IX

Vimos que D.ᵃ Madalena Vicência de Mascarenhas, viúva de Luís Guedes, depois da morte de seu marido, por muitos anos esteve na administração do morgado como cabeça do casal. Manuel José Guedes de Miranda Henriques, filho natural de Luís, teve também aquela administração, mas é de notar que nunca usasse o apelido de Albuquerque, como todos os outros administradores do morgado.

Se D. João Afonso de Albuquerque, de bastardia muito contestável, foi apto para suceder a Afonso, filho, e esteve por muitos anos na posse dos bens livres e vinculares de seu pretenso pai, Manuel José Guedes de Miranda, filho bastardo e mais velho de Luís Guedes, não deveria ter menos bons direitos do que aqueles à sucessão dos morgados de seu pai.

Como D.ᵃ Madalena de Mascarenhas, viúva de Luís Guedes de Miranda, esteve na posse do morgado, não sei; é certo, porém, que até 1782 o administrou. Também é certo que em 1784 o morgado era litigioso, que em 1785 estava na sua posse Manuel José Guedes de Miranda, e que em 1786 era senhor do mesmo morgado D. José Francisco da Costa e Sousa como herdeiro de seu tio D. José da Costa.

Há anos vi umas cartas trocadas entre Manuel José Guedes e seus primos Costas (José Francisco e Luís), e delas pude depreender que aquele era um caráter não vulgar pela sua honradez, largueza e desprendimento; Manuel José Guedes, posto na posse do morgado, julgou-se em consciência ali intruso, e, parecendo-lhe que seu primo D. António José de Melo Homem estava na melhor linha descendente de sua bisavó D.ᵃ Maria Josefa, por proceder por via masculina de D.ᵃ Joana de Mendonça, chamou-o a tomar posse do morgado; o caso despertou as atenções de seu primo José Francisco da Costa e Sousa, que se apresentou como oponente.

Vamos agora ver em que D. José Francisco fundamentava os seus direitos.

Ao tempo da morte de Luís Guedes de Miranda de Mendonça e Albuquerque, em 1757, eram vivos D. José da Costa, nascido em 1694, e D. António José de Melo Homem, nascido em 1709, ambos primos do falecido em terceiro grau canónico e sexto civil.

De D. José da Costa, falecido em 1766, fora universal herdeiro seu sobrinho D. José Francisco da Costa e Sousa, armeiro-mor, filho de D. António da Costa, irmão de D. José da Costa, e falecido em 1748, como atrás disse.

D. José Francisco viu que seu tio D. José da Costa podia preferir pela prioridade do nascimento, e, embora ele não tivesse apresentado e feito prevalecer os seus direitos, quis fazê-los valer D. José Francisco, como herdeiro e sucessor de seu tio. Rico e preponderante na política e sociedade da época, D. José alcançou que a idade prevalecesse à melhor linha, e desapossou D. António de Melo dos bens que seu primo Manuel José Guedes lhe entregara.

Guedes residia em Moura e, logo que teve conhecimento da resolução dos tribunais julgando a sucessão de José Francisco, preferindo a D. António de Melo, fez entrega ao novo senhor do morgado de Azeitão dos vínculos da Landeira e de Santiago do Cacém.

Não parece que este novo senhor residisse no palácio de Azeitão. Por este tempo já os grandes deixavam as suas casas de província pela habitação na corte, ou proximidades. Em 1796 estava na sua quinta de Mutela, solar dos Costas, e em 1799, numa procuração datada da sua quinta da Luz[63], diz-se:

«D. José Francisco da Costa e Sousa de Albuquerque, visconde de Mesquitela, armador-mor de S. M., do seu conselho, cavaleiro professo da ordem de Avis, comendador da comenda de S. Vicente da Beira», etc.

Muito se ufanavam todos de terem uns laivos de sangue de Afonso, o Grande, todos lhes queriam muito; mas só usavam o apelido Albuquerque, quando ele vinha envolto num título de propriedade.

D. José Francisco faleceu em 6 de janeiro de 1802. Sucedeu-lhe seu filho:

D. Luís da Costa e Sousa de Macedo e Albuquerque, mancebo de vinte e dois anos, que em 13 de setembro de 1807 casou com D.ᵃ Maria Inácia de Saldanha Oliveira e Dão, filha dos primeiros condes de Rio Maior. Em 22 de janeiro de 1818 foi feito conde de Mesquitela, e em 1826 par do reino.

D. Luís da Costa e Sousa de Macedo e Albuquerque, primeiro conde de Mesquitela, armeiro-mor, como seus avós, faleceu em Lisboa a 27 de novembro de 1853.

Do enlace matrimonial de D. Luís com D.ᵃ Maria Inácia de Saldanha, nasceram:

—D.ᵃ Maria Amália, a 10 de março de 1809;

—D.ᵃ Maria José, a 2 de março de 1811;

—D. João Afonso, a 11 de fevereiro de 1815;

—D. Luís António, a 25 de outubro de 1816;

—D. Pedro, a 14 de maio de 1821;

—D. António, a 24 de novembro de 1824.

A D. Luís da Costa sucedeu seu filho:

—D. João Afonso da Costa e Sousa Macedo e Albuquerque, segundo conde de Mesquitela, par do reino, do conselho de S. M., décimo segundo armeiro-mor, grau-cruz da ordem da Conceição, comendador de Cristo e condecorado com diversas ordens estrangeiras, serviu de capitão da guarda real de arqueiros por impedimento do duque de Palmela.

Em 1886 foi criado duque de Albuquerque pelo rei D. Luís I.

Foi um cortesão distintíssimo, conhecedor de todas as etiquetas palacianas, e de tão fina polidez que preferiu a todos os fidalgos da corte para receber no desembarque as princesas Estefânia, desposada do rei D. Pedro V, e Maria Pia, do rei D. Luís I. Na vida de sociedade era o mais fino cavalheiro; numa sala com damas não havia quem se lhe avantajasse.

Acostumado às amabilidades feminis, a render culto à beleza, foi fanático nesta religião, o que já na decrepitude lhe não ia bem.

Da sua casa foi um mau administrador; as suas propriedades rústicas ou urbanas distinguiam-se pelo desleixo total, e por se verem cair a pedaços.

A sua alma era boa.

Faleceu sem geração em 24 de setembro de 1890, com setenta e cinco anos de idade; sucederam-lhe na casa, que era grande, seus irmãos, cabendo a quinta, palácio e mais propriedades de Azeitão a seu irmão:

—D. Luís António da Costa e Sousa de Macedo e Albuquerque, atual conde de Mesquitela. Ama o solar dos Albuquerques, aprecia-lhe as belezas de arte que encerra, e cuida de restabelecer as ruínas. Que Deus lhe conserve as felizes disposições.