XIII

Os azulejos e os medalhões da Bacalhôa mereciam ser tratados por mão de mestre, mas já descrevendo-os como observador enamorado deles, pode aproveitar à arte e à história desta indústria, despertando a atenção dos entendidos.

Os medalhões são, sem dúvida, da escola ou das oficinas dos Della Robbia, senão de Andrea, ou de Giovanni.

Os ladrilhos são de alguma fábrica da Espanha, Talavera ou Valência.

As cercaduras dos medalhões menores são de origem flamenga.

Os quadros historiados, os mitológicos, os alegóricos, os groteschi, os humoureschi, uma cercadura formosíssima e um escudo com o brazão dos Albuquerques, que há nas casas de prazer juntas ao lago formam uma coleção valiosíssima da indústria portuguesa, e, que importa muito para a história deste ramo de cerâmica no país. Nada falta a esta coleção, assinatura (Matos) numa parte, data (1565) em outra, e tudo ligado por elementos decorativos a comprovar a sua procedência.

Quanto aqui enumero pertence indubitavelmente à restauração e inovamentos de Albuquerque.

A julgar por destroços e restos de azulejos que se encontram nas argamassas, ou de azulejos cerceados e recortados a cobrir as pequenas paredes, que formam a caixa para as plantas dos alegretes e que mostram ter para ali vindo de lugar apropriado, a coleção já foi mais variada.

Uns azulejos lisos remendando quadros do mesmo padrão, mas de relevo cavado, provam ter havido reparação no azulejamento e alguns com escorregamento de tintas dirão ter-se recorrido a um fabricante, que por inábil houve de ser posto de parte.

Estas reparações deverão atribuir-se a D. Jerónimo Manuel, «o Bacalhau», que teve o morgado e habitou o palácio por bastantes anos antes e depois da sua viagem à Índia, e, continuadas talvez por seu filho D. Jorge, que também habitou o palácio, aonde faleceu em outubro de 1651.

Afonso de Albuquerque, filho, com sua mulher D.ᵃ Maria de Noronha, vinculou a quinta em 1568; dez anos depois ainda esta dama vivia, mas seu marido, já provecto, enviuvando, passou a segundas núpcias com D.ᵃ Catarina de Menezes; pouco durou esta nova união de Afonso de Albuquerque, porque em 1581 faleceu. De nenhum dos matrimónios restaram filhos, mas houve um natural, D. João Afonso de Albuquerque, que pretendeu suceder no morgado. Foi nele apossado, mas seguiu-se porfiado litígio, movido pelo ramo de Fernando de Albuquerque, chamado na instituição à administração do vínculo. Só em 1609 a causa foi decidida a favor de D.ᵃ Maria de Mendonça, mulher de D. Jerónimo, o Bacalhau.

Estes cônjuges estabeleceram residência no palácio, aonde D. Jerónimo faleceu em 1620. Já em 1607 o hospital, instituído por Afonso de Albuquerque, estava em ruínas, e o palácio e quinta corriam-lhes parelhas; é de crer, pois, que as reparações fossem do Bacalhau e seu filho Jorge. Em 1623 ainda encontro residindo na quinta um 4.10 Real, ladrilhador, que aqui poderia estar na reparação do azulejamento.

As ruas do jardim e as que correm ao longo dos muros do quadrângulo superior tinham o pavimento de famoso tijolo de 0,20 × 0,10, de excelente barro, bem fabricado e cozido, de que existem restos.

Estas ruas são orladas de alegretes para flores. Um arrendamento de 1674 impe ao rendeiro da quinta a obrigação de tosquiar o buxo do jardim e ruas duas vezes por ano e limpar os craveiros dos alegretes.

Do lado do muro estes alegretes são a espaço interrompidos por cadeiras de alvenaria revestidas de azulejo; do lado oposto, também a distâncias certas, há uns cubos mais elevados para plantas de maior porte. O azulejo destes cubos é sempre de qualidade superior ao dos alegretes, variando no desenho e todo de relevo. Entre cubo e cubo e entre cadeira e cadeira, nos panos de cada alegrete encontram-se quatro formosos azulejos de relevo, assentes em diagonal: são dos mais apurados no gosto, no desenho, nas tintas e no esmalte. O fundo destes azulejos é branco, os desenhos folhas e flores de fantasia, e nuns aparecem uns frutos, que na fórma se aproximam da romã (n.ᵒ 15). Os desenhos são combinados para quatro azulejos. Os padrões n.ᵒs 11, 23, 25 e 33 encontro-os notados como puro renascimento italiano[23], muitos outros podem assim ser classificados e terão vindo feitos de Itália, ou serão fabricação portuguesa sobre desenhos daquele país. Neles dão-se os característicos dos produtos cerâmicos sículo-árabes: espessura do vidrado e colorido terminado a meado por grossas gotas de tinta coaguladas[24]. Há mais dois padrões: um (n.ᵒ 9) notou-o Haupt no alcaçar de Sevilha, outro (n.ᵒ 37) para cercadura, em Santa Maria de Penha Verde[25]. A variedade no azulejamento é extraordinária, quer as placas sejam lisas, de uma só cor, com desenhos policromos, ou de relevo cavado e coloridos.

A mesma variedade se encontra nas cintas de azulejo, que emolduram as portas e janelas, quer as paredes sejam nuas ou azulejadas, distinguindo-se entre estas cercaduras as da Casa da Índia (n.ᵒ 5), de desenho fino, correto e de bom gosto, remendadas com uma imitação mal produzida, e que foi noutras partes aproveitada para o mesmo emolduramento.

A varanda coberta, ou lógia, que dá sobre o jardim, tem uma larga cinta azulejada, e cinco quadros representando os rios Eufrates, Mondêgo, Nilo, Danúbio e Douro.

A ornamentação policrómica da Bacalhôa prendeu a atenção do Sr. Theodor Rogge, alemão, professor de desenho, e de volta ao seu país ocupou-se dela, dedicando-lhe um artigo acompanhado de alguns desenhos, entre os quais o quadro que representa o Douro.

Eis o que diz o ilustre professor:

«Depois da introdução das faianças italianas da Renascença, sentiu-se a influência desta na decoração dos azulejos. As amostras mais belas desta mudança de orientação fornece-as o palácio da Bacalhôa em Azeitão, construído pelo filho do célebre herói da Índia, Afonso de Albuquerque.

A figura 3 (o Douro) mostra o sistema de um adorno de paredes por azulejos na galeria ocidental do palácio e que abre sobre o jardim.

O desenho executado em azul, amarelo, verde e castanho sobre fundo branco é circundado de uma bordadura de óvulos, e cobre a parede até à altura de 1,72m. Os painéis (kartuschen) policromos representam personificações dos rios principais de Portugal.

A figura iluminada no quadrado à direita dá o detalhe de um desenho composto de quatro azulejos. As bordaduras encontram-se na tabela iluminada, em baixo à esquerda, fig. 4. A combinação destes elementos em outras posições dá origem a uma infinidade de desenhos, que depois se circundam de diferentes molduras.

Os pavilhões do jardim, as paredes e as galerias do lago artificial, situado ao sul da quinta, são igualmente revestidos de ricos azulejos. Até os bancos para descanso os têm. A instalação, toda cheia de encantos, é obra bem inventada de um arquiteto talentoso, e que conhecia a fundo este genero de decorações.

Os azulejos que adornam as galerias do lago são quase todos verdes com ornamentos em relevo, à maneira dos azulejos espanhóis. No meio de uma das paredes há as armas dos Albuquerques pintadas em azulejo.

O pavilhão central do lago contém três quadros igualmente distintos pela forma e pela coloração. Um representa o rio Tejo e outro Suzana no banho. No fundo, sobre um pórtico, lê-se a data de 1565, provavelmente o ano em que os azulejos foram fabricados.

Também merecem menção as molduras das janelas do palácio, formadas por azulejos com ornamentos de plantas em relevo, e que representam uma decoração ornamental duradoura para fachadas.»[26]

O escrito do ilustre professor germânico mostra bem o apreço em que ele tem a coleção variadíssima, dos barros esmaltados da Bacalhôa, coleção trio quantiosa, que de longos anos abandonada e entregue à destruição e à rapinagem, ainda não pôde aniquilar-se lhe o valor. Na Alemanha é tida como uma maravilha, conhecida e apreciada; em Portugal, no próprio país que a possui, passa quase ignorada.

O azulejo que vestia de alto a baixo as lógias do lago é em relevo cavado, sobressaindo a verde, género hispano-mourisco, talvez das fábricas de Valença ou de Aragão, pois me parece bem distinguir-se dos de fabricação portugueza (n.ᵒ 6).

No fundo da lógia, mais ao occidente, há um quadro, também em azulejo, com o brazão dos Albuquerques num escudo de forma muito caprichosa, envolvido em ornatos de enrolados, género de cartoccio típico do autor, decorado com duas cabeças de sátiros. O escudo é esquartelado, como o do portão meridional do pátio. No primeiro e quarto quartéis as armas do reino com oito castelos na orla, esta roxa, certamente porque o fogo alterou o vermelho, aqueles amarelos, as quinas azuis em campo branco, no segundo e terceiro quartéis cinco lises amarelos em aspa sobre campo azul.

O azulejo dos pavilhões, que extremam as lógias, cobre totalmente as paredes; é liso e com desenhos de cores variadas. O do primeiro é a reprodução de um outro em relevo cavado, que forma a grande moldura da parede ocidental do lago, com mudança na coloração.

Neste pavilhão distinguem-se pela beleza as duas tarjas, que no rodapé e junto ao teto limitam o azulejamento das paredes; são pintadas em quadrângulos de 1,27 × 0,135m. A tarja superior representava um ininterrupto panorama de montes, castelos, habitações, riachos, a que dão vida crianças que jogam, brincam, banham-se, que se ocupam em variados misteres, ou em infantis folgares. A tarja inferior é uma delicadíssima, composição de flores de fantasia, rematada nos ângulos da casa e nos cunhais das portas e janelas por meios corpos fantásticos de homens ou mulheres, que um capricho do desenho fez sair da extremidade de um ramo, ou da corola de uma flor.

É no centro desta cercadura, na parede do fundo, que num cartoccio está o nome do autor da composição, e que para evitar repetições lançou aqui um traço de união para reconhecimento dos seus trabalhos, que no azulejamento abundam. Repare-se na forma do pequeno cartoccio que contém a palavra MATOS, e ver-se-hão reproduzidos os seus traços no emoldurado do escudo de armas da lógia occidental, o mesmo se dá nos dois rios da lógia do Palacio da que olha o jardim. Há aqui também uns caracóis, umas borboletas, e outros pequenos animais, que passam para o revestimento dos assentos e alegretes de um quadrângulo cerrado de muros, que serve de vestíbulo descoberto às galerias do lago; no quadro que representa o Nilo lá se veem uns patos que nadam ou mergulham, reproduzidos no quadro de Suzana no banho, e um pequenino ornato igual ao que antecede e se segue ao nome MATOS.

O revestimento dos assentos e alegretes, de que falo, é uma bela composição, género grotesco, talhada para os espaços que cobre; um amador não desdenharia emoldurar estas composições de Matos, e tê-las no seu gabinete; a cercadura do pavilhão junto até bem iria, por delicada, no camarim de uma dama.

Pelo nome e época, este notável ceramista português será o Francisco de Matos, que data de 1584 o azulejamento da capela de S. Roque (a terceira da epístola) da igreja da Misericórdia de Lisboa. As composições distanciam-se para serem postas a par: a de Lisboa é um desenho largo, rasgado e firme, de mão amestrada, mas com arabescos gigantes; os trabalhos da Bacalhôa são Horinhas mimosas, nascendo umas das hastes das outras, como se o mesmo talo lhes fosse comum, personagens e animais de fantasia, uns putti graciosos e alegres, exuberantes de vida, ou uns velhos de compridas barbas, que simbolisam os rios, alguns já mostrando enfado de não verem vazios os cântaros, que há séculos sobraçam.

A composição do quadro de Suzana e do que lhe ficava fronteiro mostram que Matos era um pintor de raça, capaz de abordar todos os géneros de pintura. Sobre os barros, num trabalho em que tem de primar a ligeireza, em que não há retoques nem mimos de execução, vê-se o génio valente do artista, que se não prende, nem vacilla, um pincel que segue rápido a inspiração que o dirige. Num acessório do quadro de Suzana, no pórtico do palácio de Joaquim, lê-se a data 1565; num lago próximo nadam uns patos como na água do Nilo da varanda oeste do palácio; no tocado de Suzana nota-se um adorno de tecido ligeiro, igual na forma ao do segundo medalhão do lago, parecendo que um deu a ideia do outro, e que o artista neste se inspirou.

O quadro que lhe é fronteiro, a mais de meio destruído, parece representar um festim, em que os comensais, mulheres e homens nus, atacados de improviso se defendem. Vê-se ainda a parte de uma mesa, alguns vasos por terra, um homem que puxa da espada, cuja bainha pende de um estilingue, posto sobre as carnes, e algumas outras figuras.

Na parede do fundo um quadro, quase aniquilado, representava o Tejo.

De resto, não haverá no país, reunida, colecção mais variada e completa de um só ceramista fabricante de azulejos. Esta cresce de merecimento e valor pela autenticidade que lhe dá o nome do autor e data.

São numerosos os espécimenes, ferindo pelo traçado genial da composição e pela mestria da execução. A ideia, a forma, a adaptação e aplicação dos desenhos aos lugares, tudo denuncia um artista de primeira plana.

Francisco de Matos não foi só um pintor aprimorado, mas um ornamentador excelente, um decorador de génio. Com as suas graciosas faixas ornamentais, ou humorísticas, sabia matar a monotonia dos grandes palmos de desenhos uniformes, as cores de que se servia eram mesmo calculadas de modo a distanciar as composições; vestindo os alegretes de pinturas grotescas, dava realce aos naturais adornos das flores e plantas, recriando o olhar pela variedade. O rumorejar da água cadente ou batida pelas asas das aves aquáticas, ou pelo saltar dos pequenos peixes, seguravam o espírito a uma tristeza doce, mas sempre desalegre, e o génio do artista soube imprimir nas suas composições uma certa vicia, distrair o pensamento e soltá-lo de tristuras.

Os tetos destes pavilhões e lógias eram de estuque, apainelados, seguiam o pendor dos madeiramentos e pintados de várias histórias, diz o tombo de 1630. As coberturas piramidais dos pavilhões foram de lousas de ardósia, de que apenas se encontraram restos.

Todo o azulejamento é assente por fiadas diagonais, com exceção dos quadros, cujo assentamento é horizontal.