D. Maria Sophia de Neuburg

Depois da morte de D. Maria Francisca, a tristeza apossou-se do coração de D. Pedro II; ao mesmo tempo, o remorso pungia-lhe a consciencia, vendo sempre o espectro do irmão apontar-lhe do outro mundo o negro trama de que fôra o protagonista. Resava, orava, esmolava os desgraçados de que era rei; mas ao depor o obulo na mão do esfarrapado mendigo accudia-lhe o vulto de Affonso VI, que elle apeára do throno, transformando-lhe a existencia ainda em mais cruel que a do pobre, porque esse ao menos tinha liberdade. Entregue, como estava, ás suas dôres, D. Pedro não cuidava de outras nupcias.

Foram precisas para o arrancar á dorida memoria da sua fallecida consorte as instancias de Innocencio XI e as supplicas dos amigos: todos á uma lhe aconselhavam novo casamento, evitando-se assim que a corôa passasse á princeza D. Izabel, o que traria sérias complicações politicas.[42]

Resolvido o sensato plano, partiu o conde de Villar Maior (8 de dezembro de 1686) para Heidelberg, capital dos estados do Eleitor Palatino do Rheno, pae da princeza Maria Sophia de Neuburg, á qual a escolha do monarcha designára para nova rainha. A 22 de maio do anno seguinte assignou-se o contracto, estipulando-se que a noiva fosse dotada por seu pae com cem mil florins e pelo rei de Portugal com a casa e estado das soberanas suas predecessoras. Realisado o consorcio (2 de junho) seguiu D. Maria Sophia a sua viagem para Lisboa, onde chegou a 11 d’agosto; sendo, n’essa mesma tarde, abençoados os conjuges pelo arcebispo, no meio das acclamações enthusiasticas d’um povo que, fóra da capella, saudava inconscientemente uma mãe carinhosa de todos os seus subditos.

E na verdade, d’esta vez os applausos não foram lançados em vão. D. Maria Sophia, como D. Filippa de Lencastre, compensou as leviandades da primeira mulher de seu marido. Reinou, mas não governou, conservou-se na sua esphera, dedicando-se á educação dos filhos e em adquirir o amor de D. Pedro, que, possuido sempre da lembrança da primeira consorte, nunca soube apreciar os rarissimos dotes da nova companheira.

Para quem fosse menos beneficiada da conformidade imposta pelo dever, a indifferença régia seria pezarosa; porém, a princeza soube mostrar que era allemã: o seu temperamento, frio como o norte, não era inclinado a paixões; conformou-se com a sorte, limitando-se unicamente ás lides domesticas.

O rei, ao que parece, desejava ser um heroe e talvez mesmo se convencesse de que o era. Queria a fronte aureolada, como o irmão, o victorioso; sentia a nostalgia do triumpho, apesar de pacifico, como lhe chamava a Historia.

Terminada a guerra da independencia, desapparecêra o campo dos louros, e a paz firmada com Castella (13 de fevereiro de 1668)[43] ainda na vida de D. Affonso veiu cortar quaesquer probabilidades de adquirir glorias proprias. Ao tempo, D. Pedro só tinha por si a quéda d’um throno; de mais cousa alguma a posteridade fallaria d’elle, ficando sujeito a desigual partilha nos fastos da realeza.

Vago o throno de Castella pela morte de Carlos II (1 de novembro de 1700) foi acclamado rei o duque d’Anjou, neto de Luiz XIV, com o nome de Filippe V; D. Pedro reconheceu-lhe a soberania, continuando assim a paz; mas a influencia franceza assombrava a Inglaterra, a Hollanda e Allemanha que, além d’isso, pretendia a corôa para o archiduque Carlos, filho do imperador Leopoldo I. Portugal mudou de rumo e acompanhou a politica europeia na sua opposição ao francez; D. Pedro procedeu assim obrigado pela Inglaterra, que o amarrára no tractado de Methwen, e pelo desejo ardente da fama conquistada pela força das armas.

Dispostas as cousas d’este modo, o archiduque chegou a Lisboa (7 de março de 1704) n’uma esquadra ingleza e hollandeza e fez d’aqui o ponto de partida para as suas operações.

O nosso exercito, tendo á sua frente o principe e o conde das Galveias, Diniz de Mello e Castro, entrou no territorio hespanhol, e tomando Salvaterra, Valença e Albuquerque, retirou para Lisboa, d’onde o archiduque saiu outra vez (24 de junho de 1705) com destino a Barcelona, que depois d’um combate naval se rendeu a 9 de novembro do mesmo anno. No seguinte, em 2 de junho, o marquez das Minas penetrava em Madrid, onde fez acclamar o austriaco com o nome de Carlos III. Até esta epocha o destino parecia secundar, á custa de pesados sacrificios e derrotas internas, os marciaes desejos de D. Pedro II; o successo era na apparencia prospero e o rei zeloso do seu nome e pouco dos povos, contente de si, só tinha que se queixar do nenhum repouso da consciencia attribulada, porque no mais tudo lhe corrêra ás mil maravilhas. Esta illusão acompanhou-o ao tumulo; D. Pedro, doente, gasto, moribundo, succumbiu (9 de dezembro de 1706), cinco mezes após a victoria, que foi seguida pela retirada do marquez, batido por Berwick a 25 de abril de 1707.

Hoje é licito analysar os feitos e acções do homem que ousou possuir a estima d’um povo. De facto, foi a personificação do caracter portuguez—aventureiro, valente, viril, com uns longes de justiceiro, um arremedo do seu homonymo[44]—; e se as suas virtudes não brilharam pela quantidade, o seu feitio compensou-lhe a falta perante os coévos acostumados a venerarem o rei, sem examinarem o merito do individuo. Entretanto, os soffrimentos que a Historia nos aponta e que lhe atormentaram os ultimos dias, se não conseguem absolvel-o de todo, attenuam-lhe um pouco a gravidade do mal.

Moralmente foi um grande desgraçado, e a compaixão a que têem jus os infelizes é uma das faces sympathicas que o pincel do historiador ousa desenhar na téla da verdade. Teve o amor d’uma mulher, mas este facto não levanta o caracter de nenhum dos dois amantes, porque o amor santifica quando é licito e condemna quando é preverso.

Teve a fidelidade de uma resignada martyr que nunca lhe viu sorrisos, que foi possuida pela força da politica; e esta virtude se directamente o não exalta, reflecte-lhe, comtudo, como sol benefico. D. Pedro ainda mereceu a pósse de uma honesta esposa! Compassiva foi a Providencia, se no recondito d’aquella alma não existia algum merito que, qual violeta escondida por entre as balsas, viveu ignorado da justiça dos criticos.

Maria Sophia não lhe proporcionou dias felizes, porque o remorso lhe aniquilava toda a felicidade; não lhe partilhou os dias de gloria, porque a morte a veiu colher (4 de agosto de 1699) antes que a guerra lhe trouxesse os triumphos militares; mas hoje ajuda-lhe a rehabilitar o nome, o nome que era seu e de cuja dignidade foi fiel depositaria.

Triste e só, viveu deixando na Historia não a reputação faustosa de heroica soberana, ou de astuta politica, mas a de mulher respeitavel que soube purificar o lar extinguindo-lhe as manchas do rasto da sua antecessora. O diadema não lhe serviu de cruz, porque no cumprimento dos seus deveres encontrava sorrisos. Nem lhe foi motivo de ambições, porque a corôa que o seu ideal almejava era a corôa de espinhos do Crucificado.

Que lhe importava o olhar melancholico do verdugo de Affonso VI, amante ainda do cadaver da sua cumplice? Que lhe importava isso, se nos filhos d’esse homem que a não podia amar, se na prece quotidiana ao esposo das almas santificadas pela resignação existia um amor mais bello, mais radiante que todo o idyllio de um amor terreno? E as lagrimas, sêccas por essa philosophia santa, nunca lhe sulcaram o rosto sympathico. Foi feliz no meio do seu infortunio. Abençoada creatura cujas ambições não existiam n’este mundo. Bemdita a sua fé que lhe impediu o martyrio, que lhe encaminhou os passos para a senda do dever. Por isso a Historia ajoelha na lousa do seu sepulchro, esculpindo-lhe na lapide um epitaphio modesto como a sua existencia, mas venerando como a sua memoria.[45]