JOÃO DE DEUS

João de Deus não é sómente um grande poeta, é um iniciador. A estrophe sahe-lhe do coração não só transparente e limpida, como um veio de crystal, mas espontanea, harmoniosa e originalissima, como todas as creações dos espiritos profundamente caracterisados e essencialmente creadores.

João de Deus é um grande scismador e um grande artista. Concebe admiravelmente, e executa melhor ainda. Cada lyrica é uma maravilha, cada estrophe um mimo, cada verso um primor. Reune á intelligencia apaixonada de Platão o delicadissimo senso artistico de Cellini. Ha n'aquella lyra notas e harmonias d'uma frescura e de uma novidade dignas de Homero ou de Wainamoinen. É que o talento poetico de João de Deus é essencialmente espontaneo e primitivo, se me permittem a expressão.

Parece que não ha n'aquelles versos nem estudo de modelos, nem influencia de escólas, nem escolha de assumptos.

A natureza poetica de João de Deus é sobre tudo virginal, sincera, innocente. Canta, não para que o escutem, mas porque nasceu poeta; chora, não para que o consolem, mas porque nasceu triste; medita, não para que o considerem, mas porque nasceu scismador. É poeta... e não póde ser mais nada; fizeram-n'o deputado talvez para fazerem um epigramma á poesia, que tantos tem feito—epigrammas, entenda-se.—João de Deus deputado é o mesmo... que um deputado João de Deus, duas entidades a rirem-se constantemente uma da outra, como os dois oraculos de que falla Cicero.

Um João de Deus nasce feito... não se faz d'elle cousa nenhuma; ha de ser sempre João de Deus, quer o façam rei, quer regedor de parochia. Ego sum qui sum, dizia o espirito mais profundamente original da humanidade. João de Deus, e os homens de uma individualidade assim tão caracterisada podem, salvo a irreverencia, dizer o mesmo.

A João de Deus deu-lhe para ser poeta; se lhe désse para ser diplomata era Bismark, e tinha a estas horas realisado a união iberica. Foi melhor assim, ao menos para se não acabar com a possibilidade de termos volumes como as Flores do Campo.

Dizem-me que João de Deus é um excellente tocador de viola, onde improvisa devaneios arrebatadores. Esta prenda caracterisa-lhe o talento artistico. É poeta como guitarrista e quasi improvisador como poeta. Aquella alma é uma lyra: vibra, estremece e canta ás aragens fugitivas da impressão. Natureza profundamente sympathica, tem um riso para cada alegria, uma lagrima para cada amargura, uma consolação para cada infortunio:

Despe o lucto da tua soledade
E vem junto de mim, lirio esquecido
Do orvalho do ceu!
Tens nos meus olhos pranto de piedade,
E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido,
Mulher! sou irmão teu.
Consolos não te dou, que não existe
Quem de lagrimas suas nunca enxuto
Possa as d'outro enxugar:
Não póde allivios dar quem vive triste,
Mas é-me dôce a mim chorar, se escuto
Alguem tambem chorar.

E não ha artificios n'esta poesia, que é singela como todos os grandes sentimentos, harmoniosa e virginal como um sorriso de creança, suave e consoladora como uma parabola de Christo, serena e luminosa como um dialogo de Platão:

Mulher, mulher! quando eu n'um cemiterio
Levanto o pó dos tumulos sósinho:
Eis, digo, eis o que eu sou,
Mas quando penso bem n'esse mysterio
Da virtude infeliz: Vae teu caminho;
Dois mundos Deus creou.

É poesia que se sente e que poucos exprimem, são versos que se admiram e que rarissimos os escrevem.

As imagens adejam-lhe em torno frescas, vivas, alegres e graciosas, como um bando de andorinhas em torno dos frisos d'um campanario:

Quando em silencio finges,
Que um beijo foi furtado,
E o rosto desmaiado
De côr de rosa tinges,
Dir-se-ha que a rosa deve
Assim ficar com pejo,
Quando a furtar-lhe um beijo
O zephiro se atreve.
............................

A bôca é tão vermelha que, em te rindo,
Lembra-me uma romã aberta ao meio
Quando já de madura está cahindo.
......................................
Quando a sua mãosinha pondo um dedo
Em seus labios de rosa pouco aberta,
Como timida pomba sempre alerta,
Me impunha ora silencio ora segredo.

Não ha nada mais gracioso, mais natural, mais espontaneo, mais facil! A gente chega a pasmar de não encontrar todos aquelles dizeres elegantes, todos aquelles versos formosissimos nos outros poetas, tal é a fluencia e a vitalidade d'esta inspiração.

Na voz de João de Deus ha as inflexões carinhosas de uma creança; os versos parecem caricias; têm a suavidade affectuosa das orações de uma santa e aquelle tom amavel e triste, mas nunca pretencioso, dos verdadeiros scismadores:

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
A luz que n'esta vida me guiava,
Olhos fitos na qual até contava
Ir os degraus do tumulo descendo.
..................................
Alma gemea da minha, e ingenua e pura
Como os anjos do ceu (se o não sonharam...)
Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.

Não sei se me voou, se ma levaram,
Nem saiba eu nunca a minha desventura
Contar aos que inda em vida não choraram.

Camões não a sentiu mais, nem a escreveu melhor esta poesia da tristeza, esta melancolia suave d'um scismador, esta saudade resignada de uma alma nas soledades do infortunio, nos desterros do isolamento. Ha alli poesia para vinte poemas, ha alli suavidade para vinte idyllios.

As rhimas parecem beijos, tão estreitas se enlaçam, tão ardentes se casam, tão apaixonadas se apertam:

Que magoa ou que receio
Dos olhos te desata
Aljofares de prata
No jaspe do teu seio?
Bem intima ser deve
A pena que te opprime,
Flôr tenra como o vime,
Flôr pura como a neve!
.......................
Vós, lobos! ide em bando,
Trepae pelo rochedo,
Uivae, mettei-lhe medo,
Levae-a recuando!

Que faz quem se approxima
D'um precipicio, diz-m'o?
Que buscas tu no abysmo
Se o ceu é lá em cima?

É só a lyrica intitulada—Heresta—que me fornece estes quatro exemplos; podia fornecer-me trinta e dois, porque são trinta e duas as quadras d'essa formosa composição.

Ás vezes o verso deixa de ser uma phrase e transforma-se n'um suspiro, a estrophe deixa de ser um canto e converte-se n'um arrulho. Tudo alli é muito amar, profundamente sentir e divinamente cantar:

Que é d'esses cabellos d'ouro
Do mais subido quilate,
D'esses labios escarlate,
Meu thesouro!
.............................
Que é d'uma flôr da grinalda
Dos teus dourados cabellos,
D'esses olhos, quero vêl-os,
Esmeralda!
Que é d'essa alma que me deste!
D'um sorriso, um só que fosse.
Da tua bôca tão dôce
Flôr celeste!

Tua cabeça que é d'ella
A tua cabeça d'ouro,
Minha pomba! meu thesouro!
Minha estrella!
..........................
E as desgraças, podia prevêl-as
Quem a terra sustenta no ar,
Quem sustenta no ar as estrellas,
Quem levanta ás estrellas o mar.
Deus podia prevêr a desgraça,
Deus podia prevêr e não quiz;
E não quiz, não... se a nuvem que passa
Tambem póde chamar-se infeliz.

Quem escreve d'isto, sente-o. Um homem não arranca ao seu espirito d'estas perolas sem as lá ter em sentimento e em amor. E só o alto calor d'um grande, d'um immenso coração póde cristallisar taes diamantes; o fogo sómente do craneo não produz d'estes milagres d'inspiração:

Não se é só pó no fim de tanta magoa,
Senão diga-me alguem que allivio é este
Que sinto, quando á abobada celeste
Alevanto os meus olhos rasos d'agoa.
....................................
Ha depois d'esta vida inda outra vida,
Não se reduz a nada o grão d'areia,
E havia de a nossa alma, a nossa ideia
Nas ruinas do pó ficar perdida?

Se isto não é inspiração, e alta inspiração, não sei que nome se ha de dar ás maravilhas do genio de Dante, de Shakspeare, de Camões ou de Victor Hugo.

Um espirito que se eleva a taes alturas tem obrigação de produzir um Hamlet, uma Divina Comedia ou uns Lusiadas.

Sente-se pela leitura d'este volume que Camões é o auctor predilecto de João de Deus. O livro abre até por uma composição que póde considerar-se uma verdadeira profissão de fé em poesia. A propria fórma poetica da maior parte das lyricas de João de Deus, um certo geito facil e correntio na composição grammatical dos periodos, a suavidade das rhimas, a doçura das expressões, a harmonia cadenciosa dos versos e um certo tom de intima melancolia que se faz sentir até nas idêas as mais graciosas revelam a decidida predilecção que o cantor da Heresta tem pelo desafortunado scismador de Macau.

É esta a feição seria, a feição elevada e talvez caracteristica do genio poetico de João de Deus. Como todas as grandes vocações, como todas as naturezas ricas, João de Deus porém não é menos apreciavel, nem menos digno de estudo pelo lado alegre, malicioso e a espaços finamente epigrammatico. Ás vezes chega a ser um observador digno de competir com Molière ou Tolentino. Os Caturras é composição de emparelhar com a Funcção ou com o Bilhar do diabolico professor de rhetorica; e o Gaspar póde pedir meças em ridiculo a qualquer dos frades grotescos da numerosa collecção de Bocage. E o epigramma aqui é tanto mais pungente quanto menos grosseiro, e a caricatura tanto mais graciosa quanto menos exagerada.

Ha alli o sal attico de Terencio e não a especiaria acinante de Plauto, a não ser talvez nos versos intitulados—Uma femea,—brazileiros no titulo e no sabor, d'um piquesinho de gosto bastante equivoco.

E já que entramos no capitulo das maculas, convém dizer-se que João de Deus é por vezes revolucionario de mais em assumptos de metrificação. Eu não gosto de absolutistas nem mesmo em poesia, mas tambem não morro de amores pelos tão republicanos que nos levem á demagogia. É preciso que sejamos um pouco constitucionaes em tudo. Ora a constituição poetica tem artigos que se não podem infringir sem se incorrer no crime de leso bom gosto, porque o bom gosto foi e ha de ser sempre o eterno legislador d'estes codigos. Um verso frouxo ou manco e uma rhima equivoca ou violenta hão de ser perpetuamente defeitos.

Quem disser o contrario ou é tolo ou tem ouvidos de cortiça. João de Deus cahe por vezes nestes dous peccadilhos, deixando alguns versos arrastados, e outros duros; estes porém muito menos frequentes do que os primeiros. Mais frequentes são as rhimas violentas, algumas realmente d'um mau gosto insustentavel, taes como: justiça rhimando com pinça, como a paginas 152; rio e viu, como a paginas 159, e ainda algumas outras.

É da tarifa dizer-se em occasiôes similhantes, como são da tarifa todas as vulgaridades, que não ha livro sem defeitos. Eu creio piamente na sentença, e até creio que um livro sem defeitos, se existisse, devia ser o mais defeituoso de todos os livros, o mais sorna e o mais semsaborão. Eu porém quando abro um livro não é para lhe andar a catar os defeitos pagina por pagina, como quem anda ao pulgão pelos vinhedos. O que busco n'um livro são ensinamentos, calor de vida, fogo de coração e luz de intelligencia; esplendores de espirito e esplendores de palavra; genio, alma e sentimento.

Ora um livro de versos onde ha composição como a Rachel, O Musgo, Ultimo adeus, o Remoinho, a Carta, e trinta outras lyricas de tal novidade e tal merecimento, tem obrigação de ter defeitos, por que sem elles... seria um livro impossivel, uma verdadeira monstruosidade. Diga-se aqui pois, e para se pôr ponto ao aranzel, que o livro de João de Deus tem maculas, mas que estas, como as do sol, desapparecem no meio dos esplendores d'aquella immensa luz de vida, de genio e de inspiração. Flores do Campo é finalmente um livro de versos, como ha poucos n'este paiz, desde que por cá se escrevem versos.[1]

Guarda, 4 de fevereiro de 1869.

Alexandre da Conceição.

[1]Jornal do Porto (1869) n.º 33.