XII

Se não deixaram que D. João II levasse a cabo nenhum dos seus empreendimentos e reformas, é bem certo que tudo já estava tão adiantado e bem disposto, que logo na entrada do seguinte reinado se patentearam, como por encantamento, prodígios daquele grande génio de rei.

As artes, estioladas pela sombra de dois reinados pouco felizes, tinham-se esterilizado; mas, cuidadosamente amanhadas e adubadas com tino por D. João II, frutificaram cedo, produzindo, logo na primeira colheita, um estilo arquitetónico com certa originalidade, resultado de engenhosas e bem pensadas combinações do normando, do gótico, do árabe e de quanto mais havia criado, ligados a motivos da fantasiosa imaginação dos artistas e artífices nacionais, em que se não perdeu a lição da escola nascida dos esforços e inteligente direção do príncipe perfeito.

O rei Manuel faleceu em 1521, Albuquerque foi senhor da Bacalhôa em 1528 e se o palácio fosse por então projetado ressentir-se-ia ainda da escola e gosto que dominavam o país, e as construções nem a mais leve sombra têm daquele tipo, ou teria seguido o estilo clássico já em voga.

As arcadas abertas e ainda sobrepondo-se dão ao todo uns odores de Itália, um arremedo fugitivo das construções florentinas e de Veneza, quer olhando jardins e terreiros, quer mirando ao longe, como na fachada norte, quer espelhando-se nas águas, como no lago, e estas, distanciadas das restantes, seriam uma adaptação das novas construções ao género comum.

As galerias do lago não destoam das do palácio, mas os pavilhões, que as extremam, como já disse, são quadrilhados e acoruchadas as coberturas.

O estilo do palácio é severo e nu de ornamentação; o do terrapleno superior e suas dependências é brincado de policromias espelhadas e fantasiosas. No palácio atendeu-se ao conjunto, pretendeu-se cativar a vista naquela mole torreada: à cerca de velhos muros imprimiu-se-lhe apenas o caráter, por assim dizer, do guardador que só cura do seu mister; aos muros da cerca superior quis disfarçar-se-lhes o destino. Os muros inferiores cingem e prendem um recluso, suspendem o assaltante, proíbem o ingresso no recinto; os do terrapleno superior seguram a vista, e os seus luzentes barros esmaltados entretêm o passeante com a variedade das policromias, levam o pensamento às idades da mitologia, da história e até o chamam a Deus com as transcrições dos livros sagrados.

Afonso de Albuquerque, filho, foi em 1521 na esquadra, que conduziu a Sabóia a infanta D.ᵃ Brites, filha do rei Manuel, e teve o comando de um galeão de 230 tonéis. A armada saiu de Lisboa em princípios de agosto e deu fundo em Vila Franca de Nisa no dia 29 de setembro. A entrada pública da princesa na corte só se realizou em maio seguinte, e entretanto os oficiais da armada fizeram digressões pela Itália, visitando as principais cidades e monumentos da pátria das artes. Desta excursão viria a Albuquerque o gosto do belo, e o conhecimento do que podia valer uma construção com originalidade de formas, marcando ao mesmo tempo uma época artística o renascimento das artes no seu país.

É indubitável que Albuquerque em Ferrara se enamorara da estrutura externa do célebre Palácio dos Diamantes, ou em Bolonha do Palácio Bevilacqua, atribuído a Gaspar Nadi e começado em 1481, coevo do anterior. A celebridade destes dois edifícios está principalmente no exterior das paredes formadas de pedras em facetas a modo de diamantes, invenção mais extravagante do que bela: daqui nasceram sem dúvida as casas às portas do mar em Lisboa, mais conhecidas pela Casa dos Bicos.

A tradição vulgar mesmo vem-lhe de reforço, dizendo que Albuquerque, para dar mostras da exuberância dos seus haveres, projetava colocar um diamante na ponta de cada prisma.

D.ᵃ Maria de Ayala, mulher de Albuquerque, era da casa de Vila Real, por seu pai, e de Portalegre, por sua mãe. Os Vila Real tinham o morgado da Bacalhôa, os Portalegre alguns bens ali próximos em Azeitão.

Afonso de Albuquerque prender-se-ia com as formas e disposição do palácio e quinta dos primos de sua mulher, comprou-os, e as recordações de Florença e de outros centros artísticos da península itálica, em que campeavam as innovações dos grandes mestres, fizeram-no adotar para ornamentação da sua nova propriedade os policromos e os barros cozidos dos Della Robbia e sua escola, adquiridos em quantidade, que, ainda hoje, só por si, formam uma coleção valiosíssima, um museu verdadeiro pela grande variedade dos espécimenes, em que figuram não só produtos estranhos, mas de origem portuguesa comprovada, que representam com brilho este ramo de indústria nacional naquela época. Por alguns azulejos do tipo quatrocentista, que se encontram dentro da alvenaria, ou forrando a face superior dos alegretes, pode crer-se que já algum azulejamento existia nas construções da quinta anteriormente à compra por Albuquerque.