A A. DO QUENTAL

Tal é a confiança que te inspira
Estes reis, estes povos, esta gente,
Que é para o céo que appella e se retira
Tua alma já de triste e descontente.

Mas Deus então seria ou impotente
Ou seria um Deus barbaro: mentira!
Não póde suspirar eternamente
Quem ha já tantos seculos suspira.

Vai ganhando terreno a luz brilhante,
Luz toda liberdade e toda amor
Que ha-de salvar o mundo agonisante.

A idéa, esse Verbo creador
Ha-de fazer que um dia e não distante
Só o nome de imperio inspire horror.

Messines.

Meu casto lirio,
Terno delirio,
Gloria e martyrio
Do meu amor!
Amo-te como
A haste o gomo,
O labio o pomo
E o olho a flôr.

Se ao meu ouvido
Sôa um rugido
Do teu vestido,
Que ouço roçar;
Que som me vibra
Não sei que fibra
Que me equilibra
A mim no ar!

E que harpa santa
É que me encanta
E enche de tanta
Consolação,
Quando uma falla
Terna se exhala
D'onde se embala
Teu coração!

Quando te vejo
D'um simples beijo
Córar de pejo,
Mudar de côr,
Que susto é esse
Que me parece
Te empallidece,
Rosa d'amor!

Quando no leito,
Teu niveo peito
Sonho que estreito
E aperto ao meu;
Vendo tão perto
O céo aberto,
Porque desperto...
Anjo do céo!

Não fujas, rosa!
Não fujas, goza
Manhã mimosa,
Manhã d'amor;
De folha em folha
A flôr se esfolha
Bem cedo, e olha
Que és como a flôr!

Coimbra.