LIVROS


REVISTA CRITICA BIBLIOGRAPHICA


Flores do campo, por João de Deus, publicadas pelo seu amigo José Antonio Garcia Blanco—Lisboa, typ. Franco-portugueza, 1868—Em casa de Ferin & Robin—1 vol. in-16.º—271.

João de Deus é um personagem semi-lendario na tradicção academica, e apesar de homem do nosso tempo, e tão do nosso que até com um diploma de deputado se nos apresentou ha pouco, anda-lhe o nome rodeado de quasi os mesmos fulgores e as mesmas sombras em que uma historia superficial ou mentirosa envolveu os velhos trovadores da Provença.

Permittam-me uma digressão.

Ha n'esta sociedade portugueza—já agora, ao que parece—condemnada a refocilhar em monturo de sanefas lantejouladas e rotas que lhe deixou o passado, e a dar ao mundo o triste espectaculo d'uma nacionalidade sem idêa que a represente na historia philosophica de amanhã, sem ideal que lhe seja pharol e bussola na tormentosa navegação das sociedades d'hoje; ha, digo, n'esta nossa sociedade amortecida: extraordinarias visões, mysteriosos anceios, esforços convulsivos como que filhos de ignotos impulsos, que bem poderiam passar por agonias e paroxismos annunciadores da proxima dissolução, se um diagnostico escrupuloso não encontrasse antes n'aquillo promessas de reacção proxima, de rejuvenescimento que não vem longe, de evolução fatal, que, em Portugal como em toda a parte, denuncia por aquellas aberrações e anormalidades a sua sublime prenhez d'uma nova idêa, d'uma era nova.

Erguem-se no meio da grasnada petulante ou esteril da litteratura, vozes persistentes... doces ou enthusiasticas, sympathicas ou ameaçadoras... frescas, novas, originaesraræ voces!—que parece irem na turba desmoralisada pôr em vibração alguma cellulasinha não contaminada do mal.

E a turba põe-se a escutar, a applaudir, a aspirar soffregamente os frescores e doçuras, que tão enormemente se distanceiam dos miasmas do ambiente habitual, do sabor da habitual pitança.

Alteiam-se, no meio da calaçaria geral, do geral e natural desanimo, vontades energicas que a pedraria da mestrança ignorante, intolerante e madraça não consegue desviar um momento da faina do estudo e da evangelisação scientifica.

E a turba vae attentando n'ellas, vae sympathisando com aquelles revolucionarios heroicos do marasmo, vae comparando-os com os idolos anões que, sem ella saber como nem porque se grudaram aos altares da sua admiração, vae fitando os novos horizontes para onde lhe apontam os novos chefes, vae-os seguindo já ao impulso d'uma necessidade indefinivel mas fatal. Ha n'isto, já se vê, alguma cousa d'allucinação infantil. Crê-se que os novos Moysés levam comsigo, completas, as verdadeiras taboas da lei, e rasgarão com a magica varinha as brumas que envolvem a terra da promissão.

Engano. Não lhes dão as forças para mais que para um terço do caminho, se tanto. Mas isso mesmo é muito, é o que basta. Hão de apparecer novos guias. A questão é saír da esterilidade do deserto.

Citemos porém dois factos, tiremos dois exemplos, apenas, de tantos que podiamos apresentar da revolução litteraria que se realisa surdamente no seio da nossa pequena sociedade.

Sejam elles, por hoje, dois poetas: Theophilo Braga e João de Deus; dois verdadeiros revolucionarios como outros de que para o diante terei de fallar. Um, apesar do mal que dizem d'elle, e do mal, que é maior talvez, que elle a si proprio faz, é inegavelmente um dos nossos poucos talentos originaes na concepção e na manifestação litteraria, na idêa e na fórma, e se não é marco que no futuro atteste um grande e brilhante progresso na litteratura patria, é como que atrio imperfeito e tosco, mas espaçoso e altaneiro que póde servir d'entrada a pantheon de explendidos engenhos.

E grande engenho é Theophilo, de certo.

Por entre uma saraivada d'apodos e improperios de mau gosto ou má fé, conquistou elle um logar elevado, na poesia portugueza d'hoje, cujos magnates na maxima parte, persistem, com risivel teimosia, em trazer-lhe engastada na corôa á laia de fina joia, o carvão da ignorancia, ou em mascararem-na com um falso e retrogrado classissismo.

Theophilo porém avançou menos do que devia.

O idealismo desvairou-o, o romancismo perdeu-o.

Um dia a voz sympathica, insinuante, ora melancholica e dolorida, ora—bem poucas vezes!—alegre e enthusiastica de João de Deus começou de fluctuar por sobre o borburinho cançado e monotono das nossas letras. Não se sabe como nem quando foi. Perdeu-se a chronologia biographica nos encantos do quasi—extasis. Sabe-se sómente que a reputação do poeta não nos entrou na terra, dentro do cavallo de pau d'algum chefe grego, mestrão consummado n'estas maquinações. Sabe-se tambem que João de Deus não andou por salas e officinas, annunciando a fazenda que tempos depois, atirada ao mercado, podia realisar o caso da mons parturiens.

João de Deus apparecia-nos uma ou outra vez n'um periodico de Coimbra; ora nos segredava uma estrophe singela e melodiosa pelo postigo de uma typographia alemtejana; ora surgia em um periodico da capital a contar-nos umas duvidas que o magoavam, umas saudades indefiniveis que o pungiam, uns vagos amores que lhe andavam rumorejando lá dentro em vagas harmonias.

E ninguem sabia quem era João de Deus. E ninguem procurava saber quem fosse. Ou antes, julgavam todos sabel-o. Conheciam-no todos. Era um cerebro em ebullição, um coração em ataxia permanente, um estomago que valia por uma adega.

João de Deus era um doudo que forrava as paredes do albergue com as folhas das sebentas, que dormia dentro da enxerga, porque achava mais commodo isto do que dormir-lhe em cima, que se matriculava todos os annos na faculdade em que o secretario-universitario se lembrava de matriculal-o, que fôra de Coimbra a casa, d'algibeira vasia e lapis constantemente occupado em fazer magnificos versos ou magnificos desenhos, que se fizera um dia sachristão, e pozera n'outro, todo um bairro em sobresalto, subindo aos telhados para apostrophar a lua, etc., etc.

E as anecdotas galantes succediam-se, e a cada nova poesia annexava-se uma historieta, e quando as poesias escaceavam, attribuiam-se ao poeta novas doudices, novas excentricidades, como a certo honrado e já defuncto general se attribuiam quantos dispauterios o soalheiro burguez produzia. Se eu fosse biographo de João de Deus havia talvez de lavrar aqui um protesto esmagador.

Como não sou, limito-me a dizer o que penso do illustre algarviense. Mais ou menos todos somos poetas. N'este mais e n'este menos está, creio eu, o segredo da organisação sensorial, se póde dizer-se assim, organisação modificada é certo, mas não completamente transformada pelo meio e pelo habito.

Tal sensação que n'uns individuos poria o cerebro n'um estado de effervescencia que lhe exagerasse a realidade, a ponto muitas vezes de a substituir por uma concepção puramente subjectiva, em taes outros póde dar apenas o facto funccional em condições normaes e ordinarias, e, concentrando-se, converter-se em reflexão. Precisava isto longo desenvolvimento. Ora como o primeiro modo de ser sensorial póde dar-se em todos, mas com mais ou menos intensidade, com maior ou menor frequencia, digo eu (e dizem bons escriptores) que todos são mais ou menos poetas. Isto quanto ao facto intellectivo. Quanto á expressão, o mesmo se póde dizer sem receio de contestação seria.

Pois na concepção como na palavra eu tenho João de Deus por verdadeiro poeta.

Dizia Merck, homem de profundo bom senso, a Goëthe, seu amigo:

«A tendencia irresistivel do teu genio é a de imprimir a fórma poetica ás cousas reaes. Outros procuram uma soi-disant poesia tranformando em realidades, puras imaginações, o que só produz disparates.»[2]

Sem concordar incondicionalmente com a primeira phrase do sensato allemão, sem querer acceitar a segunda como lei comprovada de critica litteraria, parece-me que de João de Deus se poderá dizer que reune as duas tendencias, as duas feições designadas, a idealisação (phrase consagrada e porventura inexacta) do real, e a personificação, melhor talvez, a realisação plastica do imaginario.

Como que as sensações sensoriaes[3] n'aquelle cerebro delicado, ou atravez d'aquelle organismo exageradamente impressionavel se destacam algumas vezes do estimulo, ou alteram a natureza da propria objectividade e criam um mundo novo, um mundo mystico, permittam-me a expressão, a que o poeta dá uma realidade objectiva moldando-o pelas manifestações plasticas do mundo em que vive. Acontece porém, poucas vezes, nem podia deixar de ser assim, quando a indole da época e a illustração do poeta se estão oppondo á formação e sustentação d'estas concepções puramente subjectivas. Adivinha-se aqui ou alli a lucta tremenda que vae no cerebro de João de Deus, lucta que é a feição caracteristica do seculo, e que o manto esfarrapado do eclectismo immoral não consegue abafar, lucta entre o velho crêr e a duvida, a duvida, que como a hydra da mythologia surge após cada decepamento, e que não é possivel destruir como aquella decepando-lhe o tronco. Ouvide um exemplo:

Prestes, se inda na rocha de granito
D'onde em tempo me vias, te sentares,
Não olhes para a terra, ou para os mares,
Olha sim para o céo, que é lá que habito.
Lá, tão longe de ti mas não do terno,
Bondoso pae que os dois nos ha gerado,
Só para magoas não, que bem guardado
Nos tem tambem no céo prazer eterno.

Que profunda crença, que certeza mystica, se póde dizer-se assim, não rescende a suave morbidezza d'estes versos! Ha alli alguma cousa do cantor da Bice. Vêde porém a tempestade que se annuncia; a duvida atravessou como um relampago o cerebro do poeta. Ouvide:

Não se é só pó no fim de tanta magoa.
Senão, diga-me alguem que allivio é este
Que sinto quando á abobada celeste
Alevanto os meus olhos rasos d'agua?
Mentem os céos tambem? Os céos maldigo.
Feras, tigres tambem o céo povoam?
Tambem os labios lá sorrindo coam
Veneno desleal em beijo amigo?
Mas na dôr é que os astros nos sorriem,
E os homens não sorriem na desdita.
Astros! fio-me em vós, e Deus permitta
Que os infelizes sempre em vós se fiem.

Refaz-se a crença, resurge a esperança consoladora:

Ha depois d'esta vida uma outra vida.
Não se reduz a nada um grão d'areia,
E havia de a nossa alma, a nossa ideia,
Nas ruinas do pó ficar perdida?

Pobre sonhador! Aquelle segundo verso é um protesto ironico contra o teu ideal mystico, é o grão d'areia que ha de intorpecer e desmandar todo o machinismo psycologico da tua crença!

Continúa:

Isso que pensa e quer (até me admiro)
Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva, etc.

e accrescenta:

Onde, não sei eu bem, mas sei que existe
Deus remunerador. Depois de mortos
Hemos de vêr-nos e um no outro absortos
Fartar de glorias este amor tão triste.
Tão triste e... (o coração que me adivinha?)
N'este supplicio nosso, este tormento,
Nunca dos labios teus minimo alento
Num só beijo bebi em vida minha!

Fulge de novo o relampago, baqueia o edificio da crença, vêde que tormento:

E morro sem te vêr! Cabeça douda
Desasissado amor? sonhar afflicto
Um sonho até morrer...

Pobre Hamlet!

... the rest is silence

Um sonho até morrer... Não: resuscito;
Morto tenho vivido a vida toda.

Pobre Faust! O insufficiente (das Unzuloengliche) atormenta-te, porque te fascina o inenarravel (das Unberchreiblichee). Que tempo precioso perde comtigo o sensato Mephistopheles!

Preferes á gargalhada que te chama á realidade da vida, o chorus mysticus que te amargura a existencia com a mentira da miragem!

João de Deus é rigorosamente um artista insaciavel: «Satiari artis cupiditate non quit,» como diria Plinio.

Adivinha-se em cada estrophe d'elle um ancear indefinivel, um vago aspirar, se póde dizer-se assim, uma como que miragem que atráe o poeta, que o alenta umas vezes e o desespera não poucas, que parece enviar-lhe dos visos do horisonte uns suaves frescores envoltos em deliciosos perfumes, e que como a miragem do deserto, lhe foge sempre aos labios sequiosos.

E o pobre viandante vae caminhando e cantando sempre. É um descantar dolorido geralmente, como que descantar de saudade do que sonhou e não acha, e não gosa, e não encontra no caminho, como que de saudade do que lhe foge sempre, deixem-me usar a dôce palavra que bem sei eu que não fica ella bem lexicographicamente applicada.

E assim com a imaginação embalada por um vago ideal vae João de Deus poetisando como Goëthe na opinião do seu, já citado amigo, tudo o que no caminho encontra. Poucas vezes se lhe altera a harmonia cerebral ao impulso d'uma vibração mais violenta. Os successivos amores—fundem quasi n'uma abstracção, parecem subtilisar-se até no feminino eterno do cantor do Fausto. Hoje Margarida, amanhã Helena, depois... Depois quem sabe?

Hoje Marina. É uma recordação.

Como esse olhar é dôce!
Dôce dâ mesma sorte
Como se nunca fosse
Toldado pela morte,
Como se alumiasse
O sol ainda em vida
As rosas d'essa face
Agora carcomida.
Colhesse-as eu mais cedo
E logo que alvorece,
Já não tivesse mêdo
Que a terra m'as comesse.
.........................
Se um dia nos meus braços
Te desbotasse as côres,
Passavam os abraços...
Passavam os amores!...

Oh não: mil vezes antes
No céo lá onde habitas
E os rapidos instantes
Que vens e me visitas
N'este degredo nosso
Que tanta gente estima,
E eu, só porque não posso
Não largo e vou lá cima.
Vem tu cá baixo, abala, etc.
.......................
Ha uma hora ou mais,
Marina! que contemplo
A casa de teus paes
Que é para mim um templo.
É esta vida um mar
E bem se póde a gente
Marina, comparar
A rapida corrente
Que vae de lado a lado
Por esses valles fóra
Sem nunca lhe ser dado
Ter a menor demora:
Pára quando a engole
Aquelle mar sem fundo;
Nem pára, é como o sol
E como todo o mundo.
.......................

Custa a resistir á tentação de transplantar para aqui completas, estas magnificas singelesas. Não ha n'aquillo alguma coisa do que é espontaneo e bello na Vita Nuova?

Mas, como dissemos, o poeta approxima-se tambem do Faust na volubilidade artistica.

Maria! vêr-te á porta a fazer meia
Olhando para mim de vez em quando
É o que n'esta vida me recreia.
...................................
E eu pallido, Maria! o pensamento
Não é trabalho que nos dê saude,
Esta imaginação é um tormento.
...................................
É que a gente na sua mocidade
Não cabe em si, não pára de contente
E assim fui eu na flôr da minha edade.
Tu eras n'esse tempo simplesmente
A flôr que vae nascendo e mais valia
Seres tão terna ainda e innocente.
Já esse lindo pé que tens, Maria!
Esse quadril tão largo e cinta estreita
Me não vinha á ideia noite e dia;
Esses encontros de mulher perfeita,
Esse peito redondo e arqueado
Como a pomba farta e satisfeita;

Talvez vivesse então mais socegado
Ou já que a minha sorte é sempre triste
Ao menos não andasse enfeitiçado.
...................................

Depois é Margarida:

Oh! que formosos dias, Margarida!
Esses, etc. etc.

Depois... Ha nomes que não se proferem, que não se denunciam. São como certo nome do Deus judaico.

O poeta diz simplesmente: No leito nupcial. Um nome depois d'isto fôra mais que uma profanação, fôra uma infamia. Julgaes porém que ides ouvir uma recriminação amarga ou uma indiscripção villã?

Dorme, estatua de neve,
Vergontea de marfim,
Tocar que impio se atreve
No que é sagrado assim!
Dois são: o mais, mysterio
Vedado á terra, Deus
Talvez do solio ethereo
Nem baixe os olhos seus.
Respeita-os, tapa-os, como
Japhet e Sem, o pae...
Pende sagrado pomo,
A vista ergue-se e cáe.

Ergue-se e cáe, conforme
A lei que o manda assim,
Ergue-se e... dorme, dorme,
Vergontea de marfim!
.......................
Não segue acaso a sombra
Teu corpo sempre, flôr?
E pois porque te assombra
Meu insensato amor?
.......................

Depois é Beatriz:

Tu és o cheiro que exhala
Ao ir-se abrindo uma flôr;
Tu és o collo que embala
Suas primicias d'amor.
Tu és um beijo materno,
Tu és um riso infantil;
Sol entre as nuvens do inverno,
Rosa entre as flôres d'abril.
Tu és a rosa de maio,
Tua és a flamula azul
Que atam á flecha do raio
As nuvens negras do sul.
.......................

E assim vae cantando sempre, de nome em nome, e de mysterio em mysterio e d'amor em amor, de duvida em duvida, de saudade em saudade, d'anceio em anceio. Não ha Beatriz que o retenha e lhe oiça o Ecce Deos fortior me veniens dominabitur mihi.

Um dia encontra uma mulher formosa, joven, alegre. Ama. Será amado?

Amas-me a mim! perdoa,
É impossivel! Não,
Não ha quem se condoa
Da minha solidão.
Como podia eu triste,
Ah! inspirar-te amor,
Um dia que me viste,
Se é que me viste... flôr!
.......................
Via-te arfar o seio...
Córar... mudar de côr,
E embora, ah! não, não creio,
Tu não me tens amor!

E o sonho foi-se e a visão desappareceu. Como se chamava aquella mulher? Vão lá saber como se chama a estrella cadente que rasga a amplidão do espaço e desapparece n'ella?

E foi uma estrella cadente, aquella. Perdoem a indiscripção.

Outro dia é o poeta que se afasta, que foge, porque receia macular com o seu halito o puro fulgor da estrella.

Tenho-te muito amor,
E amas-me muito, creio,
Mas ouve-me, receio
Tornar-te desgraçada.
O homem, minha amada,
Não perde nada, gosa;
Mas a mulher é rosa...
Sim, a mulher é flôr!
Ora, e a flôr, vê tu,
No que ella se resume...
Faltando-lhe o perfume.
Que é a essencia d'ella,
A mais viçosa e bella,
Vê-a a gente e... basta.
Sê sempre, sempre casta!
Terás... quanto possuo!

Vou findar com as transcripções, que bastam as que ficam feitas para comprovar o que ácerca d'estas mimosas poesias e d'este original poeta tenho dito e hei de para o diante dizer. Não posso porém resistir á tentação de citar ainda uns trechos d'uma das mais bellas e caracteristicas composições de João de Deus. Podesse eu transcrevel-a toda!

Não tem nome. Chamam-lhe alguns «A vida». Innumeras vezes tem ella feito cessar as alegrias das salas e interrompido brilhantes festas como o austero bispo de certa poesia de Thomaz Ribeiro, para mendigar ao sentimento das damas um condoimento de triste sympathia pelas intimas amarguras do poeta. Tem por epigraphe aquellas formosas palavras do Tasso:

Cosi trapassa al trapassar d'um giorno, etc.

e começa:

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
A luz que n'esta vida me guiava,
Olhos fitos na qual até contava
Ir os degraus do tumulo descendo.
Em se ella annuveando, em a não vendo,
Já se me a luz de tudo anuveava;
Despontava ella apenas, despontava
Logo em minha alma a luz que ia perdendo.
Alma gemea da minha, e ingenua e pura,
Como os anjos do céo (se o não sonharam...)
Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.
Não sei se me voou, se m'a levaram,
Nem saiba eu nunca a minha desventura
Contar aos que inda em vida não choraram.

Estas linhas fazem recordar Camões. Ha n'este tristuras que se manifestam por versos parecidos, mas eu prefiro estes ao tão conhecido soneto da «Alma minha gentil,» etc. Parece denunciar-se n'esta singelesa morbida, se póde dizer-se assim, mais sentimento e espontaneidade.

Vamos mais além. Que superabundancia de ímagens! Que riquesa e variedade de sensação! Que esplendidos quadros! Que magnificencia de colorido!

Ah! quando no seu collo reclinado
—Collo mais puro e candido que arminho,
Como abelha na flôr do rosmaninho
Osculava seu labio perfumado;
Quando á luz dos seus olhos... (que era vêl-os,
E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)
Lia na sua bôcca a Biblia santa
Escripta em letra côr dos seus cabellos:
Quando aquella mãosinha pondo um dedo
Em seus labios de rosa pouco aberta,
Como timida pomba sempre alerta,
Me impunha ora silencio, ora segredo;
Quando, como a alveloa, delicada,
E linda como a flôr que haja mais linda
Passava como o cysne ou como ainda
Antes do sol raiar, nuvem dourada;
...................................
Quando a cruz do collar do seu pescoço,
Estendendo-me os braços, como estende
O symbolo d'amor que as almas prende,
Me dizia... o que ás mais dizer não ouço;
...............................................

Quando o ouro da trança aos ventos dando
E a neve do seu collo e seu vestido
Pomba que do seu par se ia perdido,
Já de longe lhe ouvia o peito arfando;[4]
Tinha o céo da minha alma as sete cores, etc.
...........................................
...........................................
Que é d'esses cabellos d'ouro
Do mais subido quilate,
D'esses labios escarlate,
Meu thesouro!
Que é d'esse halito, que ainda
O coração me perfuma!
Que é de teu collo de espuma,
Pomba linda!
..............................
..............................
De dia a estrella d'alva empallidece;
E a luz do dia eterno te ha ferido.
Em teu languido olhar adormecido
Nunca me um dia em vida me amanhece.

Foste a concha da praia. A flôr parece
Mais ditosa que tu. Quem te ha partido,
Meu calix de crystal, onde hei bebido
Os nectares do céo... se um céo houvesse!
Fonte pura das lagrimas que choro![5]
Quem tão menina e moça desmanchado
Te ha pelas nuvens os cabellos d'ouro!
.....................................
A vida é o dia d'hoje,
A vida é ai que mal sôa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que vôa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvae:
A vida dura um momento;
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cáe!
A vida é flôr na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrella cadente,
Vôa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares
Uma apoz outra lançou,
A vida—penna cahida
Da aza da ave ferida,
De valle em valle impellida
A vida o vento a levou!

..............................
..............................
Talvez, é hoje a Biblia, o livro aberto
Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando
Vou pelo mundo vêr se a posso vêr;
E onde, como a palmeira do deserto,
Apenas vejo aos pés inquieta ondeando
A sombra do meu ser.
..............................

Depois d'isto comprehendeu-se que João de Deus se propozesse a traduzir o Cantico dos Canticos.

Como, se bem me lembro, diz Herder, os elementos primordiaes da poesia hebraica são a sensação e a imagem, e posto que, no meu entender, a boa critica não possa monopolisar aquella feição em favor apenas d'aquella poesia, porque ella é caracteristica de todas as litteraturas na sua genese, e nos primeiros periodos de constituição, em quanto predominam no homem os sentimentos elementares como diz Veron[6], comtudo a poesia hebraica propriamente tal quasi não chega a ultrapassar o periodo d'aquelle predominio. Poderiam talvez accusar-se os versos que acabo de transcrever de certo garridismo que mal iria ao sentimento que exprimem, se a violencia d'esse sentimento, o estado de exaltação sensorial não estivessem justificando o que parece defeito aos leitores que não sintam a transfusão psychologica que muitos hão de experimentar ante aquelles versos magnificos.

A poesia de João de Deus é verdadeira musica. Se eu estivesse agora para combater os que julgam como Lamartine[7] que a versificação, o rhythmo, a cadencia, a rima, são cousas indifferentes á poesia na «época adiantada e verdadeiramente intellectual dos povos modernos», os que teem tudo isso, como Heine (cit. por Max. Buchon) por completa puerilidade, para valente comprovação me podiam servir os versos do nosso poeta.

São elles geralmente como que uma psalmodía. Allia-se a musica e a poesia que tantos querem distancear, como se o rythmo fosse apenas elemento especial d'uma arte. João de Deus como que tem uma rhythmopêa espontanea. Sahe-lhe o verso moldado pela ideia e pelo sentimento, e n'este como n'aquelle a modulação existe pelas fataes variantes dos estimulos e das vibrações cerebraes. Procuraram os gregos systematisar as relações do rhythmo para com a idêa e o sentimento, como se fôra possivel marcar limite numerico aos modos de ser do pensamento, ou aos productos da actividade intellectual e esthetica. Se, pois, em muitos casos, são acceitaveis as velhas regras, geralmente a rhythmopêa deve ser producto espontaneo, e não canon de escóla. E porque se dá o primeiro caso em João de Deus, é que talvez se revela nos seus versos, bem salientemente o cunho da personalidade, condição essencial d'uma obra poetica. É necessario não perder aquella de vista, porque, como diz o critico francez, que atraz citei, o verdadeiro merecimento, na poesia, está antes na esthesia do poeta de que na do leitor. Ora bastam as transcripções que fiz para vêr como a personalidade do poeta, o seu sentir e pensar se patentêam na expressão, na fórma, que em outros escriptores mal disfarça com arrebiques e ouropeis a carencia da sensibilidade e inspiração pessoal.

Ha mais poesia n'algumas singelezas de João de Deus do que em muitos versos laureados que por ahi correm como modêlos de metrificação, e que bem podem sêl-o, o que não basta de certo.

Mais poesia em pobre margarida
Que aos pés se pisa, enthesourada vejo,
Que em muita madreperola polida
Que as cinzas guarda de finado arpejo.

Toquei eu agora n'uma das melhores poesias de João de Deus, poesia que elle diz ser fragmento, e fragmento que bem faz desejar a apparição da obra toda.

Vou ainda transcrever alguns trechos que lançam de certo muita luz sobre o vulto, quasi lendario do poeta, em pontos menos esclarecidos pelas transcripções anteriores.

Padre, ministro do Crucificado
É bom ferreiro afeiçoando o ferro
Com que ha de prestes ir rompendo o arado
Os campos d'este secular desterro...
....................................
Na montanha da Fé, mulher formosa
Se ante mim a meus pés desenrolasse
Como o demonio a vastidão pasmosa
Que elle dava a Jesus se o adorasse
E me pedisse em premio uma só cousa
Ás mãos de minha mãe furtar a face;
Eu lançava-lhe cuspo...
...................................

Vêde-a ao berço, sofrega de vida
Que a sua é pouca para dar ao filho;
Ella em cama de espinhos, mal vestida,
Elle enfaxado, em berço de tomilho;
Ella em continua, asafamada lida,
Elle vendo se apanha á luz o brilho...
Já descobrindo em tão tenrinha edade
Que toda a sua sêde é de verdade.
.................................
.................................
Irmãs da Caridade! A caridade
Tem só duas irmãs—a Fé e a Esperança:
Não traja as côres só d'uma irmandade,
Traja as côres do Arco d'alliança;
Leva sósinha o pão da piedade,
Tira da roda essa infeliz creança...
Roda da vida que anda de tal sorte
Que, em se lhe dando, é já contar com a morte.
Bemdita sejas tu, victima triste
D'um peito amante e d'um amante ingrato!
Que nunca á mesma loba lançar viste
Inda mamando o cachorrinho ao mato;
Bemdita sejas tu, que o que pariste
Teu fructo, imagem tua e teu retrato
Conservas como espelho onde te vejas;
Bemdita sejas tu, bemdita sejas.
................................
................................
Acaso é só dourada, altiva estola
Que liga os corpos em as mãos ligando,
Confunde corações e faz em summa
Que a Deus se elevem duas almas n'uma?

Ahi tendes o apostolo, o campeão social. Não lhe aceiteis, muito embora, a doutrina. Acatae-lhe a generosidade, a grandeza da ideia, a robustez da convicção. Que poema enorme, magestoso e bello não será aquelle!

Colligir as poesias de João de Deus que por ahi andavam dispersas, mutiladas e perdidas, foi de certo um grande serviço ás patrias letras.

Prestou-o o snr. José Antonio Garcia Blanco.

Poeta mais original, mais rico, mais verdadeiro do que aquelle, não conheço na litteratura portugueza, e tanto como elle, ha de ser difficil de encontrar entre nós, na litteratura d'hoje. Um certo mysticismo mal definido que recendem as suas poesias, é menos producto da tradicção que originalidade genial. João de Deus é um homem do Meio-dia com o vago ancear d'um poeta do norte. Opprime-o o insufficiente como ao Faust. Se lhe désse para ser philosopho, onde iria parar?...

Como poeta tem alguma cousa de Ossian com alguma cousa de Goëthe...[8]

Luciano Cordeiro.

[2] «Goethe et Schiller» por E. Rambert. (Revue Suisse—fev. 1869).

[3] Quando digo «sensações sensoriaes», fallo das sensações «externas e internas», como vulgarmente se classificam, e não excluo as que se dão sem realidade objectiva que as provoque, e que constituem o estado pathologico da «allucinação», estado a que porventura se poderia reduzir algumas vezes, creio, o «mens divinior» dos antigos. Esta ultima observação é minha, as anteriores são de Luys (Recherches sur le système nerveux, etc., etc., cit. par Littré) e E. Littré, De la méthode en psychologie (Phil. posit.—Revue—1.er vol.)

[4] Seguia-se a seguinte quadra, que não apparece na collecção e que eu acho não só egual em bellesa ás citadas, mas superior a algumas:

Quando o annel da bôcca lusidia,
Vermelha como a rosa cheia d'agua
Em beijos á saudade abrindo a magua
Mil rosas pelas faces me esparzia;

[5] Variante:

Oh lagrima das lagrimas que choro!

[6] Superiorité des artes modernes.

[7] Cours fam. de litt.

[8] Revolução de Setembro (1869) n.os 8012, 8015 e 8023.