+I+
Um dia a mãe comprou chapeu pra ir em pessôa pedir à dôna da engommadoria que não deixásse a filha passar a ferro as ceroulas dos homens porque parecia mal a uma menina decente. D'aqui a chacota endiabrada das outras que a não deixavam e até lhe chamavam o Quêlhas. E eram empuxões e risotas e pisadellas a fingir sem querer e um dia até lhe descoseram a saia. E tambem não suportavam que os que espreitavam na rua olhassem mais pra ela quando já estava resolvido entre todas as engomadeiras que ela era a mais feia. E a parva parece que não via nada, que estava a dormir! Era o parvo do Mendes, era o estupido do Alves e até o senhor Anastacio! eram todos, e ela… nada! Então ela não foi dizer à senhora que o patrão lhe tinha oferecido uma carta?! que parva!… Aquillo só co'o ferro por aquelles olhos! Ná! não podia continuar assim! Nem ela nem as mais (e por causa d'ella!) já passa da medida! Mata-se a idiota!
Ela ouvia, ouvia tudo naquelle esforço de não querer ouvi-las, ás malcriadas.
Ainda desconfiáram d'algum amante que a sustentasse, algum palerma que lhe désse as coisas… mas no dia em que descalças a espreitaram da escada troçaram d'ela e do gato a brincarem juntos em cima da cama. Concordaram: não póde ter amante—ainda tem o fato do anno passado e as botas, as botas fôram do pae com certeza. E o lunch é sempre a mesma laranja com um pedaço de queijo metido num pão tão reles que nem podia chamar-se sanduwish… portanto, a parva já não dava. A bêsta! A bêsta sim, a bêsta é que era!
E todos os dias eram queixas e mais queixas por causa da lama d'aquellas chancas, por causa das cascas da laranja e porque soprou o ferro pra cima das calças da hespanhola e porque deu pronta uma camisa do senhor doutor que era uma indecencia de engelhada e até porque cheirava mal, sempre não, mas de vez em quando.
No dia da revolução fôram dizer a um marujo que ela era thalassa, que até usava bentinhos e Senhoras da Conceição e ela, coitada, teve que pedir de joelhos. Verdadeiramente ela sentia uma sympathia muito grande pela causa monarchica desde que um dia as outras todas se confessaram democraticas ao policia de serviço quando lá foi pedir um copo d'agua do contador. Mas agora, não! Agora não tinha politica; tinha era mêdo de morrer.
Um serão tinha guardado o lunch prá noite, foi abri-lo era um rato pôdre e as outras dançaram um vira expontaneo. Comprehende-se: a senhora tinha ido ao cinematografo co'o patrão. Quando voltaram extranharam aquelle silencio e a luz do gaz muito sumida co'o abat-jour todo prá esquerda.
—Foi ela! gritaram todas de braços estendidos na mesma direcção, e um gallo que tinha na testa tambem tinha sido ela mas de proposito. Ela não disse nada, levantou a saia tirou do bôlso da saia de baixo um rato pôdre muito bem embrulhado e pegando-lhe p'lo rabo até muito perto da luz gritou indignada co'aquela evidencia prá senhora é pró patrão: era o meu lunch! e voltando-se para elas atirou-o violentamente à cara d'uma, que todas eram a mesma, e rematou vingativamente… agora é que fui eu! E se não fôsse o patrão não tinha sido apenas aquella mancheia de cabellos… era mas era a cabeça toda, minha… e foi uma enfiada de nômes baixos, que nem se dizem a uma mulher das mais ordinarias. E pra que ela visse bem que não era pra brincadeiras fez um pequeno silencio e disse, mas muito a serio: sua thalassa!
—E com muita honra! e fez-lhe frente. As outras deram uma gargalhada descommunal e a que riu mais observou: E 'inda o confessa! Ah! Ah! Ah!… mas ela vingou-se em chamar-lhes republicanas.
Entretanto a senhora tinha já endireitado o abat-jour emquanto o patrão fazia de fronteira entre as inimigas, mas isto é que de maneira nenhuma podia ficar assim!
Acabou de arranjar as ultimas calças da hespanhola pra concluir o seu serão, pediu ao patrão pra fazer contas com ela, pôz a mantilha despreocupadamente e quando já estava pronta e na rua virou-se pra dentro e acompanhou de um gesto indisciplinado um sincerissimo viva à Monarchia!