GASPAR

Ora se não sei eu quem foi teu pai!
Fidalgo: sei perfeitamente bem.
O que eu não sei, Gaspar! é o que vem
N'esta vida fazer quem já lá vai.

Já se vê que é aos paes que a gente sái.
Tal pai, tal filho; sim, duvída alguem
Que um pai se é como o teu, homem de bem,
Tu és homem de bem como teu pai?

D'isto não ha quem possa duvidar.
Mas queres um conselho que eu te dou?
Não mexas n'isso... cala-te, Gaspar!

Que eu, cá por mim, bem sabes como eu sou,
Mas é que outro talvez mande tirar
Certidão de baptismo a teu avô.

Coimbra.

Deixa que ao romper d'alva o cravo abrindo,
Á rosa envie o aroma;
E lá quando alta noite a lua assoma,
O rouxinol carpindo!

Que pela face a lagrima resvale
De quem no exilio geme;
E quando a propria sombra o homem teme,
Que a mãi seu filho embale.

Deixa que ao espaço immenso os olhos lance
O sol antes que expire;
Que pelo norte a bussola suspire
E nelle só descance.

Amam leões e tigres. Não ha nada,
Anjo! que a amor se esconda.
Beija a pomba o seu par; e abraça a onda
A rocha inanimada.

Deixa que a nuvem negra tolde a lua
Se a leva a tempestade;
Deixa que eu te ame a ti, cara metade,
D'esta alma toda tua!

Coimbra.