ACTO TERCEIRO

A caza de Antonio Prudente, como no segundo acto. É noite; um candieiro de tres bicos alumia bem a caza

SCENA I

Joze Velhaco e Joaquim

JOZE

É negocio concluido. (Mostrando um papel que tem na mão.) Esta obrigação que você assignou... é o principio da sua fortuna.

JOAQUIM

Deos queira! Sr. Joze, vm. não sabe como lhe heide pagar a boa vontade! Esse papel é uma obrigação que lhe faço; por ella me sujeito a servil-o, ou a quem vm. mandar, aqui ou em Demerara, até pagar a divida de quarenta patacas, que recebi...

JOZE

A obrigação está em regra, e é justo. Trabalho em troca de dinheiro; assim se faz em toda a parte.

JOAQUIM

Isso é o que vm. diz, sr. Joze, mas quem sabe o que será? E a fallar a verdade, trabalhar por trabalhar, antes na terra, que eu conheço, do que em outra que nem de portuguezes é.

JOZE

Pois eu falto ao que prometto, homem?

JOAQUIM

Bem sei que vm. é... um amigo como se quer. (Rindo-se.)

JOZE

Ri-se, Joaquim?

JOAQUIM

Estava-me lembrando do Luiz do Campanario, e dos outros que o sr. Joze foi mandando para Demerara, e que ficaram por lá. Ah! ah! ah!

JOZE

(Á parte.) O maldito Luiz não ficou! (Alto.) Com esses não ajustei senão, que haviam de achar trabalho em Demerara... e não lhe tem faltado. Assegurei-lhe que lá se ganha dinheiro, o que é verdade, quando se ganha.

JOAQUIM

(Rindo muito.) Ora o sr. Joze tem graça! Mas de mim, de mim é que eu não quero que ninguem se ria. Palavras leva-as o vento.

JOZE

Então o que quer, Joaquim?

JOAQUIM

O preto no branco, e nada mais. Uma obrigação, como a que lhe fiz, em que vmc. se obrigue a dar me o officio... o officio de... ah! ah! ah!

JOZE

De aliciador! Diga homem, não se engasgue com palavras, que escorregam bem.

JOAQUIM

Pois como fôr da vontade de vmc. A obrigação escripta pela sua mão é que eu quero; e sem ella não vou da Madeira!

JOZE

Forte parvoice! A minha palavra vale-lhe de mais, em Demerara, do que um papel escripto.

JOAQUIM

Cá a palavra do sr. Joze vale de muito; mas por isso é que eu a quero no papel... para durar mais. Sem a obrigação não embarco!

JOZE

Isso agora não esperava eu. Então porque não me disse logo tudo? O ajuste era outro.

JOAQUIM

Quero o papel porque, depois que esta manhã o larguei, peguei a scismar que a gente não deve dar papel em troca de palavras; que ha viver e morrer, e que o sr. Joze póde morrer...

JOZE

Mas se eu morrer de que serve o papel?

JOAQUIM

Os seus amigos não hão de deixar mal a sua palavra honrada.

JOZE

Mas...

JOAQUIM

Vmc. quer ou não quer? O dito, dito.

JOZE

(Indo a uma mesa e escrevendo.) Pois vá lá. Escrevo a obrigação.

JOAQUIM

Assim é que é fallar.

JOZE

Alto! Espere! Faço-lhe isto, que não estava nos nossos ajustes, porque sei que é meu amigo, Joaquim.

JOAQUIM

Pois não sou?

JOZE

E aos amigos velhos, faz-se-lhes as vontades.

JOAQUIM

E a obrigação?...

JOZE

Já vae; mas fallemos antes d'outro negocio...

JOAQUIM

O que é?

JOZE

Já tenho dado provas de que me fio de vm. Joaquim; e quero que se capacite ainda mais. Conto com o segredo, e com a sua amizade... sim, com a nossa amizade antiga... com o dezejo de sermos uteis um ao outro.

JOAQUIM

Então o que quer?

JOZE

Você sabe que eu estou para casar com a Joanninha... Boa rapariga, e que mostra por mim sua simpathia!... Mas até agora... tem estado... tem posto duvida...não deu ainda o sim... O pae dezeja muito o casamento, e com brevidade...

JOAQUIM

Então se o pae quer, e a rapariga tem... isso que vm. diz... sapathia, que mais dezeja o sr. Joze? Case! (Com escarneo.)

JOZE

A Joanninha põe suas duvidas. Parece que esteve namorada, em outro tempo de um rapaz, e fez-lhe promessa de fidelidade. Agora, apesar do coração a puxar para mim, não quer que lhe chamem inconstante.

JOAQUIM

E que remedio posso eu dar a isso?

JOZE

E simples... mas só de um amigo se confia. Esta noite resolvi empregar uma violencia... apparente, ja se vê. Antonio Prudente está por tudo. Resolvi acabar com as duvidas de Joanninha. Você, Joaquim, se me quizer fazer esse favor... póde ajudar-me... e eu ajuntarei, da minha algibeira, umas vinte patacas, para acudir á sua viagem... Se quizer, póde servir-me de muito.

JOAQUIM

Mas como?

JOZE

Vindo esta noite comigo, quando tudo dormir nesta caza, e mais dois marinheiros, gente fiel lá do navio em que hade partir para Demerara, furtar... levar d'aqui a Joanninha.

JOAQUIM

Ora essa! Pois a gente hade tirar a filha ao sr. Antonio Prudente?

JOZE

Não se lhe tira a filha, apressa-se o casamento, como elle dezeja.

JOAQUIM

E se a pequena gritar?

JOZE

A janella costuma ficar cerrada de noite, e a porta do quarto de Joanninha é aquella defronte. Entra-se devagarinho; tapa-se-lhe a boca, quando estiver a dormir, e depois faz-se tudo como se quer. Ella depois não tem remedio senão casar; Antonio Prudente faz o seu gosto, e eu o meu.

JOAQUIM

Vm. lá o lê, lá o intende.

JOZE

Então está prompto?

JOAQUIM

Estou, mas venha o papel.

JOZE

Você faz de mim quanto quer. (Dá-lhe o papel.) Vá abaixo ao Calháo, e espere por mim. Os dois marinheiros lá hãode estar.

JOAQUIM

Lá vou. Para servir o sr. Joze Velhaco está um homem sempre disposto.

JOZE

Bom rapaz. E caluda! As vinte patacas ficam a tinir.

JOAQUIM

O sr Joze sempre é uma grande cabeça. Até logo. (Sae.)

SCENA II

JOZE,

Sou uma grande cabeça, isso sou! Tudo vae ás mil maravilhas, e n'um pulo estou mais alto do que esses morgados rabugentos e impertigados da Madeira. Viva o sr. Joze Velhaco, que hade ser ainda deputado, commendador... barão... e quem sabe o que mais? Com esta cabeça, e com este coração, heide chegar... até onde chegam os que são do meu feitio.

SCENA III

Joze Velhaco e Antonio Prudente

JOZE

Então meu rico Antonio Prudente o que mais soube contra mim?

ANTONIO

Nada. Fui a caza dos dois negociantes, que me indicou, e ambos fizeram da sua pessoa muito boas ausencias. O Carlos Bad, sobretudo, que passa por homem serio, disse-me que melhor do que sr. Joze Velhaco não conhecia ninguem... a não ser elle proprio. E o velho riu-se tanto com aquella cara de bom homem!...

JOZE

(Á parte.) Que maroto! (Alto.) Bom homem de certo, devo-lhe bastantes obrigações. Aquellas desconfianças, que lhe metteu o padre Vigario a meu respeito, já lhe vão passando, sr. Antonio? hein?

ANTONIO

Já. Mas o Vigario quer-lhe pouco bem, Joze.

JOZE

Desgraças! Quem póde evital-as?

ANTONIO

Vim agora por caza delle, para lhe contar o que me disse o pae das duas crianças que tinham sido roubadas, e os elogios que fizeram de vm. os dois negociantes... Quero que todos o reputem, Joze, por homem honrado antes de lhe dar a minha filha.

JOZE

(Com admiração.) Então já se não faz o casamento immediatamente? Os contos do Vigario sempre pegaram!

ANTONIO

Eu desejo que se faça; mas é melhor que você se justifique primeiro. É facil, e não leva muito tempo.

JOZE

A minha melhor justificação é ser seu genro, genro do honrado Antonio Prudente.

ANTONIO

Isso depois: por em quanto esperaremos.

JOZE

(Á parte.) Eu te direi logo se espero! (Alto.) O que o fez mudar, sr Antonio Prudente?

ANTONIO

(Com embaraço.) Respeito muito a opinião do nosso Vigario; e em quanto elle não estiver convencido, como eu, da sua innocencia, é melhor... demorarmos o casamento.

JOZE

Assim se deita a perder o credito de um homem. É até onde póde chegar!

ANTONIO

A verdade anda sempre ao de cima d'agua, não lhe dê cuidado. Sabe que mais, Joze Velhaco, admirou-me a generosidade com que deu dez tostões ao pescador, a quem roubaram as filhas, e que tanto o defendeu na minha presença. O pobre homem não cabia na pelle, e sempre lhe deu um abraço... cuidei que o arrebentasse!

JOZE

Se não posso ver ninguem pobre, em o podendo remediar! Eu cá sou assim! Enterneci-me; e o ardor com que elle me defendeu... fez-me ver, que nesta gente é que ainda se encontram exemplos de virtude. Olhe sr. Antonio Prudente, a virtude é o meu fraco! Santa palavra!

ANTONIO

(Apertando-lhe a mão.) Gosto de o ouvir, Joze. Porque lhe terá o Vigario tão má vontade?

JOZE

Promette não se zangar, se eu lhe disser a razão?

ANTONIO

Não me diga...

JOZE

Ouça, e não torve de repente. Sua filha está namorada do Luiz do Campanario...

ANTONIO

Já sei, e não desgostei por isso que o rapaz fosse a Demerara... a ver se ella o esquecia...

JOZE

Qual! Cada vez se lembra mais. O Vigario é quem os protege.

ANTONIO

Faz mal!... porque eu... Mas no fim de contas o que protege o Vigario?... Um homem que morreu.

JOZE

Engana-se redondamente, sr. Antonio Prudente. O Luiz vive, e o Vigario sabe que elle está...

ANTONIO

Aonde?

JOZE

Na Madeira. Chegou hontem, e já aqui esteve com Joanninha.

ANTONIO

Aqui?

JOZE

Trouxe-o o Vigario. Verá que elle casa a Joanninha com o Luiz, e leva a sua por deante.

ANTONIO

Menos isso! Antonio Prudente não se mette assim debaixo dos pes. Pois se o Luiz aqui esteve, e fallou a minha filha, o remedio é casal-a já com o sr. Joze.

JOZE

Governe, sr. Antonio, governe o que é seu, e não se arrependa. O Vigario é de familia de Morgados, dos fidalgos da ilha: sabe que tenho meus vintens, e não gosta de que eu hombreie com os seus... Dá licença que eu use de todos os meios para conseguir que sua filha case comigo?

ANTONIO

Dou, permitto! (Battendo o pé no chão.) Hade fazer-se o casamento. (Depois de pensar um pouco.) Mas quero levar o negocio de vagar, e com prudencia. Amanhã, quando estiver mais socegado, fallaremos. Agora deixe-me com a Joanninha; quero desabafar. Depois pensarei com mais descanço.

JOZE

Pois fique-se com Deos.—Taes coisas farei, que ámanhã acabarão as suas duvidas. Fie-se no que lhe digo. (Indo para sair.) É preciso que um homem saiba governar a sua caza, porque um homem é um homem. (Sáe.)

SCENA IV

Antonio Prudente e Joanninha

ANTONIO

Ninguem hade governar aqui mais do que eu! (Chamando.) Joanninha!

JOANNINHA

Meu pae!

ANTONIO

Anda cá. Responde-me... e não mintas.

JOANNINHA

Eu nunca lhe menti, pae.

ANTONIO

Mas escondes-me a verdade, que é o mesmo. Não queres casar com o Joze Velhaco?

JOANNINHA

Já lhe disse, pae, que não.

ANTONIO

Nem com elle, nem com outro?

JOANNINHA

Dezejo ficar na sua companhia.

ANTONIO

(Colerico.) Mentes.

JOANNINHA

Eu? sou muito sua amiga!..

ANTONIO

Se o fosses não me desobedecias. Sei tudo. Não te queres casar, porque te namoraste de um desgraçado sem dinheiro.—Prometteste casar com o Luiz do Campanario... e a mãe, a Maria das Dores, tem tido o cuidado de não t'o deixar esquecer. Invencioneira!

JOANNINHA

Não seja injusto! Confesso que não posso gostar senão do Luiz do Campanario. Com elle fui creada, e só com elle posso viver!..

ANTONIO

Contra minha vontade!

JOANNINHA

O coração póde mais.

ANTONIO

Creancices, filha! Isso hade passar!

JOANNINHA

Em eu morrendo!

ANTONIO

É a ultima vez que to digo, Joanna. (Severo.) Has de casar com quem eu mando! E nem lagrimas tuas, nem lamentos de Maria das Dores, nem palavras do Vigario, me torcem desta resolução!

JOANNINHA

(Chorando e com muita dôr.) Eu... não choro nem lhe desobedeço. Deixo-me morrer.

ANTONIO

Historias! (Olhando para a filha com muita dôr.) As raparigas não morrem por tão pouco... não morrem... E tu... tu não me hasde morrer, filha... (Agarrando-a com muito amor.) Minha rica filha!

JOANNINHA

Meu pae! (Deitando-se-lhe nos braços, e escondendo a cara.) Se eu não posso viver sem elle...

ANTONIO

Viste-o hoje? Sei que chegou.

JOANNINHA

Vi-o; e ouvi os seus padecimentos. Tive tanto dó delle!

ANTONIO

Invenções... para te seduzir.

JOANNINHA

Não diga isso:..—Esteve em Demerara quazi como escravo: teve as febres, e foi levado para um hospital, onde não havia nem quem o tratasse. Pobre Luiz! Com elle fui creada, vivemos juntos... e... esta desgraça, causou-me tal dó... fez-me crescer tanto a... amizade, que já lhe tinha...

ANTONIO

E eu a escutar-te... a chorar quasi! (Limpando os olhos.)

JOANNINHA

Não se envergonhe pae. Só os maus é que não choram.

ANTONIO

(Repellindo-a sem violencia.) Gosto muito de ti, filha; mas as lagrimas e as festas não me fazem mudar. É para teu bem! Essas calumnias que dizem do Joze Velhaco... que não é capaz...

JOANNINHA

Elle é capaz de tudo.

ANTONIO

Joanna, que eu não torne a ouvir-te dizer mal do homem que está para ser...

JOANNINHA

A minha desgraça. Pae se soubesse...

ANTONIO

(Com muita colera.) Joanna!

JOANNINHA

Oiça; que é verdade. Escute!

ANTONIO

Diz... é mais uma calumnia, de que elle se defenderá.

JOANNINHA

Quando o Luiz foi para Demerara—enganado por elle, e levado pelo amor que me tinha—entregou ao Joze Velhaco vinte patacas, para Maria das Dores...

ANTONIO

E então?

JOANNINHA

Joze Velhaco roubou o pão da mizeria.

ANTONIO

É falso!

JOANNINHA

O Luiz e Maria das Dores não mentem.

ANTONIO

Se fosse assim, Joze Velhaco era um infame. Mas, dize me, Joanninha, se provar que tudo são mentiras promettes casar com elle!

JOANNINHA

(Com firmeza.) Prometto. Se elle provar que está innocente façam de mim o que quizerem.

ANTONIO

Verás! Mas fica descançada. Não sou capaz de te casar com um homem deshonrado.

JOANNINHA

(Abraçando-o.) Meu querido pae!

ANTONIO

Bem! Não precisas lembrar-me de que sou teu pae! Amanhã fica tudo destinado. Agora descançar, que são horas... O dia tem sido hoje inquieto para ambos nós. (Dando-lhe um beijo.) Adeos filha. Não queiras mal a teu pae. (Sae.)

SCENA V

Joanninha, depois Luiz do Campanario

JOANNINHA

Como lhe heide querer mal, se elle me estima tanto, o meu querido pae? (Caindo de joelhos deante de uma imagem da Virgem, que está pendurada na parede.) Senhora da Conceição, Protectora dos afflictos, ouvi-me. Peço descanço para a minha alma, Virgem Santissima, peço-vos, que longe de mim vá aquelle homem preverso! Soccorrei-o a elle... ao meu Luiz. (Durante esta oração Luiz entra pela janella, que estava cerrada e vem ajoelhar junto de Joanninha.)

LUIZ

Soccorrei-o, Senhora, e á innocente que vos pede!

JOANNINHA

(Levantando-se.) Luiz!...! Aqui?

LUIZ

Não me querias ver? Separados ha um anno... depois de tantas saudades?

JOANNINHA

E saudades taes! O susto de te perder, o temor de meu pae, e o horror d'aquelle malvado, tudo que era contra nós, quebrava-me as forças. E as lagrimas da tua triste mãe? Tudo... tudo me amofinava nesses dias amargurados. Mas agora que estás aqui, e voltaste do desterro, agora, parece que já me sinto outra.

LUIZ

Mas teu pae não consente!

JOANNINHA

Por ora. Já sabe do roubo, das vinte patacas furtadas a tua mãe. Ficou em duvida... e disse que me não casava sem Joze Velhaco mostrar a sua innocencia.

LUIZ

Não póde mostrar!

JOANNINHA

Meu pae hade deixar-se vencer das minhas lagrimas, e dos conselhos do sr. Vigario!

LUIZ

Agora mesmo o larguei, e prometteu-me, o santo homem, que hoje mesmo... havia de ficar tudo decidido. O Joze Velhaco perdido de todo, e nós felizes.

JOANNINHA

Luiz, bem sabes se eu te amo, e se ha alegria e vida para mim longe de ti; mas agora, assim de noite... não gosto de te ver... nesta casa. Podia alguem descobrir-te quando entraste, póde meu pae estar acordado, e sentir-te...

LUIZ

Tudo isso me occorreu... mas, o desejo de te ver... foi mais forte. O Vigario mandou-me chamar ha pouco, e disse-me, «Luiz, esta noite fica tudo deslindado; hoje acaba a tua desgraça... foi assim mesmo que me disse! É preciso que passes a noite nas visinhanças da casa de Joanninha.»

JOANNINHA

Porque?

LUIZ

Foi o que perguntei... «Depois o saberás» me respondeu elle. Obedeci. Estando perto, escondido, vi luz, olhei pela janella, e achando-te só, e ouvindo-te resar, não pude resistir, e entrei para pedir, comtigo, a Nossa Senhora que nos soccorra.

JOANNINHA

E que Deos nos ouça! Meu pae hade ceder por fim. Depois, que alegria! Quando formos ambos á festa do Monte, e todos disserem: aquella é a Joanninha, a filha de Antonio Prudente, que vai com seu marido.

LUIZ

Que é o mais feliz da Ilha, hão de acrescentar. Mulher como a delle não ha outra na Madeira! Bonita, séria, galante!...

JOANNINHA

Luiz.

LUIZ

Joanninha!

JOANNINHA

E quando será?

LUIZ

Cedo, bem cedo! (Esta scena deve ser representada com muita rapidez.)

SCENA VI

Os mesmos Joze, Joaquim, e dois marinheiros

JOZE

(Apparecendo á janella, com uma pistola na mão.) Veremos.

JOANNINHA

Ah!

LUIZ

Joze! (Correndo alguns passos para elle.) Agóra pagarás tudo... malvado!...

JOZE

(Apontando a pistolla para Joanninha, e em voz pouco elevada.) Nem mais um passo!... nem mais um grito. Não acordemos o sr. Antonio Prudente.

LUIZ

(Detendo-se.) O que fazes?

JOZE

(Entrando.) Mato-a, se te moves... se dás um grito! (Aos dois marinheiros que entram cautelosamente atraz delle seguidos de Joaquim.) Rapazes, segurem-me este heroe!

LUIZ

Maldito!

JOZE

Nada de resistencias, e de palavradas, senão temos desgosto na festa!

JOANNINHA

Jezus, acudi-me!

JOZE

(Aos marinheiros.) Segurem-o!... e para bordo... Que vá para Demerara, donde fugiu... o escravo!

LUIZ

(Rezistindo apenas.) Este homem sahio do inferno... Marinheiros!... Condoão-se de mim... e daquella desgraçada...

JOZE

(Aproximando-se de Joaninha.) Joanninha, tudo isto faço pelo muito amor, que te tenho!

JOANNINHA

E consente Deos isto?

JOZE

Vem commigo!

LUIZ

Não consintas, Joanninha!

JOANNINHA

Antes morrer.

JOZE

(Colerico.) Não morrerás, e serás minha.

JOANNINHA

Só tua, Luiz!

JOZE

Ajuda-me, Joaquim!

JOANNINHA

(Gritando.) Deixe-me, deixe-me.

JOZE

Se gritas... se dizes uma palavra. (Aponta a pistolla a Luiz.)

LUIZ

Grita... brada... pede soccorro...

JOANNINHA

Soccorro!

JOZE

(Cego de furia.) Morre, para não gritares! (Dispara a pistolla sobre Luiz, mas no momento de partir o tiro, Joaquim desvia-lhe o braço.) Errei! (A Joaquim) Que fizeste?...

JOAQUIM

(Tirando-lhe a pistolla, e segurando-o.) Chegou tambem a tua vez, Joze! Pagarás tudo agora. (Neste momento saltam pela janella, e entram arrombando a porta alguns homens do povo, guiados pelo Vigario.)

SCENA VII

Os mesmos, o Vigario, homens do povo, logo depois Antonio

VIGARIO

Segura-o, Joaquim.

LUIZ

(Armado com a faca de um dos marinheiros.) Tem firme, esse malvado: vou-lhe arrancar o coração!

VIGARIO

(Detendo-o.) Luiz! Luiz... diante de mim!..

LUIZ

É um preverso!

VIGARIO

A justiça o castigará.

ANTONIO

(Entrando espavorido.) Que é isto... em minha caza?

JOZE

Querem-me assassinar. Acuda-me!

VIGARIO

Calla-te...

JOZE

Vi entrar pela janella, na sua caza, o Luiz do Campanario. Vinha seduzir sua filha...

ANTONIO

Seduzir minha filha?...

JOZE

E para salvar a honra de Joanninha, da minha noiva... entrei atraz, com risco de vida... Quando ia para o castigar...

VIGARIO

Quando ias para roubar a donzella a seu pai, e estavas para mandar violentamente para Demerara esse homem, pela segunda vez, appareci eu, e frustei os teus planos.

JOZE

É falso, é falso!...

VIGARIO

Escute, Antonio, e veja o marido, que ia dar a sua filha... Este homem não te roubou o dinheiro, que deixaste para tua mãe?

LUIZ

Roubou.

VIGARIO

Não te convidou a ti, Joaquim, para aliciador de escravos brancos?

JOAQUIM

É assim sr. Vigario, e aqui está um papel asignado por elle... (Da-o a Antonio.)

VIGARIO

Para servir de prova.

JOZE

A obrigação que me pediste?!... Traidor!

VIGARIO

Não vinha elle aqui esta noite para furtar a filha do sr. Antonio Prudente!

JOAQUIM

Tal e qual; por signal, quiz que eu o acompanhasse.

VIGARIO

(A um homem.) Não foi o Joze Velhaco quem roubou as tuas filhas?

O HOMEM

Foi, sr. Vigario!

VIGARIO

Não são testemunhas todos, de que tentou agora matar o Luiz do Campanario.

TODOS

Somos.

JOZE

É mentira.

VIGARIO

Levem-o d'aqui. Amanhã será entregue á justiça, no Funchal. (Alguns homens levam Joze, que vai gritando: É mentira! é mentira!)

ANTONIO

Senhor Vigario salvou a minha honra... salvou... Perdoas-me filha?... salvou a minha querida Joanninha. (Abraça-a.)

VIGARIO

Pude salval-a... Mas fazel-a feliz, não depende de mim.

ANTONIO

O sr. Vigario manda nesta caza.

VIGARIO

Então mando que não haja ninguem triste. (Pondo a mão de Joanninha na mão de Luiz.)

ANTONIO

Mas, sr. Vigario...

VIGARIO

O Luiz, o marido que dou a tua filha, é o feitor de meu irmão, o morgado Bittencourt.

LUIZ

(Com fogo) Viva o nosso Vigario!

TODOS

Viva!

ANTONIO

Deos proteja o nosso Vigario.

VIGARIO

Deus proteja a Ilha da Madeira.

Cae o panno.

Fim do 3.º acto e do drama.