PRIMEIRA PARTE.
Saltando a fará só com lança e espada
De quatro centos mouros despejada[7]
Lavremos pois, oh! Musa, á gran memoria
Com [argivo] buril padrão sagrado:
Morda-se o tempo irado,
Que ella eterna fará a clara historia
Alma que atraz da fama immenso espaço
Corre, veja em meus hymnos
Que em vão não sua bellicoso braço.[9]
[Cem paráos] torreados,
Donde por boccas mil brota Mavorte;
Entre horrorosos brados
Em fogo, em fumo, em sangue envolta a morte
Zarguchos, flexas, que em chuveiro voam.[10]
Shou-Key-chi.—Arriaga.
Pom.—Chu—Barros.
.....Tornando frio
De espanto o ardor immenso do oriente,
Que verá tanto obrar tão pouca gente.
A fiel ave, que arma vigilante
O grão furor a Jove.
Quando sobre os mortaes os raios chove
A dextra coruscante,
Tão rapida ao rebanho temeroso
Não cala, a garra abrindo, das estrellas,
Como o varão famoso
Sobre as immensas velas
Cahe de grande ira armado
Treçando denodado
A féra espada, e torna em seu estrago
O azul oceano em roxo lago.[17]
Sonorosas trombetas incitavam
Os animos alegres resonando:
Dos Chinas os bateis o mar coalhavam,
Os toldos pelas aguas arrojando.
As bombardas horrisonas bramavam
Com as nuves de fumo o sol toldando.[18]
E julgareis qual é mais excellente,
Se ser do mundo rei, se de tal gente.[22]
Do vosso nome um grão Rei
Neste reino Lusitano
Se poz esta mesma lei:
Que diz o seu Pelicano
Pela lei, e pela grei[24]
Procclamão.
Le généreux Souza, qui sut domter l'amour
Dans ces climats ardens oú son feu nous dévore,
Et q'aprés Scipion la vertu [nomme] encore.
Á sombra de frondifera oliveira,
Por ti, ha tanto tempo, desejada,
(Graças ao creador Omnipotente.)
Te vejo, cara patria[1] reclinada.
No pelago espaçoso, que te cerca,
Ja não vês tremular hostis pendões[2].
Não ouves rebombar os horisontes[3]
Com horrorosos tiros de canhões[4].
De salitroso pó[5] que antes servia
Para ao longe mandar lethaes pelouros
Se ferreos tubos hoje tu carregas[6],
É só por festejar c'os seus estouros.
Centenares de Taós[7] prenhes de tygres,
Que ao pé de ti rasgavam cruelmente[8]
Meninas e donzelas delicadas
A teu Pai sujeitou[9] o Eterno Ente.
Teu benefico Pai, o Arriaga[10]
Estes tygres de Hyrcania domou
E a frondente oliveira, que te cobre,
Cortando mil obstaculos, plantou.
Jámais pois riscarão da fantasia[11]
O nome deste Heroe da lusa gente:
E agora, que celebras seu triumfo,
De verde palma vai cingir-lhe a frente.
Da victoria este emblema para ornares,
Lindas flores procura designantes
D'aquelles predicados appreciaveis,
Neste filho de Lisia mui brilhantes.
O louro girasol, que sempre segue
O planeta, que os outros illumina[12]
Designa a bem notoria lealdade
Do nosso Heroe á prole Bragantina.
Os rubros amaranthos, que resistem
Ao vento, á calma, ao gelo, symbolisam
A intrepida constancia nas empresas[13],
Que o nome de Arriaga immortalizam.
A candida açucena, que dispende
Liberalmente o corceo, de que gosa
É symbolo do seu singello peito[14],
Emblema da sua alma generosa.
O Lirio, que nascendo d'alta vara,
Sendo rei da florida monarquia
Para baixo a sublime frente inclina,
Sua clemencia designa, e cortezia[15].
Das mais virtudes symbolos procura
N'outros lindos matizes dos jardins;
Não te esqueças das rosas rubicundas,
Dos junquilhos, dos cravos, dos Jasmins.
De ti receba agora esta corôa
Bem que inferior ao seu merecimento;
Em quanto outra melhor se lhe prepara
No reino superior ao firmamento.
Notas de Antonio Francisco de Miranda e Sousa, Deão da Sé de Macáo.