D. Marianna Victoria de Bourbon

Seguindo a politica de seus maiores, D. João V entendeu conveniente reatar os laços de antiga amizade com a visinha Hespanha; e como as allianças de familia se lhe figuravam mais vantajosas do que todos os tractados internacionaes, resolveu el-rei acceder aos desejos do monarcha castelhano, que manifestára ao nosso embaixador quanto anhelava que fossem seguidas, então, as reciprocas tradições dos dois paizes.[50]

Assim se contractou a 7 de outubro de 1725 o casamento do principe D. José com a infanta D. Marianna Victoria de Bourbon, filha de Filippe V e de Izabel Farnése. A 25 de dezembro de 1727, o marquez d’Abrantes fazia o seu pedido em fórma á côrte de Madrid, que foi secundado por outro que a 6 de janeiro do anno seguinte o ministro hespanhol, marquez de Belvases, dirigiu ao rei de Portugal, sollicitando a mão da princeza D. Maria Barbara de Bragança para o principe das Asturias, D. Fernando de Bourbon. Um anno depois (19 de janeiro de 1729) encontraram-se as duas familias nas margens do Caia, onde se procedeu á entrega das noivas dos herdeiros das corôas portugueza e castelhana.

Como dote, recebeu D. Marianna Victoria quinhentos mil escudos do Sol, por parte d’el-rei seu pae; obrigando-se D. João V a dar-lhe para os seus alfinetes o valor correspondente a oitenta mil pesos e um rendimento annual que equivalesse a vinte mil escudos do Sol.[51] Foram estes os bens da princeza, até ao fallecimento de D. Marianna d’Austria, que teve logar depois de seu marido subir ao throno com o titulo de D. José I.

O reinado d’este soberano foi um dos mais notaveis da Historia de Portugal. Teve medidas que mostram o talento do ministro que as decretou, e teve barbaros sacrificios, que deshonram a memoria do homem que os commetteu e do vingador que as iniciou. Os juizos dos historiadores são geralmente oppostos quanto ao merito do personagem que foi senhor do animo de D. José. De facto, a individualidade do marquez de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Mello, o grande heroe da situação, é tão complexa, abrange phases tão diversas, que do lado dos seus sequazes e dos seus inimigos teem surgido louvores demasiados e depreciações excessivas. Fidalgo de provincia, o seu valimento assombrava a aristocracia, acostumada a dirigir os destinos do paiz; se alguma vez a nobreza provinciana se ousava sentar nos conselhos da corôa, o applauso aristocratico tinha referendado a concessão regia. Pombal, porém, subiu ao maior fastigio do poder, elevou-se á grandeza, sem que o veredictum dos cortezãos validasse a honraria. D’ahi toda a inveja das altas classes, que injustamente lhe chamavam plebeu, e todo o odio do ministro aos que se tinham por seus superiores.[52]

Entretanto, Pombal não fundou uma escola democratica, porque saiu da craveira de fidalgo de provincia, ambicionando uma corôa de grande; e nos seus proprios casamentos, como nos de seus filhos, está bem demonstrado que o ministro não desadorava as proeminencias sociaes, e que talvez todo o seu odio selvagem não fosse só motivado pela emulação dos nobres, mas tambem pelo seu proprio ciume d’esses que se vangloriavam de ser os immediatos do soberano, seus companheiros na defeza do throno, de que tinham sido creadores e muitas vezes defensores nas suas mais perigosas crises. O exterminio dos Tavoras e do duque d’Aveiro, os capatazes da aristocracia, o foco d’onde se projectavam todas as iras contra elle, calcou-lhe a sepultura da arvore derribada pela sua erronea conducta desde o reinado anterior.

Esta face do marquez de Pombal não é sympathica, nem attrahente; revela a baixeza e indica a velhacaria que elle possuiu no mais alto grau. O seguinte facto é bem significativo:

Era o conde d’Obidos, D. Manuel d’Assis Mascarenhas, meirinho-mór do reino, brigadeiro de cavallaria, gentilhomem da real camara, muito privado de D. José, com quem se creára e com o qual sempre mantivera as melhores relações d’amisade.[53] Uma vez o conde advertiu el-rei de que não seria bom dar tanta confiança a Sebastião de Carvalho, que então principiava a dominar o animo do monarcha; este communicou-lhe em conversa o recado do fidalgo, o que foi sufficiente para o ministro se lhe ir ajoelhar aos pés, pedindo-lhe pelo amor de Deus que o não desviasse da intimidade do soberano... Depois, seguro o valimento por fortes laços, o conde d’Obidos foi preso nos carceres da Junqueira, o theatro dos horrores, das vinganças e dos infames despeitos do marquez de Pombal.

O terramoto de Lisboa (1 de novembro de 1755) veiu de todo convencer D. José do alto valor do seu predilecto. De facto, maior prova se não poderia exigir para experiencia da energia de um homem. Derribada a cidade, devoradas as ruinas pelo incendio, estimulados os malfeitores pela confusão da necropole, no meio da anarchia que se apoderou no animo de todos, o espirito do ministro manteve-se sobranceiro e forte, arcando com a violencia da natureza. Era na verdade um genio descommunal! não admirava que destruisse o passado, que abalasse as velhas tradições, como a catastrophe destruira os edificios e abalára a terra, se, perante a hecatombe, foi elle o unico que lhe resistiu de frente. E Lisboa ergue-se alinhada, symetrica, magestosa e soberba, como rindo-se do que fôra e applaudindo o castigo da sua antiga depravação... Depois d’isto, para o rei já não existiam duvidas; adormeceu tranquillo, fazendo da corôa repouso e do manto agasalho para o vento do remorso, impellido pela voz do dever, se é que essa voz se atreveu a fazer-se alguma vez ouvir da consciencia d’um homem como foi D. José.

O sceptro entregou-o ao ministro. D’ahi por diante, de rei só teve a sua assignatura nos diplomas, alvarás, decretos, cartas regias e despachos de mercês. De resto, foi uma creança para quem Pombal fazia Tapadas para seu divertimento... Mais nada a Historia póde dizer d’elle.

A reforma da pauta de commercio (1755), a companhia dos vinhos do Alto Douro (1756), o Erario e o Collegio dos Nobres (1761), a reforma da Universidade (1772), e a abolição da escravatura no continente (1773) são as principaes medidas da dictadura pombalina. Quem escrever a Historia com a imparcialidade devida, tem de se curvar á sabedoria d’esta legislação e applaudir, se não em absoluto, pelo menos em parte, estes actos do ministro, embora reprove o seu procedimento cruel, selvagem mesmo, para com a nobreza e para com o clero, os dois potentados que lhe disputavam a influencia e o poderio. Este era tão grande no animo do monarcha, quanto diminuto no espirito da rainha.

D. Marianna de Bourbon odiava-o e quando D. José se viu prostrado pela doença e lhe entregou (29 de dezembro de 1776) as redeas do governo, o poderio do ministro foi descendo gradualmente. Mandado retirar da camara do seu agonisante amo, dispensado das funcções de mordomo-mór, que exercia, o marquez politicamente succumbiu tambem quando D. José, cuja morte teve logar a 24 de fevereiro de 1777. Subindo ao throno D. Maria I, começaram as represalias contra Pombal, para o que a viuva influiu bastante perante sua filha. Conhecedor do novo terreno, o ministro demittiu-se, recebeu a commenda de S. Thiago de Lanhoso, e ordem de desterro para a terra que lhe servia de titulo, onde falleceu aos 8 de maio de 1782. Este acto de D. Marianna Victoria de Bourbon foi o seu unico acto politico que a Historia nos aponta. Durante a sua vida, occupou-se unicamente na lide domestica e em conciliar as rixas entre Portugal e Hespanha, que deram motivo á guerra de 1762-63. No mais, foi alheia aos negocios do Estado, e só a perseguição ao marquez de Pombal é que poderá tornar o seu nome pouco sympathico para muitos, cujo idolo é o grande estadista do seculo XVIII.

Notaremos que as duas pessoas que mais influiram no banimento do ministro, ambas tiveram um fim desgraçado.

D. Marianna de Bourbon, inchada, hydropica, n’uma agonia cruciante, falleceu no paço d’Ajuda, em 15 de janeiro de 1781. D. Maria I, essa viu-se doida e fugitiva em estranhos hemispherios. Ignorante de que tinha vencido o primeiro soldado d’este seculo, a herdeira de D. José falleceu no Rio de Janeiro, aos 20 de março de 1816.

Apesar de todas as circumstancias, esta soberana, no que diz respeito a Pombal, reconheceu os serviços do estadista, condemnando as demasias do vingador.

Aquella mulher, attribulada por tanto crime, junto a tanto beneficio; a tanta compaixão pelos desgraçados e a tanto respeito pela memoria do pae, viu-se nas trevas da loucura que foram fataes a ella e a Portugal.

Que D. Maria I tomou a serio o seu cargo, ninguem o contesta. As medidas uteis dos primeiros tempos do seu governo não mostram unicamente o tino dos ministros (conde da Barca e Martinho de Mello e Castro), mas tambem o são criterio e boa vontade da rainha, tão desgraçada, quão digna, pelo seu caracter, de mais prosperas venturas e de mais explendorosos fins.

Aqui termino o meu trabalho, não me querendo constituir em juiz de personagens contemporaneos, aggravar feridas ainda mal saradas, remexer muito episodio que já está olvidado. Comtudo, se algum dia, amansadas mais as furias partidarias, alguem julgar util o meu concurso, procurarei satisfazel-o, seguindo a mesma orientação—a imparcialidade e a independencia.

O que está feito obedece a um impulso natural, a uma tendencia irresistivel para o estudo da Historia patria; não foi a politica, que puz de parte, nem o interesse, que é nullo. Se assim fosse e me visse obrigado a sacrificar o proprio sentir a inspirações alheias, a consciencia vergar-me-hia hoje sob o peso do remorso de ter prostituido a penna. Tal não aconteceu, e embora não conseguisse triumphos litterarios que nunca se acastellaram na minha phantasia, sinto-me satisfeito de ter exposto o que me domina o espirito, o fructo de longo estudo e de concisa meditação.