I

CHEGADA

A SULAMENSE

—Tomára já ter o gosto
De o sentir beijar-me o rosto!

CORO DE VIRGENS

—E onde ha mulher que te exceda?
Só esse collo embebeda.
O aroma que elle exhala,
Nenhum balsamo o iguala.

2.º CORO

—O teu nome, fallar n'elle,
Só fallar n'elle é tão dôce
Como se um oleo nos fosse
Escorrendo pela pelle.

SALOMÃO

—Olha como todas ellas
Te estimam tanto, as donzellas.

A SULAMENSE

—Sou tua, leva-me, vamos.

CORO

—E nós, que te não largamos,
Te iremos correndo atraz
Pelo rasto de perfume,
Que deixas por onde vás,
Das pomadas com que dás
No corpo, como é costume.

A SULAMENSE

—Já el-rei me manda entrar
Para a sala do jantar.

CORO

—Para saltar de alegria
E festejar este dia,
A nós basta-nos lembrar
Que esse teu seio embebeda;
Nem ha mulher que te exceda.

2.º CORO

—Quem te vê seja quem fôr
Fica bebado d'amor.

A SULAMENSE

—Sou trigueira mas formosa,
Moças de Jerusalem!
Senão vêde o pavilhão
Que arma em campo Salomão,
Se ha coisa mais preciosa,
E por fóra a côr que tem;
Vêde as barracas dos moiros,
Por dentro tantos thesoiros,
Por fóra negras tambem.

Não vos dê pois isso pena,
Ter assim a côr morena:
Minha mãi mandou-me pôr,
Por culpa de meus irmãos,
De guarda á vinha, o calor
Queimou-me o rosto e as mãos:
E eu, a vinha, é escusado
Dizer-vos que nem eu tinha
Senão agora o cuidado
De estar a guardar a vinha.

Ah! para que banda vás
Com o gado, meus amores!
E pela folga onde estás!
Bem vês os outros pastores,
E a gente não adivinha.
Eu não hei-de andar atraz
D'esses rebanhos sósinha.

SALOMÃO

—Ah rainha das mulheres!
Olha como tu te enganas,
Que medo tens das cabanas,
Que medo tens dos rebanhos,
Que medo tens dos estranhos?
Não te dê isso cuidado,
Anda por onde quizeres
Tambem guardando o teu gado.
Em te vendo, mesmo só,
Toda a gente se desvia,
Como da cavallaria
Dos carros de Pharaó.

CORO

—Dás no rosto certo ar
D'aquella graça da rola,
Que até encanta, arrebata.

A garganta pódes pôl-a
Ao pé do melhor collar.

2.º CORO

—Um te havemos de nós dar
De oiro, ás pintinhas de prata,
Que é lindo, e has-de gostar.

A SULAMENSE

Já não sei pelo que aguardo
Que estando el-rei a jantar
Lhe não entorno por cima
Esta redoma de nardo
Que é um balsamo de estima.

Mas ha outro mais perfeito,
E com o qual me perfumo:Eu a myrrha que costumo
Trazer aqui em meu peito,
É mesmo aquelle a quem amo.
Nunca apanhei outro ramo
Nem outro alcanfor colhi
Nas hortas dos arredores
Da cidade de Engaddi.

SALOMÃO

—Como és bella, minha amante!
Terá a pomba esse olhar?
Outro não ha semelhante.

A SULAMENSE

—E quem mais bello e galante
Mais formoso, meus amores!
E mais de se cubiçar?

SALOMÃO

—Vês, o nosso leito é este,
Armado todo de flôres:
E olha o tecto é de cypreste,
Portas de cedro, tambem;
Aqui não entra ninguem.

A SULAMENSE

—Sou a rosa de Sarão,
A açucena do val.

SALOMÃO

—Amada do coração,
Entre as mais és tal e qual
Uma açucena entre espinhos.

A SULAMENSE

—E entre os mais o meu amado
A que ha-de ser comparado?
Vês tu no bosque a maceira?
És assim d'essa maneira.
Por lograr os teus carinhos
E boa sombra ha já muito
Que eu andava a suspirar:
Com effeito sombra e fructo
Nada deixa a desejar.

Elle deu-me do melhor
Que tinha na sua adega;
Mostrando-me assim primeiro
Como faz quem tem amor.
Trazei-me flôres de cheiro,
Que estou como tonta e cega...
Algum pomo, que esmoreço...
Já um braço me elle passa
Pelos hombros e me abraça
Pela cinta... desfalleço...
Ah desfalleço d'amor!

SALOMÃO

—Pela corça e o veado,
Moças de Jerusalem!
Não a acordeis, cuidado!
Deixar dormir o meu bem,
Um somno bem socegado.