D. Leonor d’Austria

D. João II, apezar do grande amor que consagrava a seu filho D. Jorge, mais tarde duque de Coimbra, cedeu á luz da razão, indicando como herdeiro da corôa o duque de Beja D. Manuel, irmão do desgraçado duque de Vizeu e da rainha D. Leonor, de quem já nos occupámos.

Como grande rei, o neto do infante D. Pedro continuou as descobertas maritimas; no entanto é licito ao historiador notar a hesitação d’este monarcha em acolher os serviços de Christovão Colombo, serviços que foram acceites por Fernando e Izabel de Castella, graças ao lucido espirito da rainha, predisposto pelo immortal Pedro Gonzalez de Mendóça, arcebispo de Toledo.

É esta a unica mancha do reinado de D. João II.

Nem a morte do duque de Bragança nem o assassinato do duque de Vizeu maculam a memoria do rei, que se viu obrigado a recorrer ao cutello e ao punhal para extinguir as desintelligencias do feudalismo perturbador constante da paz interna dos povos. Seu primo, el-rei D. Manuel, continuou-lhe a obra grandiosa, porém com politica e astucia e não com sangue e cadaveres, attitude esta que os golpes fundos e radicaes do seu illustre predecessôr lhe permettiam tomar.

Um tanto injusta a Historia, designa D. Manuel simplesmente como soberano venturoso. D. Manuel foi feliz pelo acaso de successão, pelos homens que encontrou e por essa serie d’epopeias grandiosas, obliteradas depois pela voracidade do ganho; mas foi grande pela sua politica de ferro, pelo seu espirito conciliador e pela attenção que, não obstante a influencia das preciosidades da India, sempre dispensou ao bem estar do continente: bastando para lhe dar jus á gloria de estadista a diplomacia com que soube tratar a visinha Hespanha.

Perdidas as esperanças de cingir a corôa de toda a peninsula, em vista do fallecimento da rainha D. Izabel, viuva do principe D. Affonso e herdeiro dos reis catholicos (24 d’agosto de 1498),[27] com quem se havia desposado, e do unico fructo do seu matrimonio, o principe D. Miguel da Paz (20 de junho de 1500),[28] o rei portuguez entendeu que a continuação de allianças com a nossa rival no poderio ultramarino era materia do mais alto alcance para a estabilidade das pacificas relações entre os dois paizes.

Tratára elle o casamento do sobrinho predilecto, o duque de Bragança D. Jayme com Leonor de Mendóça, filha do duque de Medina Sidonia no intuito de procrear amizade com o poderoso hespanhol, senhor de quasi toda a Andaluzia, de que era Fronteiro Mór.

Não pensava o rei, nos seus planos de diplomata, que o coração não se molda ao capricho dos politicos e que a desgraçada creança, inteiramente extranha aos tramas das conveniencias sociaes, seria, volvidos poucos annos, victima da justa vingança do marido, offendido na sua honra e no pundonor.

A deploravel catastrophe de 2 de novembro de 1512, em que o treçado do primeiro senhor do reino assassinava a esposa adultera, e as mallogradas pretenções á successão do throno de Castella, pretenções que já tinham sido alimentadas por seu tio D. Affonso V e por seu primo D. João II, foram os unicos desgostos que D. Manuel experimentou nos vinte e seis annos do seu reinado.

De resto a fortuna bafejava o pavilhão das Quinas; Vasco da Gama saiu do Tejo (sabbado 8 de julho de 1497)[29] no intuito de achar o caminho das Indias, dobrando o cabo da Boa Esperança. Na sua viagem descobriu a Terra do Natal, Moçambique, Mombaça e Melinde, cujo rei foi um fiel alliado dos portuguezes. Surgiu finalmente defronte do Calecut, onde a principio o receberam com enthusiasmo, que mais tarde esfriou em vista das intrigas dos mercadores musulmanos, os quaes adivinhavam no altivo estrangeiro a quéda da sua influencia commercial. Abriam-se de par em par as portas da riqueza; D. Manuel podia julgar-se o monarcha mais poderoso e mais rico d’então. Não tardariam as perolas, os rubis, as esmeraldas, a canella, o gengibre e a pimenta, monopolio da corôa.

Não tardariam as victorias de D. Francisco d’Almeida e de Affonso d’Albuquerque. E coberto de louros, incensado em fumo, precedido da força brutal das armas e do genio épico dos grandes capitães, o nome do rei subjugou o oceano e avassallou o Oriente.

Malaca, Ormuz e Gôa, renderam-se ao pulso rijo de Albuquerque. Gôa foi convertida em capital do projectado imperio que o grande capitão, nos seus planos de estadista, pretendeu fundar. Era necessario um cruzamento de raças: casassem os portuguezes com as mulheres da India; alijassem essas ideias puritanas, lembrando-se que toda a humanidade vinha de Adão...

João das Regras, Nun’Alvares e Albuquerque são as figuras mais valiosas do reinado d’Aviz. Um pela sua eloquencia que produziu uma autonomia; outro pela sua candura; e o ultimo pela rijeza do seu pulso de guerreiro e pela fortaleza do seu cerebro de politico.

Os dois primeiros morreram honrados no seu catre de louros. Nun’Alvares, mystico asceta, na solidão de um mosteiro. João das Regras, pae extremoso, no seio da familia. Albuquerque esse viu ao desprender-se do mundo a ingratidão real, remedeada já tarde,[30] e o seu corpo affeito ás luctas em prol da patria, levado aos hombros dos companheiros das suas glorias, com a barba branca, comprida e magestosa como a do Condestavel, é o retrato prophetico do futuro do emporio portuguez, cujas raizes tentára consolidar e que a desenfreada ambição do lucro, a sensualidade do Oriente, em que os soldados eram sultões e as casernas harens, deitaram por terra, como o vento do deserto abate a palmeira verdejante.

Albuquerque foi a personificação da lealdade, e a India nas nossas mãos foi um campo d’aleivosias.[31]

Mancha negra que ennodôa a Historia, o dominio portuguez no Oriente assemelha-se á impudica figura de Leonor Telles. Corrompeu côrte, costumes, homens e crenças. Com o pensamento na riqueza, o sentimento cavalheiresco afastava-se do soldado convertido em mercador. Já não havia essa simplicidade de outras eras. Sedas, joias e alfaias jorravam a olhos vistos, sem que ninguem sentisse que entre a descommunal riqueza se ia lavrando a sentença de morte de uma nação. O sensualismo entorpecia os espiritos, aconselhando os estofos perfumados dos salões com portas de ebano, paredes de damasco e pregaria de ouro á rudeza do marinheiro ou á espada do militar. Riqueza e gozo era o ideal de todos, n’aquelles tempos, cuja apparencia é tão risonha e cujo fundo é tão funebre.

Na metropole, D. Manuel, como feitor n’esta immensa fazenda, via-se assaltado pela multidão de operarios que não pediam trabalho, mas solicitavam mercês. A inveja mordia os feitos dos benemeritos e o rei deixava-se vencer por falsos conselheiros que vindos da India pintavam-lhe com negras côres as obras dos grandes homens. Feliz no poderio e na familia, casado em segundas nupcias com D. Maria de Castella,[32] irmã de sua primeira esposa, pae de numerosa descendencia, um tanto illustre, é certo, mas bem longe de ser um arremedo da de D. João I, o poderoso rajah da Europa, cego por tanto brilho, deu ouvido aos embustes aventureiros, maculando o seu nome na ingratidão para com os servidores leaes.

De novo casára em Alcacer do Sal (30 d’outubro de 1500) e passados dois annos a successão do throno estava assegurada pelo nascimento do principe D. João. Além d’este, oito filhos lhe garantiam a independencia da corôa: D. Izabel, esposa do imperador Carlos V; D. Brites, duqueza de Saboya; D. Luiz, duque de Beja, poeta distincto e discipulo do grande mathematico Pedro Nunes; D. Fernando, duque da Guarda, que casou com D. Guiomar Coutinho, herdeira do conde de Marialva; D. Affonso, que foi cardeal, bispo de varias dioceses e arcebispo de Lisboa; D. Henrique, cardeal, arcebispo e mais tarde rei; D. Duarte, duque de Guimarães, casado com D. Izabel de Bragança, filha do duque D. Jayme e pae de D. Catharina, esposa de seu primo o duque D. João I, d’onde proveio á casa de Bragança o direito de successão por morte do cardeal rei.

Extremoso chefe de familia, sem ter amante nem bastardo, doido pela mulher que foi um anjo do lar, a morte arrebatou-lh’a (7 de março de 1517), volvidos dezesete annos de íntima convivencia.

Estava vago o logar que assegurava a Portugal a amizade de Castella. Cumpria prehenchel-o novamente, e D. Manuel, como homem pratico e politico habilissimo, incumbiu-se d’esta missão. Viuvo e saudoso da esposa que perdêra, o filho do infante D. Fernando, o obscuro duque de Beja, chamado á corôa por um acaso feliz, raro na Historia, o monarcha senhor de meio mundo, o rei de vassallos tão illustres quão sabios e leaes, determina um bello dia abdicar no primogenito e ir-se ao Algarve, como Fronteiro Mór, guerrear os sectarios de Islam.

Porém, o piedoso intento só se realisaria consummado o matrimonio do principe com D. Leonor d’Austria, filha de Joanna a louca e de Filippe I de Castella.

Recusada a proposta de D. João, que se achava embeiçado em amores desiguaes,[33] D. Manuel cumpriu a palavra dada desposando a princeza que destinára ao filho. O consorcio realisou-se no Crato (24 de novembro de 1518).

No contracto lavrado a 16 de julho do mesmo anno ficou tratada a dotação da nova soberana, que entraria na posse da Caza das Rainhas logo que fallecesse D. Leonor de Lencastre, viuva de D. João II e irmã d’el-rei D. Manuel.

Leonor d’Austria tambem tem a fronte aureolada pelos louros do martyrio.

Foi um joguete nas mãos do irmão. Casaram-n’a com um homem edoso, pae de numerosa descendencia; e mais tarde, depois da morte d’esse rei (13 de dezembro de 1521) que a não amava, nem por ella era amado, obrigam-n’a a abandonar a filha idolatrada, a gloriosa infanta D. Maria, a futura protectora das lettras, o penultimo lampejo da Renascença.

A politica endurece o coração dos soberanos. Carlos V queria fisgar Francisco I, mas precisava d’um laço que o prendesse á sua obediencia. Esse laço foi a viuva do rei de Portugal.

Casada com o soberano francez, D. Leonor teve de abandonar a filha, que só viu trinta e quatro annos depois! Se foi cruel o seu martyrio, em compensação, o ente que de longe abençoava, soube exaltar a sua memoria e honrar o nome de quem lhe dera o ser, concorrendo para o engrandecimento do seu paiz. A sciencia d’estes factos seria um lenitivo para a pobre mãe, que, não obstante a distancia, lhe dirigia os passos. No entanto a Providencia destinou-lhe n’este mundo um premio digno dos seus soffrimentos. Aos cincoenta e nove annos de edade (1498-1558)[34] teve a ventura de abraçar, em Badajoz, o enlevo da sua vida, a qual terminou em breve.

Conforme o juramento que os habitantes de Lisboa lhe exigiram á partida,[35] a infanta D. Maria deixou sua mãe nos territorios de Hespanha e regressou á sua patria; porém, Leonor d’Austria tinha os seus dias contados, e falleceu pouco depois, em Talaveruela, aos 25 de fevereiro de 1558.[36]

Os dois thronos em que se assentou foram para esta princeza dois tumulos precoces: um matou-lhe a mocidade algemada á velhice; outro amordaçou-lhe o mais bello predicado do coração da mulher—o amor de mãe.