D. FELICIA
Essas peraltas de agora,
Eu não sei d'onde lhes vem.
2.^o POETA (repetindo)
Essas peraltas de agora…
Eu não sei d'onde lhes vem.
(Fica por momentos pensativo.)
BOCAGE (ao 1.^o poeta)
Foi a morgada que deu o mote?
1.^o POETA
Foi. (ao 2.^o Poeta.) Glosa-lh'o ao geito, se queres que te applauda, a tartaruga!
2.^o POETA
Deixa. (batendo as palmas) Lá vae:
Cambrayas, sedas, matizes;
Vermelhas capas bem fartas
Forradas de pelles martas;
Bons vestidos de paizes;
Filós, rendas, pertiguizes;
Sécias tudo, e a toda a hora;
Sempre em visitas por fóra;
Conhecendo toda a gente:
Eis-aqui, succintamente,
«Essas peraltas de agora;»
1.^o POETA (interrompendo)
Bravo!
D. FELICIA (applaudindo)
Bravo! Bravo!
BOCAGE (de parte ao 1.^o poeta)
Não é glosa: é rol da roupa!
2.^o POETA (continuando)
No dia cinco e seis vezes
Correm, sem que isto as affronte,
Dos perfumes do Le-Conte
Ás lojas dos genovezes;
Não faltam nos entremezes;
De casa, nem um vintem;
Trazem fiado o que tem
E na roca não põem mão:
Ou é milagre, ou então
«Eu não sei d'onde lhes vem!»
D. FELICIA (debruçando-se encantada e applaudindo)
Bravo!… Lindo!… Bravissimo… Uma suspensão!… uma suspensão!
(Alguns applausos nos quaes se distingue Mestre Amancio.)
2.^o POETA (a Bocage rindo)
Que tal?