A A. DO QUENTAL

Em fumo se vai tudo, amigo! Olhando
Para as nuvens do céo, nuvens d'aquellas,
E parece-me ainda que mais bellas,
Anda a gente fazendo e desmanchando.

Dá-me uma saudade em me lembrando
O bello tempo que passei com ellas,
Por essa immensa abobada de estrellas,
Por esse mar de fogo viajando...

Andasse ainda eu lá, que não me havia
De vêr por estes charcos atolado,
Onde nem sol nem lua me alumia.

Andasse ainda eu lá, desenganado
Mesmo já como estou de achar um dia
A patria d'aonde ando desterrado.

Pois se o homem, se anjo e nume,
Planta e flôr,
Dá seu canto, luz, perfume,
Crença e amor;

Pois se tudo sobre a terra
Que ame alguem,
Rosa ou espinho, quanto encerra
Dá, se o tem;

Se os carvalhos, nus, medonhos,
Veste abril;
Se inda a noite presta aos sonhos
Graças mil;

Se onde ha ramo, voz uma ave
Desprendeu;
Se onde ha folha, gotta suave
Cahe do céo;

Se na praia, quando a onda
Vem de lá,
Beijos, antes que se esconda,
Mil lhe dá;

Tambem, anjo meu saudoso!
Te hei de emfim
Ah! dar quanto de precioso
Sinto em mim!

Dou-te o nectar, que me acalma;
Toma-o tu!
Sim, meu pranto; mais uma alma
Que eu possuo!

Dou-te os sonhos meus ardentes,
Mas leaes;
Dou-te as notas mais cadentes
Dos meus ais!

Do que ha lindo, tudo quanto
Me seduz;
D'esta vida, riso e pranto,
Noite e luz!

Dou-te o genio meu, que á sorte
Vês fluctuar
Sem mais véla, sem mais norte
Que esse olhar!

Dou-te a lyra, que me inspiras,
Sonho meu!
Que suspira, se suspira,
Flôr do céo!

Dou-te; aceita: tudo é santo,
Tudo, flôr!
Dou-te uma alma toda encanto,
Toda amor!

V. Hugo.

Coimbra.