VII
Por falecimento de Luís de Mendonça sucedeu-lhe nos morgados seu irmão:
—Nuno de Mendonça Furtado, clérigo minorista, com um canonicato em Évora. Foi casado com D.ᵃ Madalena de Távora, de quem não houve filhos.
Numa entrada, que fez em Castela, foi ali aprisionado, só alcançando a liberdade pela paz entre Portugal e Espanha.
Conhecida a morte do conde de Lavradio, disputaram a sua herança seus irmãos Nuno de Mendonça e D.ᵃ Maria Josefa, D. Fernando Martins Mascarenhas de Lencastre por sua mulher D.ᵃ Maria Manuel de Albuquerque[52], e D. Pedro António de Noronha, conde de Vila Verde.
A causa foi julgada a Nuno, que parece só entrou na posse do morgado de Azeitão em princípios de 1692 (conforme uma certidão de apelação passada em 29 de novembro deste ano), tendo de renunciar ao canonicato de Évora. Nuno veio residir para o seu palácio de Azeitão, aonde faleceu a 15 de fevereiro de 1684, sepultando-se na capela-mor da freguesia de S. Simão. D. Madalena sobreviveu a seu marido.
—D.ᵃ Maria Josefa de Mendonça, única sobrevivente a seus irmãos, casada com Pedro Guedes de Miranda Henriques, senhor de Murça, sucedeu a seu irmão Nuno no morgado de Azeitão e mais casa de seus pais. Não lhe faltavam qualidades administrativas, nem era menos desejosa de haveres do que seu irmão Luís.
D.ᵃ Maria tinha tido quatro filhos:
—João falecido aos dez anos,
—Antónia, freira no convento do Salvador em Lisboa,
—Joana de Mendonça, casada em 1672 com D. António José de Melo, por quem o morgado veio aos Costas de Mutela, e
—Luís Guedes de Miranda Henriques, casado em 1673 com D.ᵃ Maria de Ataíde, filha de Nuno de Mendonça, segundo conde de Vale de Reis.
Em 1687, D.ᵃ Maria Josefa de Mendonça Albuquerque achava-se em Azeitão, e no dia 4 de março, já viúva, faz uma procuração a seu irmão Jerónimo, que se achava na Índia, como já atrás disse, para ele em Goa e em todos os mais estados da Índia e quaisquer outras partes poder cobrar e haver a seu poder todos os bens e fazendas, ... pertencentes ao conde vice-rei, seu irmão, assim móveis como de raiz, dinheiro, oiro, prata, dívidas, encomendas, carregações, seus procedidos, diamantes, joias e coisas outras de qualquer qualidade, quantidade e substância, que sejam, fazendo a tal cobrança do poder dos devedores, seus herdeiros e sucessores, testamenteiros, depositários, tesoureiros de defuntos e ausentes, cofres de orfãos, casa da santa misericórdia e de quem mais a paga deva de fazer... e para melhor notícia dos ditos bens e dos que estiverem ocultos poderá mandar ler e publicar uma carta Paulina que com esta lhe será apresentada, que lhe foi concedida pelo núncio apostólico desta corte e procederá contra as pessoas que os ditos bens tiverem na forma da dita Paulina...[53] Dava-lhe poderes para vender o que lhe parecesse, ou enviar para o reino quaisquer bens ou fazendas carregando-os e arriscando-os a seu livre arbítrio. Limitava, porém, ao seu procurador a faculdade de garantia dos contratos somente aos bens da dita herança. As mais disposições são as comuns a todas as procurações gerais, com poderes de substabelecer, como era necessário absolutamente, pois degredado, como era Jerónimo de Mendonça, não podia sair do lugar do exílio.
Luís de Mendonça havia feito testamento, deixando à misericórdia de Lisboa grosso legado para dotes anuais a donzelas, e o remanescente a seus irmãos. Foi pela sua terça, que veio ao morgado de Azeitão a quinta da Fonte da Pipa, no termo de Palmeia, que D.ᵃ Maria Josefa, pelo seu procurador e criado Vicente Lourenço Pinto, cavaleiro do hábito de Cristo, arrendou em maio de 1693 por 120$000 reis anuais.
D.ᵃ Maria Josefa de Mendonça passava tempos em Azeitão, tendo a principal residência na sua quinta de Arroios, termo de Lisboa, até que em 1701, ou proximamente, se estabeleceu no palácio de Azeitão.
No dia 1.º de março fez aqui testamento cerrado, escrito pelo tabelião José Félix Falcão, e no dia 2 fê-lo guardar no arquivo do convento dominico de Nossa Senhora da Piedade, de Azeitão, cujo prior, Fr. Domingos da Cruz, passou certificado de o haver ali arrecadado.
Até 1709 encontram-se nos livros de notas e registos paroquiais repetidas referências a D.ᵃ Maria Josefa; a última, de 27 de julho daquele ano, é uma carta de alforria a duas escravas, Francisca de Mendonça e sua filha Luísa Maria de Mendonça, a quem libertou por sua morte, legando 10$000 reis à mãe e 30$000 reis à filha.
Pouco importa saber os nomes das duas escravas, menciono-os apenas por não ser muito conhecido o uso que faziam do apelido dos seus senhores.
D.ᵃ Maria Josefa ligava ao D. o L inicial do nome de seu marido; a sua assinatura era clara, mas nesta carta de alforria já a letra denuncia pesados anos.
Não faleceu em Azeitão, e o seu fim foi talvez posterior a 1712, pois viveu aproximadamente oitenta anos.
Não seriam poucos os desgostos por que passou D.ᵃ Maria Josefa.
Seu filho Luís foi um fidalgo de notáveis paradoxos, no dizer de Sousa[54], que o levaram aos cárceres da torre de S. Julião. Seu neto João Guedes roubou-a e maltratou-a.
Conta assim o autor anónimo de um nobiliário manuscrito, que tenho à vista[55]:
«João Guedes de Miranda Henriques, sendo muchacho, mal aconselhado de uns criados, entrou em casa de sua avó D.ᵃ Maria Teresa[56] de Mendonça e Albuquerque, de quem ele era herdeiro, e a descompuseram, ferindo-a e maltratando-a infinito, tendo quase oitenta anos, e lhe tomaram as chaves e lhe roubaram mais de 80.000 cruzados[57] entre dinheiro e joias de preço e bons diamantes, que tinha herdado de seu irmão Luís de Mendonça, que foi vice-rei da Índia. Com este cabedal fugiram para Castela, onde se puseram com ele seguramente e, estando já muito pela terra dentro, os dois motores deste negócio, que eram pai e filho, criados, que mal aconselhavam a este cavalheiro, os tentou o demónio a tornarem a Portugal a cobrarem uns duzentos e tantos mil reis, por não estar ainda de todo satisfeita a sua ambição, ou, parece, permitiu Deus, fosse para castigo da sua culpa, porque mal tinham passado a raia, quando, pelas armas, que traziam, os prenderam, tempo a que chegavam as ordens para que os prendessem. Trouxeram-os para a prisão da corte, de onde foram a padecer a forca de Santa Bárbara, em que lhes ficaram as cabeças para memória do seu delito. O furto se tornou a Portugal se lo restituiu, e João Guedes de Miranda Henriques veio oculto e se homiziou em casa do embaixador de França.»
Se Luís de Mendonça foi ambicioso de riquezas, a modo de em sete anos de vice-reinado alcançar cabedal enorme, sua irmã foi uma avarenta, que só viveu para entesourar.