ACTO SEGUNDO

A casa de Antonio Prudente. Porta no fundo, outra porta á esquerda. Á direita uma janella.

SCENA I

Antonio Prudente e Joze Velhaco

JOZE

Veja vmc. se a resolve, sr. Antonio. Eu tenho hoje bastantes terras, umas casas na cidade, e andam-me emprestados e a vencer bons juros uns poucos de centos de patacas. Para sua filha não me parece que eu seja um mau casamento. Ainda sou moço... e com dinheiro, é o mais que uma rapariga póde desejar.

ANTONIO

Não sei o que a Joanninha tem contra você, Joze, mas é certo que ella fica mal comigo,—olhe que é verdade,—fica mal comigo em eu lhe fallando neste casamento. A mim agrada-me, Você é um homem que sabe fazer fortuna. Hontem por assim dizer pobre, e hoje rico.

JOZE

Pois ha um anno que ando a pertender este casamento, e elle sem se fazer. Agora é tempo de acabar com isto. Está-me parecendo que Joanninha não faz já tanta resistencia. Lembre-se que é pae, sr. Antonio, e que pode mandar em vez de pedir. É para bem da sua Joanninha. Porque eu conheço-me, e vmc. tambem me conhece, ein? conheço-me e sei que poucos são capazes, como eu, de fazer feliz uma mulher. Santa palavra!

ANTONIO

Eu não duvido dos seus bons sentimentos, de que venha a ser menos mau pae de familia. É certo... é certo—deixe-me dizer o que penso—que todos na freguezia o vêem com maus olhos, desde que o Luiz do Campanario foi para Demerara; e quando algum rapaz desapparece daqui, dizem uns—foi o Joze Velhaco quem o enganou, o Joze Velhaco vendeu-se aos inglezes—outros dizem—o Joze Velhaco é bom homem, dá dinheiro aos pobres, empresta dinheiro aos morgados, e faz muitas festas a Nossa Senhora...

JOZE

E vmc. o que diz?

ANTONIO

Eu acredito nos que dizem bem; mas minha filha so dá credito aos que dizem mal.

JOZE

É a velha, a bruxa da Maria das Dores, quem lhe mette essas creancices na cabeça. É preciso, sr. Antonio, pôr a excommungada da velha da sua casa para fora.

ANTONIO

Isso não faço eu. Pôr fora da minha caza uma pobre velha, que é tão desgraçada, uma mulher que serviu de mãe á minha Joanninha! Oh! sr. Joze, que eu lhe não ouça dizer outra vez coisas dessas; que, sobre tudo, o não saiba a minha filha. Estava desmanchado o casamento, se Joanninha tal soubesse!

JOZE

Eu queria... sim, como sei que Joanninha é muito amiga da velha Maria das Dores, queria ver... experimentar se vmc. era capaz de ir contra os desejos da sua filha. Vmc. bem percebe? Eu não sou muito amigo da Maria das Dores; a velha anda por ahi a desacreditar-me; diz que fui eu que lhe seduzi o filho, que sou isto, que sou aquillo. Coisas que nem eu sei. E quando a gente está innocente, ressente-se destes falsos testemunhos.

ANTONIO

Quando se está innocente.

JOZE

Como eu, é verdade, ressente-se a gente. Não fallemos mais nisso, que é uma coisa que me faz doer o coração. O que é preciso é que este casamento se faça; porque a Joanninha é mesmo uma mulher propria para mim: sabe ler, escrever, e é bem creada. Aqui em toda a freguezia não ha uma rapariga, que se lhe possa comparar.

ANTONIO

A Joanninha é mesmo uma flor! Ah! ah!

JOZE

Mas, emfim, se vmc. não tem força para governar a sua casa, para fazer com que sua filha lhe obedeça, irei a outra parte buscar mulher, com quem me case. Não faltará quem me queira. No Funchal talvez ache até algum morgado que me dê uma filha. Com dinheiro, nestes tempos, tudo se pode alcançar: e eu, em sendo commendador, posso casar com quem eu quizer, e ser até deputado, representante da Madeira. Ah! Ah! Ah!

ANTONIO

(Rindo muito.) Que coisas que não hade dizer o sr. deputado Joze Velhaco!

JOZE

(Em tom de discurso.) É preciso acabar com este odio á chamada escravatura branca: este odio é uma vergonha para a Madeira, uma deshonra para a Madeira, uma deshonra para os portuguezes. Esta escravatura não é mais do que a liberdade, que todos devem ter de ir procurar fortuna a qualquer parte do mundo. Eu mesmo fui enriquecer-me a Demerara. E quando os calumniadores me accuzarem, de querer que dure a emigração, para ganhar dinheiro com ella, heide gritar com furor. A minha vida todos a conhecem, é simples e pura. Todos sabem que ganhei honradamente o que tenho, e só almas damnadas me podem levantar falsos testemunhos; porque... porque, a innocencia é a innocencia, e os homens politicos sabem, melhor do que ninguem, o que é ser innocente, e o que é fingir innocencia; porque a moralidade dos politicos...

ANTONIO

Viva! É eloquente, o meu genro, o sr. deputado. E da sua innocencia falla muito, e falla bem.

JOZE

Então, decide-se o casamento?

ANTONIO

Está decidido, e hade ser já.

JOZE

Falle a Joanninha.

ANTONIO

Logo, em ella voltando para casa, hade decidir-se o negocio.

JOZE

E ella é quem o hade decidir?

ANTONIO

Não, heide ser eu. Está decidido, e eu logo não faço senão mandar. (Com violencia.)

JOZE

Mandar, sem soffrer observações.

ANTONIO

Como um pai a uma filha desobediente.

JOZE

Bom, bom! Logo venho pelo resultado. (Sae.)

SCENA II

ANTONIO PRUDENTE

É preciso ser severo. Acabou-se; o que custa são as primeiras palavras, depois as outras vêem por si. É para bem da minha Joanninha; que hade, quando for velha, gostar de ser dona de uma boa propriedade, com terras de pão, vinha e pomar. O Joze Velhaco é um rapaz de cabeça, como se quer. Hade fazer-se commendador, e tudo mais que elle diz. Fallam por ahi mal do Joze; mas não teem razão: elle tem-me provado que de tudo está innocente. O padre Vigario tambem não é amigo delle... mas não tem razão, não tem. Querem pôr ao pobre do meu genro as culpas, do que succede nesta terra. (Ouve-se a voz de Joanninha cantando). Ahi vem ella, a minha filha. Animo, Antonio Prudente. Vamos; deves-te fazer respeitar e obedecer por tua filha.

SCENA III

O mesmo e Joanninha

ANTONIO

Vens muito alegre, Joanninha.

JOANNINHA

Eu, pae!

ANTONIO

Vinhas a trovar, como se estivesses na festa do Monte.

JOANNINHA

Á Senhora do Monte vinha trovando. Mas é a tristeza e não a alegria que me faz cantar.

ANTONIO

(Perdendo um pouco a severidade.) E diziam as trovas...

JOANNINHA

Senhora do Monte
Trazei-me o meu bem,
Com tristezas destas
Não pode ninguem.
Senhora do Monte
Trazei-mo depressa,
Fazei que o meu noivo
De mim não se esqueça.
Sem elle, alegria
E paz eu perdi,
Senhora do Monte
Trazei-m'o aqui.

ANTONIO

Pois fez-te a vontade a Senhora do Monte. Perto tens o teu noivo.

JOANNINHA

(Com alegria.) Elle! Pois chegou?

ANTONIO

Ha muito que chegou, e ha muito que te deseja para mulher.

JOANNINHA

Ai! Pae, ainda me torna a fallar nesse Joze, que é a praga desta freguezia?

ANTONIO

(Colerico.) Torno a fallar-te no Joze, mas é pela ultima vez. Quero que cases com elle; e não consinto que me digas que não. Hasde obedecer a teu pae.

JOANNINHA

N'isso, não.

ANTONIO

Joanna, eu não quero ouvir dizer que não, quando eu mando.

JOANNINHA

Esse homem anda enganando gente, para a vender aos inglezes. Assim diz o sr. padre Vigario, e todos...

ANTONIO

É mentira o que dizem delle. Em sendo teu marido, todos se callam logo. O meu nome, o nome de Antonio Prudente, é um nome honrado; e ninguem é capaz de pensar mal do homem, que fôr marido de minha filha.

JOANNINHA

Meu querido pae, escute-me. Nunca deixou de me fazer a vontade em tudo, e agora...

ANTONIO

Muito mal fiz, e muito me arrependo. O mimo é que te perdeu.

JOANNINHA

Se eu tivesse mãe, a ella me havia de queixar...

ANTONIO

Tua mãe, Deos a tenha em gloria, nunca me desobedeceu. Sabia melhor o que uma mulher deve a seu marido, do que tu sabes o que uma filha deve a seu pae.

JOANNINHA

Antes morrer, antes deitar-me ahi ao mar, do que eu casar-me com tal homem.

ANTONIO

Joanna, não me obrigues a tratar-te como mereces. Eu bem sei quem te anda mettendo essas doidices na cabeça, é a velha Maria das Dores. É como me paga os beneficios que lhe tenho feito. Mas á velha ponho-a na rua, e a ti levo-te á igreja por força para te casares. É demais, é demais isto, Joanna.

JOANNINHA

Pae, pelo amor de Deos não me perca.... (Cae de joelhos.)

ANTONIO

As raparigas não sabem o que querem. Eu para ti ganhei toda essa terra, que ahi está ao pé da nossa casa; quero juntar-lhe tudo o que vai d'aqui até ao paçal do Vigario. Isto só se póde conseguir casando tu com o Joze Velhaco. Fica, um morgado, mesmo! Quero-te rica, Joanna; quando tiveres filhos hasde abençoar-me por te ter obrigado a fazer este casamento. Choras agora; depois hasde rir.

JOANNINHA

Pae, não me desgrace.

ANTONIO

O casamento hade fazer-se. Já dei a minha palavra, e basta. É callar e obedecer. (Sae commovido, e escondendo as lagrimas.)

SCENA IV

Joanninha, depois Maria das Dores

JOANNINHA

Pae!... pae!... Elle não me dá ouvidos, e eu morro aqui de pura dor... que me trespassa o coração... Santo nome de Jesus, valei-me.

MARIA

(Entrando.) Joanninha, teu pae saiu agora mesmo daqui zangado, perdido de cabeça. Nem sequer me viu! Que tem elle? Que succedeu, que te vejo toda chorosa?

JOANNINHA

Estou perdida, tia Maria das Dores... Meu pae já me não parece o mesmo, Aquelle Joze Velhaco embruxou-o.

MARIA

Tornou-te a fallar no casamento?

JOANNINHA

Quer meu pae, que o casamento se faça já, sem mais tardar. E nem as minhas lagrimas lhe fizeram abalo. Ralhou comigo, e disse-me que elle mandava e não queria ser desobedecido.

MARIA

Se não fosse com o Joze, dizia-te Joanninha que o remedio era callar, e obedecer. És boa filha, e o Antonio é teu pae. Mas com semelhante homem, com um homem mau, infame, não te podes casar.

JOANNINHA

Mas que se hade fazer?

MARIA

Não sei, não sei, mas irei fallar ao sr. Vigario... Elle desconfia do Joze Velhaco, fallará a teu pai, e talvez o convença. Só o Antonio é quem na freguezia anda illudido com tal homem: Deus lhe perdoe o mal que me tem feito, e as lagrimas que me fez chorar. Ai, o meu Luiz, o meu Luiz... se ainda será vivo?

JOANNINHA

E sem noticias delle!... ha um anno que se foi!

MARIA

Nem carta, nem noticias! Se morreria o meu querido filho? Tenho ido umas poucas de vezes ao correio do Funchal, e dizem-me sempre que não ha cartas, isto quer dizer muito. Devemos estar preparadas para uma grande dor, minha Joanninha.

JOANNINHA

Ai, não diga tal.

MARIA

Porque o não heide dizer, se o sinto, se o coração m'o diz... se parece que me diz que elle morreu.

JOANNINHA

Se o Luiz morreu, que hei de eu fazer? Elle era o meu noivo; por elle prometti esperar. Se elle não voltar, fico toda a vida solteira.

MARIA

Solteira... não pode ser, seria dar um grande desgosto a teu pae, e condemnares-te a ti a uma triste solidão. Uma mulher sem filhos anda como desamparada neste mundo, é como uma arvore sem fructos nem flores. Nós as mulheres viemos a este mundo para cuidar das criancinhas, para depois, quando somos velhas, como eu sou, sermos cuidadas e queridas pelos filhos que criámos. E eu já não tenho filho! Morreu o meu Luiz. E Deos ainda me não chamou para si!

JOANNINHA

Agora, que nem me atrevo já a ter esperança de o tornar a ver, sinto que mais lhe quero do que nunca. Para chorar por elle posso viver; mas para mulher de outro não.

MARIA

Joanninha, escuta. Ninguem quer mais do que eu ao meu Luiz; sei que elle te amava, e que em seres sua esposa estava toda a sua esperança, mas... se morreu, de que serve desobedeceres a teu pae... Basta que eu soffra... e tu, filha. Que não seja desassocegado no fim da vida o bom Antonio Prudente, do qual não houve nunca rasão de queixa.

JOANNINHA

Então quer que eu case com o Joze Velhaco!

MARIA

Com esse não. Mas com outro...

JOANNINHA

E se Luiz não morreu?

MARIA

Que esperança podemos ter? Ha um anno que se foi.

JOANNINHA

Casar-me eu, tia Maria das Dores, e vel-o depois desembarcar ahi! Com que cara lhe havia de apparecer?... e que olhos havia de pôr em meu marido! E depois, com o Joze Velhaco me quer meu pae casar; e com elle só morta me levarão á igreja.

SCENA V

As mesmas e Joze Velhaco.

JOZE

É essa a sua ultima resolução, menina Joanninha?—(As duas mulheres dão um grito de terror.) Não se assustem, não tenham medo, não sou nenhum diabo.

MARIA

Bem o parece!

JOZE

Foi vmc. Maria das Dores, quem ensinou ésta rapariga a desobedecer a seu pai? Um dia a justiça hade castigar as bruxas velhas, que andam nesta ilha a perder as raparigas honestas.

MARIA

Cal-te... Deos me perdoe! Cal-te!..

JOZE

Pelos seus peccados a castigou Deos. O filho que tinha deixou-a, e lá morreu por Demerara, sem se lembrar de sua mãe.

JOANNINHA

Morreu...

JOZE

Sei que morreu; mas pouco importa. Não se perdeu coisa boa.

MARIA

Dizer assim mal do meu Luiz... que elle matou! Se Deos me desse forças!...

JOZE

Matava-me!? Ah! ah! que santa alma a desta velha! E anda semelhante mulher sempre a resmungar orações, de pela manhã até á noite! São pragas que ella nos roga, a bruxa!

JOANNINHA

Sr. Joze o que se atreve a dizer? Não sabe que a tia Maria das Dores é a minha segunda mãe?... que todos cá na freguezia a respeitam?

JOZE

Sei que, por causa das calumnias, e dos falsos testemunhos que me levantou, não me quer a menina Joanninha por marido, e paga com ingratidões o grande amor que lhe eu tenho.

JOANNINHA

Amor que mette medo! É homem de ruim alma sr. Joze... de ruim alma, e má consciencia!

JOZE

Joanninha! (Querendo pegar-lhe na mão.) Não se deixe enganar pelas mentiras que dizem por ahi de mim... Sempre fui bom rapaz... todos o sabem. Se a minha riqueza mette inveja aos outros, que culpa tenho eu?

MARIA

Não faz inveja, faz horror, essa riqueza ganha a vender aos inglezes os pobres da Madeira.

JOZE

Calle-se, mulher; senão!..

MARIA

Ameaças agora!

JOZE

Joanninha, não demos ouvidos a esta doida. Fallemos serio do que nos importa. Seu pae, Joanninha, quer o nosso casamento; e tem por calumnias quanto por ahi se diz de mim. Elle sabe que sou capaz de a fazer feliz.

JOANNINHA

Só atada de mãos e pés irei á igreja, mas lá heide dizer que não... quando me deem por marido um homem que aborreço.

JOZE

Joanna, veja o que diz! Seu pae pode obrigal-a...

JOANNINHA

Matar-me é que elle pode.

JOZE

Prende-a uma promessa, bem sei, Joanninha. (Brandamente.) Fica-lhe bem a firmeza: comigo tambem a terá. Mas de que serve teimar nesse amor a um homem, que já morreu?

JOANNINHA

Não, não morreu. Não vé que me afflige... que trespassa aquella pobre mãe, dizendo isso?

MARIA

Não accredito no que elle diz, é mau homem... mente!

JOZE

Hade ter castigo tanto atrevimento! Insultar com injurias, desacreditar com aleives, um cidadão honrado, que tem de seu, que vive com os morgados maiores da Madeira!

MARIA

Todos te despresam!

JOZE

(Levantando a mão com colera.) É de mais. Se te não callas...

JOANNINHA

Que faz Joze? Que se atreve a fazer?

JOZE

Nada... por agora.

JOANNINHA

(Pegando nas mãos de Maria das Dores.) Venha, Maria das Dores, venha minha boa, minha santa mãe!... Vamo-nos desta casa, que não pode ser, que não é a nossa, em quanto semelhante homem aqui estiver.

MARIA

Fizeste-me perder o meu filho; foste que m'o tiraste dos braços para o mandar como escravo a Demerara! O meu Luiz morreu... perdi o meu filho, e eu d'aqui a dias irei ter com elle. É de lá da cova, escuta bem Joze! é da cova, que ambos te amaldiçoamos, para que a tua alma não tenha socego, nem o teu corpo descanço, em quanto vivo fores; para que, depois da morte, a justiça de Deos te lance nos infernos. (Sáem as duas.)

SCENA VI

Joze, só

JOZE

Está doida, doida varrida a velha. E eu que ia perdendo a cabeça; como se um homem de juizo, e conhecedor do mundo, podesse perder a cabeça nestas alturas! Santa palavra! Um homem sempre é um homem, e não faz caso de rabugices de bruxas tontas. O que necessito, e vou fazer, é gastar umas poucas de patacas, e mettel-a no hospital por doida. Logo vi que da mão de Maria das Dores não vinha cousa boa! Tenho de gastar o dinheiro que o filho me rendeu, para agora alojar a mãe no hospital, ou na cadeia. Vamos fazer calar esta matraca, que me anda sempre a matinar os ouvidos. O que importa, em tudo isto, é que a Joanninha consinta no casamento. Gosto della, e gosto muito, e nunca pensei que tal podesse acontecer-me!. (Rindo.) Ah! ah! a não ser o bom pedaço de terra, que tem o pae, não eras tu meu Joze Velhaco capaz de intender o desasocego, em que anda o teu coração! A idéa de tirar do correio todas as cartas, que o Luiz escreveu á mãe e á Joanninha, foi famosa! Estão crentes, que elle morreu, e a esta hora talvez não estejam enganadas! Graças a Deus morre-se depressa em Demerara, quando se trabalha no campo, ao sól, e com o estomago vazio; e o Luiz não o havia de traser cheio. Ésta minha cabeça é uma grande cabeça, e eu ainda heide de ser coiza grande no mundo! Meu pae mandou-me aprender a lêr e a escrever; aproveitarei a boa lembrança de quem já lá está na terra da verdade. Joanninha hade ser minha, ou não heide chamar-me Joze... Velhaco. Santa palavra!

SCENA VII.

Joze Velhaco e Joaquim.

JOAQUIM

(Batendo á porta.) Ólá, menina Joanninha!

JOZE

Não está cá a menina, saiu.

JOAQUIM

Ah! está ahi vmc. sr. Joze? Eu vinha procurar a Maria das Dores. Tambem não está aqui?

JOZE

Esteve, mas foi-se. E que lhe queria você á Maria das Dores?

JOAQUIM

Trazia-lhe um recado de meu amo.

JOZE

Do sr. Vigario?

JOAQUIM

Sim senhor, lá do sr. Vigario é que o recado é: o sr. Vigario quer fallar á velha.

JOZE

Para que?

JOAQUIM

Isso não sei eu. Para coiza grande é, porque me disse meu amo que viesse correndo.

JOZE

(Á parte.) Que será? O Vigario em tudo se mette.

(Alto.) Então não sabe o que o nosso Vigario quer á Maria das Dores? Em! Joaquim?

JOAQUIM

Olhe vmc.; eu, verdade, verdade, não sei o que elle tem que lhe dizer; mas parece-me...

JOZE

O que?

JOAQUIM

A velha foi outro dia fallar com o sr. Vigario, e esteve mais de uma hora só com elle.

JOZE

O que disseram?

JOAQUIM

Não sei. Pois se elles estiveram sós, como havia de saber o que disseram? Minha mulher, que é curiosa deveras, lá descobrio que ella quer entrar para o azylo dos pobres, no Funchal; e por isso meu amo lhe fallou o outro dia á triste da velha, e agora lhe quer fallar outra vez.

JOZE

Hade ser, hade ser isso. (Á parte.) Fico mais alliviado; já não precizo gastar o dinheiro em metter a Maria das Dores no hospital, por doida. (Alto.) Ora, Sr. Joaquim, ja pensou n'aquelle negocio, em que outro dia lhe fallei? Está disposto a ir fazer fortuna?

JOAQUIM

Estou velho para tentar fortuna, sr. Joze. Tenho 40 annos feitos.

JOZE

Parece um rapaz de 20, o nosso Joaquim! E depois tem um filho que d'aqui a dois dias está um homemzinho, que o póde ajudar.

JOAQUIM

O rapaz não levo eu para Demerara. A mim posso-me arriscar, mas a elle...

JOZE

Olhe sr. Joaquim, que não ha perigo. Tenho vontade de o fazer feliz... tenho confiança em você.... conheceu-me de pequeno, e tenho-lhe amizade. Não sei se é homem de segredo, sr. Joaquim.

JOAQUIM

Pode fiar-se. Segredo, que oiço, é como se caisse ao mar, ninguem o sabe. Para amigos sou um homem como se quer. Sim: lá nisso é fallarem-me, e prompto; aqui está o Joaquim ás ordens.

JOZE

Se apparecesse agora um homem, que quizesse fazer-se rico em pouco tempo, sem trabalho, havia occasião.

JOAQUIM

Eu quero; oh! se quero.

JOZE

Pois toque, Joaquim; mas jure guardar segredo sobre o que vou dizer.

JOAQUIM

Está promettido.

JOZE

O que vou dizer-lhe é de amigo. Preciza-se de um homem.... você é de segredo? Em?

JOAQUIM

Oh! homem, não me conhece ainda?

JOZE

Veja la. Se este segredo se souber, só você o pode ter contado; e ha gente de muitas posses, que o quer bem guardado. (Com um gesto de ameaça.) Sempre se póde fazer callar um homem.

JOAQUIM

Bem o intendo. Póde fallar sr. Joze. Não é o medo que me tapa a bocca.

JOZE

(Assustado.) Então?...

JOAQUIM

(Rindo.) É... é a amizade, que lhe tenho...

JOZE

Como ia dizendo: preciza-se de uma pessoa que vá a Demerara, homem de bom nome, e de influencia por estas freguezias. Você está no caso. Caseiro do sr. Vigario, e bem quisto por elle.... é quanto basta.

JOAQUIM

O meu nome, o nome do Joaquim do Vigario, é bem conhecido, ninguem tem que lhe dizer.

JOZE

Pois ahi está; é isso mesmo.

JOAQUIM

Então querem que vá a Demerara?

JOZE

Justo. Ir; estar lá um anno a comer e a beber á regalada, e voltar rico.

JOAQUIM

(Rindo.) Ah! ah! ah! Rico! E como?

JOZE

Comendo, já lho disse. Comendo, dormindo e engordando.

JOAQUIM

Eh! eh! eh! Não me parece feia a historia! Está a mangar commigo sr. Joze? Em!

JOZE

Mangar, com o meu amigo Joaquim?! Isso é que não.

JOAQUIM

Eu cá intendo que se dê de comer a um porco, para depois o matar, mas a um homem.... Em Demerara comem gente?

JOZE

(Rindo.) Está doido... Sr. Joaquim. Aquillo é a melhor terra deste mundo.

JOAQUIM

Que querem elles então?

JOZE

Que volte para a Madeira, com dinheiro e saude, e diga depois, como eu, que Demerara é um céo aberto; que lá se enriquece á grande, e que um homem váe, e volta rico sem lhe custar nada.

JOAQUIM

E isso é assim para todos?

JOZE

Não homem; para os felizes como nós. Pois este mundo fez-se para os felizes? Santa palavra!

JOAQUIM

(Rindo muito.) Agora... agora percebo—Ah! ah!... É boa! É como quem diz um chamariz; querem fazer de mim um chamariz?

JOZE

Ainda bem que nos intendemos. Vai então para Demerara?

JOAQUIM

Para quando a partida?

JOZE

No primeiro navio.

JOAQUIM

Pois amanhã lhe dou a resposta.

JOZE

Mas o segredo?...

JOAQUIM

Está dito.

JOZE

Quer dormir sobre o cazo para depois se decidir?

JOAQUIM

É como diz. Este costume ficou-me de pequeno, dormir sobre todos os cazos, e em todos os cazos. Agora vou ao recado do sr. meu amo, vou procurar a tia Maria das Dores.

JOZE

Vá, vá. E se poder saber o que o sr. vigario lhe quer, venha-mo contar.

JOAQUIM

Pois sim. Adeus, amigo Joze Velhaco.

JOZE

Adeus. (Joaquim sáe.)

SCENA VIII

Joze, depois Antonio Prudente

JOZE

Este é dos nossos. Meu de certo é; porque me hade render bom par de patacas. E digam que sou mau! Acabo de fazer a fortuna deste excellente pai de familia!—Ahi vem Antonio Prudente. Vamos resolvel-o por uma vez a governar a sua casa! (A Antonio que entra.) Ora já sei, sr. Antonio, que a sua Joanninha lhe não quer obedecer.

ANTONIO

Hade obedecer, que lho digo eu. Por tal vergonha não hade passar Antonio Prudente.

JOZE

Encontrei-a com a velha, aqui. Disseram-me injurias, insultaram-me. A Maria das Dores repetiu-me uma duzia de vezes—ouvi-lho com estes ouvidos—repetiu-me, que Joanninha não casaria commigo; que o pae de Joanninha era um tolo—perdão sr. Antonio, eu não faço senão repetir—que era um tolo, um baboso, e que havia de fazer o que ellas quizessem.

ANTONIO

Pois a velha disse isso?... diante de minha filha? Bem razão tinha, Joze, em me aconselhar que a puzesse na rua, á excommungada bruxa! Onde está a Maria das Dores, onde está minha filha?

JOZE

Sairam ambas, depois de me carregarem de injurias.

ANTONIO

Um tolo, um baboso, eu! Ou a Joanninha deixa de ser minha filha, ou o casamento hade fazer-se já. E para a rua a velha, que nem mais uma vez me porá os pés em casa.

JOZE

Nada de violencias, sr. Antonio. Com geito é que as coisas se levam. Com sua filha rigor, mas violencia, não. E com a velha nada de injurias... o Vigario protege-a.

ANTONIO

E que me importa a mim o Vigario? Não preciso de ninguem.

JOZE

Isso faz-lhe honra, sr. Antonio, mas sempre é bom ser prudente.

ANTONIO

Hade fallar-se de mim na freguezia. Os paes hão de aprender a castigar as filhas desobedientes.

JOZE

Ahi vem ellas, sua filha e a Maria das Dores. Vou-me; porque, se aqui me veem, não entram.

ANTONIO

Deixe-as commigo.

JOZE

Tenha moderação... paciencia!

ANTONIO

Deixe-as commigo, já lho disse. (Joze sae.)

SCENA IX

Antonio Prudente, Maria das Dores e Joanninha

ANTONIO

Tolo e baboso! chamaram-me assim, minha filha, e a Maria das Dores, que me deve tanto! Agora veremos se eu sou homem com quem se brinque. (Ás duas que entram.) Venham ambas que temos que fallar.

JOANNINHA

(Assustada.) Que quer, pae?

ANTONIO

A ti? já o sabes. Domingo casas, sem falta.

JOANNINHA

Pae... antes morrer.

ANTONIO

Ou casas, ou ponho-te fóra, para nunca mais saber de ti. Disseste mal de mim, chamaste nomes injuriosos a teu pai!... És má filha, e só te perdôo se me obedeceres.

JOANNINHA

Eu! nunca lhe faltei ao respeito, pai!

ANTONIO

E não chama ella faltar ao respeito desobedecer-me e chamar-me... tolo.

JOANNINHA

Eu... É falso, é uma falsidade infame.

ANTONIO

Calla-te.

MARIA

Não trate assim sua filha, Antonio. A pobre rapariga, se tem culpa, é de chorar.

ANTONIO

Ainda se atreve, Maria das Dores, a entrar nesta casa, e a fallar-me de Joanninha! Se ella é desobediente, e má filha, se diz mal de seu pae, quem a ensinou foi você, mulher.

MARIA

Que diz, Antonio?

ANTONIO

Foi quem ensinou Joanninha a faltar aos seus deveres; porque dantes era boa e docil. Mas isto hade acabar, e já. Nunca mais volte a minha casa, nunca mais falle com minha filha...

MARIA

Põe-me fóra da sua casa? A mim, que lhe criei sua filha?..

ANTONIO

É indigna de vir aqui. Anda perdendo as raparigas com maus conselhos.

MARIA

(Chorando.) Perdôo-lhe essas injurias, porque sei quem lhas ensinou.

ANTONIO

Pois julga que Antonio Prudente?...

MARIA

Penso que é bom e justo, e que a preversidade de um malvado, que o enganou, o traz assim mudado.

ANTONIO

Não quero que em minha casa se diga mal de quem hade ser meu genro. Ponha-se fora mulher. Na rua já!

MARIA

Vou-me embora. Nossa Senhora guarde a pobre Joanninha, e abra os olhos a este homem. (Maria das Dores vai para sair, quando apparece á porta de fundo o Vigario.)

SCENA X

Os mesmos e o Vigario

VIGARIO

(Detendo Maria das Dores.) Antonio Prudente, que palavras são essas; porque o vejo com tanta colera? Porque põe fóra de casa Maria das Dores?

ANTONIO

Anda desinquietando minha filha.

VIGARIO

Desinquietando sua filha!..

ANTONIO

Foi ella que desvairou Joanninha, que de pequena foi sempre temente a Deos e obediente a seu pae, e lhe ensinou o atrevimento, e a desobediencia!

VIGARIO

Isso é engano, de certo. Anda um crime nisto. Antonio, o seu nome foi sempre respeitado; todos até hoje o têem estimado; porque é homem de bem, caridozo e justo. Mas, em se sabendo que pôz fóra de casa a mulher que criou sua filha, em se sabendo que maltractou uma triste viuva, uma desgraçada, velha, doente, quebrada pela dor, e opprimida pela mizeria, todos hão de pensar que era falso o conceito, que formavam a seu respeito.

ANTONIO

Sr. Vigario, essas palavras são injurias.

VIGARIO

Não faço injurias, digo verdades.

ANTONIO

Mas não sabe...

VIGARIO

Sei que Maria das Dores sempre foi verdadeira, e que tem soffrido a desgraça com a paciencia de uma santa. Maria das Dores, diga-nos a verdade, em consciencia fez a este homem a offensa de que elle se queixa?

MARIA

(Suffocada pelas lagrimas.) Não. Pela vida de meu filho, se elle vive... pela sua alma, se Deos o chamou, juro que não.

VIGARIO

Ouvio, Antonio? Um homem, a quem os annos fizeram brancos os cabellos, a quem os trabalhos da vida ennobreceram o coração, acaba de se deshonrar, pizando aos pés o que ha de mais sagrado no mundo: uma mãe desventurada.

ANTONIO

Sr. eu... pensei... acreditei...

VIGARIO

Acreditou uma calumnia. Neste mundo não basta ser passivamente honrado, Antonio; a virtude era facil assim. É preciso resistir tambem ás seducções dos maus, ter força para fazer justiça a todos, e não obedecer ás paixões, que sempre, em todas as idades, se levantam no coração, e cegam o espirito.

ANTONIO

Mas minha filha recusa obedecer-me.

VIGARIO

Porque offendeste teu pae, Joanninha?

JOANNINHA

Eu em tudo estou prompta a obedecer a meu pae; mas...

VIGARIO

Mas o que?

JOANNINHA

Casar-me com o Joze Velhaco, isso não. Antes morrer.

ANTONIO

Bem vê, sr. Vigario...

VIGARIO

Vejo que Joanninha é boa filha, e que quer salvar seu pae da deshonra... Recuza casar-se, porque o casamento é impossivel. Uma santa rapariga não póde unir-se a um homem depravado: n'uma familia honesta, como a de Antonio Prudente, não póde entrar um mizeravel que todos desprezam.

ANTONIO

O que diz?

VIGARIO

O que o coração lhe teria dito, se o desejo louco de juntar ás suas fazendas mais um pedaço de terra o não cegasse!

JOANNINHA

Nossa Senhora o abençoe pelas verdades que está dizendo!

ANTONIO

(Com hesitação.) Prometti minha filha ao Joze Velhaco, e a palavra de Antonio Prudente é sagrada.

VIGARIO

Deve ser sagrada quando a der a um homem de bem, e quando cumpril-a não for sacrificar sua filha.

Antonio, escute-me. Ha no Funchal um pobre pescador, com duas filhas que sustenta, e são a sua alegria, a sua força, a benção da sua caza. Esse homem saiu uma destas noites passadas, para ir pescar; e quando voltou de madrugada achou as portas abertas, e tudo deserto.

JOANNINHA

O que aconteceu?

VIGARIO

Suas filhas tinham sido furtadas. Imagine, Antonio Prudente, a dôr d'aquelle pae!

ANTONIO

(Como arrastado por uma força invizivel.) Ai, se a mim me roubassem a minha filha!... acabava de magoa: mas depois de matar com estas mãos quem m'a tivesse roubado.

VIGARIO

É pae, Antonio, ainda é pae! Bem se vê.

ANTONIO

O que fez o pescador?

VIGARIO

Lembrou-se de que se negocia na Madeira em escravatura branca; lembrou-se, foi Deos que o inspirou! de que ha na terra homens infames que enganam seus irmãos. Como o pescador sabia, que mais de uma vez os que tem ido a bordo dos navios de emigrados, despedir-se dos parentes, ficaram lá contra vontade, e foram para Demerara, occorreu-lhe que miseraveis, que praticam horrores d'estes, eram tambem capazes de usar de violencia, e de augmentarem assim o numero das suas victimas. Lembrou-se de tudo isto, e foi ter com um desses homens.

ANTONIO

E matou-o?

VIGARIO

Não. Disse-lhe estas palavras. «Ou minhas filhas hãode hoje mesmo voltar para casa, ou amanhã apparecerás assassinado.»

ANTONIO

E então?

VIGARIO

Horas depois o pobre pae apertava ao coração as duas filhas.

ANTONIO

E quem foi que as roubou?

VIGARIO

Dinheiro, espalhado com mãos largas pelos ricos traficantes de escravos brancos, esconde o nome desse homem, mas falla-se...

ANTONIO

De quem?

VIGARIO

Do Joze Velhaco.

ANTONIO

Elle!

VIGARIO

Todos fallam. Já vê, Antonio Prudente, que não póde querer para marido de sua filha um homem perdido de reputação.

ANTONIO

Não... sem elle se justificar.

VIGARIO

Sei que é o desejo de fazer sua filha rica e feliz o que o allucina; mas, ainda assim, desconheço-o. N'outro tempo, a sua probidade não lhe consentia pensar mais um instante em tal casamento, depois de saber o que se diz por ahi do Joze Velhaco. Escute o seu coração, e a sua consciencia, Antonio, e verá, como eu vejo, que o casamento é impossivel.

ANTONIO

Sr. Vigario... talvez tenha razão: mas, com perdão de v. s.ª sou pae, e um pae sabe melhor do que ninguem o que convem a sua filha. Não posso faltar á minha palavra, sem saber se o que se diz é mentira ou verdade.

VIGARIO

Nem mais um conselho lhe dou, Antonio, de hoje em diante. Faça o que quizer. Sacrifique sua filha, e deshonre-se. (Vae para sair.)

JOANNINHA

Pae, escute o sr. Vigario.

ANTONIO

(Commovido.) Não me faça a offensa, sr. Vigario, de me tirar a sua amizade. Era um desdoiro para a minha vida, uma dôr d'alma, e uma deshonra para estes cabellos brancos. Pelo amor de Deos, perdoe-me!

VIGARIO

Não quero senão o seu bem; e peza-me que me não escute.

ANTONIO

Se permitte, não me dou ainda por desligado. Vou ter com o Joze Velhaco, e se não se justificar, se não provar que está innocente, ficará o dito por não dito, e não torna a entrar n'esta casa. Mas antes de o condemnar é preciso ouvil-o.

VIGARIO

Mas tambem se devem escutar as queixas, e os prantos de uma filha, antes de a condemnar por toda a vida. Emfim, Antonio, confio tudo da sua probidade, e do muito amor que tem á nossa Joanninha. (Com brandura.) Bem sabe que a vi crescer, que lhe ensinei a ler e a escrever, que lhe dei uma educação como no Funchal não se dá ás filhas dos morgados; custava-me vel-a casada com um homem, incapaz de a fazer feliz.

ANTONIO

Vou já ter com elle, se o sr. Vigario dá licença.

VIGARIO

Vá depressa.

ANTONIO

V. S.ª perdoa-me alguma má palavra?...

VIGARIO

Não tenho que perdoar, e já esqueci tudo; excepto que Antonio Prudente é homem honrado, e hade mostrar-se bom pae.

ANTONIO

(Beijando a mão do Vigario.) Agradecido, agradecido. (Sae.)

SCENA XI

Os mesmos, menos Antonio Prudente

VIGARIO

Joanninha, parece-me que pódes socegar. Este casamento não se faz.

JOANNINHA

Não me atrevo a ter esperança. Meu pae anda infeitiçado. E depois, nem já sei senão chorar noite e dia, chorar até morrer.

VIGARIO

Deixa estar, Joanninha: as lagrimas dos innocentes quasi sempre a mão de um amigo as enchuga. (Brincando.) Eu sei, minha menina chorosa, que essa mão benefica não hade tardar muito aqui.

JOANNINHA

Ninguem pode consolar-me.

VIGARIO

Ahi está Maria das Dores, que bem velha é, e que ainda assim não hade ter sempre os olhos arrazados de lagrimas, como agora.

MARIA

Não, sr. Vigario, porque debaixo do chão não se chora.

VIGARIO

Nem tambem cá por cima, quando se é feliz.

MARIA

Feliz, eu?! Sem o meu filho?!

VIGARIO

Quem lhe disse isso, Maria das Dores?

MARIA

Quem? Joze Velhaco, o proprio malvado que o matou, o meu Luiz.

VIGARIO

Esse infame... Maria das Dores, tenha animo para ouvir o que vou dizer.

MARIA

Tenho animo... Bem vê que resisti quando me disseram... que era morto o meu Luiz.

JOANNINHA

Ah! diga!

VIGARIO

Joze Velhaco mentio.

MARIA

(Desfallecendo.) Nossa Senhora me leve nesta hora... para acabar na alegria!

JOANNINHA

(Pulando.) Vivo!... vivo... o Luiz! Onde está!

VIGARIO

Maria das Dores, o que é isso? A alegria custa menos a supportar do que a dôr.

MARIA

Deixe-me perceber... Estas mudanças custam... o coração lucta com a duvida. Elle não morreu?

VIGARIO

Não.

MARIA

Mas está ainda longe?

JOANNINHA

Em Demerara?

MARIA

Teve noticia?

JOANNINHA

Quando chega!

MARIA

Talvez a esta hora já não viva!

JOANNINHA

É preciso mandal-o buscar.

VIGARIO

(Enternecido.) Soceguem. Já está em caminho.

MARIA

Ha quantos dias?

JOANNINHA

Virá d'aqui a tres?

MARIA

Amanhã?

VIGARIO

Mais breve.

AMBAS

Hoje!?

VIGARIO

Chegou. (As duas mulheres abraçam-se.)

MARIA

Que alegria, filha!

JOANNINHA

Jesus!

MARIA

Eu... morro, porque não posso...

JOANNINHA

Onde está?

MARIA

O meu filho? (Luiz entra precepitadamente.)

VIGARIO

Está aqui.

AMBAS

Luiz!

Cae o panno.

FIM DO 2.º ACTO