ACTO TERCEIRO

Uma salla do castello de Guimarães, portas lateraes e ao fundo. É noite, brandões seguros por braços de ferro lançam uma luz brilhante. Ouve-se musica, ha differentes bailados, durante a primeira scena.

SCENA I

D. Gonçalo de Sousa, D. Lourenço Viegas, D. Soeiro Viegas, Cavalleiros, Prelados, Damas, D. Mendo, D. Violante, D. Bibas e Bonamiz. Os Cavalleiros e Damas passeiam e dançam.

D. GONÇALO DE SOUSA

(A uma dama que traz pelo braço.) Foi bello, magnifico este nosso jogo do tavolado.—Nunca damas mais formosas fizeram nascer dezejos de gloria em corações de mais ardentes e destros cavalleiros.

DAMA

Lembraram-vos hoje essas batalhas verdadeiras, onde sois sempre o primeiro, sr. D. Gonçalo de Sousa?

D. LOURENÇO VIEGAS

(Aproximando-se.) Feliz o cavalleiro que ganhou hoje uma coroa para vos offerecer, linda Branca.

DAMA

Não sejaes invejoso, D. Lourenço Viegas, que é feia a inveja em quem vale tanto: vossos feitos de armas já vos mereceram o nobre titulo de espadeiro.

BONAMIZ

Mas nem por isso lhe tem valido grandes triumphos em amor. É por que o amor não se leva á espada, como se levam os infieis sarracenos. As mulheres são infieis, que se conquistam pela brandura, e que se conservam pelo galanteio. O braço forte não serve para conquista destas, D. Lourenço.

DAMA

(Rindo.) Que tem isso?—Não se póde ser grande em tudo. (Vão para o fundo da scena.) É melhor cubrir-se um cavalleiro de gloria nas batalhas do que nos amores.

D. SOEIRO VIEGAS

(Vindo á frente da scena com uma dama.) D. Sancha, sois a formosa de todas as lindas damas de Portugal. Um mouro chamar-vos-hia uma huri, eu adoro-vos como a um anjo.

DAMA

É nos campos da lide que se aprende a lisonja?

D. SOEIRO VIEGAS

Aprende-se a ser franco, e leal...

D. BIBAS

(Rindo.) Como todos os da vossa raça, dom namorado...

D. SOEIRO VIEGAS

Excommungado bobo!

D. BIBAS

Não ha nada que esfrie uma paixão como uma gargalhada a tempo. O bobo é o avesso de Cupido. Ri-se das coisas serias, o bobo; e Cupido e todos os seus escravos tomam a serio até os ridiculos galanteios do amor.

(Um cavalleiro e uma dama vêem á frente da scena.)

1.º CAVALLEIRO

Está sempre triste, e cuberta de lucto, a infeliz D. Gontrade.

DAMA

Vistel-a hoje aqui? Em quanto o filho, D. Mendo...

1.º CAVALLEIRO

O namorado D. Mendo. Vede com que olhos elle admira a filha de D. Pedro Framariz. Feliz Mendo!

DAMA

Em quanto o pagem d'El-Rei...

1.º CAVALLEIRO

Agora cavalleiro. Ganhou a espada na batalha de Ourique. Foi o sr. D. Affonso Henriques, quem o armou com a sua propria mão.

DAMA

Em quanto D. Mendo andou pela guerra, a mãe, D. Gontrade, passou os dias e as noites fechada, a rezar sempre. Aquella mulher tem dôr ou remorso que lhe dilacera o coração.

1.º CAVALLEIRO

Estava ali na capella esta manhã: parecia ainda mais triste que de costume.

DAMA

Pobre D. Gontrade! Dizem que lhe mataram o marido! É uma historia tenebrosa, que ficou sempre em mysterio, e de que pouco se sabe.

1.º CAVALLEIRO

Seu filho Mendo vae casar....

DAMA

Assim se diz. Mas a fallar verdade, eu duvido.

(Um grupo de cavalleiros vem á frente da scena.)

1.º CAVALLEIRO

Foi uma rija arrancada aquella de Ourique. El-Rei D. Affonso derrubou de um golpe dois daquelles perros infieis.

2.º CAVALLEIRO

Ismael pouco resistiu.

3.º CAVALLEIRO

Nunca, por vida minha, nunca vi uma tão grande róta.

1.º CAVALLEIRO

Parecia que o braço de Deus pelejava por nós.

2.º CAVALLEIRO

E que alegria a do exercito quando depois da batalha, levantámos por nosso rei a D. Affonso Henriques.

3.º CAVALLEIRO

Agora já temos rei independente.

2.º CAVALLEIRO

Temos ainda que combater muito pela independencia de Portugal.

(Outro grupo de cavalleiros vem á frente da scena.)

1.º CAVALLEIRO

É um leal cavalleiro D. Pedro Framariz.

2.º CAVALLEIRO

Honrado como Egas Moniz.

3.º CAVALLEIRO

Não tanto. Elle não se hia de certo entregar nas mãos dos inimigos para não faltar á palavra dada, á lealdade jurada.

2.º CAVALLEIRO

Lá isso é verdade; D. Pedro Framariz não era capaz de tal.

BONAMIZ

(Rindo.) Tem mais amor á pelle, e menos amor à honra. (Vae-se cantando.)

3.º CAVALLEIRO

Estes bobos!...

2.º CAVALLEIRO

Dizem que a filha caza com D. Mendo, o antigo pagem d'el-rei. É um cazamento muito honroso para D. Mendo.

3.º CAVALLEIRO

Estão namorados, mas cazarem... Não cazarão talvez.

2.º CAVALLEIRO

É a vontade d'el-rei, que se cazem.

4.º CAVALLEIRO

Entre as duas familias houve n'outro tempo alguma coisa.

3.º CAVALLEIRO

Um homizío... dizem.

D. MENDO

(Aproximam-se de Violante que está assentada.) Violante, ficae; deixae sahir todos.

VIOLANTE

Fico. (D. Mendo affasta-se.)

Um grupo de velhos cavalleiros e de prelados, vem á frente da scena

1.º PRELADO

Vae-se demorando o banquete.

2.º CAVALLEIRO

Muito mais do que se demoram os nossos golpes quando pelejamos contra os excommungados da Moirama...

2.º PRELADO

As nossas orações no côro tambem se não demoram tanto tempo como esta ceia.

3.º CAVALLEIRO

Não tarda. Ainda bem que se demora porque podemos conversar.

UM OVENÇAL

(Na salla d'armas, á porta.) Nobres, ricos-homens, infanções, cavalleiros, srs. de prestamos e alcadarias, el-rei de Portugal vos convida a vir tomar parte no banquete.

2.º CAVALLEIRO

Em fim!

PRELADO

Vamos, vamos.

(Sahem todos, todos excepto D. Mendo e D. Violante. D. Bibas esconde-se detraz de um pilar.)

SCENA II

D. Mendo e D. Violante, D. Bibas (escondido.)

D. MENDO

Violante!... minha Violante!

VIOLANTE

Mendo?!

D. MENDO

Uma palavra... uma palavra, por minha alma.

VIOLANTE

Mendo, nem um instante passei sem pensarem vós: e eu tambem estava esperando com ancia este momento para vos ouvir dizer-me uma palavra de amor.

D. MENDO

E não teve, Violante, não teve essa bocca um sorriso para mim, nem esses olhos tiveram um olhar terno para me dar até agora?

VIOLANTE

Ai! que nem eu sei dizer-vos o que sinto, dizer-vos o que me deteve diante de toda essa gente! Ha uma coisa occulta, Mendo, que me prende a palavra e o gesto quando quero mostrar-vos tudo o que sinto em mim. Faltam-me forças, faltam-me faculdades para tanto.

D. MENDO

Falta-vos o amor... talvez.

VIOLANTE

(Sorrindo com muito amor.) É desleal essa palavra, cavalleiro. Eu conheci um pagem que só dizia o que pensava, com verdade, e sinceramente.

D. MENDO

O pagem, minha Violante, seria verdadeiro e sincero, seria: mas não valia mais do que o cavalleiro, que d'elle herdou o maior amor, que do mundo tem havido.

VIOLANTE

Que sustos tive, em quanto durou a guerra! Parecia-me que não vos tornaria a vêr, e essa ideia fazia-me chorar horas esquecidas, fechada no meu oratorio.

D. MENDO

Eu não podia morrer, porque vós me estaveis esperando.

VIOLANTE

Não vos lembrou a triste Violante, quando, o primeiro entre todos, vos lançastes por meio das lanças dos inimigos?

D. MENDO

Lembrou, lembrou. Ia lá buscar esta espada... Não era eu que ia, não; era a esperança de vir aqui ajoelhar-vos aos pés e dizer-vos: «Violante, tenho um nome de cavalleiro, tenho um logar entre os ricos-homens de Portugal, tenho esta mão que é leal e que está pura... offereço-vos, tudo minha Violante!»

VIOLANTE

(Apertando a mão de D. Mendo.) Acceito.

D. MENDO

A fr. Bermudo devo a ventura de ouvir a minha Violante dizer-me esta divina palavra.

VIOLANTE

(Com susto.) A fr. Bermudo! Como? Que tem esse astrologo agourento com a nossa felicidade?

D. MENDO

Não quero ser eu só a bem dizer esse homem inexplicavel; por isso, aqui mesmo no meio da nossa alegria, quero contar o que elle fez para me salvar.

VIOLANTE

Para vos salvar?

D. MENDO

Estava quasi ganha a batalha; na ala esquerda porém, ainda uma das hostes dos almoravides resistia como um muro de ferro aos ataques impetuosos dos cavalleiros christãos. Tive vergonha de vêr os nossos recuarem deante dos inimigos, entre os quaes combatiam mais de trezentas mulheres; e, com uma espada na mão precipitei-me sobre a phalange sarracena; rompi a primeira e segunda linha, e quando me voltei para vêr se os cavalleiros portugueses me haviam seguido, achei-me de todos os lados cercado pelos infieis. A minha morte era certa: o braço já ía cançando: e se não fôra a vossa imagem, que estava sempre presente ao meu espirito, ter-me-hia deixado morrer. Subitamente, porém, quando já, fechando os olhos, e pronunciando o vosso nome, me arremedava ás cegas sobre os inimigos, ouvi por detraz de mim um pavoroso clamor, e vi logo depois um soldado que derrubava tudo com o seu braço de Hercules. N'um instante, vi abrir-se uma larga estrada juncada de cadaveres; e foi assim que me salvei da morte.

VIOLANTE

E o soldado?

D. MENDO

Era fr. Bermudo. Violante, a fr. Bermudo devo esta felicidade, tão grande, que nem eu a posso comprehender, nem a posso sentir toda, que não tenho coração para tanto. É uma felicidade que mata!

VIOLANTE

Tem-me consumido a vida, mas amo-a.

D. MENDO

Oh! Que nunca julguei que tão cedo nos chegasse tamanha ventura! (Beija-lhe a mão—D. Bibas dá uma gargalhada aguda e estridente.)

VIOLANTE

Jesus!

D. MENDO

(Levando a mão á espada.) Quem ousaria?!

D. BIBAS

(Vae-se cantando com, voz lugubre.)

«Vivem loucos namorados
Vendo futuro formoso
Onde não ha mais que a dôr
De um mysterio tenebroso.»

VIOLANTE

Bobo.

D. MENDO

D. Bibas que anda fazendo pelo castello a sua ronda de escarneo.—Louco!

FR. BERMUDO

(Entrando.) D. Mendo, os loucos sabem mais ás vezes que os avisados—Sr.ª D. Violante ide-vos, vosso pai procura por vós.

D. MENDO

Tudo nos separa...

D. VIOLANTE

Em breve nada nos poderá separar um do outro. Adeus, Mendo, adeus! (Sae.)

SCENA III

D. Mendo e Frei Bermudo.

D. MENDO

Para que vieste separar-nos, quando estavamos a matar as saudades d'esta longa ausencia? Fr. Bermudo, és tu sempre quem separa Violante de mim.

FR. BERMUDO

Não sou eu; é o teu destino fatal.

D. MENDO

Mão me repitas outra vez os teus agoiros. Não queiras que eu te maldíga; não queiras que eu tome odio a ti, e á vida...

FR. BERMUDO

Depois d'esse teu penar, virá a gloria. Assim o dizem os astros. (Sáe.)

SCENA IV

D. MENDO

Este homem, este frade é incomprehensivel. As suas palavras pezam sobre mim; quando o vejo, não sei se a sympathia, ou o odio me fazem pular o coração no peito. Devo-lhe a vida a este homem; e, comtudo, parece-me que lhe não posso ser grato.—Sou cavalleiro já, e agora saberei o segredo tremendo, que desde a infancia me involve, sem que o possa conhecer. Minha mãe—quando ao chegar da guerra a fui vêr—recebeu-me com assustadora solemnidade; deu-me apenas um beijo que me fez frio. Está mais pallida agora; e ha nos seus olhos um clarão sinistro que me faz medo. Sinto caminhar para mim o terrivel segredo, e tenho vontade de fugir para o não ouvir. É covardia... é fraqueza, isto!

SCENA V

D. Mendo e D. Gontrade

D. GONTRADE

(Entrando.) Meu filho...

D. MENDO

(Estremecendo.) Minha mãe...

D. GONTRADE

Estás aqui, Mendo, longe das festas, triste e só? Tens razão, filho; porque não pódes, não deves ter nem alegria nem descanço, em quanto não tirares vingança do assassino de teu pai.

D. MENDO

Que dizeis, minha mãe? meu pai morreu assassinado, já vol-o ouvi dizer; mas quem o matou é o que eu não sei ainda.

D. GONTRADE

Mendo, até ao dia em que ganhaste—gloriosamente, bem o sei—essa nobre espada, não eras mais do que um pagem, uma criança. Esse tempo passou: tens já um nome de cavalleiro que teu pai tornou illustre, e que tu deves conservar puro e sem mancha. Mendo Paes, o teu nome está deshonrado. A mão de um homem desleal manchou-lhe a pureza, deslustrou-lhe a nobreza. D. Paio Ramires teu pai, foi assassinado, covardemente assassinado; e o seu assassino vive ainda!... Ficas assim calado?!... Não se te revolvem lá dentro os desejos da vingança? Meu filho, enganar-me-hia a esperança? Não serás tu digno de teu pai?

D. MENDO

(Com terror.) Quero-vos muito, minha mãe. Esta vingança, porém, faz-me susto. Não sei que pressentimento me diz que esta vingança me hade matar a mim tambem.

D. GONTRADE

Susto! tens susto de vingar a morte de teu pai!? Não te creio, meu filho, porque respeito, em ti, o chefe da nossa familia. É hoje o dia da vingança, Mendo, uma vingança cruel, tremenda, publica para que todos a saibam. A vingança é um acto horrendo e criminoso; mas a honra exige que esse acto se cumpra.—Foi a ultima vontade de teu pai. É no meio do banquete, entre os risos e os gritos do triumpho, que te espera a victima. (Tirando um punhal.) Foi esta a arma traidora que serviu ao crime; sobre ella ha ainda o sangue de teu pai ennegrecido pelo tempo, mas não limpo ainda da deshonra. Guardei-o sempre como uma reliquia sagrada, para t'a confiar na hora do castigo...

D. MENDO

O punhal é arma de traidôr; minha mãe, tenho esta espada...

D. GONTRADE

E se morresses?... se esse homem te matasse tambem?

D. MENDO

Morria como cavalleiro.

D. GONTRADE

Quem vingaria teu pai?—Não, Mendo; é com este ferro que o infame deve ser punido... O assassino de teu pai é...

D. MENDO

Callai-vos... callai-vos...

D. GONTRADE

Que tens?

D. MENDO

Tenho medo!

D. GONTRADE

Medo?!...

D. MENDO

Se esse bomem fosse?...

D. GONTRADE

Quem?

D. MENDO

O pai da mulher que amo..

D. GONTRADE

Morreria... da tua mão receberia a morte.

D. MENDO

Minha mãi!

D. GONTRADE

É a hora da vingança, meu filho. Quando uma familia nobre, como a nossa, se acha deshonrada, e offendida pela mão de um traidor, não deve n'ella haver descanço, nem alegria, em quanto a offensa não fôr castigada, e a sua honra purificada da nodoa de sangue que lhe apagou o brilho.—O homem que matou teu pai, Mendo, vive junto de nós, é um dos ricos-homens de D. Affonso Henriques, é D. Pedro Framariz.

D. MENDO

D. Pedro! Jesus, meu Deus!...—Elle!... não minha mãi, isso não póde ser.

D. GONTRADE

Hesitas?

D. MENDO

O pai de Violante? É um nobre cavalleiro, que tem um logar distincto entre os cavalleiros mais leaes á patria, entre os mais ardentes defensores da fé.

D. GONTRADE

O sangue de teu pai pede sangue, meu filho. D. Pedro matou covardemente D. Payo Ramires; e tu não podes, não tens direito de trazer essa espada, em quanto em Portugal poderem dizer de ti: «Aquelle homem desconhece os principios da honra, porque não vingou ainda a morte de seu pai.»

D. MENDO

Mais tarde; ainda não...

D. GONTRADE

Hoje... agora.—Ha dez annos, a esta mesma hora vi eu cravar este punhal no coração de teu pai... de meu marido.—Foi uma noite horrivel... uma noite de sangue e infamia!

D. MENDO

Assassino!... eu!...—Minha mãe, a vingança é um crime covarde e miseravel. Uma lança que se cruza com outra lança em repto leal, á luz do dia, diante de todos, merece a sympathia de todos; um punhal que nas trevas escorrega cautelosamente, e se crava frio e silencioso nas carnes de um homem desarmado, só merece desprezo.

D. GONTRADE

A vingança não é crime, quando a exerce um filho sobre o assassino de seu pai.

D. MENDO

E Violante?...

D. GONTRADE

Entre ti e ella ha um cadaver.

D. MENDO

Perdoai, minha mãi. Sou fraco de coração. Fallece-me o animo.

D. GONTRADE

Mendo, teu pai deixou a sua maldição em herança ao filho, se elle o não vingasse; e a minha maldição juntar-se-ha á d'elle...

D. MENDO

Que Violante não veja... que não o saiba!

D. GONTRADE

Covarde! vês este punhal tincto ainda de sangue, e hezitas, e tremes...

D. MENDO

Não posso... Aquelle anjo!—Pois eu hei de ser odiado por Violante! (Com muita desesperação.)

D. GONTRADE

A honra do nosso nome, e a memoria de teu pai pedem vingança! (Dando o punhal a D. Mendo, que o recebe com terror) Vinga a morte de teu pai, ou sê maldicto! (Sáe.)

SCENA VI

D. Mendo, só

D. MENDO

Meu pai, meu pai, levantae-vos do sepulchro e perdoai... que me salvaes, que salvaes vosso filho! (Olhando para o punhal.) Este sangue ha de ser lavado com outro sangue?! Assim o exige a honra de uma familia nobre!... Meu pai, se vos basta o sangue de um homem, dar-vos-hei todo o meu! (Chorando.) Se as lagrimas de um filho podem lavar a nodoa tremenda d'este ferro, derramarei o meu pranto sobre elle em quanto viver!... A vingança dura pois mais do que a vida?! O espirito depois de separado da terra, não perdôa, não esquece tudo?! Pois n'esse mundo mysterioso e todo espiritual, para aonde as almas vão depois da morte, tambem ha estas ruins paixões, que teem feito da humanidade um bando de feras? Essas paixões duram a eternidade? Onde está o descanço, aonde está a paz? Onde existe o ceu?—Ai! Quem me livra deste martyrio? Quem salva a minha honra? Quem dá força á minha alma, para que se não perca... para que não renegue a Deus?!

SCENA VII

D. Mendo e Fr. Bermudo

FR. BERMUDO

Tira da fé a tua força, e não renegarás a Deus. A desgraça é difficil de supportar; e quando pela primeira vez ella nos entra no coração, parece-nos impossivel que o coração a possa conter, que o coração não estale.

D. MENDO

Salva-me, salva-me... Fr. Bermudo, sei tudo. Violante é filha do assassino de meu pai. Minha mãi confiou-me uma vingança... que eu não tenho animo de executar.

FR. BERMUDO

Péza-te essa vingança? Dá-ma... que t'a acceito.—É o ultimo sacrificio que faço ás malditas paixões humanas: faço-o com horror, mas não quero que tu sejas odiado pela candida Violante. Esse odio matal-a-hia a ella!

D. MENDO

Como te hei de confiar uma vingança que é só minha?

FR. BERMUDO

Eu tambem tenho direito de a tomar para mim.

D. MENDO

Porque?!

FR. BERMUDO

Não queiras penetrar o enigma da minha vida. Juro-te que não é deshonra para ti ceder-me essa vingança.

D. MENDO

E Violante? Já não podemos ser um do outro. É impossível esta união.

FR. BERMUDO

Não te disse que Violante não podia ser tua?

D. MENDO

Que hei-de fazer?

FR. BERMUDO

Esquecel-a... se fôr possivel.

D. MENDO

Não, não... não posso... não é possivel.

FR. BERMUDO

Pobre de ti, que a amas tambem!

D. MENDO

E ella?... Se morrer, meu Deus!

FR. BERMUDO

A sua alma é pura... é um anjo, os anjos a esperam...—Que morra ao menos com o seu amor: que morra, amando-te. Odiar-me-ha a mim... mas que importa? Esse odio fará mais miseravel ainda quem do mundo só conheceu os amargores. Que importa?

D. MENDO

(Chorando.) Que padecimento!... Que martyrio!... Maldita a vida, em que ha tanta dor, e tanta miseria!...—Oh! A minha felicidade, as minhas esperanças eram um escarneo cruento!... A maldição de meu pai caiu sobre mim, e tornou arido, e deserto o meu coração!... Deus criou o homem por escarneo...

FR. BERMUDO

(Pondo-lhe a mão na boca.) Calla-te, não blasfemes.

D. MENDO

(Abatido.) Não... não devo blasfemar porque vou morrer.

FR. BERMUDO

Não percas assim o animo, homem.—A alma é infinita nas suas forças, inexgotavel nas suas consolações: quando parece já extincta de todo, acorda, toma alento, levanta-se, e fica forte como d'antes.

D. MENDO

A minha morreu de todo!

FR. BERMUDO

Ha homens que teem padecido tanto... muito mais do que tu, e que soffrem ainda estes tormentos da existencia. Em quanto a alma póde ter amor ou odio, vive. É a extinção das paixões, que é a morte. O nada é que o espirito não póde suportar. O homem crê na sua propria immortalidade, porque quando o corpo está a ponto de destruir-se, a alma ainda conserva o pensamento, e as paixões. Tens a gloria ainda, Mendo. Tens a fé...

D. MENDO

Essa!... Não sei... (Pauza.) Tenho fé, tenho.

FR. BERMUDO

Tens um allivio, uma esperança—então bemdicta seja ella.—Deixa-me para mim essa tua vingança, Mendo. Violante odiar-te-hia, e morreria na desesperação, se tu lhe assassinasses seu pae.

D. MENDO

(Dando-lhe o punhal.)Ahi tens esse punhal... É um presente maldicto, esse que te dou.

FR. BERMUDO

(Beijando o punhal.) Este sangue, este sangue!... Oh! Chegou a hora que já foi tão desejada, e que tão temida é agora! (Á parte.) Terei eu n'este solemne momento o poder que até hoje me tem falecido?—Irmão, meu irmão... É por teu filho este sacrificio! Pede a Deus que me dê forças, meu irmão!

D. MENDO

Que tens?

FR. BERMUDO

(Tranquillo.) Ámanhã teu pai estará vingado.

D. MENDO

Violante!... Violante orphã, só, e desgraçada...—Desgraçado de mim!

FR. BERMUDO

E eu, maldicto por ella! Vou pedir a Deus que me perdoe, e que me inspire... Sou fraco, sou um um fraco (Entra para a capella do fundo, e vae ajoelhar deante do altar).

SCENA VIII

D. Mendo, e depois D. Affonso, D. Violante, D. Pedro Framariz, Damas, e Cavalleiros da Côrte

D. MENDO

E eu tambem, já nem tenho alento para viver!—Ó minha fé, minha fé, accende-te nesta alma, para que eu possa supportar este lanço terrivel.

D. AFFONSO

(Entrando.) D. Mendo Paes, venho cumprir o que vos prometti, no dia da victoria. (Aos cavalleiros.) Pedimos agora, e obtivemos de D. Pedro Framariz rico-homem, e filho d'algo do nosso reino, a mão da sua filha D. Violante, para o muito nobre cavalleiro D. Mendo Paes.

D. MENDO

Não posso acceital-a... não posso!... (Cahindo de joelhos.) Violante!... Perdão!...

D. VIOLANTE

(Desmaiando.) Mendo!

D. AFFONSO

O que se oppõe a este casamento, Mendo? O que se oppõe á tua felicidade agora?

FR. BERMUDO

(Á porta da capella apontando para o altar.) A vontade do céu.

FIM DO 3.º ACTO.