MORGADO

Ha de perdoar, prima. Este papel foi-me confiado.

D. MARIA JOANNA (como acima)

De que modo correspondeu á confiança?—Esse papel é o allivio d'uma saudade, a consolação de uma familia, a restituição d'um patrimonio… Esse papel é a consciencia e o dever. Tem direito de o conservar nas suas mãos?

COMMENDADOR (de parte ao morgado)

Não ceda. Se fica ella com a prova, fica o morgado sem o casamento!

D. MARIA JOANNA (sem os perder de vista)

Sr. commendador, não se envileça mais… nem faça envilecer mais o sr. morgado! A cegueira de um homem, que já não vive, privou sua propria filha do nome e dos bens que lhe pertenciam… O temor da hora extrema corrigiu essa injustiça… (crescendo em indignação) Sobre este erro, que é para chorar, sobre este remorso, que devia ser sagrado, ajusta-se um pacto infame… (Movimento dos dois.) Infame, repito!… Um mercadeja a honra, outro a consciencia!… Um sacrifica a natureza, outro o decóro!… Isso tudo que é senão valor para traficar, fazenda para vender?… Que importa a filha desherdada? Que importa a mulher offendida? A mulher ha-de calar-se e consentir. É o seu interesse… Pensaram isso?… Pensaram, e nem lhes passou pelo rosto o pejo de o pensarem! É o mal das indoles corrompidas não admittirem sequer a existencia de corações sãos e inteiros, para quem a satisfação do dever seja a primeira riqueza! Fizeram-me o ultrage de me julgar por si. Não o podiam imaginar maior!—Sr. morgado, esse papel!… Sr. commendador, esse papel!