D. Leonor de Lencastre
A Historia retrata-nos Affonso V como um dos soberanos mais voluveis e ambiciosos que se tem sentado no throno portuguez. Filho de D. Duarte o fraco mas sabio rei, e de D. Leonor, casta mas censuravel rainha, Affonso V mostrou que não degenerára dos seus progenitores.
Amou as lettras e protegeu-as, proseguiu no augmento da bibliotheca de seu pae, e continuou as emprezas africanas conforme os desejos de D. Henrique.
Alcacer Ceguer (1458) Tanger e Arzilla (1463) são monumentos que attestam o patriotismo que lhe adornava a alma, áparte a volubilidade e a ambição.
Talvez fosse esta que o levasse a consentir na morte do regente D. Pedro; póde ser que mesmo afastado da côrte, o rei visse em seu tio um estorvo para dar largas á sua absoluta vontade. De facto, aquelle homem fleugmatico, methodico, grande em tudo, que o tinha creado como um pae, impunha-se-lhe involuntariamente. Não obstante a sua pouca edade, a Historia não o póde absolver da sanguinolenta tragedia d’Alfarrobeira e do condemnavel procedimento de ter durante tres dias insepulto o cadaver do mallogrado infante e de o privar, por espaço de annos, da sepultura que D. João I lhe destinára no Mosteiro da Batalha.
Uma guerra injusta alvoreceu com o seu reinado; outra lhe terminou a existencia, crivando de desgostos o desgraçado monarcha, cheio de desenganos e de crueis penas do triste passado.
Velho aos quarenta e nove annos, desanimado de todo pela sorte das armas, que lhe refreavam os vôos, abatido no Toro (1476), Affonso V falleceu em Cintra aos 28 de agosto de 1481.
Logo depois subiu ao throno seu filho D. João II, que já nos ultimos tempos da vida do pae governava de facto o reino.
N’este principe depozera as suas esperanças, nas horas amargosas do infortunio, a pobre e desgraçada mãe; a elle, por consequencia cabia vingar a memoria do avô, memoria de todo rehabilitada quando o neto lavasse as mãos no sangue dos assassinos.
A morte do duque de Bragança (21 de junho de 1483) e a do duque de Vizeu (23 d’agosto de 1484) foram golpes crueis vibrados por braço herculeo contra o poder descommunal que assassinára D. Pedro.
Consummada a vingança e consolidado o cesarismo, o rei converteu-se em senhor, apoiado no poder absoluto, uma das más feições da Renascença.
N’este empenho, D. João II sacrificou os proprios membros da familia, alanceando o coração da esposa que vira aos pés do marido morto ás punhaladas, o cadaver do louco e desgraçado irmão.
Tendo apenas dezeseis annos (22 de janeiro de 1471), o pae casára-o com D. Leonor de Lencastre, filha do infante D. Fernando e D. Izabel de Bragança.[25]
Toda a generosidade da raça d’Aviz actuou n’esta princeza, digna successora de D. Filippa; todas as virtudes domesticas, todo o zelo pelo bem da patria e pelos progressos das sciencias tiveram o seu culto no animo generoso de D. Leonor, que, para não desmentir o destino fatal das suas predecessoras, tambem teve o martyrio a crucificar-lhe a existencia.
No cerebro do marido desenrolava-se o imperio do mundo; as descobertas continuavam-se e o nome portuguez dilatava-se triumphante por toda a terra; Diogo Cão descobrira o Zaire (1484-1485), João Affonso d’Aveiro chegára á Guiné (1486) e Bartholomeu Dias dobrou o Tormentoso cabo, primeiro indicio da derrota da India.
O commercio desenvolvia-se activamente, tornando Lisboa quasi rival de Veneza. Um futuro brilhante como o fulgor de uma joia naturalmente parecia sorrir ao principe D. Affonso, esposo da herdeira de Castella e filho de D. João II e de D. Leonor; n’elle se haviam de reunir todos os potentados da peninsula e dos Dois Mundos, todas as riquezas do Oriente e do Occidente!
Havia de ser o primeiro monarcha do universo! na sua fronte repousaria a corôa que mais tarde foi cingida pela casa d’Austria. O sonho d’esta felicidade plausivel florescia perante os espinhos que o espirito vingador do rei semeára no lar domestico.
Apezar de mortificada, D. Leonor via no marido o soberano illustrado e audaz, que preparava para o filho um futuro inegualavel.
Essa creança era o espirito de conciliação que existia entre os dois; era o élo que os ligava ao commum interesse do povo. Mas como a nuvem altaneira trepa a grimpa dos montes e esconde o sol radioso, a morte surgiu a derribar o arbusto que alargava as suas raizes por todo o sólo conhecido.
Morto D. Affonso (13 de julho de 1491), o sonho idealista desappareceu e com elle a existencia do rei (25 de outubro de 1495).
Depois de viuva, D. Leonor dedicou-se á caridade e ao desenvolvimento das lettras e artes; introduziu a imprensa em Portugal;[26] fundou a Egreja da Merceana, no termo de Alemquer, o hospital das Caldas da Rainha, as Misericordias, e deu principio á construcção das capellas imperfeitas da Batalha, mais tarde mandada suspender por seu irmão el-rei D. Manuel.
No reinado d’este soberano, a rainha recebeu o lenitivo de todos os seus passados desgostos; viu o auge da prosperidade da patria, deixando-a grande e feliz quando falleceu em Lisboa aos 17 de novembro de 1525.
Jaz no convento da Madre Deus.
Quem fôr ao mais eloquente monumento da nossa nacionalidade, quem visitar os athaudes de D. João I, de D. Filippa e de seus illustres filhos, sentirá que na crypta murtuaria da Batalha estão vagos dois logares.
Nuno Alvares e Leonor de Lencastre ausentaram-se d’aquelle épico conjuncto de tumulos, onde dormem o somno eterno os mais brilhantes vultos da unica épocha de verdadeiro progresso que existiu n’esta terra.