D. MARIA JOANNA

Em França diz-se: noblesse oblige. A poesia, que é nobreza tambem, está a obrigal-o.

BOCAGE (exaltando-se progressivamente)

A poesia… A poesia é a lingua dos deuses, e a historia do mundo. É o raio omnipotente de Jupiter, e o carro fulgurante de Apollo. N'ella, em todos os tempos, teem cantado os homens as suas alegrias, teem chorado as suas dores, teem perpetuado os seus feitos, teem immortalisado as suas catastrophes. N'ella começou a balbuciar a humanidade; n'ella fundou os monumentos que desafiam os seculos. A poesia é a expressão do que ha mais intimo no coração e mais celestial no pensamento; é magnificencia e harmonia; é arrebatamento e seducção; esplendor pela fórma, delicia pelo som. É resumo de quantas artes levantam o homem ao Olympo; sentimento para a alma, idéa para o espirito, imagem para os olhos, musica para o ouvido, enlevo para todos os sentidos! Seria a poesia a unica lingua digna de saudal-a, minha senhora, se a mais completa poesia não fosse a propria formosura. (recrescendo) Deve ser a poesia…

COMMENDADOR (que durante esta falla passeou ao F. indo á janella)

Não quer que lhe feche esta janella, sr.^a D. Maria Joanna? Estão frias as noites, e o ar por aqui traspassa. Dos ares montesinhos, diz o insigne Columella…

D. MARIA JOANNA (atalhando-o impaciente e reprehensiva)

Commendador!

(O commendador approxima-se tirando a caixa de rapé.)

BOCAGE (reprimindo um gesto furioso e como continuando)

Mas a poesia, como dama, tem os seus dias, tem os seus momentos, tem os seus caprichos. É rainha, e não serva. Impéra, não obedece. Se vae arremessada no vôo, se a fazem colher as azas e baixar á terra (fitando o commendador)… para tropeçar na impudencia, ou no ridiculo… faz-se allegoria, faz-se apologo; é epigramma, é satyra; fustiga, flagella, punge, dilacera, fulmina… e segue, a sorrir desdenhosa, deixando atascada no seu lodaçal immundo a sandice enfatuada e grosseira!…

COMMENDADOR (sorrindo dubiamente e saboreando a pitada)

Hypotypóse arrojada! Já Democrito, philosopho da Thracia, dizia… o que quer que seja similhante… ao divino Hypocrates, natural da ilha de Cós! (Bocage vae para replicar arrebatado. Entra o morgado.)