VIII
A D.ᵃ Maria Josefa de Mendonça e Albuquerque sucedeu seu filho Luís Guedes de Miranda Henriques, que outros apelidam de Miranda e Lima, casado em 1673 com D.ᵃ Maria de Ataíde, filha dos segundos condes de Vale de Reis. Por seu pai cabia-lhe o cargo de estribeiro-mor, todavia, o regente D. Pedro e ainda depois de entronizado, recusou-lhe a posse do lugar, e tão solto foi de palavras e ações por este facto, que lhe valeu ser encerrado na torre de S. Julião.
Em 1712 ainda havia filhos menores de Luís Guedes, de quem este não tinha a tutela. No dia 2 de dezembro, Manuel Carvalho de Ataíde[58], moço fidalgo da casa de sua majestade e comendador da ordem de Cristo, parente de Luís Guedes, data de Sernancelhe uma procuração a Pedro Vieira da Fonseca, residente na quinta de Azeitão (Bacalhôa), para poder comprar um pinhal para o menor Francisco de Assis, e outra a Manuel Salgado de Araújo, advogado da casa da suplicação, para cobrar de Luís Guedes de Miranda 80$000 reis mensais de alimentos para cada um dos filhos menores deste, compreendido Francisco de Assis, dos quais Manuel Carvalho era curador.
Não parece que Luís Guedes se detivesse na sua quinta, ou mesmo na Extremadura, pois se encontram até fins de 1718 procurações para determinados negócios do morgado datadas de Murça[59].
De Luís Guedes de Miranda e D.ᵃ Maria de Ataíde nasceram:
—Pedro Guedes, que morreu moço;
—Francisco de Assis, de quem só acho a notícia atrás dada, e
—João Guedes de Miranda Henriques Mendonça e Albuquerque, «o muchacho», que espancou e roubou a avó D.ᵃ Maria Josefa. Ao que parece, enlouqueceu mais tarde, tirando-se-lhe a administração da casa, conforme uma provisão régia, de que falarei. Digo parecer haver enlouquecido, porque os documentos desta época, para guardarem conveniências, muitas vezes encobrem más ações com palavras de significado bem diverso. João Guedes casou em 30 de janeiro de 1707 com D.ᵃ Francisca de Noronha, filha dos terceiros condes de Aveiras.
Em 15 junho de 1721 Fernando de Morais Madureira Machado Pimentel tomou posse do morgado da Bacalhôa por procuração de João Guedes. A 28 do mês seguinte já sua mulher D.ᵃ Francisca de Noronha data de Lisboa ocidental uma procuração para arrendamento de uma propriedade do morgado, em virtude da administração de que a encarregou seu primo o Sr. João Guedes de Miranda e Lima. Desconheço a conveniência de D.ᵃ Francisca dar a seu marido o tratamento de primo.
Em março de 1726 estava João Guedes em Azeitão; em 1728 era ausente, havendo deixado procuração a seu filho Luís, imediato sucessor; no ano seguinte, porém, estava na sua quinta com a família e o padre João Lopes Nogueira, seu capelão. Em 1730 continuou a residir no palácio. D.ᵃ Francisca tem a administração da casa e daqui arrenda a herdade da quinta da Corona, na freguesia de Nossa Senhora A Bela em Santiago do Cacém, a herdade da Júlia e outras propriedades na ribeira do Guadiana, em Mourão, Moura e Monsaraz. No ano seguinte ainda aqui reside, dando de arrendamento a herdade do Miranda no termo de Alcácer, e entre as condições há a do rendeiro pôr em Azeitão, ou na quinta do Montijo, as pitanças, que eram: 12 porcos de dois anos, 6 marrãs de um ano e 30 galinhas. Os porcos eram avaliados a 3$000 reis e as marrãs a 1$500 réis, no caso de não agradarem os da herdade.
Em 29 de janeiro de 1732 um decreto do rei, e despacho do desembargo do paço do dia 31 ao provedor das capelas, interdizia João Guedes por demência. Transcrevê-lo-ei:
«D. João, etc. Faço saber a vós provedor dos orfãos e das capelas destas cidades[60] que, sendo-me presente que João Guedes de Miranda Albuquerque Mendonça lhe sobreveio demência tal que necessita pronto remédio pelas contínuas e públicas discórdias, que comete contra o decoro da sua pessoa, e que também se deixa enganar de vãs palavras, que com promessas fantásticas lhe tiram dinheiro em prejuizo de suas rendas, o que devia evitar; atendendo às qualidades que concorrem na sua pessoa: hei por bem e vos mando entregueis a administração de sua casa a sua mulher D.ᵃ Francisca de Noronha, por ter por certo a fará como convém, fazendo primeiro termo de dar contas todos os anos, perante o juiz dos orfãos, a que tocar cumprir. Assim el-rei nosso senhor o mandou pelos doutores Gregório Pereira Fidalgo da Silveira e António Teixeira Álvares, ambos do seu conselho e seus desembargadores do paço. José Maria de Faria o fez. Lisboa ocidental 31 de janeiro de 1732.»
Até fim de 1747 encontra-se D.ᵃ Francisca de Noronha em Azeitão ou em Lisboa ocidental dirigindo os negócios de sua casa, como tutora e administradora da pessoa e bens de seu marido João Guedes de Miranda.
Destes esposos nasceram:
—José Guedes, e
—Juliana de Noronha, que morreram crianças;
—Luís Guedes de Miranda Henriques, que em 1741 casou com D.ᵃ Madalena Vicência de Mascarenhas, filha dos terceiros marqueses de Fronteira D. João e D.ᵃ Helena.
Em maio de 1749 já encontro procurações do novo administrador do morgado de Afonso de Albuquerque. Diz-se ele:
Luís Guedes de Miranda Lima de Mendonça e Albuquerque, senhor das Vilas de Murça, Brunhais, Água Revés, Torre de D. Chama, comendador e alcaide-mor das vilas de Cabeço de Vide, Alter Pedroso e Granja do Hospital e capitão de dragais, etc.
Luís Guedes pouco tempo teve o morgado, falecendo em dezembro de 1757. Residiu sempre em Lisboa, administrando-lhe os bens de Azeitão, um feitor que, com procuração de seu amo, intervinha nos contratos enfitêuticos.
Não sei que de Luís Guedes e D.ᵃ Madalena houvesse filhos; no entanto, esta dama por morte de seu marido ficou cabeça do casal e com a administração do morgado de Azeitão até fins de 1782, conforme uma serie de procurações todas datadas de Sete Rios, lugar da sua residência.
O terramoto de 1755 arruinou a sacristia e lançou por terra as torres da freguesia de S. Simão, e a corporação administrativa da igreja, depois de pedir inutilmente a Luís Guedes a sua reconstrução, teve de recorrer aos meios judiciais para obrigar os senhores do morgado a cumprirem a cláusula da escritura de 1570, em que Afonso de Albuquerque lançara sobre o vínculo os encargos da conservação do templo. Este litígio foi em tempo da administração de D.ᵃ Madalena Vicência de Mascarenhas, e pelos documentos, que tenho à vista, durou desde agosto de 1765 até meado de 1768. Os advogados da igreja foram D. Francisco António Vannicelli e José Luís Soares de Barbosa, pai do conhecido poeta Bocage, ambos com banca em Setúbal. D.ᵃ Madalena recusava-se a pôr o edifício no primitivo estado, querendo restaurar o que julgava absolutamente necessário. No dia 3 de julho de 1768, de Lisboa fez uma proposta para levantar só uma das torres e reparar os demais estragos.
Parece haver-se chegado a acordo, apeando-se a frontaria até ao portal e construindo-se a torre atual, que é de um talhe estranho ao mais do templo.
Desconheço o título por que D.ᵃ Madalena Vicência de Mascarenhas teve por demorados tempos a administração do morgado.
Se Luís Guedes de Miranda e Albuquerque não deixou filhos legítimos, teve-os naturais, um Manuel José Guedes de Miranda, outro cujo nome ignoro.
Luís Guedes fez testamento, do qual poucas disposições e em favor destes me são conhecidas:
Um título de abril de 1785 fala do morgado da quinta da Bacalhôa, de que é senhor o preclaríssimo Manuel José de Miranda, e na procuração diz-se isto:
«Manuel José Guedes de Miranda, do conselho de sua majestade fidelíssima, senhor de Murça, Brunhais, Água Revés, Torre de D. Chama, alcaide-mor e comendador das comendas de Cabeço de Vide e Alter Pedroso», etc.
Por fins de 1785 ainda Manuel José Guedes tinha a administração do morgado de Albuquerque; em abril de 1786, porém, já encontro um contrato feito em nome do armeiro-mor D. José Francisco da Costa e Sousa.
Teremos de retroceder alguns anos para vermos como o morgado de Afonso de Albuquerque pode chegar aos Costas de Mutela.
D.ᵃ Maria Josefa de Mendonça e Albuquerque e Pedro Guedes de Miranda tiveram, além de outros filhos, Luís Guedes, que sucedeu a seus pais, e cuja linha legítima se extinguiu, e D.ᵃ Joana de Mendonça, que em 1672 casou com D. António José de Melo Homem. Destes nasceram:
—D. Pedro e
—D. Madalena.
D. Pedro José de Melo Homem casou com D.ᵃ Maria Antónia de Bourbon, que faleceu em março de 1716, e seu marido em maio de 1740.
Destes foi filho:
—D. António José de Melo Homem, que nasceu a 26 de setembro de 1709[61] e casou em 1731 com D.ᵃ Mariana Joaquina de Mendonça, filha de D. Filippe de Sousa, capitão da guarda alemã.
—D.ᵃ Madalena Luísa de Mendonça casou em julho de 1690 com D. António Estevão da Costa, nascido em dezembro de 1671 e falecido em janeiro de 1724. Destes nasceram, entre outros:
—D. José da Costa, a 6 de setembro de 1694[62], e
—D. António José da Costa.
D. José da Costa casou em 1734 com D. Maria de Noronha, filha dos quintos condes dos Arcos. Sucedeu na casa e títulos de seu pai, foi armeiro-mor e faleceu a 10 de março de 1766 sem geração.
D. António José da Costa casou com D.ᵃ Antónia Rosa de Melo, foi servir na Índia e, em 1748, morreu no naufrágio da fragata Vencimento.
Destes havia um filho:
—D. José Francisco da Costa e Sousa, nascido a 28 de maio de 1740.
Em 1766 herdou a casa e títulos de seu tio paterno D. José da Costa, e foi armeiro-mor. Em 1772 casou com D. Maria José de Sousa de Macedo, segunda viscondessa de Mesquitela, por morte de seu pai em 1783.
De D. José Francisco e de D.ᵃ Maria José foi filho:
—D. Luís da Costa e Sousa de Macedo, nascido a 25 de março de 1780 e que veio a suceder a seu pai.
Expostas esta notas biográficas, necessárias para compreensão da narrativa, tratarei da sucessão do morgado depois da morte do senhor de Murça, Luís Guedes de Miranda e Albuquerque, cuja descendência legítima não houve ou se extinguiu.