TIA PASCHOA

Uma sobrinha toda peralta!… Sempre como em dia de cirio ou de festa!… Quer na rua, quer em easa, capotilho de durante e bajú de escumilha, um palmito mesmo!… Sobrinha, pois não!… Vá que fosse sobrinha… Estava a ir-nos todos os dias à loja, que até já eu não andava contente, Deus me perdôe… Tudo era encommendar continhas, botõesinhos, coquilhos, cabos de chapeus… um nunca acabar. Mas coisa de pagar, qual! Tanto encommendou, e tanto faltou, que o meu Francisco por fim deixou de lhe fazer obra, e quiz obrigal-a a pagar por justiça… Justiça, está bom!… Ella tinha o pae Alcaide… pae ou tio, que eu sei lá o que lhe é… Foi-n'os a casa toda assanhada… palavra puxa palavra… Emfim, deram-n'os uma força por injuria, e agora o veràs… Eu bem dizia ao meu homem: «ó Francisco, deixa… deixa. Não apertes com a moça.» «Agoa vertida nem toda é colhida.» Mas, nada. Pensam que só elles teem juizo, estes senhores homens! Teimou, teimou, e aqui está. Vae já para um mez que dura este fadario. Sempre com o mantinho aos hombros!… E Deus sabe o que durará!… E tudo em casa a derreter-se… Os meus cordões e arrecadas, foi tempo… Dois tóros de buxo, que elle tinha comprado pelo S. Miguel… sem um nó, que eram mesmo uma perfeição… e haviam de render bons vintens… já lá vão por dez réis de nada… Até uma grosa de piões, que estavam para a Senhora do Cabo… hade crer, tia Vicencia?… a quinze réis cada um, que a bem dizer mais custou o ferrão!… E ainda se não fosse o mestre José Gomes… Deus lh'o pague!… Sabe? O mestre José Gomes, cerieiro ás Trinas, que é juiz do povo!… Se não fosse elle nem resquicios havia já da loja. Agora venho eu do Terreirinho das Olarias, de casa do escrivão, e vou para o Poço dos Negros, a ver se fallo ao sr. juiz do crime do Mocambo.