COMMENDADOR

Fez tudo o morgado. E os outros caçadores?

MORGADO (ao commendador)

Admiraram. (a D. Felicia) Antes de hontem passei a tarde n'uma academia de espada… (ao commendador) em casa de mestre Estevão da rua das Hortas… (á companhia) Ia lá um genovez de quem se diziam maravilhas. E com effeito é homem desembaraçado na arte. Tirou a melhor de quantos contenderam. Eu estava alli a vêr, e não queria assim sem mais nem menos entrar em assalto com um estrangeiro, que não sabe a gente quem é… Mas os amigos, que me tinham levado alli… provavelmente já de proposito… começam a dizer-me: «Sr. morgado, isto é uma vergonha para o reino!… Sr. morgado, só v. s.^a póde desaffrontar a nação!… Sr. morgado, isto são pontos d'honra!…» Atacaram-me pelo meu fraco… Não pude resistir… (fazendo menção de despir) Largo o josésinho… pego na espada… colloco-me no recto… Ao terceiro passe, o genovez tira-me de quarta a fundo… Paro de forte contra forte!… Faço um prendimento rapido… Estava desarmado o homem! (Gonçalo sorri.) Não é por me gabar: confessou elle mesmo que nunca vira pulso tão rijo, nem uma agilidade assim!

GONÇALO (com obsequiosidade ironica)

Estava em boas mãos… a honra nacional!

MORGADO (seccamente)

Favores! (continuando.) Hontem fui a uma corrida de pombos a Carnide. (negligentemente) Não enfiei senão cinco. Deram-me para correr um cavallo quasi serril… E era á gineta, que se fosse á brida!… Hoje estava convidado para jantar em casa d'um desembargador da Casa da Supplicação, meu amigo de tu. Chegou-lhe um cosinheiro de França, que faz na perfeição a sopa de natas e as tortas de espargos.—O meu amigo, sabendo como sou entendedor, fazia empenho no meu voto.—É tambem tarde de opera na Rua dos Condes. Representam uma coisa italiana que se chama… que se chama…