ACTO SEGUNDO
SCENA I
O infante, em pé encostado á espada, D. Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo, D. João Peculiar e cavalleiros D. Gonçalo de Sousa, D. Tello
D. JOÃO PECULIAR
É tentar a Deus, só por milagre poderiamos vencer tão grande multidão de inimigos. Ismael tem em roda de si cinco wallis, e um poderoso exercito.
D. GONÇALO DE SOUZA
As hostes de cinco wallis! Mais de cem mouros para cada um de nós. Eu tenho feito muitas correrias, tallado por muitas vezes os campos dos infieis; mas esta batalha que se prepara, tenho-a por uma temeridade, por uma loucura. Se perdermos a batalha, e com ella o nosso infante de Portugal, quem ha de defender a nossa independencia?
D. TELLO
Os campos estão cobertos de soldados sarracenos, é um mar de lanças que nos hade quebrar nas suas ondas.
D. GUILHERME
Morremos pela cruz.
JOÃO SIRITA
Sr. infante nasci no povo e padeci; fui homem d'armas e combatti, vivi na solidão, orando a Deus, e mais de cem vezes lutei com as fera. O Senhor fez por mim grandes milagres, e a minha fé é immensa como o deserto:—morreria feliz se morresse por ella!—Porém agora o combatter seria matar este reino, n'uma só lide, o que o conde D. Henrique ganhou em tantas, e tão rijas pelejas.
JOÃO PECULIAR
João Sirita, o escolhido do céu, tem razão; combattemos pela cruz, para lhe exaltar a gloria, e não para deixar a victoria aos seus inimigos. (Com solemnidade.) Eu D. João Peculiar, humilde servo de Deus, e bispo por sua Divina Graça, em nome da religião te requeiro que não combattas em lide tão desigual, porque n'ella nos perderias a todos.
GONÇALO DE SOUSA
Tratae tregoas com Ismael...
LIDADOR
Tregoas com Ismael... Seria accrescentar ao perigo a cobardia; o rei mouro não guardaria a sua fé.
ALGUNS CAVALLEIROS
Não, não peleijemos.
D. TELLO
Salvae a cruz.
UM PRELADO
Salvae a cruz sr. infante.
INFANTE
Agradeço-vos, sr. o vosso amor por mim, e o desejo que tendes de que estes condados se conservem livres e gloriosos.—Estamos cercados de perigos, e só um conselho avisado nos póde salvar. Deixae-me meditar, e resolver o que devemos fazer n'esta conjunctura difficil e grave. Ide-vos: e que Deus vos tenha em sua santa guarda.
(Saem todos excepto o lidador, D. Egas Moniz, D. Tello e D. Mendo.)
SCENA II
(O infante, D. Tello, Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo).
D. EGAS
Que quereis fazer Sr.? É, como dizeis, grave e difficil a situação em que nos achamos. Eu fio tudo da vossa prudencia, que é muito já em tão verdes annos; do vosso animo; e do amôr que tendes a Portugal. Deus vos inspirará o melhor conselho.
LIDADOR
Que resolveis, sr. infante?
INFANTE
Combatter e vencer.
D. TELLO
O numero dos inimigos é sem conto.—Vencêr é impossivel.
INFANTE
Morreremos então, pela fé, pela religião de Christo, e pela patria. Mas não morreremos, que m'o advinha o coração. Deus tem protegido até hoje este pequeno canto das Hespanhas que de meu pae herdei. Quando todos os reinos das hespanhas veneravam como sr. Affonso VII, combatiamos nós entre Galliza contra o poderoso imperador, e ganhavamos em Cerneja uma bella victoria. Se hoje a nossa independencia se acha compromettida, pelo tractado que assignámos em Tuy: se estamos quasi como vassallos de Affonso VII, esse estado acabará logo que ganharmos uma batalha sobre os sarracenos. Chegou o momento de ganharmos essa batalha. Ámanhã; pôr-nos-hemos independentes do imperador, e talvez accrescentaremos mais uma provincia a Portugal.
D. TELLO
Cinco chefes inimigos...
INFANTE
Tantos quantas foram as chagas de Christo Senhor Nosso. N'esses blasphemadores vingaremos a fé.
LIDADOR
Apressemos a hora do combate. Lidemos rijamente, que havemos de vencer.
INFANTE
Vae, meu lidador: manda reunir o exercito; que quero fallar a todos, enchel-os de fé, accender-lhes nos corações uma sancta coragem. (O Lidador sáe.) (A D. Mendo.) Meu pagem, dá-me o escudo e a lança: (D. Mendo dá-lh'os.) Manda-me ajaezar o meu cavallo de batalha. (D. Mendo sáe.) Deus seja comigo nesta hora, e me falle ao pensamento.
EGAS MONIZ
N'esta sangrenta batalha, achar-me-hei ao vosso lado, como sempre, meu principe, para receber por vós os golpes do inimigo.
INFANTE
Meu Egas... meu amigo... Não tenho ninguem com quem possa desabaffar os amargores d'esta existencia senão tu.
EGAS MONIZ
Tendes-nos a todos... Uma família immensa que vos ama.
INFANTE
(Com exaltação.) Salvemol'a. Salvemos essa família com a nossa espada, e a nossa fé.
D. MENDO
(Entrando.) Está tudo prompto.—Esperam o sr. infante todos os cavalleiros reunidos...
INFANTE
Ámanhã estarás entre elles; terás uma espada ganha por ti, Mendo.—Vamos, senhores. (Sáe com Egas Moniz, e D. Tello.)
SCENA III
D. Mendo só
D. MENDO
Serei cavalleiro!... terei uma espada, e com ella a minha Violante... a gloria!... um nome egual ao de meu pae!—Ser admirado por ella; ter um nome entre os nomes illustres... Combater por D. Affonso, pelo meu infante... que gloria, que felicidade! Ai! Violante, Violante!—(Triste.) Violante... longe de ti! Violante não esqueças o amor, que é a vida d'este coração. Quando penso na ventura de viver com ella, de lhe chamar esposa, sinto subitamente o terror esfriar-me todo. Aquellas palavras sinistras do Astrologo, de fr. Bermudo, e aquella vingança de que minha mãe me fallou levantam-se diante de mim como espectros medonhos, que me querem roubar a minha Violante! Qu'importam as palavras desvairadas de um bobo... os vaticinios dos astros? Que importa isso tudo? Deus não póde querer a desgraça de quem nunca commetteu um grande crime, de quem nunca o offendeu! (Pausa.) Ai! perdel-a!... (Fica pensando.) Morrer!... antes morrer!
SCENA IV
D. Mendo, e fr. Bermudo
FR. BERMUDO
Ainda não. É ainda cedo para morreres.
D. MENDO
Bermudo!
FR. BERMUDO
Não quero que morras, não quero que percas o animo, por isso vim.
D. MENDO
Que pódes tu sobre a morte? Como pódes tu impedir que eu a vá buscar nas lanças dos inimigos? Se eu accreditasse nas tuas prophecias sinistras deixava-me matar na batalha de ámanhã.
FR. BERMUDO
Não irás buscar a morte porque amas a vida.
D. MENDO
Amo sim, porque amo Violante.
FR. BERMUDO
Não amas Violante só.
D. MENDO
Pois...
FR. BERMUDO
Amas a gloria.
D. MENDO
Para lh'a dar a ella.
FR. BERMUDO
E para ti, tambem queres a gloria, e tens razão Mendo. (Compaixão.) Para que o amor fosse a tua unica paixão, o teu unico pensamento, a vida, o alento da tua alma; para que o amasses e vivesses só por elle, era preciso que o teu coração houvesse padecido desde o berço dôr e tormentos, tivesse sempre ficado nas trevas e na solidão e que, quando tu o sentisses já quasi a morrer. Deus te mostrasse um anjo, uma luz, uma esperança.—Para comprehender a luz é preciso ter estado na escuridão; para apreciar a felicidade é preciso ter padecido. Os anjos não podem intender as alegrias do céu, porque nunca supportaram os tormentos do inferno...—(Pausa.) Os corações novos, que nunca foram provados pelo martyrio não podem amar como... como esses que se escondem n'um claustro, ou n'um sepulchro, para que ninguem os veja, para que ninguem saiba delles.
D. MENDO
Que querem dizer essas palavras?
FR. BERMUDO
Querem dizer que tenho penado mais, muito mais do que tu, e que não quero, nem posso ainda morrer.
D. MENDO
A sciencia prende-te á vida.
FR. BERMUDO
A sciencia!... Antes de ser monge, fui homem: antes de dar todas as horas a um estudo inutil, tive outros desejos e outras esperanças... A flôr morreu em botão... acabou tudo, antes de eu saber se a felicidade é mais do que uma palavra de escarneo, a alegria mais do que uma illusão miseravel... E quero a vida, mesmo assim.
D. MENDO
Queres a vida?
FR. BERMUDO
Quero-a Mendo, esta alma é um abysmo, tão tenebroso, que nem eu me atrevo a olhar para elle... tenho medo.
D. MENDO
Tens sofrido muito? Tens padecido?
FR. BERMUDO
Escuta e verás. Tinha um unico irmão, que amava muito; ficámos orphãos ambos ainda infantes. Eu nunca tinha tido outro sentimento no coração, senão essa amizade profunda, extrema que lhe consagrava a elle; tinha-lhe salvo a vida nas batalhas á custa do meu sangue... Tudo que via de bello no mundo desejáva-o para lh'o dar. Se havia a affrontar um perigo ia eu por elle, se havia gloria a ganhar, deixava-o ir, e ficava eu. A minha vida era d'elle só.—Um dia, voltava de uma correria contra os mouros, não achei senão o seu cadaver! Meu irmão fôra assassinado.
D. MENDO
Vingaste a sua morte?
FR. BERMUDO
Procurei o assassino, para vingar a morte de meu irmão; tinha ido para essas longes terras da Palestina. Fui tambem. Busquei-o por toda a parte; atravessei o deserto soffocado pelos ardores do sol, devorado pela sede, consummido pela fome. O meu cavallo morreu, e prosegui na minha peregrinação a pé encostado ao bordão de peregrino. Padeci martyrios crueis, mas não encontrei nunca esse homem que buscava. Disseram-me que tinha morrido... Voltei para a patria.
D. MENDO
E então?
FR. BERMUDO
Não tinha nada que me prendesse á vida, não tinha nenhuma esperança, nenhuma consolação. Fiz-me monge, e dei-me ao estudo, para vêr se a cabeça matava as saudades do coração.
D. MENDO
E conseguiste?
FR. BERMUDO
Esse homem não tinha morrido, voltou.
D. MENDO
Matastel-o?
FR. BERMUDO
Não.
D. MENDO
Perdoaste?
FR. BERMUDO
Também não (Pausa.) O amor matou-me o odio. Fui fraco, covarde. Tive medo da minha vingança; trahí meu irmão, deixei passar junto de mim o seu assassino, e não tive força para levantar sobre elle o meu braço vingador.
D. MENDO
Porque? O que te deteve o braço?
FR. BERMUDO
Amei a filha desse homem...
D. MENDO
Tu?
FR. BERMUDO
Eu?!... Não.—Sou monge, não posso ter amor. Um voto matou-me o coração.
D. MENDO
Desgraçado!...
FR. BERMUDO
Que importa o que passou... o que morreu! Todos julgaram que eu havia morrido... E ha dez annos que enterrado n'um mosteiro estudo a alchimia; tenho descoberto segredos, que poderiam fazer os homens felizes, segredos que poderiam talvez tornar o mundo todo um paraizo. A natureza é omnipotente em crear, omnipotente em destruir: ao lado de cada força que géra ha uma força que mata... São tudo combates. O homem, grão de pó no universo, segue a lei geral. A vida é um combate entre o sêr, e o não sêr. O pensamento é uma lucta entre o bem e o mal. (Pausa.) Aqui tens, Mendo, uma essencia subtil. Esta essencia é a vida para ti se fores ferido na lide.
D. MENDO
(Repellindo o frasco.) Padre, tu fizeste-me perder o animo: mataste-me as esperanças. Tenho agora medo de tudo, menos da morte: tudo para mim é fatal. Essa peleja perder-se-ha. A vida servir-me-ha só para ser escravo, e penar. (Ouvem-se gritos do exercito ao longe.)
FR. BERMUDO
Ouves?... Esses homens, ha pouco tão sem animo, tão atemorisados, estão agora incendiados pelo fogo do enthusiasmo... Oh! o enthusiasmo é um poder sublime! Os seus effeitos são similhantes aos que a força omnipotente de Deus produziria se baixasse á alma do homem... Uma palavra de D. Affonso bastou para pôr em duvida a victoria... talvez para a assegurar.
D. MENDO
Pois julgas...
FR. BERMUDO
Pela fé, e pelo enthusiasmo o homem multiplica-se, torna-se grande, e vence... Desgraçado de mim, que já não sinto esse divino fogo animar-me o coração. (Dando o frasco a D. Mendo.) Mendo, toma essa essencia, é a vida..—Ámanhã, no meio dos gritos da victoria, dar-te-hão uma espada de cavalleiro, e saudar-te-hão entre os heroes. Vive para a gloria. Vive para Portugal. (Em voz baixa.) Vive para vingar teu pae, se tens n'alma força para tanto.
D. MENDO
Acceito.
SCENA V
Os mesmos, D. Bibas e Bonamiz
D. BIBAS
Quero a vida.
BONAMIZ
Não a quero.
D. BIBAS
Pela morte.
BONAMIZ
Só espero.
Sem a minha doce amante,
Viver não quero um instante.
D. BIBAS
Mas a gloria?
BONAMIZ
E os amores?
D. BIBAS
Mas os cardos?
BONAMIZ
Mas as flores?
D. MENDO
(Colerico.) Outra vez a escutar os meus segredos?
D. BIBAS
Vingativos frades;
BONAMIZ
E pagens contrictos,
D. BIBAS
Monges aguerridos,
BONAMIZ
Amantes afflictos
D. BIBAS
Só nos fazem rir.
BONAMIZ
Ai! fazem-nos rir...
FR. BERMUDO
(Colerico.) Que ouvistes?
D. BIBAS
Coisas muito para rir!—Dizem que ha grandes sabedores, homens que valem mais do que os outros, que são mais avisados. (Dando uma gargalhada.) Loucura!... Os homens são todos bobos: bobos que fazem rir, bobos que fazem chorar, bobos que amam, bobos que odeiam, bobos que leem até dos astros, bobos que não sabem ler nem mesmo um pergaminho... mas todos bobos, todos jograes e chocarreiros.
FR. BERMUDO
Tens razão D. Bibas.
D. BIBAS
Vós que sois admirado pelo muito que sabeis, fallaes de vinganças como o mais estupido homem d'armas... Matar... matar um homem!... O que importa isso? Pois elle não ha de morrer, sem que o matem?—Matal-o é affastal-o de todos os tormentos deste mundo, é dar-lhe o descanço eterno... Estou hoje um bobo serio, não é assim? Um bobo serio é como um vestido de dó num casamento, excita a compaixão e o desprezo.
BONAMIZ
Mestre, estás hoje insipido.
D. BIBAS
Que queres? Deante destes dois mochos a piarem sons de agouro, até o genio de um jogral fica vencido.
FR. BERMUDO
Não digaes nada do que ouvistes, bobos.
D. BIBAS
Tambem tu, fr. feiticeiro, julgas que os bobos são como o resto dos homens? Ficae descançados; nós queremos saber para rir, e não para ir contar aos outros. (Dando uma gargalhada.) Vingativos frades.
BONAMIZ
E pagens contrictos...
D. MENDO
Calae-vos ahi, bobos do inferno. (A fr. Bermudo.) Acceito, fr. Bermudo. Não quero a morte ainda.
FR. BERMUDO
Vive...
D. MENDO
Cumprir-se-ha minha sina?
FR. BERMUDO
Cumprir-se-ha. (O rumor do exercito aproxima-se)
BONAMIZ
Ahi vem o nosso infante, o nosso tio infante.
FR. BERMUDO
Adeus. D. Mendo—Quando me quizeres, estarei ao pé de ti. (Sáe.)
(A noite tem-se cerrado pouco a pouco.)
SCENA VI
O Infante, Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo, e Cavalleiros
TODOS
Viva o nosso infante! viva!
ALGUNS
Viva El-Rei!
INFANTE
Havemos de vencer; protege-nos o braço do Senhor.
ALGUNS
Viva D. Affonso!
INFANTE
Ide purificar-vos pela oração para que Deus proteja as nossas armas.
(Saem todos gritando—Viva D. Affonso, fica só o infante e D. Mendo.)
SCENA VII
O Infante e D. Mendo
INFANTE
Mendo, amanhã é o mais bello dia da tua vida... Sentirás pela primeira vez o furor dos combates correr-te nas veias. No meio do turbilhão dos inimigos sentirás essa força estranha, superior e independente da vontade, que dirige o braço dos que pelejam pela sua fé, e pela sua patria; essa força que faz os heroes e os martyres; que é a inspiração dos homens de guerra. Não estejas assim triste agora; que depois da peleja terás de chorar os nossos que morrerem... e então... Que importa? Resta-me o amor. Tu és moço, nobre; serás em pouco um dos melhores lidadores de Portugal. (Sentando-se.) Ajuda-me a tirar este capêllo. És feliz, Mendo; sobre ti não pezam nem remorsos do passado, nem terror do futuro...
D. MENDO
Sr. infante!
INFANTE
Meu amigo!... Diz-me o que desejas; quero fazer-te feliz, a ti.
D. MENDO
(Com excitação.) Meu senhor!
INFANTE
Falla-me com sinceridade.
D. MENDO
Amo.
INFANTE
Amas D. Violante, já o sabia. Amas a filha de D. Pedro Framariz, e és amado por ella. Sereis unidos.
D. MENDO
Unidos... Eu, e Violante...
INFANTE
Sou eu que t'o prometto.
D. MENDO
Meu Deus, meu Deus! que feliz é o meu destino!
INFANTE
Vae agradecel-o a Deus... vae pedir-lhe por nós todos. Anda Mendo, vae pedir ao Senhor, que tenha misericordia dos que desejam glorificar seu santo nome.
D. MENDO
Vou...
INFANTE
Deixa-me só. (Mendo sáe.)
SCENA VIII
O Infante. (Só.)
INFANTE
(Depois de uma pauza em que escuta os gritos do exercito ao longe.) Aníma-os a todos a esperança da victoria. Esqueceram tudo, para se lembrarem só do triumpho. Uns combaterão por que têem fé, e querem, combatendo, ganhar o ceu; outros porque têem ambição, e querem accrescentar as suas terras e augmentar o seu poder. Agora é tudo enthusiasmo, tudo esperança ahi... depois, mais tarde, quando cada um desses guerreiros estiver a sós com a sua alma, virá a meditação; depois as recordações, e as saudades; depois a oração fervorosa... e depois... depois talvez o medo da morte... Morrer pela fé é ganhar a corôa celeste dos martyres; e todos os meus companheiros d'armas creem como eu na misericordia de Jesus Christo! (Cravando no chão a espada e pondo-se de joelhos.) Cruz de redempção, sobre que primeiro se escreveu a palavra sacrosanta de perdão para os homens, symbolo de eterna victoria, ajudae-nos... Que vos cerque uma luz de gloria: que se passe um milagre diante de mim, e a minha confiança será infinita! Gedeão era humilde e fraco como eu, os seus eram poucos contra muitos, como são agora esses meus, e o altar de Baal foi derrubado, e em seu logar se levantou o templo de Jéhovah. É por que a sua fé era viva, é por que a sua offerta tinha sido consumida pelo fogo do ceu no altar do sacrifício, é por que a mão de Deus o protegia, é por que na sua alma havia uma inspiração sagrada... Inspirae-me, meu Deus: dae-me a victoria Senhor... e o vosso nome será adorado por toda a parte onde chegar o meu poder. Onde eu poder fazer ouvir a vossa palavra divina, grandes e pequenos, nobres e humildes a escutarão com amor e contricção. Dae-me a victoria, meu Deus!
SCENA IX
O Infante e Fr. Bermudo
FR. BERMUDO
(Á entrada do Real.) A victoria será tua.
INFANTE
(Levantando-se.) Quem és? Que queres aqui? Foi Deus que te mandou?
FR. BERMUDO
A sua benção caiu sobre ti, e os teus.
INFANTE
A victoria!... Será nossa a victoria?
FR. BERMUDO
(Abrindo as cortinas do fundo do Real, deixando vêr o campo, que se estende por uma encosta, e em que brilham algumas fogueiras; apontando para o Oriente.) Ao romper d'alva verás no Oriente o braço do Senhor estender-se sobre o teu exercito.
INFANTE
A victoria, a victoria! Uma palavra tua, meu Deus!... (Abraçando de joelhos a cruz da espada.) Gloria ao teu nome Senhor!
FIM DO 2.º ACTO