Minha missão, seu resultado

Foi, como disse, a presença das duas embaixadas dos landins na Gorongosa, que me aconselhou a escolher esta occasião para fazer a primeira visita ao rei de Gasa. Tudo o mais nos era contrario: chuvas, cheias dos rios, caminhos fechados com palha de altura de dois homens. Não tinha tambem na Gorongosa quem soubesse portuguez e vatua, nem mesmo pessoa que me podesse acompanhar e servisse de bom interprete; de portuguez para as linguas da Gorongosa ou do Quiteve, muito similhantes, e que muitos dos landins fallam.

Um dos meus moleques era o interprete com que mais poderia contar, mas fui successivamente descobrindo a impossibilidade de lhe fazer comprehender qual era a missão do interprete, e de lhe fazer traduzir cousa que elle não pensasse entender, e sobre a qual elle depois livremente discursasse na lingua para que traduzia.

O que não fosse de accordo com a sua opinião não traduzia, e não foi possivel fazel-o referir a povos de que elle nunca tinha ouvido fallar.

Prevendo isso, logo que cheguei ao Quiteve escrevi ao capitão mór de Sofalla, um mouro chamado Amade Sene Abdalá, filho de um Gricar Abdalá, que vemos figurar como lingua do estado nos termos da reivindicação do territorio do Bandire em 1835, e de uma princeza murinane, irmã da actual rainha Gomoni e do actual regulo Murinane, preta ou princeza com que elle Gricar travou relações, e que levou para Sofalla, onde ella passou o resto da vida. Sabia eu portanto que o capitão mór de Sofalla era sobrinho dos dois mais importantes regulos do Quiteve; sabia mais, que elle, como antigo negociante, era conhecedor dos sertões, que fallava a lingua do Quiteve e a lingua vatua e que era valente; e por isso lhe escrevi, pedindo-lhe que me viesse servir de interpretre.

Da mesma povoação em que escrevi a Amade Sene, partiram rapidamente para a frente tres landins com o fim de annunciarem a Gunguneana da minha viagem. Encontrei-os de volta a uns tres dias da povoação do rei, dizendo-me da parte d'elle que seguisse e que seria bem recebido.

Na manhã de 23 de janeiro, quando suppunha que nesse dia chegaria á povoação do Gunguneana, pararam os meus conductores na povoação de Cuzova, que já tenho citado, para que fossem alguns d'elles dar parte ao rei de que eu me approximava. Só na manhã do dia 1 de fevereiro chegaram quatro grandes, que, acompanhados de muita gente, me vinham comprimentar da parte do Gunguneana, trazendo-me um{22} boi, e pedindo-me que expozesse o motivo da minha visita. Apenas consegui poder dizer-lhes que vinha para confirmar e estreitar as relações de amisade com o novo regulo portuguez, e para lhe dizer que o rei resolvêra mandar reoccupar as suas terras de Manica e avisar d'isso o Gunguneana para que se alguns landins fossem para aquelle lado recebessem do Gunguneana ordem para ter bom trato com os mosungos. Fallei apenas de Manica, e é claro que não podia pedir licença qualquer para irmos para lá, visto que as terras da região da antiga feira de Manica são portuguezas e como taes reconhecidas pelo rei de Manica e por todos os povos que habitam os paizes vizinhos. Como porém os grandes das duas embaixadas me tinham sempre acompanhado, e, depois da sua viagem e ausencia de muitos mezes não tinham ainda estado em relação com os que cercam o Gunguneana começaram em landim discursos que duraram horas, e em que notei que, de certo com as melhores intenções, porque todos os landins com que estive em contacto me deram sempre provas do sympathia, repetidas vezes fallavam em Ferrão, Gouveia, Gorongosa, Manica, Bandire e Inhaoxo, e em que provavelmente disseram que eu vinha para tomar conta de todo o Quiteve, como varias vezes o haviam dito pelo caminho, sem que palavra ou acto algum da minha parte motivasse tal asserção.

Partiram os grandes parecendo muito satisfeitos commigo e dando-o a entender que no dia seguinte ou no dia depois d'este alguem me viria buscar da parte do Gunguneana.

No dia 3 de fevereiro, quando eu já de ha muito suppunha que o capitão mór de Sofalla não podia ou não queria vir até tão longe, appareceu-me elle, motivando a sua demora pela do portador da minha carta, que fiou muitos dias em uma das povoações do caminho, dando as chuvas como pretexto da paragem.

Em outras communicações fallarei de Sofalla e do seu capitão mór, homem que me parece muito util. Elle veiu com bastante gente de Sofalla, e durante os dias que estivemos juntos, apesar da impaciencia da espera, não podia deixar de ter muito prazer, vendo fraternisar e amossossar juntos gente de Senna com a gente de Sofalla, reunião que ha muitas dezenas de annos julgo não tinha tido logar.

Esperavamos de dia para dia o aviso de Gunguneana para marcharmos; quasi todos os dias vinha de lá alguem que por varios motivos ia justificando a demora passada, annunciando que breve seguiriamos.

Indicarei alguns d'esses motivos:

a) Entrega dos Nhunhe muchopes (passaros brancos) aos seus commandantes.

Com este nome acaba Gunguneana de crear um novo corpo do exercito, recrutado em todas as suas terras e constituido com rapazes que deverão servir por um determinado numero de annos n'este corpo, e que emquanto não passarem para outro ficam prohibidos, sob pena de morte, de casar ou ter relações com mulheres. O nome é devido a que os escudos são feitos com pelles de bois brancos, e que todo o vestuario dos homens será da mesma côr; pelles ou pennas brancas. Como muitos landins vão trabalhar no Transvaal, na republica de Orange e{23} nos Campos de Diamantes, trazem d'esses paizes quantidades de pelles de carneiros de comprida lã branca, de que cortam estreitas tiras, com que adornam o grosso dos braços e as pernas, logo abaixo dos joelhos.

Quando cheguei á povoação de Cuzova tratava-se effectivamente de reunir na do Rei todos os Nhunhe muchopes, e vi passar nos primeiros dias que ali estive, muitos centos de rapazes, que de todos os lados convergiam para o ponto de reunião.

b) Reunião de outra gente de guerra, que tambem vi passar em grande quantidade, por causa de um importante acampamento, manifestado por uma extensissima linha de fogos ao longo da margem direita do rio Save, e constituido por gente do Muzilicatze, sem que ainda se soubesse se vinham para cumprimentar o novo rei, se para lhe fazer guerra.

Mais tarde, quando regressava pelo Quiteve, disseram-me que dez brancos a cavallo, vindos do lado do Muzilicatze, tinham com muita gente atravessado o Save, para visitar o Gunguneana. Não sei se estes brancos têem ou não relação com o acampamento a que me acabo de referir.

c) Reunião dos grandes, chegados de povoações muito afastadas para que Gunguneana conversasse com elles a respeito da minha visita.

No dia 11 de fevereiro chegaram finalmente á povoação de Cuzova todos os grandes que primeiro me tinham vindo ver, acompanhados de alguns outros; depois de muitos comprimentos e de conversarem sobre assumptos estranhos ao objecto da minha presença ali, o maior de entre elles, um bello e sympathico homem, por nome Magumeana, chamou do grupo de pretos, que estavam sentados atrás dos grandes, um que veiu pôr junto a mim uma pequena ponta de marfim, sobre a qual Magumeana poz duas libras sterlinas[2], dizendo que era a bôca do Gunguneana, para dizer que não podia consentir em que os brancos viessem trabalhar nas minas, nem estabelecer-se nas suas terras, porque se o fizessem, viriam depois tantos, que em breve lhe tirariam o poder; que elle Gunguneana era portuguez, que elle, mas elle só, era mulher do rei de Portugal, que assim o dizia a todos os estrangeiros, que desejava amisade com os brancos; que tem dado d'isso muitas provas, e ainda muito recentemente, quando na Chupanga lhe assassinaram traiçoeiramente, quando elles dormiam, todos os landins que lá estavam, não tendo feito guerra por esta causa; que os mosungos podem livremente vir negociar, com segurança, a todas as suas terras, mas que não quer que n'ellas explorem as minas; que os brancos nunca fizeram esse pedido a seu pae, e que notava que se tinham reservado para o fazer quando elle acabava de subir ao poder.

Fiz notar que eu já me achava em caminho quando se soube do fallecimento do Musila, e que o rei de Portugal não tinha que receber licença de pessoa alguma para mandar mosungos para as suas terras do Manica, que todos na localidade reconhecem pertencer-lhe.{24}

Era inutil qualquer discussão com estes homens isolados, visto que a resposta do Gunguneana tinha sido dada em conselho de todos os grandes, que já se achavam espalhados, e que evidentemente eu não podia ter por agora modificação ás resoluções tomadas. Tratei, só, portanto, de aproveitar a presença de um homem intelligente como é o capitão mór de Sofalla, bom conhecedor do portuguez e do landim, para dizer o que desejaria ter dito na minha primeira entrevista com os grandes, embora o mau resultado da minha viagem tornasse impossivel o tratar de muitos pontos, como o da construcção de um telegrapho com excellente directriz, passando pela povoação de Gunguneana, o transporte maritimo por Chiloane dos landis, que com viagens de mezes vão servir no Natal.

N'esse mesmo dia 11 de fevereiro comecei a viagem de volta para a Gorongosa, onde cheguei no dia 1 do corrente. Não indico n'este trabalho, destinado a fornecer infirmações a s. ex.ª o ministro da marinha, os promenores da viagem, que só podem interessar e muito aos que tiverem de percorrer o paiz.

Gunguneana disse aos grandes, quando elles vieram ver-me com a resposta, que não me pedissem fazendas, para que eu não podesse voltar dizendo que tinha comprado as minas; caso sem exemplo, com landins em frente de motores de fazendas, e que bem mostra que é receio o que elles todos têem. Dei, porém, aos grandes, tanto na primeira como na segunda visita, e mandei pelas duas occasiões ao Gunguneana alguns presentes; porque achei conveniente deixar boa impressão e separar-me dos grandes com agradaveis relações.

Os grandes nomearam tres landins para nos acompanharem, receiosos de que o estranho facto, de voltarem do lado da casa do seu chefe mosungos com motores de fazenda completos não fosse attribuido a alguma fuga ou desavença, e nos causasse embaraços no caminho.

Junto a este relatorio vae um resumo da conta de todas as despezas da viagem, incluindo as do transporte do capitão mór de Sofalla, e todos os presentes dados ao Gunguneana, seus grandes, regulos do Quiteve, e todos os chefes da povoação onde passámos, na importancia de 624$800 réis, despezas pagas pelo governo do districto de Manica.