+CONFIDENCIAS+
Mãe! a oleografia está a entornar o amarello do Deserto por cima da minha vida. O amarello do Deserto é mais comprido do que um dia todo!
Mãe! eu queria ser o arabe! Eu queria raptar a menina loira! Eu queria saber raptar.
Dá-me um cavallo, mãe! Até á palmeira verde esmeralda! E o anel?!
A minha cabeça amollece ao sol sobre a areia movediça do Deserto! A minha cabeça está molle como a minha almofada!
Ha uns signaes dentro da minha cabeça, como os signaes do Egypcio, como os signaes do Phenicio. Os signaes d'estes já teem antecedentes e eu ainda vou para a vida.
Não ha muros para que haja estrada! Não ha muros para pôr cartazes! Não está a mão de tinta preta a apontar—por aqui!
Só ha sombra do Sol nas larangeiras da outra margem; e todas as noites o somno chega roubado!
Mãe! As estrellas estão a mentir. Luzem quando mentem. Mentem quando luzem. Estão a luzir, ou mentem?
Já ia a cuspir para o ceu!
Mãe! a minha estrella é doida! Coube-me nas sortes a Estrella-doida!
Mãe! dá-me um cavallo! Eu já sou o gallope! Ha uma palmeira, Mãe!
O que quer dizer um anel? Tem uma esmeralda.
Mãe! eu quero ser as trez oleografias!
* * * * *
Mãe!
Em cima das estatuas está o verbo ganhar, Mãe! será para mim?
Quando passo pelas estatuas fico parado. A olhar para cima das estatuas. Fico parado a subir. Não sei quem me agarra para me levantar ao ar. Agarram-me por debaixo dos braços para me levantar ao ar. Para eu ver o verbo ganhar em cima das estatuas.
* * * * *
Mãe! eu não sei nada! Eu não me lembro de nada!
Ah! lembro-me!
Lembro-me de ter ajudado a levar pedras para as pyramides do Egypto!
Tambem me lembro de me ter chamado José, antigamente, com meus irmãos e uma mulher!
Mãe!
Estou a lembrar-me! Tu já fôste a menina loira! Eu já fui o menino verdadeiro a quem tu davas de mamar! Eu já estive comtigo na terceira oleografia!
Lembro-me exactamente! Quando tu me beijavas, o sol não doía tanto na minha pelle!
Mãe!
Estou a lembrar-me!
E as tardes quando iamos todos juntos soltar palavras no caes e vêr chegar mais laranjas!
Outras vezes juntavamo-nos na praia para nadar melhor do que os outros e deixar o sol queimar quem mais merecêsse. Já as laranjas estavam contentes com o que chegasse primeiro! O melhor jovem ganhava a melhor rapariga. Os outros sabiam aquella que tinham ganhado. Eu tinha ganho a minha!
De uma vez, quando deixavamos o caes, entornou-se o cêsto das tangerinas. Foi a alegria! E uma das raparigas pôz-se a cantar o succedido ás tangerinas a rolar pró mar:
tam
tam-tam
tanque
estanque
tangerina bola
tangerina boia
tangerina ina
tangerininha
pacote rôto
batuque nú
quintal da nóra
e o dique
e o Duque
e o acqueducto
do Cúco
Rei Carmim
e tamarindos
e amarellos
de Mahomet
alli
e lá
e acolá
…
* * * * *
Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar historias ricas que ainda não viageie. Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta côr de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sêde! Eu prometo saber viajar.
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cór os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a cosêres e eu a contar-te as minhas viagens, aquellas que eu viagei, tão parecidas com as que não viagei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a meza. Eu tambem quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a meza.
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!