Situação e Aspecto Geral

Aos 34.° 36, 21´ 4 de latitude austral e 58.° 21´, 33´ 3 de longitude occidental de Greenvich, á margem direita do Rio da Prata e a 20 metros acima do nivel do mar, está situada a cidade de Buenos-Aires, capital da Republica Argentina e a metropole mais importante, commercial e populosa da America do Sul.

N’esse ponto, a 275 kilometros da foz e a 200 de Montevideu, tem o rio 45 kilometros de largura e uma profundidade sufficiente para fundeadouro de grandes transatlanticos.

O perimetro da cidade é de 200 kilometros as maiores extensões são—de Norte a Sul 18 kilometros e de Este a Oeste 25 kilometros, com uma superficie de 19:006 hectares, isto é, mais do que Paris, que tem 7:802 hectares, Berlim, 6:326, Vienna d’Austria, 5:540 e do que Hamburgo, que tem 6:346 hectares de superficie.

Manchester, Londres e Marselha teem, respectivamente, 38:486, 30:486 e 22:336 hectares de superficie.

Á excepção de algumas das grandes metropoles norte-americanas, nenhuma outra cidade do mundo apresenta mais rapido augmento de população. Os seus principaes periodos de crescimento, foram de 1869 a 1887 e d’este anno ao de 1895. Na primeira das citadas datas os habitantes eram em numero de 177:000 e na segunda de 433:000, tendo augmentado em 256:000 moradores no espaço de 18 annos.

Em 1895, a população da capital era de 663:000 habitantes, ou mais 230:000 do que oito annos antes!

Fundada, em 1580, com 16 quarteirões ou quadrados de casas, pelo recenseamento geral de 1895, verificou-se constar a cidade de 54:795 casas, das quaes 912 com mais de 3 pavimentos, 6:332 com dois andares e 30:083 de um só pavimento. Hoje, Buenos-Aires encerra cêrca de 83:000 edificações, que abrigam 1:200:000 habitantes.

O aspecto geral d’esta soberba metropole é o de uma immensa planicie edificada e corôada pelos campanarios das suas egrejas e pelos zimborios dos seus palacios. O horizonte é limitado pela superficie do rio da Prata, cuja margem oriental apenas se avista nos dias muito claros, e pela aridez e côr pardacenta das campinas, que se estendem e prolongam além dos limites do municipio.

O excessivo comprimento de muitas arterias publicas faz com que, para o observador, a sua já exigua largura desappareça na altura da casaria.

A rua de Rivadavia, que divide, por completo e de um a outro extremo, o municipio, tem a extensão total de 18:000 metros, ou sejam 18 kilometros.

Nos primeiros 2:080 metros de comprimento tem a largura de 9½ metros; de Callao á Praça das Flôres, essa largura attinge 26 metros, que conserva até final. A rua de Santa Fé, parallela á anterior, é comprida de 12:000 metros; a de Cordoba, de 10:500; a de Corrientes, de 9:000; as de Callao e de Entre Rios, de 8:500 metros cada uma; a rua Independencia de 8:000 metros e muitas outras têm extensões immediatamente inferiores ás já citadas.

A magnifica Avenida de Mayo, com 30 metros de largura e kilometro e meio de comprimento, corre na direcção Este-Oeste e é, pelo movimento civico, pela situação topographica e pelo esplendôr dos seus edificios, a principal arteria publica da capital argentina.

Termina na amplissima e magestosa praça do mesmo nome, ladeada de monumentos e palacios, como a Cathedral, o Banco da Nação Argentina, a Camara Municipal e o Palacio do Governo. Na extremidade opposta da Praça de Mayo, ergue-se o grandioso monumento do Congresso Nacional.

A praça do general Lavalle, com 25:000 metros quadrados, é decorada a lindissimos jardins e, ao centro, pela estatua do general Lavalle.

As avenidas de Corrientes, de San Juan, de Belgrano, de Santa Fé e de Callao, são as mais importantes, depois da de Mayo, e mais extensas do que esta, se bem que o seu aspecto geral não seja tão bello e imponente.

A praça do general San Martin, profusamente ajardinada e ostentando a estatua equestre do seu homonymo, é um dos mais bellos pontos do centro da capital, assim como o passeio Alvear, ou da Recoleta e os parques Lezama e 3 de Fevereiro, especialmente o ultimo, com uma superficie de 3:677:464 metros quadrados, e que é o Bosque de Bologna de Buenos-Aires, excepto na vegetação. É especialmente frequentado ás terças e quintas-feiras, os dias da moda, por numerosas e ricas equipagens, que imprimem a esta capital o cunho essencialmente europeu dos grandes centros da aristocracia, da riqueza e da elegancia.

Quem chega a Buenos-Aires em dia de semana e nas horas de maior movimento civico, tem a illusão de que está em Paris, por exemplo, tal é o feitio caracteristico e eminentemente parisiense da metropole buonarense. Os cafés installados nos amplos passeios lateraes; os kiosques de jornaes e de tabaco, espalhados em profusão; a assombrosa quantidade de carruagens e de vehiculos de toda a especie, e até os vendedores de jornaes e de bugigangas, que como o camelot dos boulevards, tanta animação imprimem ás já animadissimas arterias da colossal cidade, tudo nos faz sentir que estamos em um dos formidaveis laboratorios humanos, onde se desenvolve a vida universal. Pena é que as arterias largas de Buenos-Aires, ou avenidas, sejam poucas em relação aos arruados que dividem as suas 3:500 manzanas, ou quadrados de casas, e que são excessivamente estreitos, para o espantoso movimento que os anima.

É facillimo ao visitante orientar-se na famosa capital porteña, devido á originalidade da sua topographia.

Effectivamente, o plano de Buenos-Aires é formado por quadrados de metros 130×130, que se cortam em angulo recto, formando como que taboleiros de xadrez. A numeração começa na direcção do porto e segue até á rua Rivadavia, que divide o municipio e onde principia a nomenclatura e a numeração de outras ruas.

Os nomes d’estas estão escriptos, em todas as esquinas, em lettras brancas sobre fundo azul e em chapas ou placas de ferro esmaltado. Cada quadrado tem o maximo de cem unidades, com a numeração par á direita e a impar á esquerda.

Todas as ruas e avenidas centraes são calcetadas a madeira e a asphalto, e as mais afastadas a parallelipipedos. Só a abertura da Avenida de Mayo custou dez milhões de pesos argentinos, e sommas fabulosas gastam actualmente o governo e a municipalidade na expropriação para alargamento de novas ruas, praças e avenidas, bem como na construcção de magnificos edificios publicos, que são verdadeiros monumentos.

Trinta e quatro mercados publicos abastecem a maravilhosa cidade e mais de 25:000 candieiros de electricidade, gaz e petroleo a illuminam profusamente. Todas as praças, avenidas e ruas principaes são realçadas, durante a noite, por poderosos fócos electricos.

As condições climatericas são excellentes, graças á situação topographica e geographica da localidade e já pelo cuidado e esmero das repartições competentes, em tudo o que diz respeito á salubridade e hygiene publicas.

Até 1890, a mortalidade de Buenos-Aires era de 29 a 30 por 1:000 habitantes. Depois das obras de saneamento, terminadas n’esse anno e nas quaes foram gastos 33 milhões de pesos em ouro, as defuncções baixaram a 15 e 16 por 1:000.

Tambem contribúe para esse resultado satisfactorio a amenidade da temperatura, cuja média, no mez mais frio do anno, o de Junho, é de 7.° centigrados e em Dezembro, o mez mais quente, é de 26.°

Sob o ponto de vista artistico, e especialmente architectonico, a perspectiva geral da cidade é bizarra e variadissima. Da povoação colonial pouco resta e a nova capital foi edificada, até bem pouco tempo, ao capricho dos proprietarios e de architectos na maioria incompetentes.

N’estes ultimos vinte annos, todavia, verdadeiras obras de arte teem apparecido a engrandecer a cidade, tanto particulares como publicas, especialmente nas novas e centraes avenidas.

Buenos-Aires é não só metropole assombrosamente commercial, mas tambem centro importantissimo de gôso, de luxo e de prazer. Na estação invernosa, de Maio a Outubro, funccionam tres ou quatro companhias lyricas, com os melhores elementos de reputação universal, assim como numerosas emprezas e celebridades artisticas na zarzuella, na declamação e no genero variado. Os seus grandiosos theatros são o assombro e o encanto dos forasteiros, que tambem sentem a impressão do bello e do supremo gosto ao contemplarem defronte de esplendidas vitrinas, nos passeios e em ricas equipagens, formosas damas, elegantemente vestidas, e irradiando das suas gentilissimas pessôas, a graça que seduz o espirito e incendeia os corações.