+III+

Dos domingos não gostava—sentia uma coisa que era amarello pra dentro e pra fóra que era sujo. E as portas das Egrejas fechadas depois do meio dia tinham a tristeza do que já não ha mais. Reparava que esta coisa das mercearias abertas com gente lá dentro a aviar-se, e creadas de pantufas d'ourêlo co'a garrafa do petroleo e um senhor de côco que comprou phosphoros de cêra, tudo lhe era preciso na alma e não sabia porquê mas sentia-o. E hoje, se não fôsse a estreia das botas de cano alto, teria ficado na cama com certeza.

A Avenida já tinha immensa gente, d'esta que só se vê na Avenida. E ella sentada na primeira fila de cadeiras a desenfiar um a um os pinhões descascados da mulher do capilé pôz-se a rir pra si de si propria por ter pensado que a musica talvez fôsse mais bonita se os musicos da guarda republicana não tivessem o chapeu na cabeça. Dois rapazes bem vestidos pararam defronte d'ella voltados pró corêto e um d'elles enthusiasmado esticou um dêdo e o braço em direcção á musica: Ouviste a tal nota que eu te dizia?… Não achas bestial de boa? e como o outro tivesse dito effectivamente fazendo co'a cabeça muitas vezes que sim, ella ficou muito espantada a destrinçar aquella celebridade musical apesar dos tacões comidos; e quando elles já iam mais abaixo poz-se a procurar na musica uma outra nota que ella tambem achasse que fôsse bestial de boa. N'esta altura uma mão foi buscar a mão d'ella que estava em cima d'um joelho e voltando-se p'rá direita ouviu a musica acabar nos olhos contentes do senhor Barbosa que estava admirado de a vêr por alli. Ella ficou um nada compromettida com a impressão de que estava a ouvir os Sinos de Corneville tocados por um barbeiro cuja flauta fôsse a navalha de barba e o senhor Barbosa julgando-a ruborizada por causa dos pinhões que ficaram na mão d'elle depois de a cumprimentar sorriu-se e metteu-os á uma na bôcca o que queria dizer mais alguma coisa.

—A sua mamã? Ella ia pra responder mas felizmente…: Quantos logares deseja V. Ex.^a? o senhor Barbosa disse um, mas voltou-se para ella e como já tivesse, disse outra vez um e que guardasse o resto para elle.

Pouco depois levantaram-se e desceram juntos a Avenida e foi então que o velhinho dos bilhetes começou a comprehender a marósca da gorgêta.

Quanto mais desciam a Avenida mais ella se ia sentindo mal com aquella mão impertinente do senhor Barbosa a apertar-lhe o braço e a fallar-lhe tão convictamente do tal primo ministro do fomento que se via perfeitamente que era historia. Era porque tinha tido muito que fazer por causa da declaração de guerra não era por se ter esquecido com certeza, que elle era muito attencioso coitado!

—A sua mamã? perguntou de novo o senhor Barbosa. Ella ia pra responder quando se ouviram immensos vivas mêsmo alli d'aquelle lado. Escutaram, só se ouviam vivas; os morras eram impares. Escutaram melhor e então todos queriam que a França vivêsse e atiravam os bonets ao ar. Outros davam cambalhotas e quando passavam ao pé dos policias faziam achata o béque! Depois houve um viva á guerra e toda a gente deu palmas, de cima das arvores, empoleirados nos electricos, nos apertões e calçados e descalços e policias e mulheres. O senhor Barbosa subiu acima de um banco ao lado dos canteiros e gritou com o côco a cair: Viva a Gállia! e a multidão assim lisongeiada ergueu em triumpho aos hombros o senhor Barbosa, que ia pedindo encarecidamente pra que lhe apanhassem o côco.

Por fim n'aquella falta de luz, ella apenas viu distante d'ella um policia que tinha um côco na mão.

Contente por a multidão lhe ter roubado o senhor Barbosa ia rindo pra si num entrecortado de arrôtos de pinhões da mulher do capilé. Mas depois veiu-lhe a tristeza, aquelle aborrecimento que não se explica que só se sente, que dá vontade de ir dormir pra casa e ficar sempre, sempre a dormir e nunca mais fallar a ninguem. Meditava no mau passo que a mãe dera co'o grumête do S. Raphael e recordava os tempos impossiveis da engommadoria. E sentia-se uma eleita na infelicidade, n'esta coisa de não querer viver e ter mêdo de se matar e ainda por cima o rapaz que a enganou tinha embarcado pra Lourenço Marques e tinha mandado dinheiro a uma d'essas pra se lhe ir juntar a elle. Não que ella sentisse saudades d'elle ou de qualquer outro porque ella sabia muito bem que nascêra assim sem poder gostar de ninguem; pra ella tudo era o que não lhe importava. Admirava-se até de se ter deixado levar por aquelle maldito caixeiro que nem sequer tinha bigode. Mas tambem, pensava, se não fôsse elle seria outro e elle foi exactamente um qualquer. Não ha theoria mais comoda do que o fatalismo, porèm, ella usava-o não por comodidade mas por temperamento indiferente. As trovoadas se eram de dia achava ella que deveria ser á noite por causa dos relampagos mas se eram de noite achava estupidez tanto barulho com tanta vontade de dormir. Pra ella não havia differenças de especie alguma—nunca quiz mais aos garôtos por andarem descalços nem lhe invejavam as que tinham automovel. Mesmo esta coisa de almoçar e jantar era só se tivesse fóme, de resto dormir é que era bom. A vida não lhe era muito difficil nem tão pouco muito facil era justamente aquillo—como um carro do Dafundo que vem á Rotunda e volta depois pró Dafundo. E diga-se de passagem o caixeiro tinha-lhe feito um grande favor. E como era assim uma meúda que entra facilmente no gôsto de toda a gente e só lá de vez em quando é que precisava de umas brise-brise mais modernas ou umas fitas de setim pra enfeites de camisas não teria que se esfalfar muito e bem pelo contrario era rara a noite em que não rezava sósinha o seu Padre-Nosso no quarto independente com porta pra escada.