Historia
O nome de Buenos-Aires tem duas versões, adoptadas ambas por historiadores da famosa capital argentina. Segundo uns, Sancho del Campo, official do adelantado, especie de vice-rei, D. Pedro de Mendoza, primeiro fundador da povoação, ao saltar em terra exclamára:—buenos-aires!—referindo-se aos ares agradaveis que circulavam na atmosphera. Outros escriptores sustentam que o nome provem do de Santa Maria de Buenos-Aires, muito da devoção dos mencionados expedicionarios. Effectivamente, o primeiro nome dado á localidade, foi o de cidade de Santa Maria.
D. Pedro de Mendoza partiu de Sevilha em 24 de Agosto de 1535, com quatorze navios e 220 homens de equipagem, entre officiaes e soldados. O almirante da armada era D. Diogo de Mendoza, irmão de D. Pedro.
A causa d’esta expedição foi a descoberta e exploração das minas de ouro e de prata, que o navegador Gaboto affirmára, em Hespanha, ter visto nas margens do Rio da Prata. Como o informador tambem se referisse á extraordinaria fertilidade e belleza das terras platinas, o espirito aventureiro d’aquellas épocas, acabou por decidir a organisação da frota, na qual o adelantado foi acompanhado por muitas pessôas gradas, umas que tinham de transportar-se ao Paraguay, e outras desejosas de riquezas e de aventuras.
Na altura das Ilhas Canarias, a expedição foi surprehendida por grande temporal, que a forçou a arribar ao Rio de Janeiro, onde, por vingança, Mendoza mandou matar o mestre de campo João de Osorio. Como a crueldade d’este acto provocasse a indignação da maioria da equipagem, o chefe mandou levantar ferro para impedir as deserções e nos primeiros dias do anno de 1536, ignorando-se a data exacta, fundeou a armada na embocadura do Rio da Prata. Seguiu-se o desembarque e a fundação da cidade, ao mesmo tempo que de um forte para defeza da nova povoação contra os ataques dos naturaes. Estes, os indios querandies, tentaram impedir o estabelecimento dos hespanhoes, conseguindo surprehender e matar dez d’entre elles, que haviam-se internado á procura de lenha. No intuito de vingar esta affronta, D. Diogo de Mendoza, á frente de uma expedição militar, partiu á procura da tribu, que o esperou nas margens de uma lagôa e em numero de alguns milhares de guerreiros.
Os invasores succumbiram ao numero, e o proprio D. Diogo foi morto, o que profundamente desanimou o fundador de Buenos-Aires. D. Pedro caiu gravemente enfermo e á derrota seguiu-se a falta de viveres, que degenerou em fome, a ponto dos vivos alimentarem-se com a carne dos companheiros mortos. O governador resolveu retirar-se para o Brasil, mas quando ia a partir, appareceu-lhe, com algumas provisões, o capitão Oyolas, que elle mandára ao interior, em busca de viveres. Este successo reanimou um pouco os hespanhoes, porém os indios, tendo-se reunido em numero superior a 20:000, atacaram a nova povoação, ao mesmo tempo que incendiavam os seus tectos de palha, arremessando-lhes flechas ardentes. Os habitantes foram obrigados a refugiar-se, com D. Pedro de Mendoza, nos navios que os indios não puderam queimar, e partiram, em numero de 400, na direcção do Paraguay, ficando no porto de Buenos-Aires e a bordo de 4 navios, 160 homens, ao mando de Juan Romero. Do meio da viagem, D. Pedro de Mendoza, voltou a Buenos-Aires, onde encontrou reinstallada a gente de Romero, pela retirada dos indios.
O adelantado nomeou capitão do porto e da povoação a Francisco Ruiz Galán, e partiu para Hespanha, morrendo em viagem e a bordo do navio «Magdalena», em 23 do Junho de 1537. Privações de toda a especie continuaram a flagellar a pequena população de Buenos-Aires, até que em Abril de 1538, chegou de Hespanha uma caravella de soccorro, carregada de provisões. Em Outubro d’esse anno appareceu uma expedição auxiliar composta de dois navios e 200 tripulantes, com viveres para dois annos, sob o commando de Alonso Cabrera.
Com estes reforços começou-se a reconstrucção das casas incendiadas, pelos indios, e da egreja.
A Ayolas, capitão de Mendoza, que foi assassinado pelos indios do Chaco, succedeu no commando Domingo Martinez de Irala. Este reuniu, em Assumpção, os homens que Mendoza tinha deixado nas margens do Paraná, e dirigindo-se a Buenos-Aires, ahi fez proclamar a despovoação, levada a effeito em 10 de Maio de 1541, queimando-se os navios emprestaveis para navegar; e partindo Irala com toda a população para o Paraguay.
Da expedição e tentativa de D. Pedro de Mendoza ficou, como recordação indelével, o rebanho de 75 cavallos e eguas que elle trouxera de Hespanha e que solto nas immensas planicies regadas pelas aguas dos rios Riachuelo e da Prata, foi a origem da actual riqueza animal das regiões platenses.
D. Juan de Garay, nascido em 1528, em Villalba de Lora, provincia de Burgos, aos 16 annos de edade embarcou para Lima, no Perú, em companhia de seu tio, o licenciado Pedro Ortiz de Zárate, ouvidor n’aquella cidade sul-americana. Em 1549 acompanhou o general Juan Nuñez del Prado ás provincias de Tucuman.
Tendo estado em Charcas e tomado parte em varias expedições contra os indios, em 1561 foi nomeado alguazil-mór do governo do Rio da Prata, pelo que estabeleceu-se na cidade de Santa Cruz da Serra, fundada por Nuflo de Chaves. Commissionado pelo governo do Paraguay para fundar uma povoação nas margens do Paraná, para alli partiu em uma caravella, a 14 de Abril de 1573, fundando a cidade de Santa Fé, em 15 de Novembro do mesmo anno.
Depois de voltar ao Perú, para tratar um assumpto de familia e de derrotar, no Paraguay, o cacique Oberá, Juan de Garay, um dos maiores e mais celebres aventureiros do seculo XVI, organisou uma expedição e dirigiu-se ao Rio da Prata, em cuja foz lançou ferro. Desembarcando, com os seus companheiros, em 11 de Junho de 1580, depois de meia hora de marcha, fez alto em uma planura que lhe pareceu apropriada, e ahi traçou o local da praça principal de uma nova povoação, a que pomposamente deu o titulo de Ciudad de la Trinidad de Buenos-Aires. O fundador estava a pequena distancia do povoado fundado, 44 annos antes, por D. Pedro de Mendoza, e o espaço traçado pela sua espada é a actual praça 25 de Mayo.
Quatro mezes mais tarde, procedeu-se á repartição das terras fóra do perimetro da cidade. Esta occupava um espaço de 16 quadras de frente por 9 de fundo, limitado pelas actuaes ruas 25 de Mayo, Balcarce, Viamonte, Libertad, Salta e Estados Unidos.
Em 1762 já Buenos-Aires tinha 24 quadras de frente por doze de fundo. Cada quadra comprehende 140 varas de comprimento. As casas que, em 1650, não passavam de 400, eram algumas cobertas de telha, porém a maior parte tinha os tectos de palha, e eram muito baixas, de madeira e pedra. N’essa época e mesmo até ao fim do seculo XVII, nenhuma habitação attingia a altura de cinco metros.
Assegurada a fundação e garantido o sustento da cidade, aquella por uma derrota inflingida aos indios querandies, e este pelas numerosas tropas de gado que povoavam as campinas circumvisinhas, partiu o fundador Juan de Geray para Assumpção, no Paraguay, com escala pelas colonias do rio Paraná, algumas tambem de sua fundação. Em uma d’estas excursões, tendo pernoitado em terras dos indios miunanes, ainda selvagens, foi traiçoeiramente morto por estes, bem como os da sua comitiva. Sabida, em Buenos-Aires, a noticia do desastre, assumiu o mando um sobrinho do adelantado Vera, até á chegada d’este, em 1587.
Já em 1585, a cidade tinha sido atacada pelo corsario inglez Eduardo Fontano, que foi repellido, renovando a tentativa dois annos mais tarde e com egual resultado, o famoso pirata, da mesma nacionalidade, Thomaz Cavendish.
Os heroicos habitantes da povoação, todos soldados, tambem repelliram, victoriosamente, um ataque dos hollandezes, então estabelecidos no Brasil, em 1618.
Um seculo depois da fundação, Buenos-Aires passou por longo periodo de decadencia, em consequencia do abandono da metropole, das hostilidades dos indigenas e da falta de navegação e de commercio, o que provocou a carestia dos generos de primeira necessidade. A primeira Audiencia, estabelecida por decreto de 6 de Abril de 1661, representou a situação da colonia ao rei de Hespanha, Filippe IV, recebendo resposta, sete annos mais tarde, firmada por D. Marianna d’Austria, viuva d’aquelle monarcha e regente do reino, durante a menoridade de Carlos II. Esse documento apenas recommendava ao mestre de campo, D. José Martinez de Salazar, que empregasse todos os esforços para debellar a crise que affligia a colonia. N’essa época a população de Buenos-Aires era de 4:000 pessôas, das quaes apenas uns 250 europeus.
Já então a cidade começava a reanimar-se, devido á expansão commercial, maritima e do interior, a ponto que, em 1730, o jesuita Cattaneo, que a visitou, calculou os seus habitantes em 16:000.
D. Juan José de Vertiz, governador que succedera a Zeballos, iniciou, em 1778, una série de melhoramentos que deram novo aspecto á cidade. Deve-se-lhe a illuminação publica, o empedramento das ruas, a introducção do primeiro prélo e a fundação da Casa dos Expostos e do Collegio de S. Carlos. Em fins do seculo XVIII, fôram construidos o primeiro theatro e a primeira praça de touros.
Em 24 de Junho de 1806 e quando assistia a um espectaculo, com a sua familia, o vice-rei marquez de Sobremonte, recebeu a noticia de que acabára de ancorar, no porto, uma esquadra ingleza em attitude hostil. Immediatamente aquelle funccionario fugiu para Cordova, sem, ao menos, dar as providencias que requeriam a urgencia e a gravidade do caso. A 26 desembarcaram os inglezes e no dia seguinte, ao mando do general Beresford, entraram na cidade, quasi sem combate.
No interior e na visinha Montevideu, principiou a organisar-se a resistencia contra os invasores, e depois de um fracasso, em Perdriel, os naturaes tendo-se reforçado pela juncção dos generaes Pueyrredon e Liniers, marcharam sobre Buenos-Aires, que retomaram em 12 de Agosto, depois de sangrentos combates que custaram, aos dois exercitos, mais de quinhentas vidas.
Os inglezes retiraram-se para voltar, no anno seguinte, 1807, no mez de Junho, commandados, o exercito, pelo general Whiteloeke, e a esquadra pelo almirante Murray. O inimigo desembarcou em numero de 11:000 homens, das tres armas, principiando a assaltar a cidade em 2 de Julho.
Defendiam-n’a Liniers e 8:500 soldados regulares, conseguindo no dia 5, em uma batalha geral, derrotar completamente os inglezes, que, a 7, assignaram uma convenção, compromettendo-se a abandonar as cidades de Buenos-Aires e Montevideu e todas as regiões banhadas pelo Rio da Prata, assim como as proprias aguas platenses.
O governo da metropole galardoou a cidade com o titulo de Excellencia, e os seus vereadores com o de Senhoria. Em signal de regosijo, a Municipalidade, ou Cabido, libertou trinta escravos.
Em 25 de Maio de 1810, rebentou a revolução pela independencia, que é não só o principal acontecimento historico de Buenos-Aires como de toda a nacionalidade argentina.
Aos vivos desejos de autonomia politica e administrativa, manifestados pela população creoula e mestiça, principalmente, juntaram-se as noticias da invasão napoleonica da metropole e da independencia dos Estados Unidos da America do Norte. Além d’isso, o espirito bellico e auctoritario dos naturaes tinha sido animado pelas recentissimas luctas e victorias contra os inglezes.
Quando o vice-rei Cisneros, em 18 de Maio de 1810, publicou, em nome de Fernando VII, uma proclamação dando conta dos successos passados na peninsula iberica e exhortando a população a unir-se em volta da auctoridade e do throno, o povo de Buenos-Aires começou a agitar-se e foi para a praça da Victoria manifestar-se, em altos brados, pela reunião de um Congresso Geral, ou Cabido Pleno, no qual o povo tivesse directa representação e resolvêsse sobre a proclamação do vice-rei. Em face d’essa attitude dos habitantes, reuniu-se o Cabido ordinario, no dia 21 e resolveu, de accôrdo com os desejos do povo, convocar um congresso geral dos habitantes para o dia seguinte, ás 9 horas da manhã. Foram convocadas 450 pessôas gradas, que nada resolveram no mesmo dia, que foi passado em calorosas discussões, combinando-se voltar a reunir a 23, ás 3 horas da tarde. A pluralidade de votos decidiu que o vice-rei Cisneros deveria depositar o seu mandato nas mãos do Cabido, até que fôsse eleita uma junta governativa. O vice-rei acatou e cumpriu as resoluções do povo, mas no dia seguinte o proprio Cabido convidou-o a reassumir o governo, auxiliado por 4 das pessôas mais gradas da cidade, formando uma especie de Junta, presidida por Cisneros.
Finalmente, no dia seguinte, 25 de Maio, o povo da cidade, descontente com a solução da crise, sublevou-se de novo, e invadindo a praça Victoria, delegou uma deputação ao Cabido e á Junta, intimando-os a depôrem o mando nas seguintes mãos:
D. Cornelio Saavedra, commandante geral das armas, presidente, e vogaes Juan José Castelli, Manuel Belgrano, Miguel Azcuénaga, Manuel Alberti, Domingo Matheu, Juan Larrea, Juan José Paso e Mariano Moreno, os dois ultimos como secretarios.
Este triumpho popular e nacional deu em resultado o Congresso de Tucuman, reunido na cidade d’este nome, que em 9 de Julho de 1816 proclamou a independencia da Republica Argentina. No anno seguinte fôram as reuniões do Congresso Nacional transferidas para Buenos-Aires.
Em 24 de Setembro de 1812, o general Belgrano derrotou as tropas hespanholas do commando do general Pio Tristán, no campo de Carreras, suburbios de Tucuman.
Nos annos de 1817 e 1818, o mesmo general Belgrano e o seu collega San Martin, ganharam as batalhas de Chacabuco e de Maipú, que não só confirmaram e consolidaram a independencia nacional-argentina, como deram em resultado a proclamação da Republica do Chile.
Depois do da revolução de Maio, o facto historico mais importante da capital e da Republica, foi a dictadura tyrannica de Juan Manuel Rozas, a quem o Congresso Nacional concedêra o poder supremo. Em 1851, o general Urquiza, governador da provincia de Entre Rios, collocou-se á frente dos patriotas, que propunham-se derrubar o tyranno, e auxiliado por brasileiros e orientaes, deu a Rozas, em 3 de Fevereiro de 1852, a batalha de Caseros, derrotando-o com 24:000 homens contra 30:000, e obrigando-o a fugir para a Europa. Rozas governára por espaço de vinte annos.
Com a quéda da tyrannia foi promulgada nova constituição e Buenos-Aires entrou em phase de decidido desenvolvimento material.
Ao cair Rozas, em 1852, contava a cidade 76:000 habitantes, em 1864, 140:000, 404:000 em 1867, 800:000 em 1900 e 1:150:000 em 1908.
N’estes ultimos cincoenta annos, de muitos acontecimentos historicos teem sido theatro as ruas de Buenos-Aires, e ainda não ha muito tempo que ellas foram regadas com o sangue de irmãos, em feroz disputa do supremo poder. E por isso que ainda vivem muitos dos protagonistas d’esses infaustos successos, é de justiça lançar, sobre homens e factos, o véo do esquecimento e deixar á geração vindoura a tarefa de, serenamente, apreciar uns e outros e preparar o julgamento severo e perenne da Historia.
O primeiro escudo de armas da cidade de Buenos-Aires, foi fixado em reunião do Cabido, presidido por D. Juan de Garay, quatro mezes depois da fundação da cidade, em 20 de Outubro de 1580. A dita assembleia, depois de eleger patrono da cidade a San Martin de Tours deliberou que as armas e brazões de Buenos-Aires seriam formados por un águila preta pintada al natural, con su corona en la cabeza, con cuatro hijos debajo demostrando que los cria, con una cruz colorada sangrienta que salga de la mano derecha y suba más alta que la corona, que semeje la cruz á la de Calatrava y la qual esté sobre campo blanco.
A aguia e seus filhos representavam as fundações effectuadas em nome dos adelantados Juan Ortiz de Zárate y Torres de Vera y Aragon, que ostentavam nos seus respectivos escudos uma aguia corôada. Quanto á cruz de Calatrava e á corôa, explica o auto de Garay:
—La razón es haber venido á este puerto con fin y propósito firme de ensalzar la Santa Fé Catholica y servir á la corona real de Castilla y de Leon.
Um dos casos mais extraordinarios da historia de Buenos-Aires, é que 69 annos depois da decretação d’este escudo, o Cabido da cidade reuniu-se para crear um escudo «atento á no haberse hallado en el Archivo de este Cabildo y sus libros que haya tenido ni tenga hasta ahora armas ningunas».
Pelo que, foi creado um escudo com uma grande aguia, ao centro e no alto, a esvoaçar sobre uma ancora, e em volta uma legenda.—Em 1744 adoptou-se outro escudo, e em 1905 o que actualmente vigóra e que consta de dois navios entre duas aves.