Entre o Revue e o rio Mussapa

Terreno muito elevado e accidentado, coberto de um a outro rio por continua e densa floresta. Passei a garganta da divisoria, que fica muito mais proxima do Mussapa que do Revue, n'uma altitude de 2:230 pés, mas no seguimento do caminho, subindo e descendo sempre, attingi varias vezes altitudes não muito inferiores a este maximo.

Em parte da floresta encontra-se uma grande quantidade das trepadeiras de que tiram a borracha e que dão um fructo que, embora bastante acido; é muito agradavel ao paladar. Cultivar n'uma grande area da floresta esta trepadeira constituiria sem duvida uma industria consideravelmente remuneradora. Cruzando o caminho, e sem necessidade de menor pesquiza vêem-se duzias de grandes filões de quartzo, havendo probabilidades de que muitos d'elles sejam auriferos. Toda esta região entre o Revue e o Mussapa fazia parte do alto Quiteve. O paiz que fica junto á margem do Revue no ponto onde atravessei este rio é o Zauve, e é n'elle, um pouco a oeste do meu itinerario, que está encravado o antigo territorio portuguez do Bandire, hoje abandonado, e que contém as valiosas minas d'este nome.

O chefe do Zauve é o regulo Murinane, que foi antigamente de grande importancia; apesar de se vestir como os outros pretos, de como elles se sentar no chão, ainda se apresenta com uma certa grandeza comparado com todos os mais chefes que eu vi. D'este regulo{18} recebi muitas informações ácerca das minas, que estão situadas nas montanhas do Bandire, tanto na vertente do Revue como na do Mussapa.

Não me parece haver ahi um placer aurifero como incontestavelmente o ha em Manica; o trabalho das minas é todo em rocha, e é por isso que penso que dos numerosos filões que encontrei entre o Revue e o Mussapa alguns pelo menos têem probabilidade de ser auriferos. Comquanto Murinane, que é um preto de cincoenta annos, de bello aspecto, me dissesse tanto como todos os outros regulos do Quiteve com quem primeiro estive, que muito desejaria ver-se livre dos vexames dos landins, e escondesse d'aquelles que me acompanhavam os presentes que lhe dei, notei grande differença entre o que vi na grande povoação d'este regulo e a miseria das gentes de áquem Revue.

Na povoação do Murinane nota-se maior independencia; já ahi todos têem as orelhas rachadas, quasi caracteristicas dos landins; todos, a começar pelo regulo, fallam bem o vatua, ou a outra lingua dos landins.

As rochas Inharumirua, que offerecem o primeiro obstaculo á navegação no Revue, desde a costa pelo Busi, ficam a menos de duas horas a jusante da povoação de Murinane; conversando pela manhã, pelas oito horas com o regulo a respeito d'esta obstrucção e da distancia ao ponto onde estavamos, mostrou elle entre os homens que estavam sentados no chão ao redor do nós, um que me disse ser o chefe de uma povoação mesmo junto a estas rochas e que n'aquella mesma manhã de lá tinha partido. Para irem da povoação de Murinane ás minas do Bandire dormem um dia no caminho, chegando no seguinte de manhã; vê-se portanto a que curta distancia estas minas estão de uma via fluvial; quando mesmo ella não seja bem navegavel em todo o tempo, para transporte de pesos muito consideraveis, e que não ha a remover constantemente, póde-se bem escolher a estação propria.

O elevado macisso de montanhas que ha entre o Revue e o Mussapa desce rapidamente do lado d'este ultimo rio, cujo valle é uma larga planicie verdejante, sem quasi arvore alguma, na qual serpenteia de um e outro lado o leito do rio.

N'este valle muito cultivado ha já algumas povoações de landins com o caracteristico bode ou rodella de cêra preta na cabeça. O contraste é bem notavel entre estas povoações landinas, onde cada um se sente seguro em sua casa e gosa tranquillamente do que é seu, onde as mulheres e creanças sabem que não podem ser levadas pelos primeiros que passem, e as infelizes povoações do Quiteve principalmente as que se acham entre o Aruangua e o Revue. As povoações landinas da margem esquerda do Mussapa são muito poucas e só formam, como testas de ponte para as densas povoações da outra margem; o territorio de Bandire é nosso, e o regulo Murinane e outros da margem direita do Revue, apesar de obedecerem hoje aos landins e de deverem marchar contra nós, se a isso forem forçados, muito prefeririam estar sujeitos directamente e só á soberania portuguesa. Não vi se, para jusante da foz do Mussapa, na pouca extensão da margem esquerda do Mufomose e do Lusito que ainda segue até ao Busi, e em toda{19} a margem esquerda d'este rio, desde a foz do Lusite até á costa, ha ou não muitas povoações de landins. Os limites do districto de Manica, se bem que theoricos, não devem ser só fixados com as terras do Gunguneana, mas, proximo da costa, tambem com o districto de Sofalla. Pelo que tenho dito parece-me haver decidida vantagem em considerar a margem esquerda do rio Mussapa e a continuação d'essa margem na altura do Mufomose, Lusite e Busi até ao mar, como limite sul do districto de Manica. O districto de Sofalla confinaria ao norte, de leste a oeste, com o de Manica, e a oeste, de norte a sul, com as terras do rei de Gasa, com limites a determinar e que restituissem a Sofalla todos os seus antigos prasos ao sul do Busi, e mais terras hoje invadidas pelos landins.

Ao sul do districto de Manica e a oeste do de Sofalla haveria um grande potentado, vassallo portuguez, que teria toda a liberdade da dictar a lei no governo das suas terras e do seu povo, afastaria a dominação estrangeira e poderia, sendo bem aconselhado, e recebendo bem os conselhos, desenvolver no seu paiz varias industrias agricolas, como a da creação de gado, a que o terreno se presta admiravelmente, e producção de lã e mohair, que dariam uma grande prosperidade ao porto de Chiloane, ou a outro porto vizinho que parece existir em melhores condições o dever vir a substitui-lo para o serviço dos paquetes.

Disse que o valle do Mussapa é uma planicie bastante larga; pareceu-me, pelo exame que fui fazendo de varios pontos do meu itinerario, que em parte seguindo este valle e ao sul do macisso de montanhas que separa o Mussapa do Revue, ha uma facha de terreno plano que sobe gradualmente para o interior, que passa não muito longe da povoação de Murinane, que passará junto á base das montanhas do Bandire e continua na direcção de Manica, cujas serras eu distinctamente via n'esta direcção.

Assim, haverá, a partir da costa, dois caminhos naturaes para a região de Manica.

O primeiro, é o que indiquei, pelo rio Pungue, e depois da margem d'este rio, seguindo obliquamente para a bacia do Revue. É o unico caminho da costa que por muito tempo nos poderá interessar.

O segundo, que parece proprio para o assentamento de uma linha ferrea, e que só agora indico como nota que possa vir a ser util para algum trabalho futuro, seria o que partisse do fundo do que dizem ser o excellente porto a que ha pouco me referia, formado por traz da ilha Boene, ou da margem esquerda do rio ou braço de mar denominado Mutizane, seguisse pelos terrenos planos do baixo Quiteve, atravessasse o Busi, talvez nas proximidades do arco Inhambimbe, ou foz do Lusite, e seguisse pelos valles e margens esquerdas dos rios Mufomose e Mussapa, passando junto ao Bandire até Manica.