HOMEM D'ARMAS
(Dando no judeu.) Tem os ossos de ferro estes judeus, não quebram nem pelo diabo!
JUDEU
Deixae-me... deixae-me. Tende dó de mim, srs. besteiros.
1.º HOMEM D'ARMAS
Dá-nos um pouco de teu oiro, judeu.
JUDEU
Sou pobre... um miseravel... não tenho nada.
1.º BESTEIRO
Vae dizer isso a D. Pedro, elle te fará mudar de opinião. Mette-te n'um forno, vivo, para vêr se de lá sáes mudado em barra de oiro.
JUDEU
Deixae-me... que elle mata-me; mata-me de certo.
ALGUNS BESTEIROS
Uh! uh! maldito judeu.
1.º HOMEM D'ARMAS
Has de ser assado vivo.
JUDEU
Deus de Jacob, salvae-me!
1.º HOMEM D'ARMAS
Vamos, que alli vem fr. Bermudo.
1.º BESTEIRO
O feiticeiro... o magico.
JUDEU
(A fr. Bermudo.) Salvae-me... salvae-me!
SCENA II
Os mesmos, e Fr. Bermudo
FR. BERMUDO
Esperae... onde ides? Onde levaes esse miseravel judeu?
1.º HOMEM D'ARMAS
Foi nosso amo, D. Pedro Framariz, que nos mandou que o levassemos...
FR. BERMUDO (Colerico.)
Para o roubar, para o atormentar.—Deixae-o...
2.º BESTEIRO
Um judeu...
FR. BERMUDO
Um judeu tambem é homem.—Deixae-o.
1.º HOMEM D'ARMAS
Mas D. Pedro ha de querer saber porque nós lhe não obedecemos.
FR. BERMUDO
Dizei-lhe que fui eu.
1.º HOMEM D'ARMAS (Com hesitação)
Mas...
FR. BERMUDO
(Com colera.) Já disse.
1.º BESTEIRO
(Baixo aos outros.) O magico dá-nos máo olhado, se lhe resistirmos, e ficamos perdidos... O melhor é deixar o judeu.
TODOS
Deixemol-o. (Deixam o judeu.)
1.º HOMEM D'ARMAS
Vamo-nos... depressa.
1.º BESTEIRO
Deus tenha dó de nós. O que dirá D. Pedro Framariz?
2.º BESTEIRO
É hoje, talvez, o fim da nossa vida. (Sáem.)
SCENA III
O judeu e Fr. Bermudo
JUDEU
(Cahindo de joelhos.) Quero agradecer-vos de joelhos.
FR. BERMUDO
Vae-te... salva-te.—Não pônhas em mim essas mãos.
JUDEU
Consenti que vos beije os pés, que me prostre diante de quem póde e sabe escrever o destino dos homens...
FR. BERMUDO
Foje... vae-te, se não queres outra vez cair nas mãos d'aquelles homens d'armas.
JUDEU
Sois o maior homem da terra! (Sáe.)
SCENA IV
Fr. Bermudo (só)
FR. BERMUDO
(Rindo.) O maior homem!... Sou o maior homem, sou, porque padeço mais que os outros. A dôr moral é que distingue o homem da fera. (Pauza.) Lêr o futuro nos astros, lêr as paixões no coração; ter segredos que dão vida, e segredos que matam...—Que tem?! O futuro é um martyrio que me assusta; as paixões que escondo neste coração são crueis e negras. Se esta vida durasse uma eternidade, sería uma vida maldicta... E depois da vida a morte!... Morrer sem ter sido amado, sem ter recebido um affago... sem ter a esperança de ouvir, mesmo quando já envolvido nas profundas trevas do sepulchro, um grito de saudade que me acorde!... De que serve a sciencia?... E o que é ella, essa sciencia que não póde vencer o destino, nem sequer descobrir as leis eternas que o regem? De que me serve o saber?... Tenho mais dores que os outros homens, e menos fé...—Mendo... O meu Mendo, o meu amigo, o meu filho,—porque lhe quero como se elle fôra meu filho,—como o hei de salvar?... E Violante, esse anjo, que eu... cujo nome me faz alegria e terror...—como os hei de separar, esses corações que o amor e a mocidade atraem um para o outro, e que o destino separa por um abismo! (Pausa—apontando para os astros.) Está escripto... está tudo escripto nos astros...—É fatal! (Crusa os braços e fica meditando.)
SCENA V
D. Mendo e Fr. Bermudo
D. MENDO
(Vendo Fr. Bermudo.) Aqui, fr. Bermudo!
FR. BERMUDO
Esperava por ti, D. Mendo.
D. MENDO
Por mim?... Neste sitio? Agora?
FR. BERMUDO
É aqui que te deves despedir da filha de D. Pedro Framariz.
D. MENDO
De Violante... Quem te disse?
FR. BERMUDO
Soube que vinhas, e vim. Não foste hontem pedir-me que consultasse as estrellas, a conjuncção dos astros para saber o teu futuro? Passei a noite a estudar o céo, e é o que n'elle li que eu te venho dizer agora.
D. MENDO
Que te disseram os astros?... Hade ser minha?... Hade-me ter sempre muito amôr?... Seremos felizes?..
FR. BERMUDO
A tua estrella tocou o zenith, quando o Feretro se alevantou sobre o horisonte, acompanhado das tres Carpideiras; ao mesmo tempo que a irradiação de Neyman se extinguia, a de Sehedir tornou-se mais brilhante...
D. MENDO
O que quer dizer tudo isso?
FR. BERMUDO
Não o queiras saber; deixa os astros guardarem os seus segredos tenebrosos. Mas foge destes logares; vae buscar a gloria nos campos da batalha... foge, foge do teu negro destino... se ao homem é possivel fugir ao destino.
D. MENDO
Falla. Diz-me a verdade. Tenho animo para tudo. O que quer dizer essa disposição dos astros?
FR. BERMUDO
Quer dizer que a vida ha de ser uma vida de padecimento; que a morte ha de separar-te da que amas; que depois terás a gloria...
D. MENDO
Calla-te...—Sem ella... que m'importa o resto?
FR. BERMUDO
Abumachar Giafar não se enganou nunca ao lêr no livro do céo... e eu leio pelo seu livro.
D. MENDO
Não póde ser... não. Se Violante morrer, morrerei com ella.
FR. BERMUDO
A tua estrella não se apagou.—Serás grande e forte.
D. MENDO
O destino não se póde oppôr a que eu busque a morte no meio das fallanges serracenas.
FR. BERMUDO
Tudo póde o destino!
D. MENDO
Salva-me... Calla-te... Muda isso tudo...
FR. BERMUDO
O que os astros escrevem no seu mudo caminhar pelo céo, não o podem os homens apagar.
D. MENDO
Fr. Bermudo, algum demonio falla pela tua bocca.
FR. BERMUDO
O teu sangue de pagem está ainda muito ardente.—Mendo, sou teu amigo, sou, e deveras. Talvez o não devesse ser... mas sou-o... Mendo—Entre ti e Violante ha um abysmo.
D. MENDO
Hei de transpôl-o.
FR. BERMUDO
Não, porque é vasto, immenso; porque no fundo ferve e ruge um pélago de sangue.
D. MENDO
Enganou-te a sciencia... Não é, não póde ser verdade o que dizes.
FR. BERMUDO
Nem a mão de Deus, póde apagar o passado.
D. MENDO
Padre, conheces um tremendo segredo... É meu esse segredo; quero sabêl-o.
FR. BERMUDO
Sei... coisas que não posso dizer... tenho medo de as pensar... que me accusam, que me condemnam.
D. MENDO
Mas...—Fr. Bermudo quero o meu segredo.
FR. BERMUDO
Deixa,... esquece esse amor. Não queiras, saber um segredo, que te manchará o viço da alma; que te fará envelhecer o coração, caírem mortas a esperança e a fé, mal elle tocar o teu pensamento, que desconhece ainda até onde póde chegar a perfidia dos homens.
D. MENDO
Esquecer este amor?—Este amor é...—Não t'o posso dizer, não me intenderias, padre.
FR. BERMUDO
Quem sabe!... Os mysterios do coração são de Deus?!... Póde ser que vão com o corpo á cova, para lá ficarem fechados; por que Deus na sua infinita misericordia talvez os queira extinguir, com tudo quanto ha de impuro no homem.
D. MENDO
Ai! que dôr, que dôr esta minha!... Sou o maior desventurado da terra!
FR. BERMUDO
Quem póde dizer que o é?—Tu, Mendo, na tua vida tão curta, já escutaste o palpitar de um coração que batia por ti.—Tens uma esperança... Amanhã serás cavalleiro, depois serás senhor de honras e castellos, depois terás um nome, uma gloria. Tens um futuro, Mendo... e n'esse futuro?.. Deus ha de compadecer-se de ti que és bom e puro.
D. MENDO
(Cobrindo o rosto.) Sem Violante!... Jesus, meu Deus!
FR. BERMUDO
Ha homens a quem a fatalidade acompanha desde o berço, e em cuja alma sempre em trevas, não caíu uma esperança... nem mesmo já nasce um desejo.
D. MENDO
Fr. Bermudo, não tens nem piedade, nem comiseração n'essa tua alma... Nunca te fiz mal, para que assim me lances na desesperação.
FR. BERMUDO
Querias saber o futuro, li nos astros, e disse-t'o.
D. MENDO
Não te creio...—Mentem os astros...—Violante!... não a perderei, não... nem este amor tambem, que é do céo; que nasceu entre os anjos!... Ella não póde tardar.—Deixa-me... Quero ter esperança; estar alegre.—Vae-te. Vae-te, que te não veja ella, feiticeiro agoirento e máo.
FR. BERMUDO
Deus tenha dó de nós... de todos nós! (Sáe.)
SCENA VI
D. Mendo e depois D. Violante
D. MENDO
Virgem Maria, tirae-me d'alma estes dolorosos pensamentos, ponde-me o sorrizo na bocca e a esperança no coração, para que um dos vossos anjos não soffra.
D. VIOLANTE
(Entrando agitada.) Mendo, que tendes? O que é isso que vos afflige. D. Mendo?
D. MENDO
Minha sr.ª D. Violante!... Não quizestes deixar-me partir sem vir lançar-me a força no coração.
D. VIOLANTE
Estaes agitado, sobre-saltado! Que vos dizia aquelle frade, Fr. Bermudo?
D. MENDO
Nada... não me dizia nada. Viestes, D. Violante, e na presença de um anjo as palavras de um louco devem esquecer-se. Ai! Violante, quanto vos agradeço o que fizestes por mim! Se partisse para a guerra, sem vos ter fallado do meu amor, e sem ter ouvido dessa bocca uma palavra de esperança, parece-me que me deixava morrer por lá. Este amor é a minha vida!
D. VIOLANTE
(Com embaraço.) Saí da pousada, saí... nem eu sei... que importa? (Com ternura.) Procurava o perfume das flôres, e vim para este lado... parecia-me que tinha nascido aqui uma flôr, que eu só devia colhêr...
D. MENDO
A flôr da esperança?
D. VIOLANTE
(Cobrindo a cára.) A do amor... Enganei-me, meu pagem?..
D. MENDO
Não. (
Apontando para o peito.
) Essa vive aqui,
sempre bella, sempre doce, e perfumada. E é da minha querida Violante.
D. VIOLANTE
(Seria.) Vinha para aqui, e vi Fr. Bermudo fallar comvosco... que vos dizia elle?
D. MENDO
Loucuras, sonhos de uma cabeça cheia de illusões!
D. VIOLANTE
Leu nos astros o futuro dos nossos amores? Que lhe disseram os astros?
D. MENDO
O que nos importa a nós isso tudo? (Levando-a para um assento de pedra) Vinde assentar-vos aqui; e eu vou pôr-me de joelhos, para vos adorar como a um anjo, como a uma santa que sois... Amo... amo-te... ía dizer uma blasfemia, Violante, ía fallar-te como só a Deus se deve fallar; mas é porque no mundo não ha com que se compare este amor!
D. VIOLANTE
(Brincando, mas com muita ternura.) Mas se esse amor mudar?... O coração dos pagens é como as borboletas, foge sempre de flôr em flôr.
D. MENDO
Mas este meu!... Que thesouro possue elle agora! Vós bem sabeis que este meu amor não mudará... não póde mudar.—E depois tudo em roda de nós está alegre, tudo parece fallar-nos de felicidade.
D. VIOLANTE
Amanhã, d'aqui a horas, já não estaremos juntos. E os perigos da guerra...
D. MENDO
Vou deixar-vos, mas para voltar cavalleiro, para ter uma espada, para ter um nome, que seja mais digno de vós, do que o do obscuro pagem.
D. VIOLANTE
Mendo!
D. MENDO
Ó Violante, D. Violante não esqueçaes nunca esta hora de immensa felicidade!
D. VIOLANTE
Nunca.
D. MENDO
Sereis minha? sempre minha?
D. VIOLANTE
Serei.
D. MENDO
Amaes-me?
D. VIOLANTE
Mais que tudo!
D. MENDO
(Ficando triste.) Este amor será para nós uma benção do céo... será.—É de certo.
D. VIOLANTE
Estaes outra vez triste. Lembram-vos as predicções de Fr. Bermudo? Que disse elle?
D. MENDO
Que importa o que elle disse? O nosso amor vem de Deus, só Deus o póde destruir.
D. VIOLANTE
Dizei a verdade Mendo... Não tenho medo, como vêdes... Dizei; que o coração já advinhou tudo.
D. MENDO
Para que quereis?...
D. VIOLANTE
Dizei.
D. MENDO
Disse... que não seriamos nunca um do outro... Que o destino nos separava para sempre.
D. VIOLANTE
(Deixando-se cahir de joelhos ao lado de D. Mendo.) Virgem Nossa Senhora, vallei-nos!
D. MENDO
Separar-nos!... Agora, que a tristeza nos cobriu de trevas, e que começavamos a sentir os amargores da saudade... Separarmo-nos agora!
D. VIOLANTE
Deixar-te...
D. MENDO
Não chores... Minha Violante!
D. VIOLANTE
Esta guerra!... Esta auzencia!...
D. MENDO
O amor... O amor unirá as nossas almas, quando eu estiver longe, lá por esses certões do Al-Gharb.
D. VIOLANTE
Cada noite procurarei na luz das estrellas um desses teus olhares de amor, que são mais suaves para mim do que os clarões mais puros de um céo sereno e bello.
D. MENDO
Cada tarde escutarei no silencio dos bosques o brando gorgear das aves, para vêr se na voz de alguma dellas distingo um dos teus castos suspiros.
D. VIOLANTE
Ai! Se te eu perdesse...
D. MENDO
Quando voltar, seremos um do outro, para sempre!
D. VIOLANTE
Sinto gente! Adeus
D. MENDO
Violante!... (Cáem nos braços um do outro.)
D. VIOLANTE
Sou tua!... Adeus.
D. MENDO
Adeus. (D. Violante sáe.)
SCENA VII
D. Mendo, D. Bibas e Bonamiz.
D. BIBAS
(Cantando o que se segue.)
Porque choras
Pagem terno?
Teu inferno
Não melhoras.
Trá—lira.
(Cantando e rindo.) Ah! Ah! Ah!
D. MENDO
Tu aqui?... aqui D. Bibas... Quem te trouxe aqui, bôbo?
D. BIBAS
(Apontando para Bonamiz.) Foi elle.
D. MENDO
(A Bonamiz.) Tu?
BONAMIZ
(Apontando para D. Bibas.) Foi elle.
D. BIBAS
(Cantando.) Uma bruxa nos guiou.
BONAMIZ
(Cantando.) Um diabo nos mandou.
AMBOS
(Cantando.)
Segredos do coração
Mui grandes segredos são.
BONAMIZ
Am!
D. BIBAS
Am!
BONAMIZ
Am!
D. MENDO
Que viste, D. Bibas?—Que ouviste Bonamiz?
D. BIBAS
Vi-te dar um abraço... e tive inveja.
BONAMIZ
Ouvi dizer á mais linda dama das Hespanhas, que te amava... e desejei estar-te na pelle.
D. MENDO
Nada mais...
D. BIBAS
Ah!—Ouvi dizer, que os astros te tinham declarado a guerra; que a morte...—Que importa isso, a quem ama?
D. MENDO
Que importa?...
D. BIBAS
O amor é sempre assim. Nunca viste as crianças brigarem por uma borboleta, que morre e se desfaz apenas o vencedor lhe toca?
D. MENDO
Mas...
D. BIBAS
Pois as felicidades são como as borboletas; e os homens como as crianças.—Mas de todas as felicidades, as do amor são as que menos duram, e de todos os homens os mais ridiculos... são os amantes.
D. MENDO
Deixa agora essas chocarrices.—Escutae, ambos.—Se disserdes a alguem o que acabaes de vêr e de ouvir, arrancar-vos-hei olhos e lingoa... a ambos.
D. BIBAS
Com a espada de cavalleiro, que ainda has-de ganhar?
D. MENDO
Juro...
D. BIBAS
Não jures, que não é precizo para nada. (Serio.) Pagem namorado, somos vossos amigos, e não podemos deixar, com a nossa magnanimidade real, de vos dizer um segredo... que segredo!
D. MENDO
O que é?
D. BIBAS
Pois deveras quereis saber.
D. BIBAS
(Cantando.)
Não has-de cazar
Não cazarás, não.
Has-de Dom Bulrão,
Solteiro ficar.
D. MENDO
Maldicto!
D. BIBAS
(Cantando.) De profundis clamavi ad te...
D. MENDO
Bobo, bobo!
BONAMIZ
Assim cantam os padres, quando morre alguma cousa, que para nada presta.—Não te encolerizes; cantamos sobre as tuas defuntas esperanças. (Cantando.) De profundis clamavi...
D. MENDO
(Ameaçando-os.) Excomungados bobos!..
D. BIBAS
(Rindo.) Ahi vem nosso tio, o infante.
AMBOS OS BOBOS
(Fugindo.) Adeus! adeus!
SCENA VIII
D. MENDO, só
Tudo para mim é um agouro!... agouro máo! As palavras da meditação, as gargalhadas do escarneo... tudo! Que segredo tenebroso será este, que me envolve e me aterra? Minha mãe tambem sabe este segredo; é essa a causa d'aquella tristeza, d'aquella dôr sem consolação, d'aquelle lucto em que sempre vive. Tenho ouvido por vezes fallar em meu pae morto... nas trevas de uma noite horrenda; n'uma vingança infame que veio um dia manchar de sangue e de vergonha a nossa casa. Mas que historia pavoroza é esta de que eu ainda não pude penetrar o mysterio? Quem foi o assassino de meu pae? Qual é a família contra a qual a honra me ordena de exercer uma implacavel vingança? Não sei, nada sei, porque minha mãe só quando eu fôr cavalleiro me julga digno de saber este funebre segredo. Fr. Bermudo, o frade solitario, o astrologo que vive na isolação, tambem conhece os segredos da minha familia, que eu ignoro ainda, e não m'os quer dizer.
SCENA IX
O mesmo, o Infante, D. Gontrade, D. João Peculiar, D. Tello, D. Gonçalo Mendes, D. Egas Moniz, D. Lourenço Viegas, D. Guilherme Ricardo, D. Gonçalo de Sousa, Cavalleiros, Ricos Homens, Homens d'Armas, Frecheiros, Besteiros etc. depois D. Pedro Framariz.
INFANTE
(A D. Mendo.) Tu aqui, Mendo?
D. MENDO
Esperava por vós, meu sr. Infante...
INFANTE
Não vieste ouvir missa comnosco ao mosteiro de Mumadona? (Mostrando D. Gontrade.) Tua mãe foi tambem... para te vêr.
D. GONTRADE
E para pedir a Deus pela boa sorte das armas do reino de Portugal.
INFANTE
Que vosso marido D. Payo Ramires ajudou a criar, e fortaleceu com a sua espada gloriosa.
D. BIBAS
Pois o filho, o nosso pagem D. Mendo estava agora a afiar a sua futura espada de cavalleiro.
BONAMIZ
E a fazer brilhantes projectos sobre a maneira de usar della.
D. LOURENÇO VIEGAS
Callai-vos ahi, bobos.
D. BIBAS
(Ao Infante.) Queremos e podemos fallar aqui, não é assim, tio?
INFANTE
(Aos pagens.) Fazei callar esses bobos. (Os pagens levam os bobos.)
D. MENDO
(
Beijando a mão de sua mãe.
) Sr.ª mãe, minha senhora...
D. GONTRADE
Meu filho, não foste despedir-te de mim, vim eu.
D. MENDO
Não julguei que partiriamos tão depressa... (Abraçando-a.) Minha mãe, minha querida mãe perdoae.
INFANTE
De certo te perdoará... D. Gontrade ha de perdoar ao valente pagem, que vae ganhar nas batalhas a sua espada de cavalleiro, e ajudar-nos a accrescentar á terra, que seu pae defendeu e fez independente, novas provincias, com as quaes o nome de Portugal se tornará temido em toda a Hespanha.
D. GONTRADE
Meu filho! (Ficam abraçados.)
INFANTE
(Aos cavalleiros.) Só nos falta D. Pedro Framariz, para termos em roda de nós todos os bons cavalleiros, que estão em Guimarães. Esperaremos por elle aqui; depois partiremos para Coimbra onde está o restante de nossos ricos homens... Estas lides, que vamos lidar, senhores, hão de ser rijas; carecemos para ellas de toda a nossa força. É esta uma correria, que ha de ficar de memoria aos moiros.
D. EGAS MONIZ
Nossa Senhora que sempre desde pequeno vos protegeu, e que vos prometteu tantas victorias, não vos ha de desamparar nunca, meu sr. Infante.
INFANTE
Assim seja, meu leal Egas Moniz. Companheiro das victorias ganhas por o conde D. Henrique, ensinar-me-has a ganhar batalhas como meu pae as ganhava.
D. JOÃO PECULIAR
O ceu proteje as armas dos portuguezes.
D. GONÇALO MENDES
Conservae-nos pois essa protecção com as vossas orações, sr. D. João Peculiar; que nós, Ricos-homens e cavalleiros, aproveitar-nos-hemos d'ella para derribar com as nossas espadas o poder dos infieis—A vossa força, srs. bispos e prelados, está toda no céu; a nossa está na terra, appoia-se na fé, e nas armas.
INFANTE
Sois avisado, meu lidador. (Aos prelados.) Vós, srs. oraé por nós. D. Tello, dizei aos vossos monges de Santa Cruz que façam noite e dia preces, para que o Senhor nos tenha da sua mão. (Aos cavalleiros.) E vós, cavalleiros, desenrollae os vossos balsões, reuni nas vossas hostes todos os homens que tendes nas Honras, Prestamos e Senhorios que ganhastes; cingi as vossas espadas mais duras, tende confiança na cruz que é a nossa divisa, e atravessaremos, então, essas terras de Alem do Téjo, e lançaremos sobre ellas o nosso dominio.
TODOS
Aos infieis! aos infieis!
D. EGAS MONIZ
(Pegando na mão do Infante e beijando-a.) Meu senhor meu amo, deixae-me beijar-vos as mãos, deixai o vosso aio Egas admirar-vos... Sois um grande principe... Haveis de ser um grande rei!
TODOS
Viva D. Affonso! Viva o nosso príncipe!
ALGUNS
Viva o nosso rei!
D. GUILHERME
A minha espada, e a de todos os templarios é vossa. Infante de Portugal, a guerra contra os infieis, aqui na nossa terra, é tão santa aos olhos de Deus como a feita n'essas longes terras da Palestina.
D. LOURENÇO VIEGAS
A minha espada é tua, Infante de Portugal.
MUITOS CAVALLEIROS
E a nossa.
INFANTE
(Alevantando os braços ao céu.) Senhor, a nossa fé é immensa! Senhor, não enganeis a nossa confiança!
D. MENDO
(Caíndo aos pés do Infante.) Dae-me uma espada, sr. Infante... Quero combatter comvosco... Quero morrer, ou ser digno da minha patria! Digno do nome que meu pae me legou!
INFANTE
Ganha a espada no campo da lide, que a has de amar ainda mais.
(D. Pedro Framariz entra com os seus acostados, e pára ao fundo.)
ALGUNS CAVALLEIROS
D. Pedro Framariz!
D. GONTRADE
(Pondo as mãos sobre a cabeça de seu filho.) Ganha a tua espada, e então te confiarei o segredo da nossa familia, é uma terrível vingança.
D. PEDRO FRAMARIZ
Perdoae, sr.ª, que Deus tambem perdoa!
FIM DO 1.º ACTO