+II+

Ir ao barbeiro é um dever tão penoso como assistir aos Sinos de Corneville representado pelos velhinhos do Asylo de Mendicidade. Apesar disto o senhor Barbosa pedia a barba bem escanhoada porque depois do jantar ia ao Asylo de Mendicidade ouvir os velhinhos cantar os Sinos de Corneville e que o Presidente da Republica tambem ia. E depois de ter esboçado ao barbeiro o argumento da peça disse-lhe que gostava imenso da musica mas pó d'arroz na cara, não!… que não era d'esses!

—Bem me queria parecer, disse com grande contentamento um velhote com oculos de aros de tartaruga, depois de ter consultado por muito um envelope todo escrevinhado, e chegando-se perto do senhor Barbosa com uma palmadinha no hombro: tambem temos os Sinos de Corneville e mandou o oficial dar à manivela do gramofone que ele é que lá sabia d'esses engenhos.

Quando o disco se gastou o senhor Barbosa disse com um A! ao oficial que Wagner foi um grande musico mas que ele tinha-o escanhoado pouco por debaixo do queixo.

N'esta altura a porta entreabriu-se e uma cabeça de senhora de chapeu pedia licença, se podia entrar. É porque estava muito farta de andar a pé, os electricos não andavam, e porque gostava muito dos Sinos de Corneville e que até daria qualquer gratificação mas propunha como condição que deixassem entrar tambem a filha que estava lá fóra, coitadinha. Foram todos lá fóra buscar a filha. O senhor Barbosa é que foi dar á manivela depois de a ter visto e não se poude conter sem accender um charuto com cinta d'oiro que queria guardar prá saída do espectaculo. Só quando estava quasi a acabar de o fumar é que se lembrou de preguntar se as incommodava o fumo. Que não, mas visto isso era altura de preguntar à filha se tambem gostava dos Sinos de Corneville porém ela ficou toda encarnada, abaixou os olhos e a cabeça e começou a contar segundos com o pé direito. A mãe é que disse que ela tambem gostava e que tambem estava cançada por causa dos electricos não andarem. E como nem a mãe nem a filha tivessem assim grandes desejos de conversar o senhor Barbosa já se estava arrependendo de ter accendido o charuto.

—Ai que lindo, filha! disse a mãe quando acabou o disco. O senhor Barbosa voltou-se e aconselhou-a, então pra que não perdêsse a soirée no Asylo de Mendicidade, porque merece a pena e não é assim uma coisa que se possa ver todos os dias… só de quando em quando. A ultima vez, dizia o senhôr Barbosa, que tinha sido ha mais de um anno e por acaso no mesmo Asylo de Mendicidade, e continuava crescente:

—É onde se vê a educação de uma pessôa é na musica. Eu adoro a musica! É por excellencía a arte sublime! Mas espera… eu conheço esta cara não sei d'onde?! e ficou-se a fitar a filha franzidamente… Não ha duvida! Não me engano. A rapariguita ergueu os olhos pra elle e outra vez muito ruborizada fez com cabeça que sim. Bem lhe queria parecer ao senhor Barbosa que não lhe era extranha aquella cara. Era justamente ahi, na engomadoria.

—Mas não é porque ela precise, dizia a mãe com um felizmente, é pra se aperfeiçoar na arte a que ela se dedica.

—A que arte se dedica sua filha, minha senhora?

—Arte de engomadeira.

—Ah! sim, fez o senhor Barbosa e poz-se a meditar a complexidade de passar a ferro.

Comtudo a mãe fez-lhe ver que a grande vocação d'ella era a musica, que aquillo era só ir ao theatro e cantar tudo, tudo, no dia seguinte desde manhã até à noite. Visto isto o senhor Barbosa não poderia permitir que ela esmurecêsse da sua grande vocação e como o primo d'êle era ministro do fomento e tinha muitas relações no meio theatral podiam, contar com o primo que era o coração mais bem feito de todo o mundo. Portanto que apparecessem lá no escritorio a qualquer hora e quando quizessem porque lhe davam imenso prazer mas que não fôssem lá de quínta-feira que vem até á outra quinta-feira seguinte porque se esperavam barulhos para esses dias.