Monumentos

Cathedral—Entre os novos e monumentaes palacios da praça de Mayo, eleva-se a pesada e triste frontaria d’este templo, edificado na segunda metade do seculo XVIII. É em estylo grego, com 12 columnas jonicas, de granito, a sustentarem o frontão, em alto relevo.

O interior, em tres naves, é amplissimo, porém sombrio. Os pilares, demasiadamente grossos, tiram toda a elegancia ao edificio.

Ha 12 capellas lateraes e 2 ao lado do altar-mór.

Um arco-cruzeiro, precede a capella-mór, que encerra seis arcos lateraes, os dois ultimos com tribuna e um pequeno orgão. No altar principal ha 4 columnas douradas e á esquerda está o sólio archiepiscopal. As paredes são revestidas de marmore mesclado, com seis janellas, que transmittem escassa luz ao recinto.

No tecto da capella-mór ha tres pinturas e outras tantas no do corpo principal do santuario.

Precede o arco-cruzeiro um alto zimborio, com 4 janellas a vitraes coloridos.

Na terceira capella da nave direita está o tumulo, eminentemente artistico, do general San Martin, e na quinta capella o do arcebispo Aneiros, primeiro prelado de Buenos-Aires. O arcebispo está representado em estatua de marmore branco, ajoelhada. É trabalho do esculptor V. de Pol. A arcaria de todo o templo é ornamentada a meias columnas de marmore mesclado, com capiteis dourados.

O monumento sepulchral do general San Martin, obra do esculptor Carrier-Belleuse, é de imponente e bella perspectiva. Sobre duplo pedestal de marmore assenta o bronzeo feretro do general. Ladeiam-n’o quatro blócos de marmore branco, tres com as estatuas da Liberdade, do Trabalho e do Commercio, e o outro com laureis, palmas, um baixo-relevo commemorativo da batalha de Maipú, e os escudos das Republicas Argentina, do Chile e do Perú.

Congresso Nacional—É este um dos mais grandiosos edificios de todo o globo. Se bem que, exteriormente, por concluir, já se póde admirar e descrever não só as suas monumentaes proporções, mas tambem a magestatica belleza da sua architectura. O estylo é greco-romano, com quatro pavilhões nos angulos, dominados pelo corpo central, em fórma de hemicyclo, com galerias em columnas. Esta especie de cupula, ou zimborio, repousa em uma formidavel estructura de 300 metros de granito e pesa 30:000 toneladas. Só o alicerce d’esta móle gigantesca importou em 500:000 pesos, e tem 10 metros abaixo do nivel do sólo, no mesmo feitio da cupula superior.

Os planos e a execução do monumento são do engenheiro Victor Mano, e calcula-se que, terminado, custará 12 milhões de pesos argentinos.

A camara dos deputados e o senado funccionam n’este palacio desde 1906. A sala dos deputados, com 149 cadeiras, tem tres pavimentos, o 1.º para o corpo diplomatico e o 2.º e o 3.º para o publico. Ha uma galeria especial para a imprensa. O salão é em fórma de meia laranja, guarnecido a columnas caneladas e a vitraes coloridos, no tecto. Cada assento de deputado tem a sua carteira especial. Salas de espera e de leitura. Guarda-roupa luxuoso.

Secção do Senado.

Sala de espera. Salão das sessões, tambem do feitio de meia laranja, com dois pavimentos, um de tribunas para o corpo diplomatico e outro de galerias para o publico. Até meia altura, as paredes são revestidas de velludo vermelho. Refeitorio dos senadores.

Sala de recepção do Presidente do Senado e saleta de espera. Salão de recepção do corpo diplomatico.

Pateo com galeria circular, ornamentada a grupos de columnas.

Salão geral de refeitorio contendo o plano, em gêsso, do edificio, pelo architecto Dormel. Este salão é revestido de madeira do paiz, em talha.

Todo o edificio está, interiormente, alcatifado e luxuosamente mobilado.

O salão da camara dos deputados serve para as reuniões plenarias das duas camaras.

Palacio de Justiça—Ergue-se na praça Lavalle. As obras começaram em 1904 e devem estar concluidas em 1910. O projecto d’este monumento, em estylo neo-grego, é do architecto francez Norbert Meillart.

O primitivo orçamento foi de oito milhões de francos; porém, concluido, o palacio custará cêrca de vinte milhões e será um dos maiores e mais bellos do mundo. O edificio tem 38 metros de altura e rematal-o-ha uma cupula de 120 metros, projecto este provisoriamente posto de parte, por causa do seu enorme dispendio.

Uma galeria, a columnas doricas, ornamenta a frontaria principal á altura de dois pavimentos. O interior é dividido em um milhar de compartimentos, entre os quaes numerosos salões, cuja ornamentação corresponde á sumptuosidade, gosto artistico e riqueza da architectura.

Todo o monumento, em seis pavimentos, é de tijolo e revestido, interior e exteriormente, de preciosos marmores e mosaicos.

O vestibulo, grandioso e artistico, é guarnecido a estatuas.

Todos os andares são revestidos de ferro, isolados e incombustiveis.

Seis pateos interiores transmittem ar e luz aos compartimentos, que oito ascensores electricos communicam entre si.

No rez-do-chão installa-se, n’este momento, o archivo geral da Justiça.

No pavimento nobre admira-se a monumental sala dos Passos Perdidos, que communica com o salão geral das audiencias.

A este seguem-se a sala do Jury, a de recepção, e as salas e gabinetes do Presidente e dos secretarios do Tribunal Supremo. A Côrte Suprema, tem um soberbo salão de audiencias ornamentado a columnas corinthias; a sua altura occupa o espaço de tres pavimentos.

A sala da Côrte de Appellação, é alta de dois andares, e as simples salas de audiencia dos julgados, teem a altura de um pavimento. O estylo geral de todas estas dependencias é corinthio.

Ha tambem as grandes salas de audiencia das Camaras Civil e Criminal, perfeitamente eguaes. Depois das principaes peças, já mencionadas, visita-se ainda os salões de trabalho, da Bibliotheca e a sala do julgamento supremo de todas as appellações da Republica, cujo tecto é de vidro.

Os outros andares são alternados de salas e gabinetes de audiencia com os compartimentos dos escrivães, ou notarios, em numero de 115.

O sexto e ultimo pavimento é occupado pelo julgado civil, e ricamente decorado a marmores de Carrara, da Belgica, e a onyx do paiz. O madeiramento empregado no palacio é da Australia, da Argentina e da Terra do Fogo. Sobre os tectos, que são tambem amplos terraços para passeio, estão installados os compartimentos das machinas propulsoras da illuminação e dos ascensores. Do mirante, á altura de 38 metros, a vista geral da cidade é esplendida.

Estatuas—O monumento da Republica occupa o centro da antiga praça Victoria, hoje de Mayo, a principal de Buenos-Aires. Consta de uma alta columna granitica, encimada pela figura symbolica da Republica, com escudo e lança.

Na base da columna, estão quatro figuras femininas, e a data, em lettras douradas—25 de Mayo de 1810.

A estatua do general San Martin, ergue-se na praça do mesmo nome, é equestre e de bronze. Assenta sobre pedestal de marmore branco, sem decoração nem inscripção alguma. Com a mão esquerda, o general sustenta as redeas e com o dêdo indicador da mão direita aponta para o infinito.

O monumento a Adolfo Alsina, eleva-se na praça da Liberdade, defronte do bello e novo edificio granitico do Colyseu Argentino.

É de bronze, em tamanho natural, sobre pedestal de granito, com as datas—1829—1877.

Situada a pequena distancia do monumento ao general San Martin, ergue-se a estatua do soldado Falucho, de bronze, em tamanho natural, e empunhando a bandeira nacional. Assenta sobre um pedestal de granito, com inscripção.

Ao centro da praça Lavalle, eleva-se a marmorea estatua do general d’este nome, sobre uma alva columna canelada, que repousa em uma base granitica. O pedestal da columna tem, gravadas, as seguintes inscripções:—El Pueblo a LavalleMuerto por la Libertad, en 1841Libertador y MartyrNascido per la Immortalidad en 1797.

Em uma pequena praça fronteira á egreja de S. Domingos, está o monumento do general Belgrano. Consta de uma urna de marmore branco sustentada por archanjos e rematada por um dragão de bronze. A base, de alvo marmore, descansa em um sopé de granito, e é ornamentada a baixos relevos, em bronze, e por duas estatuas allegoricas, do mesmo metal.

No parque Tres de Fevereiro, erguem-se as estatuas de Sarmiento, Burmeister e Eduardo Costa.

Theatro Colon—É um dos mais modernos monumentos de Buenos-Aires, recentemente inaugurado. Na sua architectura figuram varios estylos, avultando o jonico, o corinthio e o attico.

Tem 25 metros de altura, em 3 pavimentos. 16 estatuas ornamentam a monumental escadaria de marmore, que dá accésso á plateia. O vestibulo é amplo e bello, circumdado a tribunas e guarnecido a meias columnas de marmore côr de rosa, com capiteis dourados. A plateia tem 28 metros de comprimento por 22 e meio de largura, e o circulo da amplitude, em fórma de ferradura, tem 75 metros. Encerra 900 cadeiras e sete ordens de logares superiores, a saber, duas de frisas, duas de camarotes, duas de camarotes aos lados e de balcões ao centro, e a ultima ordem é de galeria geral, em columnata.

Toda a immensa e bellissima sala é profusamente dourada e illuminada por centenares de lampadas electricas. No tecto ha uma pintura phantastica, a circular um gigantesco lustre em fórma de esphera armillar.

A sala póde conter 3:570 pessôas. A abertura do palco tem 18,ᵐ25 de largura e 19,ᵐ25 de altura.

As dependencias do edificio são, egualmente, magestosas pelas dimensões e decorações, sobresaíndo o foyer, ainda por concluir.

O monumento custou quatro milhões de pesos argentinos. A inauguração do theatro teve logar por uma companhia lyrica italiana, sob a direcção de Luiz Mancinelli, em 25 de Maio de 1908.

Deposito de las Aguas Corrientes—O aspecto geral d’este edificio, exteriormente de tijolo, revestido de terra-cotta, é monumental e sumptuoso. 180 grupos, a 4 columnas de ferro fundido, sustentam, interiormente, 12 tanques, tambem de ferro, divididos, em partes eguaes, por 3 pavimentos, e com a capacidade, cada deposito, ou tanque, de 6:000 toneladas de agua, o que dá um total de 72:000 toneladas. O ferro empregado n’esta monumental fabrica, que é um arrojo de engenharia, pesa 16:000 toneladas. N’este deposito entram e d’elle partem os grandes canos geraes que fornecem toda a cidade, e cujo consumo annual attinge 40:000:000 metros cubicos. Ha numerosos apparelhos de nivelação das aguas, que são conduzidas do rio da Prata, á distancia de 20 kilometros, por gigantescos tubos de ferro.

Domina o monumento uma torre—observatorio, com a melhor vista geral da cidade.

Penitenciaria Nacional—Pelo seu conjuncto, isto é, pela immensidade da area que occupa, pelo numero e grandeza das edificações, como devido á instituição em si, á sua installação e aperfeiçoamento, a Penitenciaria é um monumento e dos mais grandiosos e interessantes da capital argentina.

A area total de terreno, occupado pelo edificio principal e dependencias, é de 120:000 metros quadrados. A construcção central consta de 5 pavilhões irradiantes de um centro commum encimado pela capella do estabelecimento, que tem uma porta para cada pavilhão, bancos aos lados do unico altar, pinturas no tecto, um pequeno orgão, organista, é em fórma octogona e frequentada pelos penitenciarios que quizerem fazêl-o, visto serem respeitadas todas as crenças. Cada pavilhão—galeria tem dois pavimentos com 120 cellas, que são caiadas, bem arejadas e illuminadas e teem uma tarimba, uma mesa tosca, um banco, uma prateleira, uma lampada electrica, um orificio de observações, um buraco para a passagem da comida, uma campainha de chamada, um colchão de lã e um travesseiro.

Além d’estes cinco pavilhões, ha outro, central, para transmissão de ordens e parlatorio. Nenhuma cella póde conter mais de um preso. Cada pavilhão-galeria tem duas cellas de castigo, sem luz e com tarimba lisa. Os presos são classificados por conducta, á entrada perdem o nome, o cabello e a barba; porém não é usado, n’este estabelecimento, o barbaro systema das mascaras.

Para cada penitenciario, que logo á entrada é photographado, ha um—promptuario—ou seja um folheto que contem a filiação, o retrato, as photographias radiographicas do encarcerado, a enumeração dos seus parentes; os seus processos e prisões, os antecedentes, o extracto da sentença condemnatoria, as notas da conducta interna, a data em que terminará o cumprimento da pena, a nota dos castigos applicados na prisão, as suas bôas acções e recompensas, a designação do seu trabalho penitenciario e as materias que estuda.

Entre cada um dos pavilhões principaes ha um pomar e uma praça, livre, para gymnastica dos presos. No 2.º pavimento do pavilhão n.º 4, está um salão de conferencias, com capacidade para 400 pessôas e com apparelho para projecções luminosas. É tambem ahi a bibliotheca da Penitenciaria, cujo numero de livros consultados foi de 2:811, no 1.º semestre de 1908. Seguem-se 14 salas de aulas, cujos bancos e mesas foram feitas na casa.

Cada sala tem uma pedra e varios mappas e espheras. São ensinadas as seguintes materias:

—Leitura, escripta, linguagem e calligraphia.

—Arithmetica e contabilidade.

—Geometria.

—Geographia e Historia.

—Historia Natural.

—Desenho.

—Moral.

A frequencia ás aulas, das 6 da tarde ás 8 da noite, é obrigatoria para todos os presos.

Durante o dia, o trabalho é effectuado nas officinas de sapataria, alfaiataria, marcenaria, lithographia, carpintaria, photogravura, typographia, encadernação, latoaria e ferraria. Todas teem instructores civis e funccionam oito horas por dia. A officina de sapataria prepara, diariamente, 300 pares de botinas, e as de lithographia e typographia, com machinas braçaes e outras movidas pela electricidade, fazem os trabalhos do Estado, assim como as restantes.

Na officina typographica imprime-se tambem e diariamente, o Boletim Official e Judiciario, e compõem-se todas as publicações officiaes. Ha um gabinete photographico e escólas de engenharia, jardinagem e de horticultura, com mestres especialistas e estufas adequadas. Na grande cêrca do estabelecimento ha varios pavilhões-enfermarias, para as diversas cathegorias de penitenciarios.

Tambem ha pavilhões especiaes de lavanderia, com estufas de desinfecção, installação hydrotherapica, e o grande pavilhão isolado, contendo as enormes caldeiras propulsoras da energia electrica para a illuminação e officinas, assim como a caldeira especial para o fornecimento da cosinha, que é modelar e movida a vapor.

Pharmacia, com laboratorio e gabinetes odontologico, radiographico, de psichiatria e de criminalogia.

Tambem ha um pavilhão para condemnados a prisão, até 3 annos, e outro para detidos pela policia e que não tenham logar nas esquadras.

A Penitenciaria de Buenos-Aires é verdadeira e perfeitamente modelar e facilmente accessivel para visitar-se, graças á extrema amabilidade do seu Director, a qual contrasta com a má vontade do seu collega da Penitenciaria de Lisbôa, que negou a permissão da visita a um escriptor, sob o pretexto, vocalmente formulado, de que um jornalista lisbonense escrevêra inverdades sobre o estabelecimento. E occupa este homem as mais elevadas posições sociaes e politicas, em Portugal, incluindo a de membro do Conselho de Estado! Em Julho de 1908, era de 1036 o numero total dos penitenciarios.

Para não alongar, demasiadamente, este capitulo, o auctor não trata aqui de outras instituições e estabelecimentos monumentaes da capital argentina, como, por exemplo, o Hospicio de las Mercedes, o Mercado Central de Fructos, o Palacio do Governo e a Municipalidade, que serão descriptos em outras secções.