GONÇALO

Peço perdão, sr. marquez: embarco.—Sei o que v. ex.^a póde… mas sei tambem o que devo.—(grave e solemne) Quando ultimamente fui tomar posse do meu solar de Mendel, aonde não voltara dês que entrei no collegio dos Nobres, a primeira coisa que me deu nos olhos, na sala de respeito, foi a longa fileira dos retratos de meus avós… um morto na defeza de Ceuta… outro espedaçado nos bastiões de Diu… outro mal-ferido na batalha de Montes Claros!… Todos com o arnez no peito e a espada no cinto… todos soldados desde Aljubarrota!… Parei a contemplal-os na vasta quadra, triste e deserta, que novamente a morte visitava.—Do alto das sombrias paredes pareciam dizer-me aquelles vultos severos: «por servir a patria, e para servir a patria, nos foi dado o patrimonio que te deixamos, com as obrigações do nosso nome, com as tradicções do nosso sangue. De ferro eram os nossos corações, como eram de ferro as nossas armaduras… nunca tremeram nos riscos mais affrontosos… nunca vacillaram nos mais apertados transes!… Esta immaculada austeridade nos fez estimados e honrados… Tal é o deposito de virtudes hereditarias que te confiamos… Recebe-o para o transmittir como o recebes.»—Isto julguei ouvir… isto se me gravou n'alma.—Podia esquecel-o agora?