D. Marianna d’Austria

Depois do fallecimento de D. Pedro II, subiu ao throno seu filho o principe D. João, que ao tempo contava dezesete annos d’edade. A herança não era coroada pela paz, e o rei não tinha a experiencia necessaria para dirigir o leme do Estado ao ponto que mais influisse ao progresso e desenvolvimento nacional.

Continuou, pois, a orientação do pae, envolvendo-se na guerra de Hespanha, só concluida a 11 d’abril de 1713, pelo tratado de Ultrecht. Ahi, Portugal não recebeu a minima compensação dos seus pesados sacrificios; o duque d’Anjou foi reconhecido como rei, e o archiduque, já imperador d’Austria, teve na partilha os Paizes Baixos, Napoles e Milão. Depois da contenda tivemos de libertar o Rio de Janeiro da occupação do almirante francez Duguay Trouin, e mais tarde (1716-1717) a perseguição dos turcos, em soccorro do papa Clemente XI, que o havia sollicitado por intermedio da rainha D. Marianna d’Austria, com quem D. João V se desposára no dia 27 de outubro de 1708.[46]

De resto, um longo periodo de paz envolveu sempre este reinado.

O rei tinha a preoccupação do fausto e da magnificencia; entendia que sem a ostentação requintada da realeza, a corôa seria um mytho indigno do mais plebeu dos seus vassallos. Esta idéa de D. João V foi coherente com a de D. Manuel desde o diluvio do ouro da India, agora substituido pelas minas do Brazil.

Acabára a Asia, mas ficára a America para farto manancial do genio degenerado e decadente do portuguez. Para cumulo d’estimulo tinha o rei o exemplo de Luiz XIV, seu mestre e seu espelho; havia de ser grande, não como alguns dos seus pacatos avós, bons homens e bons guerreiros, paes dos povos que militavam a seu lado no campo da batalha, e que, saradas as feridas da refrega, lhe vinham administrar justiça, de aldeia em aldeia, como bons pastores, zelosos do seu rebanho. N’aquella epoca, das virtudes antigas só existia a memoria; rei e fidalgos dormiam sobre os louros adquiridos pelos antepassados, não cuidando de outros novos; ferindo inconscientemente a virilidade da sua existencia, que pouco resistiu aos tombos das evoluções sociaes. Começava a pragmatica, acabando-se a antiga rudeza nacional; extremavam-se as classes, vedando-se ao povo nobilitação pelo proprio merito; e um odio profundo entre a aristocracia cortezã, que se alimentava dos bens da corôa, e a nobreza de provincia, que lavrava a terra com o proletario, veiu accender o facho da discordia, cujo tragico desfecho teve logar no reinado seguinte.

O caminho que o historiador tem a seguir quando vier a lume a época de D. João V não é plano e florido, mas accidentado como serra espinhosa; ainda ha muitos para quem o filho de D. Pedro II, visto como homem moderno, attinge proporções épicas; para nós, aliás interessados naturalmente em exaltar o monarcha,[47] não vemos n’elle um unico reflexo de grandeza, a não ser na sua intelligencia e no zelo que dispensou ás lettras e ás artes, não como sabio ou artista, que nunca foi, mas como Salomão, que pretendeu ser. Os seus monumentos são attestados mudos da leviana atmosphera em que nasceram; não enthusiasmam como a Batalha e Belem, padrões que definem uma consagração historica; são molles de pedra, espelhos de provecta decadencia—o crusamento do incenso do altar christão e do luxo Cesar romano.

Mafra é um collosso, onde está escripto o diagnostico da enfermidade que assolava o paiz: a nevrose da pompa, apoiada no absolutismo de que D. João V se fizera prototypo. De resto, a sua causa, ôcca e sem historia, não lhe proporciona interesse, nem cunho nacional; é um simples capricho de monarcha gastador, convicto que a trombeta da Fama só apregoa os grandes feitos quando eccôa em montanhas de ouro.

Esse espalhava-o D. João V ás mãos largas, pouco zeloso do erario e muito da bolsa dos subditos. Os livros da sua chancellaria estão cheios de tenças, em que o motivo era a vontade regia e não o mérito pessoal do agraciado.

Diga-se, no emtanto, que os thesouros espalhados pelo rei, não afogavam a ira do povo, que o adorava, porque via n’elle a personificação de todos os seus defeitos e de todas as suas virtudes. Poucos reis lograram possuir a estima dos subditos como D. João V. Foi um galanteador aventuroso e audaz, porque entreviveu n’uma epocha de aventuras licenciosas e ninguem tem direito a criticar-lhe as faltas domesticas, as traições á esposa, porque esse exemplo tomou-o elle dos vassallos, de quem não seria rei, se não os avantajasse. Toda a sua grandeza, toda a causa da sua superioridade está em ter comprehendido a sua epocha, em ter alcançado o objectivo dos seus contemporaneos.

Incontestavelmente o ultimo Cesar que se sentou no throno, não foi tyranno, nem tomou ligeiramente o officio de reinar. Teve erros, porque viveu n’uma epocha de decomposição, vendo-se obrigado a seguil-a por natural tendencia, como homem do seu tempo, impellido pela voragem que o arrastava a um ponto que todos almejavam. Se assim não fosse, nunca conseguiria ser amado, porque nunca poderia adquirir o espirito portuguez. Ao menos não foi hypocrita; não procurou sequer occultar as leviandades das suas aventuras galantes, que passavam, como coisa naturalissima, que a ninguem melindrava, porque era commum... N’este quadro, que se não póde desenhar com côres estudadas, que sae natural, sem atavios que lhe falsifiquem a authenticidade, está bem patente a decadencia precoce de uma sociedade perdida. Quando o historiador ama a sua terra, as flôres dos seus campos, o sol que allumia e o ceu que a domina, as tradições que a exaltam, todo esse conjuncto diverso, mas ligado entre si n’uma cadeia cujo elo é a Patria, sente desfallecer a penna ao tocar este periodo, todo de ruinas, embora matizadas d’abundancia. Mas por entre a hecatombe lenta que devastava o meio social, não ha a lamentar a corrupção do paço; D. João V praticou sem duvida erros de homem, mas teve o lar purificado pela conducta irreprehensivel da esposa, allemã como a sua antecessora, e martyr como ella, não pela feia catadura d’um marido apaixonado pelo cadaver da eleita da sua alma, mas pelo procedimento do rei, que sem escrupulos de christão nem respeito pela dignidade real, escolhia concubinas onde quer que as paixões o arrastavam.

Filha do imperador d’Austria, foi escolhida unicamente para inocular no sangue de Bragança o sangue aristocratico das mais nobres familias da Europa. De facto, desde a filha do Condestavel, as esposas dos duques não primavam pela nobreza do seu nascimento. Só D. Izabel de Lencastre, esposa de D. Fernando II, filha do infante D. Fernando, irmão de Affonso V; e D. Catharina, esposa de D. João I, como filha do infante D. Duarte, é que proporcionaram á casa de Bragança allianças mais conformes com a sua regia origem e viver realengo. As outras:—D. Beatriz Pereira, filha de Nun’Alvares, D. Constança de Noronha, filha do conde Gijon, esposas do duque Affonso; D. Joanna de Castro, filha do senhor do Cadaval,[48] esposa do duque D. Fernando I; D. Leonor de Mendonça, filha do duque de Medina Sidonia, D. Joanna de Mendonça, filha do Alcaide-mór d’Alvôr, esposas de D. Jayme I; D. Izabel de Lencastre, filha do conde de Lemos, esposa de D. Theodosio I; D. Brites de Lencastre, filha do commendador-mór d’Aviz, segunda esposa do mesmo duque; D. Anna de Velasco, filha do duque de Frias, esposa de D. Theodosio II; D. Luiza de Gusmão, filha do duque de Medina Sidonia, esposa de D. João II, depois rei D. João IV; e mesmo D. Maria Sophia de Neubourg, filha do Eleitor Palatino do Rheno, segunda esposa d’el-rei D. Pedro II, não foram senhoras que aparentassem a casa reinante de Portugal com as familias soberanas do universo. N’este ponto, depois dos Bourbons, achava-se incontestavelmente os Habsburgs, cuja alliança era provavel, em vista dos soccorros prestados pelos nossos reis ao archiduque Carlos, na sua pretensão ao throno hespanhol. O movel, pois, d’este consorcio foi a nobreza da noiva, que juntava a esse predicado uma notavel cultura d’espirito e uma formosura digna de seduzir outro homem que não fosse tão voluvel como D. João V.

O contracto assignou-se em Vienna, a 24 de junho de 1708, estipulando-se que a rainha seria dotada com cem mil escudos ou corôas de ouro de quatro placas de Flandres pelo imperador seu irmão e pelo rei de Portugal com a casa e estado das suas antecessoras.[49]

A 13 de setembro do mesmo anno, saiu D. Marianna d’Austria, de Rotterdam, chegando a Lisboa a 27 de outubro, sendo os regios esposos abençoados n’esse mesmo dia.

Quarenta e dois annos viveu em companhia de D. João V (27 de outubro de 1708—31 de julho de 1750) não nos apontando a Historia uma unica falta que lhe maculasse a honra e o lar, que seu marido de todo abandonára. Muito devota, entregava-se á piedade, seguindo como D. Maria Sophia o caminho da virtude que converte em flôres os espinhos do viver terreno. Pouca ou nenhuma intervenção teve nos negocios publicos, limitando-se á vida domestica, até que falleceu em Belem, aos 14 de agosto de 1754, tendo nascido em Lintz a 7 de setembro de 1683. Sepultaram-n’a no mosteiro de S. João Nepomuceno, por ella fundado, onde se conservou o seu corpo até 1855, em que foi trasladado para S. Vicente de Fóra.

É um exemplo de virtude austera que ahi descança e que a Historia abençoa como mulher que soube conservar-se no posto que lhe marcou o sexo e que comprehendeu a digna missão que lhe impoz a sorte nos seus inexplicaveis destinos.

Este pouco que ha a dizer d’ella, é muito para o pensador que se não limita a admirar os heroes cujo nome gigantesco assombra os humildes, cuja vida deslisou na sublime comprehensão da honestidade.

A virtude que a enaltece, torna-a digna dos applausos dos posteros, erguendo-a do olvido e coroando-lhe a memoria da mais gloriosa corôa que a justiça do historiador póde depôr na fronte das que hoje são invocadas como exemplo do bem.