FIM DA TERCEIRA PARTE.
QUARTA PARTE
A CATASTROPHE
I
ARREPENDIMENTO
Quando Loredano afastou-se de João Feio que o acabava de ameaçar, chamou quatro companheiros em quem mais confiava, e retirou-se com elles para a despensa.
Fechou a porta afim de interceptar a communicação com os aventureiros, e poder tranquillamente tratar o negocio que tinha em mente.
Nesse curto instante havia feito uma modificação no seu plano da vespera; as palavras de ameaça ha pouco proferidas lhe revelárão que o descontentamento começava a lavrar. Ora, o italiano não era homem que recuasse diante de um obstaculo, e deixasse roubarem-lhe a esperança, que nutria desde tanto tempo.
Resolveu trazer as cousas rapidamente e executar naquelle mesmo dia o seu intento: seis homens fortes e destemidos bastavão para levar ao cabo a empreza que projectára.
Tendo fechado a porta, guiou os quatro aventureiros á sala que tocava com o oratorio, e onde Martim Vaz continuava a sua obra de demolição, minando a parede que os separava da familia.
—Amigos, disse o italiano, estamos n'uma posição desesperada; não temos força para resistir aos selvagens, e mais dia menos dia havemos de succumbir.
Os aventureiros abaixarão a cabeça e não respondêrão; sabião que aquella era a triste verdade.
—A morte que nos espera é horrivel; serviremos de pasto a esses barbaros que se alimentão de carne humana; nossos corpos sem sepultura cevarão os instinctos ferozes dessa horda de cannibaes!...
A expressão do horror se pintou na physionomia daquelles homens, que sentirão um calafrio percorrer-lhes os membros e penetrar até á medulla dos ossos.
Loredano demorou um instante o seu olhar perspicaz sobre esses rostos decompostos:
—Tenho porém um meio de salvar-vos.
—Qual? perguntárão todos á uma voz.
—Esperai. Posso salvar-vos; mas isto não quer dizer que esteja disposto a fazê-lo.
—Por que razão?
—Por que... Porque todo o serviço tem o seu preço.
—Que exigis então? disse Martim Vaz.
—Exijo que me acompanheis, que me obedeçais cegamente, succeda o que succeder.
—Podeis ficar descansado, disse um dos aventureiros; eu respondo pelos meus companheiros.
—Sim! exclamarão os outros.
—Bem! Sabeis o que vamos fazer, já, neste momento?
—Não; mas vós nos direis.
—Escutai! Vamos acabar de demolir esta parede e atira-la dentro; entrar nessa sala, matar tudo quanto encontrarmos, menos uma pessoa.
—E essa pessoa...
—É a filha de D. Antonio de Mariz, Cecilia. Se algum de vós deseja a outra, póde toma-la; eu vol-a dou.
—E depois disto feito?
—Tomamos conta da casa; reunimos os nossos companheiros, e atacamos os Aymorés.
—Mas isto não nos salvará, retrucou um dos aventureiros; ha pouco dissestes que não temos força para resistir-lhes.
—De certo! acudio Loredano; não lhes resistiremos, mas nos salvaremos.
—Como! disserão os aventureiros desconfiados.
O italiano sorrio.
—Quando disse que atacaremos o inimigo, não fallei claro: queria dizer que os outros o atacarão.
—Não vos entendo ainda; fallai mais claro.
—Ahi vai pois. Dividiremos os nossos homens em duas bandas; nós e mais alguns pertenceremos a uma que ficará sob a minha obediencia.
—Até aqui vamos bem.
—Isto feito, uma das bandas sahirá da casa para fazer uma sortida emquanto os outros atacarão os selvagens do alto do rochedo; é um estratagema já velho e que deveis conhecer; metter o inimigo entre dous fogos.
—Adiante; continuai.
—Como a expedição de sahir é a mais perigosa e arriscada, tomo-a sobre mim; vós me acompanhais e marchamos. Sómente em lugar de marchar sobre o inimigo, marchamos sobre o mais proximo povoado.
—Oh! exclamarão os aventureiros.
—Sob pretexto de que os selvagens podem cortar-nos a entrada da casa por alguns dias, levamos provisão de viveres. Caminhamos sem parar, sem olhar atrás; e prometto-vos que nos salvaremos.
—Uma traição! gritou um dos aventureiros. Entregarmos nossos companheiros nas mãos dos inimigos!
—Que quereis? A morte de uns é necessaria para a vida dos outros; este mundo é assim: não seremos nós que o havemos de emendar; andemos com elle.
—Nunca! Não faremos isto! É uma vilania!
—Bom, respondeu Loredano friamente, fazei o que vos aprouver. Ficai; quando vos arrependerdes será tarde.
—Mas, ouvi...
—Não; não conteis já comigo. Julgei que fallava a homens a quem valesse salvar a vida; vejo que me enganei. Adeus.
—Se não fôra uma traição...
—Que fallais em traição!... replicou o italiano com arrogancia. Dizei-me, credes vós que algum escapará d'aqui na posição em que nos achamos? Morreremos todos. Pois se assim é, mais vale que se salvem alguns.
Os aventureiros parecêrão abalados por este argumento.
—Elles mesmos, continuou Loredano, a menos de serem egoistas, não terão o direito de se queixarem; e morrerão com a satisfação de que sua morte foi util aos seus companheiros, e não esteril como deve ser se ficarmos todos de braços cruzados.
—Vá feito; tendes razões a que não se resiste. Contai comnosco, acudio um aventureiro.
—Comtudo levarei sempre um remorso, disse outro.
—Faremos dizer uma missa por sua alma.
—Bem lembrado! respondeu o italiano.
Os aventureiros forão ajudar o seu companheiro na demolição surda da parede, e Loredano ficou só retirado a um canto.
Por algum tempo acompanhou com a vista o trabalho dos cinco homens; depois tirou um largo cinto de escamas de aço que apertava o seu gibão.
Da parte interior desse cinto havia uma estreita abertura pela qual elle sacou um pergaminho dobrado ao comprido, era o famoso roteiro das minas de prata.
Revendo esse papel, todo o seu passado debuxou-se na sua memoria, não para deixar-lhe o remorso, mas para exita-lo a proseguir em busca desse thesouro que lhe pertencia, e do qual não podia gozar.
Foi tirado da sua distracção por um dos aventureiros, que se achegára para elle desapercebido, e depois de olhar por muito tempo o papel, dirigio-lhe a palavra:
—Não podemos derrubar a parede.
—Porque? perguntou Loredano erguendo-se. Está segura?
—Não é isso, basta um empurrão; mas o oratorio?
—Que tem o oratorio?
—Que tem? Os santos, as sagradas imagens bentas não são cousa que se atire ao chão! Se tão damnada tentação nos tomasse, pediríamos a Deus que nos livrasse della.
Loredano desesperado dessa nova resistencia, cuja força elle conhecia, passeava pela sala de uma ponta á outra.
—Estupidos! murmurava elle. Basta um fragmento de madeira e um pouco de argila para fazê-los recuar! E dizem que são homens! Animaes sem intelligencia, que nem sequer têm o instincto da conservação!...
Alguns momentos decorrêrão: os aventureiros parados esperavão a resolução do seu chefe.
—Tendes medo de tocar nos santos, disse Loredano avançando para elles; pois bem, serei eu que deitarei a parede abaixo. Continuai, e avisai-me quando for tempo.
Emquanto isto se passava, o resto dos aventureiros que ficara no alpendre ouvia a narração de João Feio, que lhes communicava as revelações de mestre Nunes.
Quando elles souberão que Loredano era um frade que abjurára dos seus votos, erguêrão-se furiosos, e quizerão procura-lo e espedaça-lo.
—Que ides fazer? gritou o aventureiro. Não é assim que elle deve acabar; a sua morte ha de ser uma punição, uma terrivel punição. Deixai-me arranjar isto.
—Para que mais demora? respondeu Vasco Affonso.
—Prometto-vos que não haverá demora; hoje mesmo será condemnado; amanhã receberá o castigo de seus crimes.
E porque não hoje?
—Deixemos-lhe o tempo de arrepender-se; é preciso que antes de morrer sinta remorso do que praticou.
Os aventureiros decidirão por fim seguir esse conselho, e esperárão que Loredano apparecesse para se apoderarem delle, e o condemnarem summariamente.
Passou-se um bom espaço de tempo, e nada do italiano sahir; era quasi meio-dia.
Os aventureiros estavão desesperados de sêde; a sua provisão de agua e de vinho, já bastante diminuida depois do sitio dos selvagens, achava-se na despensa, cuja porta Loredano fechara por dentro.
Felizmente descobrirão no quarto do italiano algumas garrafas de vinho, que bebêrão no meio de risadas e chacotas, fazendo brindes ao frade que ião dentro em pouco condemnar á pena de morte.
No meio da hilaridade algumas palavras revelavão o arrependimento que começava a se apoderar delles; fallavão de ir pedir perdão ao fidalgo, de se reunir de novo a elle, e ajuda-lo a bater o inimigo.
Se não fosse a vergonha da má acção que tinhão praticado, correrião a lançar-se ao joelhos de D. Antonio de Mariz immediatamente; mas resolvêrão fazê-lo quando o principal autor da revolta tivesse recebido o castigo do seu crime.
Seria esse o seu primeiro titulo ao perdão que ião supplicar; seria mais a prova da sinceridade do seu arrependimento.
II
O SACRIFICIO
Pery comprehendêra o gesto da india; não fez porém o menor movimento para segui-la.
Fitou nella o seu olhar brilhante e sorrio.
Por sua vez a menina tambem comprehendeu a expressão daquelle sorriso e a resolução firme e inabalavel que se lia na fronte serena do prisioneiro.
Insistio por algum tempo, mas debalde. Pery tinha atirado para longe o arco e as flechas, e recostando-se ao tronco da arvore, conservava-se calmo e impassivel.
De repente o indio estremeceu.
Cecilia apparecêra no alto da esplanada, e lhe acenára; sua mãozinha alva e delicada agitando-se no ar parecia dizer-lhe que esperasse; Pery julgou mesmo ver no rostinho gentil de sua senhora, apezar da distancia, brilhar um raio de felicidade.
Quando com os olhos fitos naquella graciosa visão elle esforçava-se por adivinhar a causa de tão subita alegria, a india soltou um segundo grito selvagem, um grito terrivel.
Tinha pela direcção do olhar do prisioneiro visto Cecilia sobre a esplanada; tinha percebido o gesto da menina, e comprehendêra vagamente a razão por que Pery recusára a liberdade e o seu amor. Precipitou-se sobre o arco que estava atirado ao chão; mas apezar da rapidez desse movimento, quando ella estendia a mão, já Pery tinha posto o pé sobre a arma.
A selvagem, com os olhos ardentes, os labios entreabertos, tremula de ciume e de vingança, levantou sobre o peito do indio a faca de pedra com que lhe cortara os laços ha pouco; mas a arma cahio-lhe da mão, e vacillando apoiou-se no seio que ameaçára.
Pery tomou-a nos braços, deitou-a sobre a relva, e sentou-se de novo junto ao tronco da arvore, tranquillo a respeito de Cecilia, que desapparecêra da esplanada e estava fora de perigo.
Era a hora em que a sombra das montanhas sobe ás encostas, e o jacaré deitado sobre a arêa se aquece aos raios do sol.
O ar estrugio com os sons roucos da inubia e do maracá; ao mesmo tempo um canto selvagem, o canto guerreiro dos Aymorés, misturou-se com a harmonia sinistra daquelles instrumentos ásperos e retumbantes.
A india deitada junto da arvore sobresaltou-se; e erguendo-se rapidamente, acenou ao prisioneiro mostrando-lhe a floresta e supplicando-lhe que fugisse. Pery sorrio como da primeira vez; tornando a mão da menina a fez sentar perto delle, e tirou do pescoço a cruz de ouro que Cecilia lhe havia dado.
Então começou entre elle e a selvagem uma conversa por acenos de que seria difficil dar uma idéa.
Pery dizia á menina que lhe dava aquella cruz como uma lembrança, mas que só depois que elle morresse é que devia tira-la do pescoço. A selvagem entendeu ou julgou entender o que Pery procurava exprimir symbolicamente, e beijou-lhe as mãos em signal de reconhecimento.
O prisioneiro obrigou-a a atar de novo os laços que o ligavão, e que ella no seu generoso impulso de dar-lhe a liberdade havia desfeito.
Nesse momento quatro guerreiros Aymorés dirigirão-se á arvore em que se achava Pery; e segurando as pontas da corda o conduzirão ao campo, onde tudo estava já preparado para o sacrificio.
O indio ergueu-se e caminhou com o passo firme e a fronte alta diante dos quatro inimigos, que não percebêrão o olhar rapido que nessa occasião elle lançou ás pontas da sua tunica de algodão, torcidas em dous nós pequenos.
O campo cortado em ellipse no meio das arvores estava cercado por cento e tantos guerreiros armados em guerra e cobertos de ornatos de pennas.
No fundo as velhas pintadas de listras negras e amarellas, de aspecto horrido, preparavão um grande brasido, lavavão a lage que devia servir de mesa, e afiavão as suas facas de ossos e lascas de pedra.
As moças grupadas de um lado guardavão os vasos cheios de vinho e bebidas fermentadas, que offerecião aos guerreiros quando estes passavão diante dellas entoando o canto de guerra dos Aymorés.
A menina que fôra incumbida de servir ao prisioneiro, e o acompanhára ao lugar do sacrificio, conservava-se a alguma distancia, e olhava tristemente todo esses preparativos; pela primeira vez seu instincto natural parecia relevar-lhe a atrocidade desse costume tradicional de seus pais, a que ella tantas vezes assistira com prazer.
Agora que ia representar como heroina no drama terrivel, e como esposa do prisioneiro devia acompanha-lo até o momento supremo, insultando-lhe a dôr e a desgraça, o seu coração confrangia-se; porque realmente amava Pery, tanto quanto amar era possivel a uma natureza como a sua.
Chegados ao campo, os selvagens que conduzião o prisioneiro passárão as pontas da corda ao tronco de duas arvores, e esticando o laço o ohrigárão a ficar immovel no meio do terreiro. Os guerreiros desfilárão em roda entoando o canto da vingança; as inubias retroárão de novo; os gritos confundirão-se com o som dos maracás, e tudo isto formou um concerto horrivel.
Á medida que se animavão, a cadencia apressava-se, de modo que a marcha triumphal dos guerreiros se tornava uma dansa macabria, uma corrida veloz, uma valsa fantastica, em que todos esses vultos horrendos, cobertos de pennas que brilhavão á luz do sol, passavão como espiritos satanicos envoltos na chamma eterna.
A cada volta que fazia esse sabbat, um dos guerreiros destacava-se do circulo, e adiantando-se para o prisioneiro o desafiava ao combate, e conjurava-o a que désse provas de sua coragem, de sua força e de seu valor.
Pery, sereno e altivo, recebia com um soberbo desdem a ameaça e o insulto, e sentia um certo orgulho pensando que no meio de todos aquelles guerreiros fortes e armados, elle, o prisioneiro, o inimigo que ia ser sacrificado, era o verdadeiro, o unico vencedor.
Talvez pareça isto incomprehensivel; mas o facto é que Pery o pensava, e que só o segredo que elle guardava no fundo de sua alma podia explicar a razão desse pensamento e a tranquillidade com que esperava o supplicio.
A dansa continuava no meio dos cantos, dos alaridos e das constantes libações, quando de repente tudo emmudeceo, e o mais profundo silencio reinou no campo dos Aymorés.
Todos os olhos se voltárão para uma cortina de folhas que occultava uma especie de cabana selvagem, construida a um lado do campo em face do prisioneiro.
Os guerreiros se afastárão, as folhas se abrirão, e entre aquellas franjas de verdura assomou o vulto gigantesco do velho cacique. Duas pelles de tapir ligadas sobre os hombros cobrião seu corpo como uma tunica; um grande cocar de pennas escarlates ondeava sobre a sua cabeça, e realçava-lhe a grande estatura.
Tinha o rosto pintado de uma cor esverdeada e oleosa, e o pescoço cingido de uma colleira feita com as pennas brilhantes do tucano; no meio desse aspecto horrendo os seus olhos brilhavão como dous fogos vulcanicos no seio das trevas. Trazia na mão esquerda a tagapema coberta de plumas resplandecentes, e amarrada ao punho direito uma especie de busina formada de um osso enorme da canella de algum inimigo morto em combate.
Chegando á entrada do campo o velho selvagem levou á bocca o seu instrumento barbaro, e tirou delle um som estrondoso; os Aymorés saudárão com gritos de alegria e de enthusiasmo o apparecimento do vencedor.
Ao cacique cabia a honra de ser o algoz da victima, o matador do prisioneiro; seu braço devia consummar a grande obra da vingança, esse sentimento que constituia para aquelles povos fanaticos a verdadeira gloria.
Apenas cessárão as acclamações com que foi acolhida a entrada do vencedor, um dos guerreiros que o acompanhavão adiantou-se e fincou na extrema do campo uma estaca destinada a receber a cabeça do inimigo, logo que ella fosse decepada do corpo.
Ao mesmo tempo a joven india que servia de esposa ao prisioneiro, tirou o tacape que pendia do hombro de seu pai, e caminhando para Pery desligou-lhe os braços e offereceu-lhe a arma, fitando nelle um olhar triste, ardente e cheio de amarga exprobação.
Nesse olhar dizia-lhe que se tivesse aceitado o amor que lhe offerecêra, e com o amor a vida e a liberdade, ella não seria obrigada pelo costume tradicional de sua nação a escarnecer assim da sua morte.
Com effeito esse offerecimento que os selvagens fazião ao prisioneiro de uma arma para se defender, era uma ironia cruel; ligado pelo laço que o prendia, immovel pela tensão da corda, de que lhe servia vibrar o tacape no ar, se não podia attingir os inimigos?
Pery aceitou a arma que a menina lhe trazia; calcando-a aos pés cruzou os braços e esperou o cacique, que avançava lentamente, terrivel e ameaçador.
Chegado em face do prisioneiro, a physionomia do velho esclareceu-se com um sorriso feroz, reflexo dessa embriaguez do sangue, que dilata as narinas do jaguar prestes a saltar sobre a presa.
—Sou teu matador! disse em guarany.
Pery não se admirou ouvindo a sua bella lingua adulterada pelos sons roucos e guturaes que sahião dos labios do selvagem.
—Pery não te teme!
—És Goytacaz?
—Sou teu inimigo!
—Defende-te!
O indio sorrio:
—Tu não mereces.
Os olhos do velho fuzilárão de raiva: a mão cerrou o punho da tagapema; mas elle reprimio logo o assomo da colera.
A esposa do prsioneiro atravessou o campo e offereceu ao vencedor um grande vaso de barro vidrado cheio de vinho de ananaz ainda espumante.
O selvagem virou de um trago a bebida aromatica, e endireitando o seu alto talhe, lançou ao prisioneiro um olhar soberbo:
—Guerreiro Goytacaz, tu és forte e valente; tua nação é temida na guerra. A nação Aymoré é forte entre as mais fortes, valente entre as mais valentes. Tu vais morrer.
O côro dos selvagens respondeu a essa especie de canto guerreiro, que preludiava o tremendo sacrificio.
O velho continou:
—Guerreiro Goytacaz, tu és prisioneiro; tua cabeça pertence ao guerreiro Aymoré; teu corpo aos filhos de sua tribu; tuas entranhas servirão ao banquete da vingança. Tu vais morrer.
Os gritos dos selvagens respondêrão de novo: e o canto se prolongou por muito tempo lembrando os feitos gloriosos da nação Aymoré, e as acções de valor de seu chefe.
Emquanto o velho fallava, Pery o escutava com a mesma calma e impassibilidade; nem um dos musculos do seu rosto trahia a menor emoção; seu olhar limpido e sereno ora fitava-se no rosto do cacique, ora volvia-se pelo campo examinando os preparativos do sacrificio.
Apenas quem o observasse veria que de braços cruzados como estava, uma das mãos desfazia imperceptivelmente um dos nós que havião na ponta de seu saio de algodão.
Quando o velho acabou de fallar encarou o prisioneiro, e recuando dous passos elevou lentamente a pesada clava que empunhava na mão esquerda. Os Aymorés anciosos esperavão; as velhas com as suas navalhas de pedra estremecião de impaciencia; as jovens indias sorrião, emquanto a noiva do prisioneiro voltava o rosto para não ver o espectaculo horrivel que ia apresentar-se.
Nesse momento Pery levando as duas mãos aos olhos cobrio o rosto, e curvando a cabeça ficou algum tempo nessa posição, sem fazer um movimento que revelasse a menor perturbação.
O velho sorrio.
—Tens medo!
Ouvindo estas palavras, Pery ergueu a cabeça com ar senhoril. Uma expressão de jubilo e serenidade irradiava no seu rosto, dir-se-hia o extasi dos martyres da religião que na ultima hora, através do tumulo, entrevêm a felicidade suprema.
A alma nobre do indio prestes a deixar a terra parecia exhalar já do seu involucro; e pousando nos seus labios, nos seus olhos, na sua fronte, esperava o momento de lançar-se no espaço para ir se abrigar no seio do Creador.
Erguendo a cabeça, fitou os olhos no céo, com se a morte que ia cahir sobre elle fosse uma visão encantadora que descesse das nuvens sorrindo-lhe. Era que nesse ultimo sonho da existência via a linda imagem de Cecilia, feliz, alegre e contente; via sua senhora salva.
—Fere!... disse Pery ao velho cacique.
Os instrumentos retumbarão de novo; os gritos e os cantos se confundirão com aquelles sons roucos, e rebóarão pela floresta como o trovão rolando pelas nuvens.
A tagapema coberta de plumas gyrou no ar scintillando aos raios de sol que ferião as côres brillantes.
No meio desse turbilhão ouvio-se um estrondo, uma ancia de agonisante e o baque de um corpo: tudo isto confusamente, sem que no primeiro instante se podesse perceber o que havia passado.
III
SORTIDA
O estrondo que se ouvio, fôra causado por um tiro que partio d'entre as arvores.
O velho Aymoré vacillou; seu braço que vibrava o tacape com uma força herculea, cahio inerte; o corpo abateu-se como o ipê da floresta cortado pelo raio.
A morte tinha sido quasi instantanea; apenas um estertor de agonia resoou no seu peito largo e ainda ha pouco vigoroso: cahira já cadaver.
Emquanto os selvagens permanecião estaticos diante do que se passava, Alvaro com a espada na mão e a clavina ainda fumegante precipitava-se no meio do campo. De dous talhos rapidos cortou os laços de Pery, e com as evoluções de sua espada conteve os selvagens, que voltando a si cahião sobre elle bramindo de furor.
Immediatamente ouvio-se uma descarga de arcabuzes; dez homens destemidos tendo á sua frente Ayres Gomes saltárão por sua vez com a arma em punho, e começárão a talhar de alto a baixo a grandes golpes de espada.
Não parecião homens, e sim dez demonios, dez machinas de guerra vomitando a morte de todos os lados; emquanto a sua mão direita imprima á lamina da espada mil voltas, que erão outros tantos golpes terriveis, a esquerda jogava a adaga com destreza e segurança admiravel.
O escudeiro e seus homens tinhão feito um semi-circulo em roda de Alvaro e de Pery, e apresentavão uma barreira de ferro e fogo ás ondas de inimigos que bramião, recuavão, e lançavão-se de novo quebrando-se de encontro a esse dique.
No curto instante que mediou entre a morte do cacique e o ataque dos aventureiros, Pery de braços cruzados olhava impassivel para tudo o que se passava em torno d'elle. Comprehendia então o gesto que sua senhora ha pouco lhe fizera do alto da esplanada, e o raio de esperança e de alegria que elle julgára ver brilhar no seu semblante.
Com effeito no primeiro momento de afflicção Cecilia se lançára para ver o indio, chama-lo ainda, e supplicar-lhe mesmo que não expozesse a sua vida inutilmente.
Não tendo mais visto Pery, a menina sentio um desespero cruel; voltou-se para seu pai, e com as faces orvalhadas de lagrimas, com o seio anhelante, com a voz cheia de angustia, pedio-lhe que salvasse Pery.
D. Antonio de Mariz, antes que sua filha lhe fizesse esse pedido, já tinha-se lembrado de chamar os seus companheiros fieis, e seguido por elles correr contra o inimigo, e livrar o indio da morte certa e inevitavel que procurava.
Mas o fidalgo era um homem de uma lealdade e de uma generosidade a toda a prova; sabia que aquella empreza era de um risco immenso, e não queria obrigar os seus companheiros a partilhar um sacrificio que elle só faria de bom grado á amizade que votava a Pery.
Os aventureiros que se havião dedicado com tanta constancia á salvação de sua familia, não tinhão as mesmas razões para se arriscarem por causa de um homem que não pertencia á sua religião, e que não tinha com elles o menor laço de communidade.
D. Antonio de Mariz perplexo, irresoluto entre a amizade e o seu escrupulo generoso, não soube o que responder a sua filha; procurou consola-la, afflicto por não poder satisfazer immediatamente a sua vontade.
Alvaro, que contemplava esta scena pungente a alguma distancia, no meio dos aventureiros fieis e dedicados que tinha sob suas ordens, tomou repentinamente uma resolução.
Seu coração partia-se vendo Cecilia soffrer; e embora amasse Isabel, a sua alma nobre sentia ainda pela mulher a quem votára os seus primeiros sonhos, uma affeição pura, respeitosa, uma especie de culto.
Era uma cousa singular na vida dessa menina; todas as paixões, todos os sentimentos que a envolvião soffrião a influencia de sua innocencia, e ião a pouco e pouco depurando-se e tomando um quer que seja de ideal, um cunho de adoração.
O mesmo amor ardente e sensual de Loredano, quando se tinha visto em face della, adormecida na sua casta isenção, emmudecêra e hesitara um momento se devia manchar a santidade do seu pudor.
Alvaro trocou com os aventureiros algumas palavras; e dirigio-se para o grupo que formavão D. Antonio de Mariz e sua filha.
—Consolai-vos, D. Cecilia; disse o moço, e esperai!
A menina fitou nelle os seus olhos azues cheios de reconhecimento; aquella palavra era ao menos uma esperança.
—Que contais fazer! perguntou D. Antonio ao cavalheiro.
—Tirar Pery das mãos do inimigo!
—Vós!... exclamou Cecilia.
—Sim, D. Cecilia, disse o moço; aquelles homens dedicados vendo a vossa afflicção sentirão-se commovidos e desejão poupar-vos uma justa mágoa.
Alvaro attribuia a generosa iniciativa aos seus companheiros, quando elles não tinhão feito senão aceita-la com enthusiasmo.
Quanto a D. Antonio de Mariz, sentira uma intima satisfação ouvindo as palavras do moço: seus escrupulos cessavão desde que seus homens espontaneamente se offerecião para realisar aquella difficil empreza.
—Cedereis-me uma parte dos nossos homens; quatro ou cinco me bastão; continuou o moço dirigindo-se ao fidalgo; ficareis com o resto para defender-vos no caso de algum ataque imprevisto.
—Não; respondeu D. Antonio; levai-os todos, já que se prestão a essa tão nobre acção, que não me animava a exigir de sua coragem. Para defender a minha filha, basto eu, apezar de velho.
—Desculpai-me, Sr. D. Antonio, replicou Alvaro; mas é uma imprudencia a que me opponho; pensai que a dous passos de vós existem homens perdidos, que nada respeitão, e que espião o momento de fazer-vos mal.
—Sabeis se prezo e estimo esse thesouro cuja guarda me foi confiada por Deus. Julgais que haja neste mundo alguma cousa que me faça expo-lo a um novo perigo? Acreditai-me: D. Antonio de Mariz, só, defenderá sua familia, emquanto vós salvareis um bom e nobre amigo.
—Confiais demasiado em vossas forças!...
—Confio em Deus, e no poder que elle collocou em minha mão: poder terrivel, quando chegar o momento fulminará todos os nossos inimigos com a rapidez do raio.
A voz do velho fidalgo pronunciando estas palavras tinha-se revestido de uma solemnidade imponente; o seu rosto illuminou-se com uma expressão de heroismo e de magestade que realçou a belleza severa do seu busto veneravel.
Alvaro olhou com uma admiração respeitosa o velho cavalheiro emquanto Cecilia, pallida e palpitante das emoções que sentira, esperava com anciedade a decisão que ião tomar.
O moço não insistio e sujeitou-se á vontade de D. Antonio de Mariz;
—Obedeço-vos; iremos todos e voltaremos mais promptos.
O fidalgo apertou-lhe a mão:
—Salvai-o!
—Oh! sim, exclamou Cecilia, salvai-o, Sr. Alvaro.
—Juro-vos, D. Cecilia, que só a vontade do céo fará que eu não cumpra a vossa ordem.
A menina não achou uma palavra para agradecer essa generosa promessa; toda a sua alma partio-se n'um sorriso divino.
Alvaro inclinou-se diante della; foi juntar-se aos aventureiros, e deo-lhes ordem de se prepararem para partir. Quando o moço entrou na sala então deserta para tomar a suas armas, Isabel, que já sabia do seu projecto, correu a elle pallida e assustada.
—Ides bater-vos? disse ella coma voz tremula.
Em que isto vos admira? Não nos batemos todos os dias com o inimigo!
—De longe!... Defendidos pela posição! Mas agora é differente!
—Não vos assusteis. Isabel! Daqui a uma hora estarei de volta.
O moço passou a clavina á tiracollo e quiz sahir.
Isabel tomou-lhe as mãos com um movimento arrebatado; seus olhos scintillavão com um fogo estranho; suas faces estavão incendiadas de vivo rubor.
O moço procurou tirar as mãos daquella pressão ardente e apaixonada:
—Isabel, disse elle com uma doce exprobação; quereis que falte á minha palavra, que recue diante de um perigo?
—Não! Nunca eu vos pediria semelhante cousa! Era preciso que não vos conhecesse, e que não... vos amasse!...
—Mas então dexai-me partir.
—Tenho uma graça a supplicar-vos?
—De mim?... Neste momento?
—Sim! Neste momento!... Apezar do que me dizieis ha pouco, apezar do vosso heroismo, sei que caminhais a uma morte certa, inevitavel.
A voz de Isabel tornou-se balbuciante:
—Quem sabe... se nos veremos mais neste mundo?!
—Isabel!... disse o moço querendo fugir para evitar a commoção que se apoderava delle.
—Promettestes fazer-me a graça que vos pedi.
—Qual?
—Antes de partir, antes de me dizer adeus para sempre...
A moça fitou no cavalheiro um olhar que fascinava.
—Fallai!... fallai!...
—Antes de nos separarmos, eu vos supplico, deixai-me uma lembrança vossa!... Mas uma lembrança que fique dentro de minha alma!
E a menina cahio de joelhos aos pés de Alvaro, occultando seu rosto que o pudor revoltado em luta com a paixão cobria de um brillante carmim.
Alvaro ergueu-a confusa e vergonhosa do que tinha feito, e chegando os seus labios ao ouvido proferio, ou antes murmurou uma phrase.
O semblante de Isabel expandio-se; uma aureola de ventura cingio a sua fronte; seu seio dilatou-se, e respirou com a embriaguez do coração feliz.
—Eu te amo!
Era a phrase que Alvaro deixára cahir na sua alma, e que a enchia toda como um effluvio celeste, como um canto divino que resoava nos seus ouvidos e fazia palpitar todas as suas fibras.
Quando ella sahio desse extasi, o moço tinha sahido da sala, e unia-se aos seus companheiros promptos a marchar.
Foi nessa occasião que Cecilia, chegando imprudentemente á palissada, fez a Pery un aceno que lhe dizia esperasse.
A pequena columna partio commandada por Alvaro e por Ayres Gomes, que depois de tres dias não deixava o seu posto dentro do gabinete do fidalgo.
Quando os bravos combatentes desapparecêrão na floresta, D. Antonio de Mariz recolheu-se com sua familia para a sala, e sentando-se na sua poltrona esperou tranquillamente. Não mostrava o menor temor de ser atacado pelos aventureiros revoltados, que estavão a alguns passos de distancia apenas, e que não deixarião de aproveitar um ensejo tão favoravel.
D. Antonio tinha a este respeito uma completa segurança; tendo fechada as portas e examinado a escorva de suas pistolas, recommendou silencio, afim de que nem um rumor lhe escapasse.
Vigilante e attento, o fidalgo reflectia ao mesmo tempo sobre o facto que se acabava de passar, e que o tinha profundamente impressionado.
Conhecia Pery e não podia comprehender como o indio, sempre tão intelligente e tão perspicaz, se deixára levar por uma louca esperança a ponte de ir elle só atacar os selvagens.
A extrema dedicação do indio por sua senhora, o desespero da posição em que se achavão, podia explicar essa hallucinação, se o fidalgo não soubesse quanto Pery tinha a calma, a força e o sangue-frio que tornão o homem superior a todos os perigos. O resultado de suas reflexões foi que havia no procedimento de Pery alguma cousa que não estava clara e que devia explicar-se mais tarde.
Ao passo que elle se entregava a esses pensamentos, Alvaro tinha feito uma volta, e favorecido pela festa dos selvagens se aproximara sem ser percebido.
Quando avistou Pery a algumas braças de distancia, o velho cacique levantava a tagapema sobre a sua cabeça.
O moço levou a clavina ao rosto; e a bala sibilando foi atravessar o craneo do selvagem.
IV
REVELAÇÃO
Apenas Alvaro, com a chegada dos seus companheiros, viu-se livre dos inimigos que o atacavão, voltou a Pery, que assistia immovel a toda esta scena.
—Vinde! disse o moço com autoridade.
—Não! respondeu o indio friamente.
—Tua senhora te chama!
Pery abaixou a cabeça com uma profunda tristeza.
—Dize á senhora que Pery deve morrer; que vai morrer por ella. E tu parte, porque senão seria tarde.
Alvaro olhou a physionomia intelligente do indio para ver se descobria nella algum signal de perturbação de espirito: porque o moço não comprehendia, nem podia comprehender a causa desta obstinação insensata.
O rosto de Pery, calmo e sereno, não lhe deixou ver senão uma resolução firme, inabalavel, tanto mais profundo quando se mostrava sob uma apparencia de socego e tranquillidade.
—Assim, tu não obedece á tua senhora?
Pery custou a arrancar a palavra dos labios.
—A ninguem.
Quando pronunciava esta palavra, um grito fraco soou ao lado delle; voltando-se viu a india que lhe havião destinado por esposa cahindo atravessada por uma flecha.
O tiro fôra destinado a Pery por um dos selvagens, e a menina lançando-se para cobrir o corpo daquelle que amára uma hora recebêra a setta no peito.
Seus olhos negros, desmaiados pelas sombras da morte, volvêrão a Pery um ultimo olhar; e cerrando tornárão a abrir-se, já sem vida e sem brilho. Pery sentio um movimento de piedade e sympathia vendo essa victima de sua dedicação, que como elle sacrificava sem hesitar a sua existencia para salvar aquelle a quem amava.
Alvaro nem se apercebeu do que acabava de passar; lançando um olhar para seus homens que batião-se valentemente com os Aymorés fez um aceno a Ayres Gomes.
—Escuta, Pery; tu sabes se costumo cumprir a minha palavra. Jurei a Cecilia levar-te; e ou tu me acompanhas, ou morreremos todos neste lugar.
—Faze o que quizeres! Pery não sahira d'aqui.
—Vês estes homens?... são os unicos defensores que restão á tua senhora; se todos elles morrem, bem sabes que é impossivel que ella se salve.
Pery estremeceu. Ficou um momento pensativo; depois, sem dar tempo a que o seguissem, lançou-se entre as arvores.
D. Antonio de Mariz e sua familia, tendo ouvido os tiros dos arcabuzes, esperavão com anciedade o resultado da expedição.
Dez minutos havião decorrido na maior impaciencia, quando sentirão tocar na porta, e ouvirão a voz de Pery; Cecilia correu, e o indio ajoelhou-se a seus pés pedindo-lhe perdão.
O fidalgo, livre do pezar de perder um amigo, assumira a sua costumada severidade, como sempre que se tratava de uma falta grave.
—Commetteste uma grande imprudencia, disse elle ao indio; fizeste soffrer teus amigos; expozeste a vida daquelles que te amão; não precisas de outra punição além desta.
—Pery ia salvar-te!
—Entregando-te nas mãos do inimigo?
—Sim!
—Fazendo-te matar por elles?
—Matar e...
—Mas qual era o resultado dessa loucura?
O indio calou-se.
—É preciso explicar-te, para que não julguemos que o amigo intelligente e dedicado de outr'ora tornou-se um louco e um rebelde.
A palavra era dura; e o tom em que foi dita ainda aggravava mais a reprehenção severa que ella encerrava.
Pery sentio um lagrima humedecer-lhe as palpebras:
—Obrigas Perry a dizer tudo!
—Deves fazê-lo, se desejas rehabilitar-te na estima que te votava, e que sinto perder.
—Pery vai fallar.
Alvaro entrava nesse momento tendo deixado no alto da esplanada os seus companheiros já livres de perigo, e quites por algumas feridas que não erão felizmente muito graves.
Cecilia apertou as mãos do moço com reconhecimento; Isabel enviou-lhe n'um olhar toda a sua alma.
As pessoas presentes se grupárão ao redor da poltrona de D. Antonio, em face do qual Pery de pé com a cabeça baixa, confuso e envergonhado como um criminoso, ia justificar-se.
Dir-se-hia que confessava uma acção indigna e vil: ninguem adivinhava que sublime heroismo, que concepção gigantesca havia nesse acto, que todos condemnavão como uma loucura.
Elle começou:
«Quando Ararê deitou o seu corpo sobre a terra para não tornar a erguê-lo, chamou Pery e disse:
«Filho de Ararê, teu pai vai morrer; lembra-te que tua carne é a minha carne; que teu sangue é meu sangue. Teu corpo não deve servir ao banquete do inimigo.
«Ararê disse, e tirou suas contas de fructos que deo a seu filho; estavão cheias de veneno; tinhão nellas a morte.
«Quando Pery fosse prisioneiro, bastava quebrar um fructo, e ria do vencedor que não se animaria a tocar no seu corpo.
«Pery viu que a senhora soffria e olhou as suas contas; teve uma idéa; a herança de Ararê podia salvar a todos.
«Se tu deixasses fazer o que queria, quando a noite viesse não acharia um inimigo vivo; os brancos e os indios não te offenderião mais.»
Toda a familia ouvia esta narração com uma surpreza extraordinaria; comprehendião delia que havia em tudo isto uma arma terrivel,—o veneno; mas não podião saber os meios de que o indio se servira ou pretendia servir-se para usar desse agente de destruição.
—Acaba! disse D. Antonio; por que modo contavas então destruir o inimigo?
—Pery envenenou a agua que os brancos bebem, e o seu corpo, que devia servir ao banquete dos Aymorés!
Um grito de horror acolheu essas palavras ditas pelo indio em um tom simples e natural.
O plano que Pery combinára para salvar seus amigos acabava de revelar-se em toda a sua abnegação sublime, e com o cortejo de scenas terriveis e monstruosas que devião acompanhar a sua realisação.
Confiado nesse veneno que os indios conhecião com o nome de curarê, e cuja fabricação era um segredo de algumas tribus, Pery com a sua intelligencia e dedicação descobrira um meio de vencer elle só aos inimigos, apezar do seu numero e da sua força.
Sabia a violencia e o effeito prompto daquella arma que seu pai lhe confiára na hora da morte; sabia que bastava uma pequena parcella desse pó subtil para destruir em algumas horas a organisação a mais forte e a mais robusta. O indio resolveu pois usar desse poder que na sua mão heroica ia tornar-se um instrumento de salvação, e o agente de um sacrificio tremendo feito á amizade.
Dous fructos bastárão; um servio para envenenar a agua e as bebidas dos aventureiros revoltados; o outro acompanhou-o até o momento do supplicio, em que passou de suas mãos aos seus labios.
Quando o cacique vendo-o cobrir o rosto perguntou-lhe se tinha medo, Pery acabava de envenenar o seu corpo, que devia d'ahi a algumas horas ser um germen de morte para todos esses guerreiros bravos e fortes.
O que porém dava a esse plano um cunho de grandeza e de admiração, não era sómente o heroismo do sacrificio; era a belleza horrivel da concepção, era o pensamento superior que ligára tantos acontecimentos, que os submettêra á sua vontade, fazendo-os succeder-se naturalmente e caminhar para um desfecho necessario e infallivel.
Porque, é preciso notar, a menos de um facto extraordinario, desses que a previdencia humana não pode prevenir, Pery quando sahio da casa tinha a certeza de que as cousas se passarião como de facto se passárão.
Atacando os Aymorés a sua intenção era excita-los á vingança; precisava mostrar-se forte, valente, destemido, para merecer que os selvagens o tratassem como um inimigo digno de seu odio. Com a sua destreza e com a precaução que tomára tornando o seu corpo impenetravel, contava evitara morte antes de poder realisar o seu projecto; quando mesmo cahisse ferido, tinha tempo de passar o veneno aos labios.
A sua previsão porém não o illudio; tendo conseguido o que desejava, tendo excitado a raiva dos Aymorés, quebrou a sua arma, e supplicou a vida ao inimigo; foi de todo o sacrificio o que mais lhe custou.
Mas assim era preciso; a vida de Cecilia o exigia; a morte que o havia respeitado até então podia surprendê-lo; e Pery queria ser feito prisioneiro, como foi, e contava ser.
O costume dos selvagens, de não matar na guerra o inimigo e de captiva-lo para servir ao festim da vingança, era para Pery uma garantia e uma condição favoravel á execução do seu projecto.
Quanto á peripecia final, que a intervenção de Alvaro obstára; não fôra esse incidente imprevisto, que seria igualmente infallivel.
Segundo as leis tradicionaes do povo barbaro, toda a tribu devia tomar parte no festim, as mulheres moças tocavão apenas na carne do prisioneiro; mas os guerreiros a saboreavão como um manjar delicado, adubado pelo prazer da vingança: e as velhas com a gula feroz das harpias que se cevão no sangue de suas victimas.
Pery contava pois com toda a segurança que dentro de algumas horas o corpo envenenado da victima levaria a morte ás entranhas do seus algozes, e que elle só destruiria toda uma tribu, grande, forte, poderosa, apenas com auxilio dessa arma silenciosa.
Póde-se agora comprehender qual tinha sido o seu desespero vendo esse plano inutilisado; depois de ter desobedecido á sua senhora, depois de haver tudo realisado, quando só faltava o desfecho, quando o golpe que ia salvar a todos cahia, mudar-se de repente a face das cousas, e ver destruida a sua obra, filha de tanta meditação!
Ainda assim quiz resistir, quiz ficar, esperando que os Aymorés continuarião o sacrificio; mas conheceu que a resolução de Alvaro era inabalavel como a sua; que ia ser causa da morte de todos os defensores fieis de D. Antonio, sem ter já a certeza de sua salvação.
No primeiro momento que succedeu á confissão de Pery, todos os actores dessa scena, pallidos, tomados de espanto e de terror, com os olhos cravados no indio, duvidavão ainda do que tinhão ouvido; o espirito horrorisado não formulava uma idéa; os labios tremulos não achavão uma palavra.
D. Antonio foi o primeiro que recobrou a calma; no meio da admiração que lhe causava aquella acção heroica, e das emoções produzidas por essa idéa ao mesmo tempo sublime e horrivel, uma circumstancia o tinha sobretudo impressionado.
Os aventureiros ião ser victimas do envenenamento; e por maior que fosse o gráo de baixeza e aviltamento a que tinhão descido esses homens pela sua traição, a nobreza do fidalgo não podia soffrer semelhante homicidio.
Elle os puniria a todos com a morte ou com o desprezo, essa outra morte moral; mas o castigo na sua opinião elevava a morte á altura de um exemplo; emquanto que a vingança a fazia descer ao nivel do assassinato.
—Vai, Ayres Gomes, gritou D. Antonio ao seu escudeiro; corre e previne a esses desgraçados, se ainda é tempo!
V
O PAIOL
Cecilia ouvindo a voz de seu pai estremeceu como se acordasse de um sonho.
Atravessou o aposento com passo vacillante, e chegando-se a Pery, fitou nelle os seus lindos olhos azues com uma expressão indefinivel.
Havia nesse olhar ao mesmo tempo a admiração immensa que lhe causava a acção heroica do indio; a dôr profunda que sentia pela sua perda; e uma exprobação por não ter elle ouvido as suas supplicas.
O indio nem se animava a levantar os olhos para sua senhora; não tendo realisado o sen desejo, considerava agora tudo quanto fizera como uma loucura.
Sentia-se criminoso, e de toda a sua acção heroica e sublime para os outros, só lhe restava o pezar de ter offendido Cecilia, e de lhe haver causado inutilmente um degosto.
—Pery, disse a menina com desespero, porque não fizeste o que tua senhora te pedia?...
O indio não sabia o que responder; temia ter perdido a affeição de Cecilia, e essa idéa martyrisava os últimos momentos que lhe restavão a viver.
—Cecilia não te disse, continuou a menina soluçando, que ella não aceitaria a salvação com o sacrificio de tua vida?
—Pery já te pedio que perdoasses! mnrmurou o indio
—Oh! Se tu soubesses o que fizeste hoje soffrer á tua senhora!... Mas ella te perdôa.
—Ah!... exclamou Pery, cuja physionomia illuminou-se.
—Sim!... Cecilia te perdôa tudo que soffreu, e tudo que vai soffrer! Mas será por pouco tempo...
A menina dizia essas palavras com um triste sorriso de sublime resignação; conhecia que não havia mais esperança de salvação, e esta idéa quasi a consolava.
Não pôde acabar porém; a palavra ficou-lhe presa aos labios, tremula, consulva: seus olhos se fixavão em Pery com um sentimento de terror e de espanto.
A physionomia do indio se tinha decomposto; seus traços nobres alterados por contracções violentas, o rosto encovado, os labios roxos, os dentes que se entrechocavão, os cabellos erriçados da vão-lhe um aspecto medonho.
—O veneno!... gritárão os espectadores dessa scena horrorisados.
Cecilia fez um esforço extraordinario; e lançando-se para o indio, procurou reanima-lo.
—Pery!... Pery... balbuciava a menina aquecendo nas suas as mãos geladas de seu amigo.
—Pery vai-te deixar para sempre, senhora.
—Não!... Não!... exclamou a menina fora de si.
Não quero que tu nos deixes!... Oh! tu és máo muito máo!... Se estimasses tua senhora, não a abandonarias assim!...
As lagrimas orvalhavão as faces da menina, que no seu desespero não sabia o que dizia. Erão palavras entrecortadas, sem sentido; mas que revelavão a sua augustia.
—Tu queres que Pery viva, senhora? disse o indio com a voz commovida.
—Sim!... respondeu a menina supplicante. Quero que tu vivas!
—Pery viverá!
O indio fez um esforço supremo, e restituindo um pouco de elasticidade aos seus membros entorpecidos, dirigio-se á porta e desappareceu.
Todas as pessoas presentes o acompanharão com os olhos e o virão descer á varzea e ganhar a floresta correndo.
A ultima palavra que elle proferira tinha um momento restituido a esperança a D. Antonio de Mariz; mas quasi logo a duvida apoderou-se do seu espirito; julgou que o indio se illudia.
Cecilia porém tinha mais do que uma esperança; tinha quasi uma certeza de que Pery não se enganára; a promessa de seu amigo lhe inspirava uma confiança profunda. Nunca Pery lhe havia dito uma cousa que se não realisasse; o que parecia impossivel aos outros, tornava-se facil para a sua vontade firme e inabalavel, para o poder sobrehumano de que a força e a intelligencia o revestia.
Quando D. Antonio de Mariz e sua familia se recolhêrão tristemente impressionados, Alvaro de pé na porta do gabinete fez um gesto de espanto ao fidalgo, e apontou-lhe para o oratorio.
A parede do fundo, prestes a tombar, oscillava sobre a sua base como uma arvore balançada pelo vento.
D. Antonio sorrio, e ordenando a sua familia que entrasse no gabinete, tirou a pistola da cinta, armou-a e esperou na porta ao lado de Alvaro.
No mesmo instante ouvio-se um grande estrondo, e no meio da nuvem espessa de pó que se elevou desse montão de ruinas seis homens precipitárão-se na sala.
Loredano foi o primeiro; apenas tocou o chão, ergueu-se com extraordinaria rapidez, e seguido pelos seus companheiros caminhou direito ao gabinete onde se achava recolhida a familia.
Recuárão porém lividos e tremulos; horrorisados diante da cena muda e terrivel que se apresentava aos seus olhos espantados.
No meio do aposento via-se um desses grandes vasos de barros vidrados, feitos pelos indios, e que continha pelo menos uma arroba de polvora. De uma aberta que havia nesse vaso corria um largo trilho que ia perder-se no fundo do paiol, onde se achavão enterradas todas as munições de guerra do fidalgo.
Duas pistolas, a de D. Antonio de Mariz e a de Alvaro, esperavão um movimento dos aventureiros para lançarem a primeira faisca ao volcão. D. Lauriana, Cecilia e Isabel de joelhos, oravão julgando a cada momento ver confundirem-se no turbilhão todos os espectadores dessa scena.
Era esta a arma terrivel de que fallára ha pouco D. Antonio, quando dizia a Alvaro que Deus lhe havia confiado o poder de fulminar todos os seus inimigos. O moço comprehendeu então a razão por que o fidalgo o tinha obrigado a partir com todos os homens para salvar Pery, julgando-se bastante forte para defender elle só, a sua familia.
Quanto aos aventureiros, lembrárão-se do juramento solemne de D. Antonio de Mariz; o fidalgo os tinha todos fechados na sua mão, e bastava apertar essa mão para esmaga-los como um terrão de argila. Lançando um olhar esvairado em torno de si os seis criminosos quizerão fugir, mas não tiverão animo de dar um passo, e ficárão como pregados ao solo.
Ouvio-se então um rumor de vozes da parte de fora, e Ayres Gomes seguido pelos aventureiros apresentou-se á porta da sala.
Loredano conheceu que desta vez estava irremediavelmente perdido, e assentou de vender caro a sua vida; mas a desgraça pesava sobre elle. Dous dos seus companheiros cahirão a seus pés estorcendo-se em convulsões horriveis, e soltando gritos que mettião dó e compaixão.
A principio ninguem comprehendeu a causa dessa morte subita e violenta; mas a lembrança do veneno de Pery acudio logo á memoria de alguns e explicou tudo.
Os aventureiros que chegavão guiados por Ayres Gomes apoderárão-se de Loredano, e forão ajoelhar-se confusos e envergonhados aos pés de D. Antonio de Mariz, pedindo-lhe o perdão de sua falta.
O fidalgo tinha assistido a todos esses acontecimentos que se succedião tão rapidamente, sem deixar a sua primeira posição; dir-se-hia que sobre essas paixões humanas que se debatião a seus pés elle plainava como um genio, prestes a vibrar o raio celeste.
—A vossa falta é daquellas que não se perdoão, disse D. Antonio; mas estamos nesse momento extremo em que Deus manda esquecer todas as offensas. Levantai-vos e preparemo-nos todos para morrer como christãos.
Os aventureiros erguêrão-se, e arrastando Loredano para fóra da sala, retirárão-se para o alpendre, com a consciencia alliviada de um grande peso.
A familia pôde então, depois de tantas emoções, gozar um pouco de socego e repouso; apezar da posição desesperada em que se achavão, a reunião dos aventureiros revoltados tinha trazido um fraco vislumbre de esperança.
Só D. Antonio de Mariz não se illudia, e desde aquella manhã tinha conhecido que, quando os Aymorés não o vencessem pelas armas, o vencerião pela fome. Todos os viveres estavão consumidos, e só uma sortida vigorosa podia salvar a familia desse martyrio que a ameaçava, martyrio muito mais cruel do que uma morte violenta.
O fidalgo resolveu esgotar os ultimos recursos antes de confessar-se vencido; queria morrer com a consciencia tranquilla de ter cumprido o seu dever, e de haver feito o que fosse humanamente possivel. Chamou Alvaro e entreteve-se com o moço durante algum tempo em voz baixa; concertavão um meio de realisar essa idéa de que dependia toda a esperança de salvação.
Ao mesmo tempo que isto se passava, os aventureiros reunidos em conselho, julgavão a Frei Angelo di Lucca, e o condemnavão por um voto unanime.
Proferida a sentença, apresentárão-se diversas opiniões sobre o supplicio que devia ser infligido ao culpado; cada um lembrava o genero de morte mais cruel; porém a opinião geral adoptou a fogueira como o castigo consagrado pela inquisição para punir os hereges.
Fincárão no meio do terreiro um alto poste, e o cercárão com uma grande pilha de madeira e outros combustiveis; depois sobre essa pyra ligárão o frade, que soffria todos os insultos e todas as injurias sem proferir uma palavra.
Uma especie de atonia apoderára do italiano desde o momento em que os aventureiros o havião arrastado da sala de D. Antonio de Mariz; elle tinha a consciencia do seu crime, e a certeza de sua condemnação.
Entretanto na occasião em que o atavão á fogueira, um incidente espertou de repente a sensibilidade desse homem embrutecido pela idéa da morte, e pela convicção de que não podia escapar a ella.
Um dos aventureiros, um dos cinco complices da ultima conspiração, chegou-se a Loredano, e tirando-lhe a cinta que prendia o seu gibão, mostrou-a aos seus companheiros. O italiano vendo-se separado do seu thesouro sentio uma dôr muito mais forte do que a que ia soffrer na fogueira; para elle não havia supplicio, não havia martyrio que igualasse a este.
O que o consolava na sua ultima hora era a idéa de que esse segredo que possuia, e do qual não podéra utilisar-se, ia morrer com elle, e ficaria perdido para todos; que ninguem gozaria do thesouro que lhe escapava.
Por isso apenas o aventureiro tirou-lhe a cinta onde guardava o roteiro, soltou um rugido de colera e de raiva impotente; seus olhos injectárão-se de sangue, e seus membros crispando-se ferirão-se contra as cordas que os ligavão ao poste.
Era horrivel de ver nesse momento; seu aspecto tinha a expressão brutal e feroz de um hydrophobo, seus labios espumavão, silvando como a serpente; e seus dentes ameaçavão de longe os seus algozes como as presas do jaguar.
Os aventureiros rirão-se do desespero do frade por ver roubarem-lhe o seu precioso thesouro, e divertirão-se em augmentar-lhe o supplicio, promettendo que apenas livres dos Aymorés farião uma expedição ás minas de prata.
A raiva do italiano redobrou quando Martim Vaz atou a cinta ao corpo, e disse-lhe sorrindo:
—Bem sabeis o proverbio: «O bocado não é para quem o faz.»
VI
TREGOA
Erão oito horas da noite.
Os aventureiros, sentados no terreiro em roda de um pequeno fogo, esperavão tristemente que cozinhassem alguns legumes destinados á magra cêa.
A penuria tinha succedido á abundancia de outr'ora; privados da caça, sua alimentação ordinaria, estavão reduzidos a simples vegetaes. Os seus vinhos e as bebidas fermentadas de que fazião largas libações, tinhão sido envenenadas por Pery, e forão pois obrigados a deita-las fóra, muito felizes ainda por não terem sido victimas dellas.
Loredano fechando a porta da despensa foi que os tinha salvado; apenas dous dos aventureiros que o havião acompanhado tinhão tocado nessas bebidas, e por isso poucas horas depois cahirão mortos, como vimos, na occasião em que ião atacar D. Antonio de Mariz.
Não erão porém essas scenas de luto e a situação critica em que se achavão, que infundião nesses homens sempre alegres e tão galhofeiros aquella tristeza que não lhes era habitual. Morrer com as armas na mão, batendo-se contra o inimigo, era para elles uma cousa natural, uma idéa a que a suavidade aventuras e de perigos os tinha affeito.
O que realmente os entristecia, era não terem uma boa cêa, e um cangirão de vinho diante de si; era o seu estomago que se contrahia por falto de alimento, e que tirava-lhes toda a disposição de rir e de folgar.
A chamma avermelhada da fogueira ás vezes oscillava ao sopro do vento, e estendendo-se pelo terreiro ia illuminar a alguma distancia com o seu frouxo clarão o vulto de Loredano atado ao poste sobre a pyra de lenha.
Os aventureiros tinhão resolvido demorar o supplicio, e dar tempo a que o frade se arrependesse dos seus crimes e se decidisse a morrer como christão, humilde e penitente; por isso deixárão-lhe a noite para reflectir.
Talvez entrasse tambem nessa resolução um requinte de maldade e de vingança; julgando o italiano a verdadeira causa da posição em que estavão collocados, os seus companheiros o odiavão e querião prolongar o seu soffrimento como uma reparação do mal que lhes tinha feito.
Assim, de vez em quando um delles se erguia, e chegando-se ao frade exprobrava-lhe a sua perversidade, e cobria-o de improperios e de injurias. Loredano estorcia-se de raiva, mas não proferia uma palavra, porque seus algozes o tinhão ameaçado de cortar-lhe a lingua.
Ayres Gomes veio chamar os aventureiros da parte de D. Antonio de Mariz; todos se apressárão em obedecer, e pouco depois entrárão na sala onde estava reunida toda a familia.
Tratava-se de uma sortida como fim de procurar viveres que podessem alimentar os habitantes da casa, até que D. Diogo tivesse tempo de chegar com o soccorro que tinha ido procurar. D. Antonio de Mariz reservava dez homens para defender-se; os outros partirião com Alvaro; se fossem felizes, havia ainda uma esperança de salvação; se fossem mal succedidos, uns e outros, os que fossem e os que ficassem morrerião como christãos e portuguezes.
Immediatamente a expedição preparou-se, e favorecida pelo silencio da noite partio e internou-se pela floresta; devia afastar-se sem ser percebida pelos Aymorés, e procurar pelas vizinhanças fazer uma ampla provisão de alimentos.
Durante a primeira hora que succedeu á partida, todos os que ficárão, com o ouvido attento escutavão, temendo ouvir a cada momento o estrondo de tiros que annunciasse um combate entre os aventureiros e os indios. Tudo conservou-se em silencio; e uma esperança, bem que vaga e tenue, veio pousar nesses corações quebrados por tantos soffrimentos e tantas angustias.
A noite passou-se tranquillamente; nada indicava que a casa estivesse cercada por um inimigo tão terrivel como os Aymorés.
D. Antonio admirava-se que os selvagens, depois do ataque da manhã, se conservassem tranquillos no seu campo, e não tivessem investido a habitação uma só vez. Passou-lhe pelo espirito a idéa de que se tivessem retirado com a perda de alguns dos seus principaes guerreiros; mas elle conhecia de ha muito o espirito vingativo e tenacidade dessa raça para admittir semelhante supposição.
Cecilia recostou-se n'um sofá, e alquebrada de fadiga conseguio adormecer apezar das idéas tristes e das inquietações que a agitavão. Isabel, com o coração cerrado por um terrivel presentimento, lembrava-se de Alvaro, e acompanhava-o de longe na sua perigosa expedição, misturando as suas preces com as palavras ardentes do seu amor.
Assim passou-se esta noite; a primeira, depois de tres dias, em que a familia de D. Antonio de Mariz pôde gozar alguns momentos de socego.
De vez em quando o fidalgo chegando á janella via ao longe, perto do rio, brilharem os fogos do campo dos Aymorés, mas uma calma profunda reinava em toda aquella planicie. Nem mesmo se ouvia o écho enfraquecido de uma dessas cantigas monotonas com que os selvagens costumão á noite acompanhar o embalançar de sua rede de palha; apenas o sussurrar do vento nas folhas, a queda da agua sobre as pedras, e o grito do oitibó.
Contemplando a solidão, o fidalgo insensivelmente voltava a essa esperança que ha pouco sorrira, e que o seu espirito tinha repellido como uma simples illusão. Tudo com effeito parecia indicar que os selvagens havião abandonado o seu campo, deixando nelle apenas os fogos que havião servido para esclarecer os seus preparativos de partida.
Para quem conhecia, como D. Antonio, os costumes desses povos barbaros, para quem sabia quanto era activa, agitada, ruidosa essa existencia nomada, o silencio em que estava sepultada a margem do rio era um signal certo de que os Aymorés já alli não estavão.
Comtudo o fidalgo, demasiadamente prudente para se fiar em apparencias, recommendára aos seus homens que redobrassem de vigilancia para evitar alguma surpreza.
Talvez que aquelle socego e aquella serenidade fossem apenas uma dessas calmas sinistras que preludião as grandes tempestades, e durante as quaes os elementos parecem concentrar as suas forças para entrarem nessa luta espantosa, que tem por campo de batalha o espaço e o infinito.
As horas corrêrão silenciosamente; a viuvinha cantou pela primeira vez; e a luz branca da alvorada veio empallidecer as sombras da noite.
Pouco a pouco o dia foi rompendo; o arrebol da manhã desenhou-se no horizonte, tingindo as nuvens com todas as côres do prisma. O primeiro raio do sol, desprendendo-se daquelles vapores tenues e diaphanos, deslisou pelo azul do céo, e foi brincar no cabeço dos montes.
O astro assomou, e torrentes de luz inundárão toda a floresta, que nadava n'um mar de ouro marchetado de brilhantes que scintillavão em cada uma das gotas do orvalho suspensas ás folhas das arvores.
Os habitantes da casa, despertando, admiravão esse espectaculo magnifico do nascer do dia, que depois de tantas tribulações e de tantas augustias, lhes parecia completamente novo.
Uma noite de quietação e socego os tinha como que restituido á vida; nunca esses campos verdes, esse rio puro e limpido, essas arvores florescentes, esses horizontes descortinados se havião mostrado a seus olhos tão bellos, tão risonhos como agora.
É que o prazer e o soffrimento não passão de um contraste; em luta perpetua e continua, elles se acrysolão um no outro, e se depurão; não ha homem verdadeiramente feliz senão aquelle que já conheceu a desgraça.
Cecilia, com a frescura da manhã, tinha-se expandido como uma flôr do campo; suas faces colorirão-se de novo, como se um raio do sol beijando-as lhes tivesse imprimido o seu reflexo roseado; os olhos brilhárão; e os labios entreabrindo-se para aspirarem o ar puro e embalsamado da manhã, arqueárão-se graciosamente quasi sorrindo.
A esperança, esse anjo invisivel, essa doce amiga dos que soffrem, tinha vindo pousar no seu coração, e murmurava-lhe ao ouvido palavras confusas, cantos mysteriosos, que ella não comprehendia, mas que a consolavão e vertião em sua alma um balsamo suave.
Sentia-se em todas as pessoas da casa um quer que seja, uma animação, um começo de bem-estar que revelava uma grande transformação operada na situação da vespera; era mais do que a esperança, menos do que a seguridade.
Só Isabel não partilhava essa impressão geral; como sua prima, ella tambem viera contemplar o raiar do dia; mas fôra para interrogar a natureza, e perguntar ao sol, á luz, ao céo, se as lugubres imagens que tinhão passado e repassado na sua longa vigilia, erão uma realidade ou uma visão.
E cousa singular! Esse sol tão brilhante, essa luz esplendida, esse céo azul, que aos outros reanimára, e que devia inspirar a Isabel o mesmo sentimento, pareceu-lhe ao contrario uma amarga ironia.
Comparou a scena radiante que se apresentava aos seus olhos com o quadro que se desenhava em sua alma; emquanto a natureza sorria, o seu coração chorava. No meio dessa festa esplendida do nascer do dia, a sua dôr, só, isolada, não achava uma sympathia, e repellida pela creação voltava a recalcar-se em seu seio. A moça recostou a cabeça sobre o hombro de sua prima, e escondeu ahi o rosto para não perturbar a doce serenidade que se expandia no semblante de Cecilia.
Entretanto D. Antonio tinha tratado de averiguar se as suas suspeitas da vespera erão reaes; certificou-se de que os selvagens havião abandonado o campo. Ayres Gomes, acompanhado de mestre Nunes, chegou mesmo a sahir da casa, e aproximar-se com todas as cautelas do lugar onde na vespera os Aymorés festejavão o sacrificio de Pery.
Tudo estava deserto; não se vião mais no campo os vasos de barro, as peças de caça suspensas aos galhos da arvore, e as redes grosseiras que indicavão a alta de uma horda selvagem. Não havia já duvida, os Aymorés tinhão partido desde a vespera á noite, depois de enterrarem os seus mortos.
O escudeiro voltou a dar esta noticia ao fidalgo, que recebeu-a menos favoravelmente do que se devia suppôr; ignorava a causa e o fim dessa partida repentina, e desconfiava della.
Não ha que admirar nisto; D. Antonio era um homem prudente e avisado; a sua experiencia de quarenta annos o tinha tornado suspeitoso; por cousa nenhuma queria dar aos seus uma esperança que viesse a frustrar-se.
VII
PELEJA
Quando a familia de D. Antonio de Mariz gozava dos primeiros momentos de tranquillidade que succedião a tantas afflicções, soou um grito na escada de pedra.
Cecilia levantou-se estremecendo de alegria e felicidade; tinha reconhecido a voz de Pery.
No momento em que ia correr ao encontro de seu amigo, mestre Nunes já tinha abaixado uma prancha que servia de ponte levadiça, e Pery chegava á porta da sala.
D. Antonio de Mariz, sua mulher e sua filha ficárão mudos de espanto e terror; Isabel cahio fulminada, como se a vida lhe faltasse de repente.
Pery trazia nos seus hombros o corpo inanimado de Alvaro; e no rosto uma expressão de tristeza profunda. Atravessando a sala, depôz sobre o sofá o seu fardo precioso, e olhando o rosto livido daquelle que fôra seu amigo, enxugou uma lagrima que lhe corria pela face.
Nunhuma das pessoas presentes se animava a quebrar o silencio solemne que envolvia aquella scena lugubre; os aventureiros que havião acompanhado Pery quando passára no meio delles correndo, pararão na porta, tomados de compaixão e respeito por aquella desgraça.
Cecilia nem pôde gozar da alegria de ver Pery salvo; seus olhos apezar dos soffrimentos passados, ainda tinhão lagrimas para chorar essa vida nobre e leal que a morte acabava de ceifar. Quanto a D. Antonio de Mariz, sua dôr era a de um pai que havia perdido um filho, era a dôr muda e concentrada que abala as organisações fortes, sem comtudo abatê-las.
Depois dessa primeira commoção produzida pela chegada de Pery, o fidalgo interrogou o indio e ouvio de sua bocca a narração breve dos acontecimentos, cuja peripecia tinha diante dos olhos.
Eis o que havia passado.
Partindo na vespera, no momento em que começava a sentir os primeiros effeitos do veneno terrivel que tomára, Pery ia cumprir a promessa que tinha feito a Cecilia. Ia procurar a vida em um contra-veneno infallivel cuja existencia só era conhecida pelos velhos payás da tribu, e pelas mulheres que os auxiliavão nas suas preparações medicinaes.
Sua mãi, quando elle partira para a primeira guerra lhe tinha revelado esse segredo que devia salva-lo de uma morte certa no caso de ser ferido por alguma setta hervada.
Vendo o desespero de sua senhora, o indio sentio-se com forças de resistir ao torpor do envenenamento que começava a ganhar-lhe o corpo, e ir ao fundo da floresta procurar essa herva poderosa que devia restituir-lhe a saude, o vigor e a existencia.
Comtudo, quando atravessava a matta parecia-lhe ás vezes que já era tarde, que não chegaria a tempo: então tinha medo de morrer longe de sua senhora, sem poder volver para ella o seu ultimo olhar. Arrependia-se quasi de ter partido de casa e não deixar-se ficar aos pés de Cecilia até exhalar o seu ultimo suspiro; mas lembrava-se que a menina o esperava, lembrava-se que ella ainda precisava de sua vida e creava novas forças.
Pery entranhou-se no mais basto e sombrio da floresta, e ahi, na sombra e no silencio passou-se entre elle e a natureza uma scena da vida selvagem, dessa vida primitiva, cuja imagem nos chegou tão incompleta e desfigurada. O dia declinou: veio a tarde, depois a noite, e sob essa abobada espessa em que Pery dormia como em um sanctuario, nem um rumor revelára o que ahi se passou.
Quando o primeiro reflexo do dia purpureou o horizonte, as folhas se abrirão, e Pery exhausto de forças, vacillante, emmagrecido como se acabasse de uma longa enfermidade, sahio do seu retiro.
Mal se podia suster, e para caminhar era obrigado a sustentar-se aos galhos das arvores que encontrava na sua passagem: assim adiantou-se pela floresta, e colheu alguns fructos, que lhe restabelecêrão um tanto as forças.
Chegando á beira do rio, Pery já sentia o vigor que voltava, e o calor que começava a animar-lhe o corpo en torpecido; atirou-se á agua e mergulhou. Quando voltou á margem, era outro homem; uma reacção se havia operado; seus membros tinhão adquirido a elasticidade natural; o sangue gyrava livremente nas veias.
Então tratou de recuperar as forças que havia perdido, e tudo quanto a floresta lhe offerecia de saboroso nutriente servio a esse banquete da vida, em que o selvagem festejava a sua victoria sobre a morte e o veneno.
O sol tinha raiado havia horas; Pery, acabada a sua refeição, caminhava pensativo, quando ouvio uma descarga de armas de fogo, cujo estrondo reboou pelo ambito da floresta.
Lançou-se na direcção dos tiros, e a pouca distancia, n'um claro da matta, descobrio um espectaculo grandioso.
Alvaro e os seus nove companheiros divididos em duas columnas de cinco homens com as costas apoiadas ás costas uns dos outros, estavão cercados por mais de cem Aymorés que se precipitavão sobre elles com um furor selvagem.
Mas as ondas dessa torrente de barbaros que soltavão bramidos espantosos, ião quebrar-se contra essa pequena columna, que não parecia de homens, mas de aço; as espadas jogavão com tanta velocidade que a tornavão impenetravel; no raio de uma braça o inimigo que se adiantava cahia morto.
Havia uma hora que durava esse combate, começado com armas de fogo; mas os Aymorés atacarão com tanta furia, que breve tinhão chegado á luta corpo a corpo e á arma branca.
No momento em que Pery assomava á margem da clareira, um incidente veio modificar a face do combate.
O aventureiro que dava as costas a Alvaro, levado pelo ardor da peleja, adiantou-se, alguns passos para ferir um inimigo; os selvagens o envolvêrão, deixando a columna interrompida e Alvaro sem defeza.
Entretando o valente cavalheiro continuava a fazer prodigios de valor e de coragem; cada volta que descrevia sua espada era um inimigo de menos, uma vida que se extinguia a seus pés n'um rio de sangue. Os selvagens redobravão de furor contra elle, e cada vez o seu braço agil movia-se com mais segurança e mais certeza, fazendo jogar como um raio a lamina de aço que mal se via brillar nas suas rapidas evoluções.
Desde porém que os Aymorés virão o moço sem defeza pelas costas, e exposto aos seus golpes, concentrárão-se nesse ponto; um delles adiantando-se, ergueu com as duas mãos a pesada tagapema e atirou-a ao alto da cabeça de Alvaro.
O moço cahio; mas na sua queda a espada descreveu ainda um semi-circulo e abateu o inimigo que o tinha ferido á traição; a dôr violenta dera a esse ultimo golpe uma força sobrenatural.
Quando os indios ião precipitar-se sobre o cavalheiro, Pery saltou no meio delles, e agarrando a espingarda que estava a seus pés fez delia uma arma terrivel, uma clava formidavel, cujo poder em breve sentirão os Aymorés. Apenas se viu livre do turbilhão dos inimigos o indio tomou Alvaro nos seus hombros, e abrindo caminho com a sua arma temivel, lançou-se pela floresta e desappareceu.
Alguns o seguirão; mas Pery voltou-se e fê-los arrepender-se de sua ousadia; livrando-se do peso que levava, carregou a espingarda com as munições que Alvaro trazia e mandou uma bala áquelle que o perseguia mais de perto; os outros, que o conhecião pelo combate da vespera, retrocedêrão.
A idéa de Pery era salvar Alvaro, não só pela amizade que lhe tinha, como por causa de Cecilia, que elle suppunha amar o cavalheiro; vendo porém que o corpo continuava inanimado, acreditou que Alvaro estava morto. Apezar disto não desistio do seu proposito; morto ou vivo devia leva-lo áquelles que o amavão, ou para o restituirem á vida, ou para derramarem sobre o seu corpo o pranto da despedida.
Quando Pery acabou a sua narração, o fidalgo commovido chegou-se á beira do sofá, e apertando a mão gelada e fria do cavalheiro, disse:
—Até logo, bravo e valente amigo; até logo! A nossa separação é de poucos instantes; breve nos reuniremos na mansão dos justos onde deveis estar, e onde espero que Deus me concederá a graça de entrar.
Cecilia deo á memoria do moço as ultimas lagrimas, e ajoelhando aos pés do moribundo com sua mãi dirigio ao céo uma prece ardente.
D. Lauriana tinha esgotado todos os recursos dessa medicina domestica que no interior das casas substituia a falta dos homens professionaes, muito raros naquella epoca, e sobretudo longe das cidades; o moço não deo porém o menor signal de vida.
D. Antonio de Mariz, que comprehendêra perfeitamente o que devia esperar da pretendida retirada dos Aymorés, mandou que os seus homens se preparassem para a defeza, não que tivesse a menor esperança, mas porque desejava resistir até o ultimo momento.
Pery, depois de ter respondido a todas as perguntas de Cecilia a respeito do modo por que se havia salvado do veneno, sahio da sala e percorreu a esplanada, observando os arredores. O indio infatigavel sempre que se tratava de sua senhora, apenas acabava de uma empreza gigantesca, como a que o tinha levado ao campo dos Aymorés, cuidava já em combinar outro projecto para salvar Cecilia.
Depois do seu exame estrategico, entrou no quarto que havia abandonado na ante-vespera, e no qual encontrou ainda as suas armas, do mesmo modo que as tinha deixado.
Lembrou-se do pedido que fizera a Alvaro, da contradicção do destino que lhe restituía a vida a elle um homem tres vezes morto, e roubava-a ao cavalheiro a quem elle havia deixado são e salvo.
VIII
NOIVA
Uma hora depois dos acontecimentos que acabamos de narrar, Pery, recostado á janella do quarto que tinha pertencido á sua senhora, olhava com uma grande attenção para uma arvore que se elevava a algumas braças de distancia.
Seu olhar parecia estudar as curvas dos galhos retorcidos, medinho-lhe a distancia, a altura e o tamanho, como se disso dependesse a solução de uma grande difficuldade com que lutava o seu espirito. No momento em que estava de todo entregue a esse exame minucioso, o indio sentio uma mão timida e delicada tocar-lhe de leve no hombro.
Voltou-se; era Isabel que estava junto delle, e que se havia aproximado como uma sombra, sem fazer o menor rumor. Uma pallidez mortal cobria as feições da moça, que apenas sahia do seu desmaio; mas o rosto tinha uma calma ou antes uma immobilidade que assustava.
Voltando a si, Isabel correu um olhar pelo aposento, como para certificar-se de que não era um sonho o que havia passado.
A sala estava deserta; D. Antonio de Mariz tinha sahido para dar as suas ordens; sua mulher, ajoelhada no oratorio sobre um montão de ruinas, rezava ao pé de uma cruz que ficára junto ao altar. No fundo do aposento, sobre o sofá, destacava-se o vulto immovel do cavalheiro, aos pés do qual ardia uma vela de cêra, lançando pallidos clarões.
Cecilia é que estava perto della, e apertava no seio a sua cabeça desfallecida, procurando reanima-la.
Quando o olhar de Isabel cahio sobre o corpo de seu amante, ella ergueu-se como impellida por uma força sobrenatural, atravessou rapidamente a sala, e foi por sua vez ajoelhar-se em face desse leito mortuario. Mas não era para fazer uma prece que ajoelhava, era para embeber-se na contemplação desse rosto livido e gelado, desses labios frios, desses olhos extinctos, que ella amava apezar da morte.
Cecilia respeitou a dôr de sua prima, e por um instincto de delicadeza que só possuem as mulheres, comprehendeu que o amor, mesmo em face de um cadaver, tem o seu pudor e a sua castidade; sahio para deixar que Isabel chorasse livremente.
Passado algum tempo depois da sahida de Cecilia, a moça ergueu-se, percorreu automaticamente a casa, e vendo Pery de longe aproximou-se delle o tocou-lhe no hombro.
O indio e a moça se odiavão desde o primeiro dia em que se tinhão visto; em Isabel era o odio de uma raça que a rebaixava a seus proprios olhos; em Pery era essa repugnancia natural que sente o homem por aquelles em quem reconhece um inimigo.
Por isso Pery, vendo Isabel junto delle, ficou extremamente admirado, sobretudo quando reparou no gesto supplicante que a moça lhe dirigia, como se esperasse delle uma graça.
—Pery!...
O indio sentio-se commovido ao aspecto daquelle soffrimento, e pela primeira vez na sua vida dirigio a palavra a Isabel.
—Precisas de Pery? disse elle.
—Vinha pedir-te um serviço. Não m'o negarás, sim? balbuciou a moça.
—Falla; se fôr cousa que Pery possa fazer, elle não te negará.
—Promettes então? exclamou Isabel, cujos olhos brilhárão com uma expressão de alegria.
—Sim, Pery te promette.
—Vem!
Dizendo essa palavra, a moça fez um gesto ao indio e dirigio-se acompanhada por elle á sala que ainda estava deserta como tinha deixado. Parou junto do sofá, e apontando para o corpo inanimado de seu amante, acenou a Pery que o tomasse nos seus braços.
O indio obedeceu, e acompanhou Isabel até um gabinete retirado a um lado da casa; ahi deitou o seu fardo sobre um leito, cujas cortinas a moça entreabrio, corando como uma noiva.
Corava porque o gabinete onde tinha entrado era o quarto em que habitára e encontrava ainda povoado de todos os sonhos de seu amor; porque o leito, que recebia seu amante, era o seu leito de virgem casta e pura; porque ella era realmente uma noiva do tumulo.
Pery, tendo satisfeito o desejo da moça, retirou-se e voltou ao seu trabalho, que elle proseguia com uma constancia infatigavel.
Apenas ficou só, Isabel sorrio; mas o seu sorriso tinha um quer que seja do extasi da dôr, da voluptuosidade do soffrimento, que faz sorrir na sua ultima hora os martyres e os desgraçados.
Tirou do seio a redoma de vidro onde guardava os cabellos de sua mãi e fitou nella um olhar ardente; mas abanou a cabeça com um gesto de expressão indefinivel. Tinha mudado de resolução; o segredo que encerrava essa joia, o pó subtil que empanava a face interior do crystal, a morte que sua mãi lhe confiára não a satisfazia; era muito rapida, quasi instantanea.
Sahio então furtivamente e acendeu uma vela de cêra, que havia sobre a commoda ao lado de um crucifixo de marfim; depois fechou a porta, cerrou as janellas e interceptou as frestas por onde a luz do dia podia penetrar. O gabinete ficou ás escuras; apenas em torno do cirio que ardia, uma aureola pallida se destacava no meio das trevas e illuminava a imagem de Christo.
A moça ajoelhou e fez uma oração breve; pedia a Deus uma ultima graça; pedia a eternidade e a ventura do seu amor, que tinha passado tão rapido pela terra.
Acabando a prece, tomou a luz, deitou-a na cabeceira do leito, afastou o cortinado e começou a contemplar o seu amante com enlevo.
Alvaro parecia adormecido apenas; sua bella physionomia não tinha a menor alteração; a morte imprimindo nos seus traços o descoramento da cêra e do marmore, havia unicamente immobilisado a expressão e feito do gentil cavalheiro um bella estatua.
Isabel interrompeu o enlevo de sua contemplação para chegar-se de novo á commoda, onde se vião algumas conchas de mariscos tintas de nacar que se apanhão nas nossas praias, e uma cesta de palha matizada.
Esta cesta continha todas as resinas aromaticas, todos os perfumes que dão as arvores de nossa terra; o anime da aroeira, as perolas do beijoim, as lagrimas crystallisadas da embaiba, e gotas do balsamo, esse sandalo do Brazil.
A moça deitou na concha a maior parte dos perfumes, e acendeu algumas bagas de beijoim; o oleo de que estavão impregnadas, alimentando a chamma, communicou-a ás outras resinas.
Frocos de fumo alvadio impregnado de perfumes embriagadores se elevarão da caçoula em grossas espiraes, e enchêrão o gabinete de nuvens transparentes que oscillavão á luz pallida do cirio.
Isabel, sentada á beira do leito, com as mãos do seu amante nas suas e com os olhos embebidos naquella imagem querida, balbuciava phrases entrecortadas, confidencias intimas, sons inarticulados, que são a linguagem verdadeira do coração.
Ás vezes sonhava que Alvaro ainda vivia, que lhe murmurava ao ouvido a confissão do seu amor; e ella fallava-lhe como se seu amante a ouvisse, contava-lhe os segredos de sua paixão, vertia toda a sua alma nas palavras que cahião dos labios. Sua mão, delicada afastava os cabellos do moço, descobria a sua fronte, animava a sua face gelada, e roçava aquelles labios frios e mudos como pedindo-lhe um sorriso.
—Porque não me fallas? murmurava ella docemente: Não conheces tua Isabel?... Dize outra vez que me amas! Dize sempre essa palavra, para que minha alma não duvide da felicidade! Eu te supplico!...
E com o ouvido attento, com os labios entreabertos, o seio palpitante, ella esperava o som dessa voz querida e o echo dessa primeira e ultima palavra de seu triste amor.
Mas o silencio só lhe respondia; seu peito aspirava apenas as ondas dos perfumes inebriantes, que fazião circular nas suas veias uma chamma ardente.
O aposento apresentava então um aspecto fantastico: no fundo escuro desenhava-se um circulo esclarecido, envolto por uma nevoa espessa.
Nessa esphera luminosa como no meio de uma visão surgião Alvaro deitado no leito e Isabel reclinada sobre o rosto de seu amante, a quem continuava a fallar, como se elle a escutasse. A menina começava a sentir a respiração faltar-lhe; seu seio oppresso suffocava-a, e entretanto uma voluptuosidade inexprimivel a embriagava: um gozo immenso havia nessa asphyxia de perfumes que se condensavão e rarefazião o ar.
Louca, perdida, hallucinada, ella ergueu-se, seu seio dilatou-se, e sua bocca, entreabrindo-se, collou-se aos labios frios e gelados de seu amante; era o seu primeiro e ultimo beijo; o seu beijo de noiva.
Foi uma agonia lenta, um pesadelo horrivel em que a dôr lutava com o gozo, em que as sensações tinhão um requinte de prazer e de soffrimento ao mesmo tempo; em que a morte, torturando o corpo, vertia na alma effluvios celestes.
De repente pareceu a Isabel que os labios de Alvaro se agitavão, que um tenue suspiro se exhalava de seu peito, ainda ha pouco insensivel como o marmore.
Julgou que se illudia, mais não; Alvaro estava vivo, realmente vivo, suas mãos apertavão as della convulsamente; seus olhos, brilhando com um fogo estranho, se tinhão fitado no rosto da moça: um sopro reanimou seus labios, que exhalárão uma palavra quasi imperceptivel.
—Isabel!...
A moça soltou um grito debil de alegria, de espanto, de medo; entre as idéas confusas que se agitavão na sua cabeça desvairada, lembrou-se com horror que era ella quem matava seu amante, quem o ia sacrificar por causa de um engano fatal. Fazendo um esforço extraordinario, conseguio erguer a cabeça e ia precipitar-se para janella, abri-la e dar entrada ao ar livre; sabia que a morte era inevitavel; mas salvaria Alvaro.
No momento, porém, em que se levantava, sentio as mãos do moço que apertavão as suas, e a obrigárão a reclinar-se sobre o leito; seus olhos encontrárão de novo os olhos de seu amante.
Isabel não tinha mais forças para resistir e realisar seu heroico sacrificio; deixou cahir a cabeça desfallecida, e seus labios se unirão outra vez n'um longo beijo, em que essas duas almas irmãs, confundindo-se n'uma só, voárão ao céo, e forão abrigar-se no seio do Creador.
As nuvens de fumaça e de perfume se condensavão cada vez mais e envolvião como um lençol aquelle grupo original, impossivel de descrever.
Por volta de duas horas da tarde, a porta da gabinete, impellida por um choque violento, abrio-se; e um turbilhão de fumo lançou-se por essa aberta, e quasi suffocou as pessoas que ahi estavão.
Erão Cecilia e Pery.
A menina, inquieta pela longa ausencia de sua prima, soube de Pery que ella estava no seu quarto; mas o indio occultou parte da verdade, e não disse onde deitára o corpo de Alvaro.
Duas vezes Cecilia viera até á porta, escutára e nada ouvira; por fim resolveu-se a bater, a fallar a Isabel, e não teve a menor resposta. Chamou Pery e contou-lhe o que se passava; o indio, tomado de um presentimento metteu o hombro á porta e abrio-a.
Quando a corrente de ar expellio a fumaça do aposento, Cecilia pôde entrar e ver a scena que descrevêmos.
A menina recuou, e respeitando esse mysterio de um amor profundo, fez um gesto a Pery e retirou-se.
O indio fechou de novo a porta e acompanhou sua senhora.
—Ella morreu feliz! disse Pery.
Cecilia fitou nelle os seus grandes olhos azues, e córou.
IX
O CASTIGO
O dia declinava rapidamente e as sombras da noite começavão a estender-se sobre o verde-negro da floresta.
D. Antonio de Mariz, apoiado ao umbral da porta, junto de sua mulher, passava o braço pela cintura de Cecilia. O sol a esconder-se illuminava com o seu reflexo esse grupo de familia, digno do quadro magestoso que lhe servia de baixo-relevo.
O fidalgo, Cecilia e sua mãi, com os olhos no horizonte, recebião esse ultimo raio de despedida, e mandavão o adeus extremo á luz do dia, ás montanhas que os cercavão, ás arvores, aos campos, ao rio, á toda a natureza.
Para elles esse sol era a imagem de sua vida; o occaso era a sua hora derradeira; e as sombras da eternidade se estendião já como as sombras da noite.
Os Aymorés tinhão voltado, depois do combate em que os aventureiros vendêrão caro a sua vida; e cada vez mais sequiosos de vingança, esperavão que anoitecesse para assaltar a casa. Certos desta vez que o inimigo extenuado não resistiria a um ataque violento, tinhão tratado de destruir todos os meios que podessem favorecer a fuga de um só dos brancos.
Isto era facil; além da escada de pedra, o rochedo formava um despenhadeiro por todos os lados; e só a arvore, que lançava os galhos sobre a cabana de Pery, offerecia um ponto de communicação praticavel para quem tivesse a agilidade e a força do indio.
Os selvagens, que não querião que lhes escapasse um só inimigo, e ainda menos que esse fosse Pery, abaterão a arvore, e cortárão assim a unica passagem por onde um homem poderia sahir do rochedo, no momento do ataque.
Ao primeiro golpe do machado de pedra sobre o grosso tronco do oleo, Pery estremeceu, e, saltando sobre a sua clavina, ia despedaçar a cabeça do selvagem; mas sorrio-se, e encostou tranquillamente a arma á parede. Sem inquietar-se com a destruição que fazião os Aymorés, continuou no seu trabalho interrompido, e acabou de torcer uma corda com os filamentos de uma das palmeiras que servião de esteio á sua cabana.
Elle tinha o seu plano: e para realisa-lo, começára por cortar as duas palmeiras e trazê-las para o quarto de Cecilia; depois rachou uma das arvores, e durante toda a manhã occupou-se em tercer essa longa corda, a que dava uma extraordinaria importancia.
Quando Pery terminava a sua obra, ouvio o baque da arvore que tombava sobre o rochedo; chegou-se de novo á janella, e seu rosto exprimio uma satisfação immensa. O oleo, cortado pela raiz, deitára-se sobre o precipicio, elevando a uma grande altura os seus galhos seculares, mais frondosos e mais robustos do que uma arvore nova da floresta.
Os Aymorés, tranquillos por esse lado, continuárão nos seus preparativos para o combate que conta vão dar durante as horas mortas da noite.
Quando o sol desappareceu no horizonte e a que luz do crepúsculo cedeu ás trevas que envolvião a terra, Pery dirigio-se á sala.
Ayres Gomes, sempre infatigavel, guardava a porta do gabinete; D. Antonio de Mariz estava recostado na sua cadeira de espaldar; e Cecilia, sentada sobre os seus joelhos, recusava beber uma taça que seu pai lhe apresentava.
—Bebe, minha Cecilia, dizia o fidalgo; é um cordial que te fará muito bem.
—De que serve, meu pai? Por uma hora, se tanto nos resta a viver, não vale a pena! respondia a menina, sorrindo tristemente.
—Tu te enganas! Ainda não estamos de todo perdidos.
—Tendes alguma esperança? perguntou ella incredula.
—Sim, tenho uma esperança, e esta não me illudirá! respondeu D. Antonio, com um accento profundo.
—Qual? Dizei-me!
—És curiosa? replicou o fidalgo sorrindo. Pois só te direi se fizeres o que te peço.
—Quereis que beba essa taça?
—Sim.
Cecilia tomou a taça das mãos de seu pai, e depois de beber, volveu para elle o seu olhar interrogador.
—A esperança que eu tenho, minha filha, é que nenhum inimigo passará nunca do limiar daquella porta; pódes crer na palavra de teu pai e dormir tranquilla. Deus vela sobre nós.
Beijando a fronte pura da menina, elle ergueu-se, tomou-a nos seus braços, e, recostando-a sobre a poltrona em que estivera sentado, sahio do gabinete e foi examinar o que se passava fóra da casa.
Pery, que tinha assistido a esse dialogo entre o pai e a filha, estava occupado em procurar no gabinete varios objectos de que tinha necessidade apparentemente.
Logo que achou quanto desejava, o indio encaminhou-se para a porta.
—Onde vais? disse Cecilia, que tinha acompanhado todos os seus movimentos.
—Pery volta, senhora.
—E porque nos deixas?
—Porque é preciso.
—Ao menos volta logo. Não devemos morrer todos juntos, da mesma morte?
O indio estremeceu.
—Não; Pery morrerá: mas tu has de viver, senhora.
—Para que viver, depois de ter perdido todos os seus amigos?...
Cecilia, que lia alguns momentos sentia a cabeça vacillar, os olhos cerrarem-se e um somno invencivel apoderar-se della, deixou-se cahir sobre o espaldar da cadeira.
—Não!... Antes morrer como Isabel! murmurou a menina já entorpecida pelo somno.
Um meigo sorriso veio adejar nos seus labios entreabertos, por onde se escapava a respiração doce, branda e igual.
Pery a principio assustou-se com esse somno repentino que não lhe parecia natural e com a pallidez subita de que se cobrirão as feições de Cecilia.
Seus olhos cahirão sobre a taça que estava em cima da mesa; deitou nos labios algumas gotas do liquido que tinhão ficado no fundo e tomou-lhes o sabor: não podia conhecer o que continha; mas satisfez-se em não achar o que receiára.
Repellio a idéa que lhe assaltára o espirito, e lembrou-se que D. Antonio sorria no momento em que pedia a sua filha para beber, e que a sua mão não tremêra apresentando-lhe a taça. Tranquillo a este respeito, o indio, que não tinha tempo a perder, ganhou a esplanada, correu para o quarto que occupava, e desappareceu.
A noite já estava fechada, e uma escuridão profunda envolvia a casa e os arredores. Durante esse tempo nenhum acontecimento extraordinario viera modificar a posição desesperada em que se achava a familia; a calma sinistra, que precede as grandes tempestades, plainava sobre a cabeça d'essas victimas que contavão, não as horas, mas os instantes de vida que lhes restavão.
D. Antonio passeava ao longo da sala, com a mesma serenidade dos seus dias tranquillos e placidos de outr'ora; de vez em quando o fidalgo parava na porta do gabinete, lançava um olhar sobre sua mulher que orava e sua filha adormecida; depois continuava o passeio interrompido.
Os aventureiros grupados junto á porta seguião com os olhos o vulto do fidalgo que se perdia no fundo escuro da sala, ou se destacava cheio de vigor e de colorido na esphera luminosa a que cingia a lampada de prata suspensa ao tecto.
Mudos, resignados, nenhum d'esses homens deixava escapar uma queixa, um suspiro que fosse; o exemplo de seu chefe reanimava nelles essa coragem heroica do soldado que morre por uma causa santa.
Antes de obedecerem á ordem de D. Antonio de Mariz, elles tinhão executado a sua sentença proferida contra Loredano; e quem passasse então sobre a esplanada veria em torno do poste, em que estava atado o frade, uma lingua vermelha que lambia a fogueira, enroscando-se pelos toros de lenha.
O italiano sentia já o fogo que se aproximava e a fumaça, que, ennovelando-se, envolvia-o n'uma nevoa espessa: é impossivel descrever a raiva, a colera e o furor que se apossárão d'elle n'esses momentos que precedêrão o supplicio.
Mas voltemos á sala em que se achavão reunidos os principaes personagens d'essa historia, e onde se vão passar as scenas talvez mais importantes do drama.
A calma profunda que reinava n'essa solidão não tinha sido perturbada; tudo estava em silencio; e as trevas espessas da noite não deixavão perceber os objectos a alguns passos de distancia.
De repente listras de fogo atravessárão o ar, e se abatêrão sobre o edificio; erão as settas inflammadas dos selvagens que annunciavão o começo do ataque; durante alguns minutos foi como uma chuva de fogo, uma cascata de chammas que cahio sobre a casa.
Os aventureiros estremecêrão; D. Antonio sorrio.
—É chegado o momento, meus amigos. Temos uma hora de vida; preparai-vos para morrer como christãos e portuguezes. Abri as portas para que possamos ver o céo.
O fidalgo dizia que lhe restava uma hora de vida, porque, tendo destruido o resto da escada de pedra, os selvagens não podião subir ao rochedo senão escalando-o; e por maior que fosse a sua habilidade, não era possivel que consumissem n'isso menos tempo.
Quando os aventureiros abrirão as portas, um vulto resvalou na sombra, e entrou na sala.
Era Pery.
X
CHRISTÃO
O indio dirigio-se rapidamente a D. Antonio de Mariz.
—Pery quer salvar a senhora.
O fidalgo abanou a cabeça em signal de duvida.
—Escuta! replicou o indio.
Aproximando os labios do ouvido de D. Antonio, fallou-lhe por algum tempo em voz baixa, e n'um tom rapido e decisivo.
—Tudo está preparado: parte, desce o rio; quando a lua estender o seu arco chegarás á tribu dos Goytacazes. A mãi de Pery te conhece: cem guerreiros te acompanharão á grande taba dos brancos.
D. Antonio de Mariz ouvio em profundo silencio as palavras do indio; e quando elle terminou, apertou-lhe a mão com reconhecimento.
—Não, Pery: o que me propões é impossivel. D. Antonio de Mariz não pode abandonar a sua casa, a sua familia e os seus amigos no momento do perigo, ainda mesmo para salvar aquillo que elle mais ama n'este mundo. Um fidalgo portuguez não pode fugir diante do inimigo, qualquer que elle seja; morre vingando a sua morte.
Pery fez um gesto de desespero.
—Assim tu não queres salvar a senhora?
—Não posso, respondeu o cavalheiro; o meu dever manda que fique, e partilhe a sorte de meus companheiros.
O indio no seu fanatismo não comprehendia que houvesse uma razão capaz de sacrificar a vida de Cecilia, que para elle era sagrada.
—Pery pensou que tu amasses a senhora! disse elle fôra de si.
D. Antonio olhou-o com uma expressão de dignidade e nobreza.
—Perdôo-te a offensa que me fizeste, amigo; porque é ainda uma prova de tua grande dedicação. Mas acredita-me; se fosse preciso que eu me votasse só ao sacrificio barbaro dos selvagens para salvar minha filha, eu o faria sorrindo.
—E porque recusas o que Pery te pede?
—Porque?... Porque o que tu pedes não é um sacrificio, é uma vergonha; é uma traição. Tu abandonarias tua mulher, teus companheiros, para salvar-te do inimigo, Pery?...
O indio abaixou a cabeça com abatimento.
—Demais, essa empreza demanda forças com que um velho como eu já não póde contar. Havia duas pessoas que a poderião realisar.
—Quem? perguntou Pery com um raio de esperança.
—Uma era meu filho, que a esta hora esta bem longe d'aqui; a outra deixou-nos esta manhã e nos espera; era Alvaro.
—Pery fez pela senhora o que podia; tu não queres salva-la; Pery vai morrer a seus pés.
Morrer? disse o fidalgo. Quando tens a liberdade e a vida á tua disposição? E julgas que consentirei nisto?... Nunca! Vai, Pery; conserva a lembrança de teus amigos; a nossa alma te acompanhará na terra. Adeus. Parte: o tempo urge.
O indio ergueu a cabeça com um gesto soberbo de indignação.
—Pery arriscou bastantes vezes a sua vida por ti, para ter o direito de morrer comtigo; tu não pódes abandonar teus companheiros; o escravo não póde abandonar sua senhora.
—És injusto, amigo; exprimi um desejo, não quiz arrogar-te uma injuria. Se exiges uma parte do sacrificio, esta te pertence, e tu és digno d'ella; fica.
Um grito dos selvagens retroou nos ares.
D. Antonio, fazendo um gesto aos aventureiros, encaminhou-se para o gabinete.
Cecilia, adormecida sobre a cadeira de espaldar, sorria como se algum sonho alegre a embalasse no seu somno tranquillo; o rosto um pouco pallido, moldurado pelas tranças louras de seus cabellos, tinha a expressão suave da innocencia feliz.
O fidalgo, contemplando sua filha, sentio uma dôr pungente e quasi arrependeu-se de não ter aceitado o offerecimento de Pery, e de não tentar ao menos esse ultimo esforço para defender aquella vida que apenas começava a expandir-se.
Mas podia elle mentir ao seu passado e faltar ao dever imperioso que o obrigava a morrer no seu posto? Podia trahir na sua ultima hora aquelles que havião partilhado a sua sorte?
Tal era o sentimento de honra naquelles antigos cavalheiros, que D. Antonio nem um momento admittio a idéa de fugir para salvar sua filha; se houvesse outro meio, de certo o receberia como um favor do céo; mas aquelle era impossivel.
Emquanto o espirito do fidalgo se debatia nessa luta cruel, Pery, de pé junto de Cecilia, parecia querer ainda protegê-la contra a morte inevitavel que a ameaçava. Dir-se-hia que o indio esperava algum soccorro imprevisto, algum milagre que salvasse sua senhora; e que aguardava o momento de fazer por ella tudo quanto fosse possivel ao homem.
D. Antonio, vendo a resolução que se pintava no rosto do selvagem, tornou-se ainda mais pensativo; quando passado esse momento de reflexão, ergueu a cabeça, seus olhos brilhavão com un raio de esperança.
Atravessou o espaço que o separava de sua filha, e, tomando a mão de Pery, disse-lhe com uma voz profunda e solemne:
—Se tu fosses christão, Pery!...
O indio voltou-se extremamente admirado daquellas palavras.
—Porque?... perguntou elle.
—Porque?... disse lentamente o fidalgo. Porque se tu fosses christão, eu te confiaria a salvação de minha Cecilia, estou convencido de que a levarias ao Rio de Janeiro, á minha irmã.
O rosto do selvagem illuminou-se; seu peito arquejou de felicidade; seus labios tremulos mal podião articular o turbilhão de palavras que lhe vinhão do intimo d'alma.
—Pery quer ser christão! exclamou elle.
D. Antonio lançou-lhe um olhar humido de reconhecimento.
—A nossa religião permitte, disse o fidalgo, que na hora extrema todo o homem possa dar o baptismo. Nós estamos com o pé sobre o tumulo. Ajoelha, Pery!
O indio cahio aos pés do velho cavalheiro, que impoz-lhe as mãos sobre a cabeça.
—Sê christão! Dou-te o meu nome.
Pery beijou a cruz da espada que o fidalgo lhe apresentou, e ergueu-se altivo e sobranceiro, prompto a affrontar todos os perigos para salvar sua senhora.
—Escuso exigir de ti a promessa de respeitares e defenderes minha filha. Conheço a tua alma nobre, conheço o teu heroismo e a tua sublime dedicação por Cecilia. Mas quero que me faças um outro juramento.
—Qual? Pery está prompto para tudo.
Jura que, se não poderes salvar minha filha, ella não cahirá nas mãos do inimigo?
—Pery te jura que elle levará a senhora a tua irmã; e que se o senhor do céo não deixar que Pery cumpra a sua promessa, nenhum inimigo tocará em tua filha; ainda que para isso seja preciso queimar uma floresta inteira.
—Bem; estou tranquillo. Ponho minha Cecilia sob tua guarda: e morro satisfeito. Podes partir.
—Manda fechar todas as portas.
Os aventureiros obedecêrão á ordem do fidalgo; todas as portas se fechárão; o indio empregava este meio para ganhar tempo.
Os gritos e bramidos dos selvagens, que continuavão com algumas interrupções, forão-se aproximando da casa; conhecia-se que escalavão o rochedo nesse momento.
Alguns minutos se passárão n'uma anciedade cruel. D. Antonio de Mariz depositou um ultimo beijo na fronte de sua filha; D. Lauriana apertou ao seio a cabeça adormecida da menina e envolveu-a n'uma manta de seda.
Pery, com o ouvido attento, o olhar fito na porta, esperava. Ligeiramente apoiado sobre o espaldar da cadeira ás vezes estremecia de impaciencia e batia com o pé sobre o pavimento da sala.
De repente, um grande clamor soou em tomo da casa; as chammas lambêrão com as suas linguas de fogo as frestas das portas e janellas: o edificio tremeu desde os alicerces com o embate da tromba de selvagens que se lançava furiosa no meio do incendio.
Pery, apenas ouvio o primeiro grito, reclinou sobre a cadeira e tomou Cecilia nos braços; quando o estrondo soou na porta larga do salão, o indio já tinha desapparecido.
Apezar da escuridão profunda que reinava em todo o interior da casa, Pery não hesitou um momento; caminhou direita ao quarto onde habitára sua senhora e subio á janella.
Uma das palmeiras da cabana estendia-se por cima do precipicio e apoiava-se a trinta palmos de distancia sobre um dos galhos da arvore que os Aymorés tinhão abatido durante o dia para tirarem aos habitantes da casa a menor esperança de fuga.
Pery apertando Cecilia nos braços, firmou o pé sobre essa ponte fragil, cuja faça convexa tinha quando muito algumas pollegadas de largura.
Quem lançasse os olhos nesse momento para aquella banda da esplanada veria ao pallido clarão do incendio deslisar-se lentamente por cima do precipicio o vulto hirto, como um dos fantasmas que, segundo a crença popular, atravessavão á meia noite as velhas amêas de algum castello em ruinas.
A palmeira oscillava, e Pery, embalançando-se sobre o abysmo, adiantava-se vagarosamente para a encosta opposta. Os gritos dos selvagens repercutião nos ares de envolta com o estrepito dos tacapes que abalavão as porta da sala e as paredes do edificio.
Sem se inquetar com a scena tumultuosa que deixava após si, o indio ganhou a encosta opposta, e segurando com uma mão nos galho da arvore, conseguio tocar a terra sem o menor accidente.
Então, fazendo uma volta para não aproximar-se do campo dos Aymorés, dirigio-se á margem do rio; ahi estava escondida entre as folhas a pequena canoa que servia outr'ora para os habitantes da casa atravessarem o Paquequer.
Durante a ausencia de uma hora que Pery tinha feito, quando deixára Cecilia adormecida, elle havia tudo preparado para essa empreza arriscada que devia salvar sua senhora.
Graças á sua actividade espantosa, armou com o auxilio da corda a ponte pensil sobre o precipicio, correu ao rio, amarrou a canôa no lugar que lhe pareceu mais propicio, e em duas viagens levou a esse barquinho, que ia servir de morada a Cecilia durante alguns dias, tudo quanto a menina podia carecer.
Erão roupas, uma colcha de damasco com que se poderia arranjar um leito, alguns alimentos que restavão na casa; lembrou-se até que D. Antonio devia ter necessidade de dinheiro logo que chegasse ao Rio de Janeiro, porque Pery contava que o fidalgo não duvidaria salvar sua filha.
Chegando á beira do rio, o indio deitou sua senhora no fundo da canôa, como uma menina no seu berço, envolveu-a na manta de seda para abrita-la do orvalho da noite, e tomando o remo, fez a canôa saltar como um peixe sobre as aguas.
A algumas braças de distancia, por entre uma aberta da floresta, Pery viu sobre o rochedo a casa illuminada pelas chammas do incendio, que começava a lavrar com alguma intensidade.
De repente uma scena fantastica, terrivel, passou, diante de seus olhos, como uma dessas visões rapidas que brilhão e se apagão de repente no delirio da imaginação.
A frente da casa estava ás escuras; o fogo ganhára as outras faces do edificio e o vento o lançava para o fundo. Pery do primeiro olhar tinha visto os vultos dos Aymorés a se moverem nas sombras; e a figura horrivel e medonha de Loredano, erguendo-se como um espectro no meio das chammas que o devoravão.
De repente a fachada do edificio tombou sobre a esplanada esmagando na sua queda um grande numero de selvagens.
Foi então que o quadro fantastico se desenhou aos olhos de Pery.
A sala era um mar de fogo; os vultos que se movião nessa esphera luminosa parecião nadar em vagas de chammas.
No fundo destacava-se o vulto magestoso de D. Antonio de Mariz, de pé no meio do gabinete, elevando com a mão esquerda uma imagem de Christo e com a direita abaixando a pistola para a cava escura onde dormia o volcão.
Sua mulher abraçava os seus joelhos calma e resignada; Ayres Gomes e os poucos aventureiros que restavão, immoveis e ajoelhados a seus pés, formavão o baixo-relevo dessa estatua digna de um grande cinzel.
Sobre o montão de ruinas formado pela parede que desmoronára, desenhavão-se as figuras sinistras dos selvagens, semelhantes a espiritos diabolicos dansando nas chammas infernaes.
Tudo isso, Pery viu de um só relance d'olhos; como um painel vivo illuminado um momento pelo clarão instantaneo do relampago.
Um estampido horrivel reboou por toda aquella solidão: aterra tremeu, as aguas do rio se encapellárão como batidas pelo tufão. As trevas envolvêrão o rochedo ha pouco esclarecido pelas chammas, e tudo entrou de novo no silencio profundo da noite.
Um soluço partio o peito de Pery, talvez a unica testemunha dessa grande catastrophe.
Dominando a sua dôr, o indio vergou sobre o remo, e a canôa voou pela face lisa e polida do Paquequer.
XI
EPILOGO
Quando o sol, erguendo-se no horizonte, illuminou os campos um montão de ruinas cobria as margens do Paquequer.
Grandes lascas de rochedos, talhadas de um golpe e semeadas pelo campo, paredão ter saltado do malho gigantesco de Novos Cyclopes.
A eminencia sobre a qual estava situada a casa tinha desapparecido, e no seu lugar via-se apenas uma larga fenda semelhante á cratera de algum volcão subterraneo.
As arvores arrancadas dos seus alveolos, a terra revolta, a cinza ennegrecida que cobria a floresta, annunciavão que por ahi tinha passado algum desses cataclysmas que deixão após si a morte e a destruição.
Aqui e alli por entre os comoros das ruinas apparecia alguma india, resto da tribu dos Aymorés, que tinha ficado para chorar a morte dos seus, e levar ás outras tribus a noticia dessa tremenda vingança.
Quem plainasse nesse momento sobre aquella solidão, e lançasse os olhos pelos vastos horizontes que se abrião em torno, se a vista podesse devassar a distancia de muitas leguas, veria ao longe, na larga esteira do Parahyba, passar rapidamente uma forma vaga e indecisa.
Era a canoa de Pery, que impellida pelo remo e pela viração da manhã corria com uma velocidade espantosa semelhando uma sombra a fugir das primeiras claridades do dia.
Toda a noite o indio tinha remado sem descansar um momento; não ignorava que D. Antonio de Mariz na sua terrivel vingança havia exterminado a tribu dos Aymorés, mas desejava apartar-se do theatro da catastrophe, e aproximar-se dos seus campos nativos.
Não era o sentimento da patria, sempre tão poderoso no coração do homem; não era o desejo de ver sua cabana reclinada á beira do rio, e abraçar sua mãi e seus irmãos, que dominava sua alma nesse momento e lhe dava esse ardor.
Era sim a idéa de que ia salvar sua senhora e cumprir o juramento que tinha feita ao velho fidalgo; era o sentimento de orgulho que se apoderava delle, pensando que bastava a sua coragem e a sua força para vencer todos os obstaculos, e realisar a missão de que se havia encarregado.
Quando o sol, no meio de sua carreira, lançava torrentes de luz sobre esse vasto deserto, Pery sentio que era tempo de abrigar Cecilia dos raios abrazadores, e fez a canôa abicar á beira do rio na sombra de uma ramagem de arvores.
A menina envolta na sua manta de seda com a cabeça apoiada sobre a prôa do barquinho dormia ainda o mesmo somno tranquillo da vespera; as côres tinhão voltado, e sob a alvura transparente de sua pelle alva brilhavão esses tons côr de rosa, esse colorido suave, que só a natureza, artista sublime, sabe crear.
Pery tomou a canôa nos seus braços, como se fôra um berço mimoso, e deitou-a sobre a relva que cobria a margem do rio; depois sentou-se ao lado, e com os olhos fitos em Cecilia, esperou que ella sahisse desse somno prolongado que começava a inquieta-lo.
Tremia lembrando-se da dôr que sua senhora ia sentir quando soubesse a desgraça de que elle fôra testemunha na vespera; e não se achava com forças de responder ao primeiro olhar de surpreza que a menina lançaria em torno de si logo que despertasse no meio do deserto.
Emquanto durou o somno, Pery, com o braço apoiado á borda da canôa e o corpo reclinado sobre o rosto da menina, esperando com anciedade o momento que elle desejava e temia ao mesmo tempo, velava sobre Cecilia com um cuidado e uma solicitude admiravel.
A mãi mais extremosa não se desvelaria tanto por seu filho, como esse amigo dedicado por sua senhora; uma restea de sol que, enfiando-se pelas folhas, vinha brincar no rosto da menina, um passarinho que cantava sobre um ramo do arbusto, um insecto que saltava na relva, tudo elle afastava para não perturbar o seu repouso.
Cada minuto que passava era uma nova inquietação para elle; porém era tambem um instante mais de socego e de tranquillidade que a menina gozava, antes de saber a desgraça que pesava sobre ella, e que a privára de sua familia.
Um longo suspiro elevou o seio de Cecilia; seus lindos olhos azues se abrirão e cerrarão, deslumbrados pela claridade do dia; ella passou a mão delicada pelas palpebras rosadas, como para afugentar o somno, e seu olhar limpido e suave foi pousar no rosto de Pery. Soltou um gritozinho de prazer, e sentando-se com vivacidade, lançou um olhar de surpreza e admiração em torno da especie de pavilhão de folhagem que a cercava; parecia interrogar as arvores, o rio, o céo; mas tudo emmudecia.
Pery não se animava a pronunciar uma palavra, via o que se passava n'alma de sua senhora, e não tinha a coragem de dizer a primeira letra do enigma que ella não tardaria a comprehender.
Por fim, a menina, baixando a vista para ver onde estava, descobrio a canôa, e lançando um volver rapido para o vasto leito do Parahyba que se espreguiçava indolentemente pela floresta, ficou branca como a cambraia do seu roupão.
Voltou-se para o indio com os olhos extremamente dilatados, os labios tremulos, a respiração presa, o seio offegante, e supplicando com as mãozinhas juntas:
—Meu pai!... meu pai!... exclamou soluçando.
O selvagem deixou cahir a cabeça sobre o peito e escondeu o rosto nas mãos.
—Morto!... Minha mãi tambem morta!... Todos mortos!...
Vencida pela dôr, a menina apertou convulsamente o seio que lhe estalava com os soluços, e reclinando-se como o calice delicado de uma flôr que a noite enchêra de orvalho, desfez-se em lagrimas.
—Pery só podia salvar a ti, senhora! murmurou o indio tristemente.
Cecilia ergueu a cabeça altiva.
—Porque não me deixaste morrer com os meus?... exclamou ella n'uma exaltação febril. Pedi-te eu que me salvasses? Precisava de teus serviços?...
Seu rosto tomou uma expressão de energia extraordinaria.
—Tu vais me levar ao lugar onde descansa o corpo de meu pai. É ahi que deve estar sua filha... Depois partirás!... Não careço de ti.
Pery estremeceu.
—Escuta, senhora... balbuciou elle em tom submisso.
A menina lançou-lhe um olhar tão imperioso, tão soberano, que o indio emmudeceu, e voltando o rosto escondeu as lagrimas que lhe molhavão as faces.
Cecilia caminhou até á beira do rio, e com os olhos estendidos pelo horizonte, que ella suppunha occultar o lugar em que habitára, ajoelhou e fez uma oração longa e ardente.
Quando ergueu-se, estava mais calma: a dôr tinha-se repassado do consolo sublime da religião, dessa doçura e suavidade que infiltra no coração a esperança de uma vida celeste, que reune aquelles que se amárão na terra.
Ella pôde então reflectir sobre o que se tinha passado na vespera; e procurou lembrar-se das circumstancias que havião precedido á morte de sua familia. Todas as suas recordações, porém, chegavão unicamente até o momento em que, já meia adormecida, fallava a Pery, e dizia essa palavra ingénua e innocente que lhe escapára do intimo d'alma.
—Antes morrer como Isabel!
Lembrando-se dessa palavra, córou; e vendo-se só no deserto com Pery, sentio uma inquietação vaga e indefinida, um sentimento de temor e de receio, cuja causa não sabia explicar.
Seria essa desconfiança subita proveniente da colera que ella sentira, porque o indio salvára a sua vida, e a arrancára da desgraça que tinha destruido toda a sua familia?
Não; não era essa a causa: ao contrario Cecilia conhecia que fôra injusta para com seu amigo que tinha talvez feito impossiveis por ella; e a não ser o receio instinctivo que se apoderára involuntariamente de sua alma, já o teria chamado para pedir-lhe perdão daquellas palavras duras e crueis.
A menina ergueu os olhos timidos e encontrou o olhar triste e supplice de Pery: não pôde resistir; esqueceu os seus receios, e um tenue sorriso fugio-lhe pelos labios.
—Pery!...
—O indio estremeceu, mas desta vez de alegria e de contentamento: veio cahir aos pés de sua senhora, que elle encontrava de novo boa como sempre tinha sido.
—Perdoa a Pery, senhora!
—És tu que me deves perdoar, porque te fiz soffrer; não é verdade? Mas bem sabes!... Não podia abandonar meu pobre pai!
—Foi elle que mandou a Pery que te salvasse! disse o indio.
—Como?... exclamou a menina. Conta-me, meu amigo.
O indio fez a narração da scena da noite antecedente desde que Cecilia tinha adormecido até o momento em que a casa saltára com a explosão, restando delia apenas um montão de ruinas.
Contou que elle tinha preparado tudo para que D. Antonio de Mariz fugissse, salvando Cecilia; mas que o fidalgo recusára, dizendo que a sua lealdade e a sua honra mandavão que morresse no seu posto.
—Meu nobre pai! murmurou a menina enxugando as lagrimas.
Houve um instante de silencio, depois do qual Pery concluio a sua narração, e referio como D. Antonio de Mariz o tinha baptisado, e lhe havia confiado a salvação de sua filha.
—Tu és christão, Pery?... exclamou a menina, cujos olhos brilhárão com uma alegria ineffavel.
—Sim; teu pai disse: «Pery; tu és christão; dou-te o meu nome!»
—Obrigado, meu Deus, disse a menina juntando as mãos e erguendo os olhos ao céo.
Depois, envergonhada desse movimento espontaneo, escondeu o rosto: o rubor que cobrio as suas faces tingio de longes côr de rosa as linhas puras do collo assetinado.
Pery ergueu-se e foi colher alguns fructos delicados que servirão de refeição á sua senhora.
O sol tinha quebrado a sua força, era tempo de continuar a viagem e aproveitar a frescura da tarde para vencer a distancia que os separava do campo dos Goytacazes.
O indio chegou-se tremulo para a menina:
—Que queres tu que Pery faça, senhora?
—Não sei; respondeu Cecilia indecisa.
—Não queres que Pery te leve á taba dos brancos?
—É a vontade de meu pai?... Deves cumpri-la.
—Pery prometteu a D. Antonio levar-te a sua irmã.
O indio fez a canôa boiar sobre as aguas do rio, e quando tomou a menina nos seus braços para deita-la no barquinho, ella sentio pela primeira vez na sua vida que o coração de Pery palpitava sobre o seu seio.
A tarde estava soberba; os raios do sol no occaso, filtrando por entre as folhas das arvores, douravão as flôres alvas que crescião pela beira do rio.
As rolas começavão a soltar os seus arrulhos no fundo da floresta; e a brisa, que passava ainda tepida das exhalações da terra, vinha impregnada de aromas silvestres.
A canôa resvalou pela flôr d'agua, como uma garça ligeira levada pela correnteza do rio.
Pery remava sentado na prôa.
Cecilia, deitada no fundo, meio apoiada sobre uma alcatifa de folhas que Pery tinha arranjado, engolfava-se nos seus pensamentos, e aspirava as emanações suaves e perfumadas das plantas, e a frescura do ar e das aguas.
Quando seus olhos encontravão os de Pery, os longos cilios descião occultando um momento o seu olhar doce e triste.
A noite estava serena.
A canôa, vogando sobre as aguas do rio, abria essas flôres de espuma, que brilhão um momento á luz das estrellas, e se desfazem como o sorriso da mulher.
A brisa tinha escasseado; e a natureza adormecida respirava a calma tepida e perfumada das noites americanas, tão cheias de enlevo e encanto.
A viagem fora silenciosa; essas duas creaturas abandonadas no meio do deserto, sós em face da natureza, emmudecião, como se temessem despertar o echo profundo da solidão.
Cecilia repassava na memoria toda a sua vida innocente e tranquilla, cujo fio dourado tinha-se rompido de uma maneira tão cruel; mas era sobretudo o ultimo anno dessa existencia, desde o dia do apparecimento imprevisto de Pery, que se desenhava na sua imaginação.
Porque interrogava ella assim os dias que tinha vivido no remanso da felicidade? Porque o seu espirito voltava ao passado, e procurava ligar todos esses factos a que na descuidosa ingenuidade dos primeiros annos dera tão pouco apreço?
Ella mesma não saberia explicar as emoções que sentia; sua alma innocente e ignorante tinha-se illuminado com uma subita revelação: novos horizontes se abrião aos sonhos castos de seu pensamento.
Volvendo ao passado admirava-se de sua existencia, como os olhos se deslumbrão com a claridadade depois de um somno profundo; não se reconhecia na imagem do que fôra outr'ora, na menina isenta e travessa.
Toda a sua vida estava mudada; a desgraça tinha operado essa revolução repentina, e um outro sentimento ainda confuso ia talvez completar a transformação mysteriosa da mulher.
Em torno della tudo se resentia dessa mudança; as côres tinhão tons harmoniosos, o ar perfumes inebriantes, a luz reflexos avelludados, que seus sentidos não conhecião.
Uma flôr que antes era para ella apenas uma bella fórma, parecia-lhe agora uma creatura que sentia e palpitava; a brisa que outr'ora passava como um simples bafejo das auras, murmurava ao seu ouvido nesse momento melodias ineffaveis, notas mysticas que resoavão no seu coração.
Pery, julgando sua senhora adormecida, remava docemente para não perturbar o seu repouso; a fadiga começava a vencê-lo; apezar de sua coragem indomavel e de sua vontade poderosa, as forças estavão exhaustas.
Apenas vencedor da luta terrivel que travára com o veneno, tinha começado a empreza quasi impossivel da salvação de sua senhora; havia tres dias que seus olhos não se cerravão, que seu espirito não repousava um instante.
Tudo quanto a natureza permittia á intelligencia e ao poder do homem, elle tinha feito; e comtudo não era a fadiga do corpo que o vencia, erão sim as emoções violentas por que passára durante esse tempo.
O que elle tinha sentido quando plainava sobre o abysmo, e que a vida de sua senhora dependia de um passo falso, de uma oscillação da haste fragil que lhe servia de ponte pensil, ninguem comprehenderia.
O que soffreu quando Cecilia no seu desespero pela morte de seu pai o accusava por tê-la salvado, e lhe dava ordem de leva-la ao lugar onde repousavão as cinzas do velho fidalgo, é impossivel de descrever.
Forão horas de martyrio, de soffrimento horrivel, em que sua alma succumbiria, se não achasse na sua vontade inflexivel e na sua dedicação sublime um conforto para a dôr, e um estimulo para triumphar de todos os obstaculos.
Erão essas emoções que o vencião, e ainda depois de vencidas, elle conheceu que seus musculos de aço, escravos submissos que obedecião ao seu menor desejo, se destendião como a corda do arco depois do combate. Lembrou-se que sua senhora precisava delle e que devia aproveitar esses momentos em que ella repousava para pedir ao somno novo vigor e novas forças.
Ganhou o meio do rio, e escolhendo um lugar onde não chegava nem um galho das arvores que crescião nas ribanceiras, amarrou a canôa nos nenuphares que boiavão á tona d'agua.
Tudo estava quieto; a terra ficava a uma distancia de muitas braças; portanto podia sua senhora dormir sem perigo sobre esse chão prateado, debaixo da abobada azul do céo; as ondinhas a embalarião no seu berço, as estrellas vigiarião o seu somno.
Livre de inquietação, Pery encostou a cabeça na borda da canôa; um momento depois suas palpebras entorpecidas cerrárão-se a pouco e pouco; seu ultimo olhar, esse olhar vago e incerto que adeja na pupilla já meio adormecida, viu desenhar-se na sombra uma forma alva e graciosa que se reclinava docemente para elle.
Não era um sonho, essa linda visão. Cecilia sentindo a canôa immovel despertou das suas recordações; sentou-se, e debruçando-se um pouco viu que seu amigo dormia, e accusou-se por não ter ha mais tempo exigido delle esse instante de repouso.
O primeiro sentimento que se apoderou da menina, vendo-se só, foi o terror solemne e respeitoso que infunde a solidão no meio do deserto, nas horas mortas da noite.
O silencio parece fallar; as sombras se povoão de seres invisiveis; os objectos, na sua immobilidade, como que oscillão pelo espaço.
E ao mesmo tempo o nada com o seu vacuo profundo, immenso, infinito; e o chãos com a sua confusão, as suas trevas, as suas formas increadas; a alma sente que falta-lhe a vida ou a luz em torno.
Cecilia recebeu essa impressão com um temor religioso; mas não se deixou dominar pelo susto; a desgraça a habituára ao perigo; e a confiança que tinha no seu companheiro era tanta, que mesmo dormindo parecia-lhe que Pery velava sobre ella.
Contemplando essa cabeça adormecida, a menina admirou-se da belleza inculta dos traços, da correcção das linhas do perfil altivo, da expressão de força e intelligencia que animava aquelle busto selvagem moldado pela natureza.
Como era que até então ella não tinha percebido naquelle aspecto senão um rosto amigo? Como seus olhos tinhão passado sem ver sobre essas feições talhadas com tanta energia?
Era que a revelação physica que acabava de illuminar o seu olhar, não era senão o resultado dessa outra revelação moral que esclarecêra o seu espirito; dantes via com os olhos do corpo, agora via com os olhos da alma.
Pery, que durante um anno não fôra para ella senão um amigo dedicado, apparecia-lhe de repente como um heróe; no seio de sua familia estimava-o, no meio dessa solidão admirava-o.
Como os quadros dos grandes pintores que precisão de luz, de um fundo brilhante, e de uma moldura simples, para mostrarem a perfeição de seu colorido e a pureza de suas linhas, o selvagem precisava do deserto para revelar-se em todo o esplendor de sua belleza primitiva.
No meio de homens civilisados, era um indio ignorante, nascido de uma raça barbara, a quem a civilisação repellia, e marcava o lugar de captivo. Embora para Cecilia e D. Antonio fosse um amigo, era apenas um amigo escravo.
Aqui, porém, todas as distincções desapparecião; o filho das mattas, voltando ao seio de sua mãi, recobrava a liberdade; era o rei do deserto, o senhor das florestas, dominando pelo direito da força e da coragem.
As altas montanhas, as nuvens, as catadupas, os grandes rios, as arvores seculares, servião de throno, de docel, de manto e sceptro a esse monarca das selvas cercado de toda a magestade e de todo o esplendor da natureza.
Que effusão de reconhecimento e de admiração não havia no olhar de Cecilia! Era nesse momento que ella comprehendia toda a abnegação do culto santo e respeitoso que o indio lhe votava!
As horas corrêrâo silenciosamente nessa muda contemplação; a aragem fresca que annuncia o despontar do dia bafejou o rosto da menina; e pouco depois o primeiro albor da manhã desmaiou o negrume do horizonte.
Sobre o relevo que formava o perfil escuro da floresta, nas sombras da noite, luzio limpida e brilhante a estrella d'alva; as aguas do rio arfárão docemente; e os leques das palmeiras se agitárão rumorejando.
A menina lembrou-se do seu despertar tão placido de outr'ora, de suas manhãs tão descuidosas, de sua prece alegre e risonha em que agradecia a Deus a ventura que vertia sobre ella e sua familia.
Uma lagrima pendeu nos cilios dourados, e cahio sobre a face de Pery; abrindo os olhos, e vendo ainda a mesma doce visão que o adormecêra, o indio julgou que o sonho continuava.
Cecilia sorrio-lhe; e passou a mãozinha pelas palpebras ainda meio cerradas de seu amigo:
—Dorme, disse ella, dorme; Cecy vela.
A musica dessas palavras despertou completamente o selvagem.
—Não! balbuciou elle envergonhado de ter cedido á fadiga. Pery sente-se forte.
—Mas tu deves ter necessidade de repouso! Ha tão pouco tempo que adormeceste!
—O dia vai raiar; Pery deve velar sobre sua senhora.
—E porque tua senhora não velará tambem sobre ti? Queres tomar tudo; e não me deixas nem mesmo a gratidão!
O indio lançou um olhar cheio de admiração á menina:
—Pery não entende o que tu dizes. A rolinha quando atravessa o campo e sente-se fatigada, descansa sobre a aza de seu companheiro que é mais forte; é elle que guarda o seu ninho emquanto ella dorme, que vai buscar o alimento, que a defende e que a protege. Tu és como a rolinha, senhora.
Cecilia córou da comparação ingénua de seu amigo.
—E tu? perguntou ella confusa e tremula de emoção.
—Pery... é teu escravo, respondeu o indio naturalmente.
A menina abanou a cabeça com uma inflexão graciosa:
—A rolinha não tem escravo.
Os olhos de Pery brilhárão, uma exclamação partio de seus labios:
—Teu...
Cecilia com o seio palpitante, as faces vermelhas, os olhos humidos, levou a mãozinha aos labios de Pery, e reteve a palavra que ella mesma na sua innocente faceirice tinha provocado.
—Tu és meu irmão! disse ella com um sorriso divino.
Pery olhou o céo, para fazê-lo confidente de sua felicidade.
A claridade da alvorada estendia-se sobre a floresta e os campos como um vêo finissimo; a estrella da manhã scintillava em todo o seu fulgor.
Cecilia ajoelhou-se.
—Salve, rainha!...
O indio contemplava-a com uma expressão de ventura ineffavel.
—Tu és christão, Pery! disse ella lançando-lhe um olhar supplicante.
Seu amigo comprehendeu-a, e ajoelhando, juntou as mãos como ella.
—Tu repetirás todas as minhas palavras; e faze por não esquecê-las. Sim?
—Ellas vêm de teus labios, senhora.
—Senhora, não! irmã!
Dahi a pouco os murmurios das aguas confundião-se com os accentos maviosos da voz de Cecilia que recitava o hymno christão repassado de tanta uncção e poesia.
A palavra de Pery repetia como um écho a phrase sagrada.
Terminada a prece christã, talvez a primeira que tinhão ouvido aqnellas arvores seculares, a viagem continuou.
Logo que o sol chegou ao zenith, Pery procurou como na vespera um abrigo para passar as horas de calma.
A canôa pojou n'um pequeno seio do rio, Cecilia saltou em terra; e seu companheiro escolheu uma sombra onde ella repousasse.
—Espera aqui; Pery já volta.
—Onde vais? perguntou a menina inquieta.
—Ver fructos para ti.
—Não tenho fome.
—Tu os guardarás.
—Pois bem; eu te acompanho.
—Não; Pery não consente.
—E porque? Não me queres junto de ti?
—Olha tuas roupas; olha teus pés, senhora; os espinhos do cardo te offenderião.
Com effeito Cecilia estava vestida com um ligeiro roupão de cambraia; e seu pézinho que descansava sobre a relva, calçava um borzeguim de seda.
—Então me deixas só? disse a menina entristecendo.
O indio ficou um momento indeciso; mas de repente sua physionomia expandio-se.
Cortou a haste de um iris que se balançava ao sopro da aragem, e apresentou a flôr á menina.
—Escuta, disse elle. Os velhos da tribu ouvirão de seus pais, que a alma do homem quando sahe do corpo, se esconde n'uma flôr, e fica alli até que a ave do céo vem busca-la e leva-la bem longe. É por isso que tu vês o guanumby, saltando de flôr em flôr, beijando uma, beijando outro; e depois batendo as azas e fugindo.
Cecilia, habituada á linguagem poetica do selvagem esperava a ultima palavra que devia fazê-la comprehender o seu pensamento.
O indio continuo:
—Pery não leva a sua alma no corpo, deixa-a nesta flôr. Tu não ficas só.
A menina sorrio, e tomando a flôr escondeu-a no seio.
—Ella me acompanhará. Vai, meu irmão, e volta logo.
—Pery não se afastará; se tu o chamares, elle ouvirá.
—E me responderás, sim?... para que eu te sinta perto de mim...
O indio, antes de partir, circulou a alguma distancia o lugar onde se achava Cecilia de uma corda de pequenas fogueiras feitas de louro, de canella, uratahy e outras arvores aromaticas.
Desta maneira tornava aquelle retiro impenetravel: o rio de um lado, e do outro as chammas que afugentarião os animaes damnihos, e sobretudo os reptis, o fumo odorifero que se escapava das fogueiras afastaria até mesmo os insectos. Pery não soffreria que uma vespa e uma mosca sequer offendesse a cutis de sua senhora, e sugasse uma gota desse sangue precioso; por isso tomára todas essas precauções.
Cecilia devia pois ficar tranquilla como se estivesse em um palacio; e de facto era um palacio de rainha do deserto esse sombrio cheio de frescura a que a relva servia de alcatifa, as folhas de docel, as grinaldas em flôres de cortinas, os sabiás de orchestra, as aguas de espelho, e os raios do sol de arabescos dourados.
A menina vio de longe o desvelo com que seu amigo tratava de sua segurança, e acompanhou-o com o olhar até o momento em que elle desappareceu no mais espesso da matta.
Foi então que ella sentio a soledade estender-se em torno e envolvê-la; insensivelmente levou a mão ao seio e tirou a flôr que Pery lhe tinha dado.
Apezar de sua fé christã, não pôde vencer essa innocente superstição do coração: pareceu-lhe, olhando o iris, que já não estava só e que a alma de Pery a acompanhava.
Qual é o seio de dezaseis annos que não abriga uma dessas illusões encantadoras, nascidas com o fogo dos primeiros raios do amor? Qual é a menina que não consulta o oraculo de um malmequer, e não vê n'uma borboleta negra a sibylla fatidica que lhe annuncia a perda da mais bella esperança?
Como a humanidade na infancia, o coração nos primeiros annos tem tambem a sua mythologia; mythologia mais graciosa e mais poetica do que as creações da Grecia; o amor é o seu Olympo povoado de deosas ou deoses de uma belleza celeste e immortal.
Cecilia amava; a gentil e innocente menina procurava illudir-se a si mesma, attribuindo o sentimento que enchia sua alma a uma affeição fraternal, e occultando, sob o doce nome de irmão, um outro mais doce que titillava nos seus labios, mas que seus labios não ousavão pronunciar.
Mesmo só, de vez em quando um pensamento que passava no seu espirito, incendia-lhe as faces de rubor, fazia palpitar-lhe o seio e pender mollemente a cabeça, como a haste da planta delicada quando o calor do sol fecunda a florescencia.
Em que pensava ella, com os olhos fitos no iris, que o seu habito bafejava, comas palpebras meio cerradas e o corpo reclinado sobre os joelhos?
Pensava no passado que não voltaria; no presente que devia escoar-se rapidamente; e no futuro que lhe apparecia vago, incerto e confuso.
Pensava que de todo o seu mundo só lhe restava um irmão de sangue, cujo destino ignorava, e um irmão d'alma, em que tinha concentrado todas as affeições que perdera.
Um sentimento de tristeza profunda annuviava seu semblante, lembrando-se de seu pai, de sua mãi, de Isabel, de Alvaro, de todos que amava e que formavão o universo para ella; então o que a consolava era a esperança de que os dous unicos corações que lhe restavão não a abandonarião nunca.
E isto a fazia feliz; não desejava mais nada; não pedia a Deos mais ventura do que a que sentiria vivendo junto de seus amigos e enchendo o futuro com as recordações do passado.
A sombra das arvores já beijava as aguas do rio, e Pery ainda não tinha voltado; Cecilia assustou-se, e, temendo que não lhe tivesse succedido alguma cousa, chamou por elle.
O indio respondeu de longe, e pouco depois appareceu entre as arvores; o seu tempo não tinha sido inutilmente empregado, a julgar pelos objectos que trazia.
—Como tardaste!... disse-lhe Cecilia erguendo-se e indo ao seu encontro.
—Tu estavas socegado; Pery aproveitou para não te deixar amanhã.
—Amanhã só?
—Sim, porque depois chegaremos.
—Aonde? perguntou a menina com vivacidade.
—Aos campos dos Goytacazes, á cabana de Pery, onde tu mandarás a todos os guerreiros da tribu.
—E depois, como iremos ao Rio de Janeiro?
—Não te inquietes; os Goytacazes tem igaras grandes como aquella arvore que toca ás nuvens; quando elles atirão o remo, ellas voão sobre as aguas como a atyaty de azas brancas. Antes que a lua, que vai nascer, tenha desapparecido, Pery te deixará com a irmã de teu pai.
—Deixará!... exclamou a menina, empallidecendo. Tu queres me abandonar?
—Pery é um selvagem, disse o indio tristemente; não póde viver na taba dos brancos.
—Porque? perguntou a menina com anciedade. Não és tu christão como Cecy?
—Sim; porque era preciso ser christão para te salvar; mas Pery morrerá selvagem como Ararê.
—Oh! não, disse a menina, eu te ensinarei a conhecer Deus, Nossa Senhora, as suas virgens e os seus anginhos. Tu viverás comigo e não me deixarás nunca!
—Vê, senhora: a flor que Pery te deu já murchou porque sahio de sua planta; e a flôr estava no teu seio. Pery na taba dos brancos, ainda mesmo junto de ti, será como esta flôr; tu terás vergonha de olhar para elle.
—Pery!... exclamou a menina offendida.
—Tu és boa; mas todas as que têm a tua côr não têm o teu coração. Lá, o selvagem seria um escravo dos escravos; e quem nasceu o primeiro póde ser teu escravo; mas é senhor dos campos, e mando aos mais fortes.
Cecilia, admirando o reflexo de nobre orgulho que brilhava na fronte do indio, sentio que não podia combater a sua resolução dictada por um sentimento elevado. Reconheceu que havia no fundo de suas palavras uma grande verdade, que o seu instincto adivinhava; ella tinha a prova na revolução que se operára no seu espirito, vendo Pery no meio do deserto, livre, grande, magestoso com um rei.
Qual não seria pois a consequencia dessa outra transição, muito mais brusca? N'uma cidade, no meio da civilisação, o que seria um selvagem, senão um captivo, tratado por todos com desprezo?
No intimo de sua alma quasi que approvava a resolução de Pery; mas não podia afazer-se á idéa de perder seu amigo, seu companheiro, a unica affeição que talvez ainda lhe restava no mundo.
Durante esse tempo, o indio preparava a simples refeição que lhes offerecia a natureza. Deitou sobre uma folha larga os fructos que tinha colhido: erão os aracás, os jambos corados, os ingás de polpa macia, os cocos de varias especies.
A outra folha continha favos de uma pequena abelha, que fabricára a sua colmeia no tronco de uma cabuiba, de sorte que o mel puro e claro tinha perfumes deliciosos: dir-se-hia mel de flôres.
O indio tornou concava uma palma larga e encheu-a com o succo do ananaz, cuja fragrancia é como a essencia do sabor: era o vinho que devia servir ao banquete frugal.
N'uma segunda palma tambem concava, apanhou a agua crystallina da corrente que murmurava a alguns passos; devia servir para Cecilia lavar as mãos depois da refeição.
Quando acabou esses preparativos que elle fazia com uma satisfação inexprimivel, Pery sentou-se junto da menina, e começou a trabalhar n'um arco de que precisava. O arco era sua arma favorita, e sem elle, embora possuisse a clavinha e as munições que por precaução deitára na canôa para servirem a D. Antonio de Mariz, não tinha tranquillidade de espirito e confiança plena na sua agilidade.
Reparando, porém, que sua senhora não tocava nos alimentos, ergueu a cabeça e vio o rosto da menina banhado de lagrimas, que cahião em perolas sobre os fructos, e os rociavão como gotas de orvalho.
Não era preciso adivinhar, para conhecer a causa dessas lagrimas.
—Não chores, senhora, disse o indio afflicto; Pery te fallou o que sentia; manda, e Pery fará a tua vontade.
Cecilia olhou-o com uma expressão de melancolia que partia a alma.
—Queres que Pery fique comtigo? Elle ficará; todos serão seus inimigos; todos o tratarão mal; desejará defender-te e não poderá; quererá servir-te e não o deixarão; mas Pery ficará.
—Não, respondeu Cecilia; não exijo de ti esse ultimo sacrificio. Deves viver onde nasceste, Pery.
—Mas tu vais ainda chorar!
—Vê, disse a menina enxugando as lagrimas; estou contente.
—Agora toma uma fructa.
—Sim; jantaremos juntos, como jantavas outr'ora no meio das mattas com tua irmã.
—Pery nunca teve irmã.
—Mas tens agora, respondeu ella sorrindo.
E como uma filha das florestas, uma verdadeira americana, a gentil menina fez a sua refeição partilhando-a com seu companheiro, e acompanhando-a dos gestos innocentes e faceiros que só ella sabia ter.
Pery admirava-se da mudança brusca que se tinha operado em sua senhora, e no fundo do seu coração sentia um aperto, pensando que ella se consolára bem depressa com a lembrança da separação.
Mas elle não era egoista, e preferia a alegria de sua senhora a seu prazer; porque vivia antes da vida della do que da sua propria.
Depois da refeição, Pery voltou ao seu trabalho.
Cecilia, que desde o primeiro dia sentia-se abatida e languida, tinha recobrado um pouco de sua vivacidade e gentileza dos bons dias.
O rosto mimoso conservava ainda a sombra melancolica que lhe deixarão impressas as scenas tristes de que fora testemunha, e sobretudo a ultima desgraça que a tinha privado de seu pai e de sua mãi.
Mas essa mágoa tomava nas suas feições uma expressão angelica, e tal mansuetude e suavidade que dava novo encanto á sua belleza ideal.
Deixando seu companheiro distrahido com a sua obra, chegou á beira do rio e sentou-se junto de uma moita de uvaias, á qual estava amarrada a canôa.
Pery viu-a afastar-se, e, sempre seguindo-a com os olhos, continuou a preparar a vergontea que devia servir-lhe de arco, e as cannas selvagens, ás quaes o seu braço ia dar o vôo da ave altaneira.
A menina com a face apoiada na mão e os olhos postos na correnteza do rio, scimava; ás vezes as palpebras cerravão-se; os labios se agitavão imperceptivelmente; nesses momentos parecia que conversava com algum espirito invisivel.
Outras vezes, um doce sorriso despontava nos seus labios e desfazia-se logo, como se o pensamento que viera pousar ali voltasse a esconder-se no fundo do coração, donde se tinha escapado.
Por fim ergueu a fronte com o meneio de rainha, que ás vezes tomava a sua cabecinha loura, á qual só faltava o diadema; a physionomia mostrou uma expressão de energia, que lembrava o caracter de D. Antonio de Mariz.
Tinha tomado uma resolução; uma resolução firme, inabalavel, que ia cumprir com a mesma força de vontade e coragem que herdára de seu pai, e dormia no fundo de sua alma, para só revelar-se nas occasiões extremas.
Levantou os olhos ao céo, e pedio a Deos um perdão para uma falta, e ao mesmo tempo uma esperança para uma boa acção que ia praticar; sua oração foi breve, mas ardente e cheia de fervor.
Emquanto isso se passava, Pery, vendo que as sombras da terra já se deitavão sobre o leito do Parahyba, conheceu que era tempo de partir, e preparou-se para continuar a viagem.
No momento em que levantava-se, Cecilia, correu para elle, e collocou-se em face, de modo a lhe occultar a vista do rio.
—Tu sabes? disse ella sorrindo; tenho uma cousa a pedir-te.
Esta só palavra bastava para que Pery não visse mais nada senão os olhos e os labios de sua senhora, que ião dizer-lhe o que ella desejava.
—Quero que apanhes muito algodão para mim e me tragas uma pelle bonita. Sim?
—Para que? perguntou o indio admirado.
—Do algodão fiarei um vestido; da pelle tu cobrirás os meus pés.
Pery, cada vez mais admirado, ouvia sua senhora sem comprehendê-la:
—Assim, disse a menina sorrindo, tu me deixarás acompanhar-te, os espinhos não me farão mal.
O espanto do indio tinha-o tornado immovel, mas de repente soltou um grito, e quiz precipitar-se para o rio.
A mãozinha de Cecilia apoiando-se no seu peito, reteve-o.
—Espera!
—Olha; respondeu o indio inquieto apontando o rio.
A canôa desprendida do tronco a que estava amarrada resvalava á discrição das aguas, e, gyrando sobre si, desapparecia levada pela correnteza.
Cecilia depois de olhar se voltou sorrindo:
—Fui eu que soltei!
—Tu senhora! Porque?
—Porque não precisamos mais della.
Fitando então no seu amigo os lindos olhos azues, disse com o tom grave e lento que revela um pensamento profundamente reflectido e uma resolução inabalavel.
—Pery não póde viver junto de sua irmã na cidade dos brancos; sua irmã fica com elle no deserto, no meio das florestas.
Era essa a idéa que ella ha pouco acariciava no seu espirito, e para a qual tinha invoeado a graça divina.
Não foi sem algum esforço que ella conseguio dominar os primeiros temores que a assaltárão, quando encarou em face essa existencia longe da sociedade, na solidão, no isolamento.
Mas qual era o laço que a prendia ao mundo civilisado? Não era ella quasi uma filha desses campos, criada com o seu ar puro e livre, com as suas aguas crystallinas?
A cidade lhe apparecia apenas como uma recordação da primeira infancia, como um sonho do berço; deixara o Rio de Janeiro aos cinco annos, e nunca mais alli voltára.
O campo, esse tinha para ella outras recordações ainda vivas e palpitantes; a flor da sua mocidade tinha sido bafejada por essas auras; o botão desatára aos raios desse sol esplendido.
Toda a sua vida, todos os seus bellos dias, todos os seus prazeres infantis vivião alli, fallavão naquelles échos da solidão, naquelles murmurios confusos, naquelle silencio mesmo.
Ella pertencia, pois, mais ao deserto do que á cidade; era mais uma virgem brazileira do que uma menina cortezã; seus habitos e seus gostos prendião-se mais ás pompas singelas da natureza, do que ás festas e ás galas da arte e da civilisação.
Decidio ficar.
A unica felicidade que ainda podia gozar neste mundo, depois da perda de sua familia, era viver com os dous entes que a amavão; essa felicidade não era possivel; devia escolher entre um delles.
Ahi o seu coração foi impellido pela força invencivel que o arrastava; mas depois, envergonhando-se de ter cedido tão depressa, procurou desculpar-se a si mesma.
Disse então que entre seus dous irmãos era justo que acompanhasse antes aquelle que só vivia para ella, que não tinha um pensamento, um cuidado, um desejo que não fosse inspirado por ella.
D. Diogo era um fidalgo, herdeiro do nome de seu pai; tinha um futuro diante de si, tinha uma missão a cumprir no mundo; elle escolheria uma companheira para suavisar-lhe a existencia.
Pery tinha abandonado tudo por ella; seu passado, seu presente, seu futuro, sua ambição, sua vida, sua religião mesmo; tudo era ella, e unicamente ella; não havia pois que hesitar.
Depois Cecilia tinha ainda um pensamento que lhe sorria: queria abrir ao seu amigo o céo que ella entrevia na sua fé christã; queria dar-lhe um lugar perto della na mansão dos justos, aos pés do throno celeste do Creador.
É impossivel descrever o que se passou no espirito do selvagem ouvindo as palavras de Cecilia: sua intelligencia inculta, mas brilhante, capaz de elevar-se aos mais altos pensamentos, não podia comprehender aquella idéa; duvidou do que escutava.
—Cecilia fica no deserto!... balbuciou elle.
—Sim! respondeu a menina tomando-lhe as mãos; Cecilia fica comtigo e não te deixará. Tu és rei destas florestas, destes campos, destas montanhas; tua irmã te acompanhará!
—Sempre?...
—Sempre!.... Viveremos juntos como hontem, como hoje, como amanhã. Tu cuidas?... Eu tambem sou filha desta terra; tambem me criei no seio desta natureza. Amo este bello paiz!...
—Mas, senhora, tu não vês que tuas mãos forão feitas para as flores e não para os espinhos; teus pés para brincar e não para andar; teu corpo para a sombra e não para o sol e a chuva?
—Oh! Eu sou forte! exclamou a menina erguendo a cabeça com altivez. Junto de ti não tenho medo. Quando eu estiver cansada, tu me levarás nos teus braços. A rolinha não se apoia sobre a aza de seu companheiro?
Era preciso ver a gentileza e a garridice com que ella dizia todas essas phrases graciosas, que borbulhavão dos seus labios! A irradiação do seu olhar, a animação do seu rosto e a travessura de seu gesto fascinavão.
Pery ficou estatico diante da perspectiva dessa felicidade immensa, com a qual nunca sonhara; mas jurou de novo em sua alma que cumpriria a promessa feita a D. Antonio.
A tarde descahia; e era preciso tratar de prover aos meios de passar a noite em terra, o que seria muito mais perigoso; não para elle a quem bastava o galho de uma arvore; mas para Cecilia.
Seguindo pela margem para escolher o lugar mais favoravel, Pery soltou uma palavra de surpreza vendo a canôa que se tinha embaraçado numa dessas ilhas fluctuantes feitas pelas parasitas do rio que boião sobre as aguas.
Era o melhor leito que podia ter a menina no meio do deserto; puxou a canôa, alcatifou o fundo com as folhas macias das palmeiras, e, tomando Cecilia nos braços, deitou-a no seu berço.
A menina não consentio que Pery remasse; e a canôa deslisou docemente pelo leito do rio, apenas impellida pela correnteza.
Cecilia brincava; debruçava-se sobre as aguas para colher uma flôr de passavem, para perseguir um peixe que beijava a face lisa das ondas, para ter o prazer de molhar as mãos nessa agua crystallina, para rever a sua imagem nesse espelho vacillante.
Quando tinha brincado bastante, voltava-se para seu amigo e fallava-lhe com o gazeio argentino, mimoso chilrear dos labios travessos de uma linda menina, onde as cousas mais ligeiras e mais frivolas revestem encantos e graça suprema.
Pery estava distrahido; seu olhar fitava-se no horizonte com uma attenção extraordinaria; a inquietação que se desenhava no seu semblante era indicio de algum perigo, embora ainda remoto.
Sobre a linha azulada da cordilheira dos Orgãos, que se destacava n'um fundo de purpura e rosicler, amontoavão-se grossas nuvens escuras e pesadas, que, feridas pelos raios do occaso, lançavão reflexos acobreados.
Dahi a pouco a serrania desappareceu envolta nesse manto côr de bronze, que se elevava como as columnas e abobadas de stalactites que se encontrão nas grutas das nossas montanhas. O azul puro e risonho que cobria o resto do firmamento contrastava com a cinta escura, que ia ennegrecendo gradualmente á medida que a noite cahia.
Pery voltou-se.
—Tu queres ir para terra, senhora?
—Não; estou tão bem aqui! Não foste tu que me trouxeste?
—Sim; mas...
—O que?
—Nada; pódes dormir sem receio!
Elle tinha-se lembrado que entre dous perigos o melhor era preferir o mais remoto; aquelle que ainda estava longe e talvez não viesse.
Por isso resolveu não dizer nada a Cecilia, e conservar-se attento e vigilante para salva-la, se o que elle temia se realisasse.
Pery havia lutado com o tigre, os homens, com uma tribu de selvagens, com o veneno; e tinha vencido. Era chegada a occasião de lutar com os elementos; com a mesma confiança calma e impassivel, esperou prompto a aceitar o combate.
Anoiteceu.
O horizonte, sempre negro e fechado, se illuminava ás vezes com um lampejo phosphorescente: um tremor surdo parecia correr pelas entranhas da terra e fazia ondular a superficie das aguas, como o seio de uma vela enfunada pelo vento.
Entretanto, ao redor tudo estava quieto; as estrellas recamavão o azul do céo; a viração aninhava-se nas folhas das arvores; os murmurios doces da solidão cantavão o hymno da noite.
Cecilia adormeceu no seu berço, murmurando uma prece.
Era alta noite; sombras espessas cobrião as margens do Parahyba.
De repente um rumor surdo e abafado, como de um tremor subterraneo, propagando-se por aquella solidão, quebrou o silencio profundo do ermo.
Pery estremeceu: ergueu a cabeça e estendeu os olhos pela larga esteira do rio, que, enroscando-se como uma serpente monstruosa de escamas prateadas, ia perder-se no fundo negro da floresta.
O espelho das aguas, liso e polido como um crystal, reflectia a claridade das estrellas, que já desmaiavão com a aproximação do dia; tudo estava immovel e quêdo.
O indio curvou-se sobre a borda da canôa, e de novo applicou o ouvido; pela superficie do rio rolava um som estrepitoso, semelhante ao quebrar-se da catadupa precipitando-se do alto dos rochedos.
Cecilia dormia tranquillamente; sua respiração ligeira resoava com a harmonia doce e subtil das folhas da canna quando estremecem ao sopro tenue da aragem.
Pery lançou um olhar de desespero para as margens que se destacavão a alguma distancia sobre a corrente placida do rio. Quebrou o laço que prendia a canôa, e impellio-a para a terra com toda a força do remo, que fendeu a agua rapidamente.
Á beira do rio elevava-se uma bella palmeira, cujo alto tronco era coroado pela grande cupola verde, formada com os leques de suas folhas lindas e graciosas. Os cipós e as parasitas, engrazando-se pelos ramos das arvores vizinhas, descião até o chão, formando grinaldas e cortinas de folhagem, que se prendião ás hastes da palmeira.
Tocando a margem, Pery saltou em terra, tomou Cecilia meio adormecida nos seus braços, e ia entranhar-se pela matta virgem que se elevava diante delle.
Nesse momento, o rio arquejou como um gigante estorcendo-se em convulsões, e deitou-se de novo no seu leito, soltando um gemido profundo e cavernoso.
Ao longe o crystal da corrente achamalotou-se; as aguas frisárão-se; e um lençol de espuma estendeu-se sobre essa face lisa e polida, semelhante a uma vaga do mar desenrolando-se pela arêa da praia.
Logo todo o leito do rio cobrio-se com esse delgado sendal que se desdobrava com uma velocidade espantosa, rumorejando como um manto de seda.
Então no fundo da floresta troou um estampido horrivel, que veio reboando pelo espaço; dir-se-hia o trovão correndo nas quebradas da serrania.
Era tarde!
Não havia tempo para fugir; a agua tinha soltado o seu primeiro bramido, e, erguendo o collo, precipitava-se furiosa, invencivel, devorando o espaço como algum monstro do deserto.
Pery tomou a resolução prompta que exigia a eminencia do perigo: em vez de ganhar a matta, suspendeu-se a um dos cipós, e galgando o cimo da palmeira, ahi abrigou-se com Cecilia.
A menina, despertada violentamente e procurando conhecer o que se passava, interrogou seu amigo.
—A agua!... respondeu elle, apontando para o horizonte.
Com effeito, uma montanha branca, phosphorescente, assomou entre as arcarias gigantescas formadas pela floresta, e atirou-se sobre o leito do rio, mugindo como o oceano quando açouta os rochedos com as suas vagas.
A torrente passou, rapida, veloz, vencendo na carreira o tapir das selvas ou a ema do deserto; seu dorso enorme se estorcia e enrolava pelos troncos diluvianos das grandes arvores, que estremecião com o embate herculeo.
Depois, outra montanha, e outra, e outra, se elevarão no fundo da floresta; arremessando-se no turbilhão, lutárão corpo a corpo, esmagando com o peso tudo que se oppunha á sua passagem.
Dir-se-hia que algum monstro enorme, dessas giboias tremendas quo vivem nas profundezas da agua, mordendo a raiz de uma rocha, fazia gyrar a cauda immensa, apertando nas suas mil voltas a matta que se estendia pelas margens.
Ou que o Parahyba, levantando-se qual novo Briareo no meio do deserto, estendia os cem braços titanicos, e apertava ao peito, estrangulando-a em uma convulsão horrivel, toda essa floresta secular que nascêra com o mundo.
As arvores estalavão; arrancadas do seio da terra ou partidas pelo tronco, prostravão-se vencidas sobre o gigante, que, carregando-as ao hombro, precipitava-se para o oceano.
O estrondo dessas montanhas d'agua que se quebravão, o estampido da torrente, os trôos do embate desses rochedos movediços, que se pulverisavão enchendo o espaço de neblina espessa, formavão um concerto horrivel, digno do drama magestoso que se representava no grande scenario.
As trevas envolvião o quadro, e apenas deixavão ver os reflexos prateados da espuma e a muralha negra que cingia esse vasto recinto, onde um dos elementos reinava como soberano.
Cecilia, apoiada ao hombro de seu amigo, assistia horrorisada a esse espectaculo pavoroso; Pery sentia o seu corpinho estremecer; mas os labios da menina não soltárão uma só queixa, um só grito de susto.
Em face desses trances solemnes, desses grandes cataclysmas da natureza, a alma humana sente-se tão pequena, anihila-se tanto, que se esquece da existencia; o receio é substituido pelo pavor, pelo respeito, pela emoção que emmudece e paralysa.
O sol, dissipando as trevas da noite, assomou no oriente; seu aspecto magestoso illuminou o deserto; as ondas de sua luz brilhante derramárão-se em cascatas sobre um lago immenso, sem horizontes.
Tudo era agua e céo.
A inundação tinha coberto as margens do rio até onde a vista podia alcançar; as grandes massas d'agua, que o temporal durante uma noite inteira vertêra sobre as cabeceiras dos confluentes do Parahyba, descêrão das serranias, e, de torrente em torrente, havião formado essa tromba gigantesca que se abatêra sobre a varzea.
A tempestade continuava ainda ao longo de toda a cordilheira, que apparecia coberta por um nevoeiro escuro; mas o céo, azul e limpido, sorria mirando-se no espelho das aguas.
A inundação crescia sempre; o leito do rio elevava-se gradualmente; as arvores pequenas desapparecião; e a folhagem dos soberbos jacarandás sobrenadava já como grandes moitas de arbustos.
A cupola da palmeira, em que se achavão Pery e Cecilia, parecia uma ilha de verdura banhando-se nas aguas da corrente; as palmas que se abrião formavão no centro um berço mimoso, onde os dous amigos, estreitando-se, pedião ao céo para ambos uma só morte, pois uma só era a sua vida.
Cecilia esperava o seu ultimo momento com a sublime resignação evangelica, que só dá a religião de Christo; morria feliz; Pery tinha confundido as suas almas na derradeira prece que expirára dos seus labios.
—Podemos morrer, meu amigo! disse ella com uma expressão sublime.
Pery estremeceu; ainda nessa hora suprema seu espirito revoltava-se contra aquella idéa, e não podia conceber que a vida de sua senhora tivesse de perecer como a de um simples mortal.
—Não! exclamou elle. Tu não podes morrer.
A menina sorrio docemente.
—Olha? disse ella com a sua voz maviosa, a agua sobe, sobe...
—Que importa! Pery vencerá a agua, como venceu a todos os teus inimigos.
—Se fosse um inimigo, tu o vencerias, Pery. Mas é Deos... É o seu poder infinito!
—Tu não sabes? disse o indio como inspirado pelo seu amor ardente, o Senhor do céo manda ás vezes áquelles a quem ama um bom pensamento!
E o indio ergueu os olhos com uma expressão ineffavel de reconhecimento.
Fallou com um tom solemne:
«Foi longe, bem longe dos tempos de agora. As aguas cahirão, e começárão a cobrir toda a terra. Os homens subirão ao alto dos montes; um só ficou na varzea com sua esposa.
«Era Tamandaré; forte entre os fortes; sabia mais que todos. O Senhor fallava-lhe de noite; e de dia elle ensinava aos filhos da tribu o que aprendia do céo.
«Quando todos subirão aos montes, elle disse:—Ficai comigo; fazei como eu, e deixai que venha a agua.
«Os outros não o escutárão; e forão para o alto; e deixárão elle só na varzea com sua companheira, que não o abandonou.
«Tamandaré tomou sua mulher nos braços e subio com ella ao olho da palmeira; ahi esperou que a agua viesse e passasse; a palmeira dava fructos que os alimentavão.
«A agua veio, subio e cresceu; o sol mergulhou e surgio uma, duas e tres vezes. A terra desappareceu; a arvore desappareceu; a montanha desappareceu.
«A agua tocou o céo; e o Senhor mandou então que parasse. O sol olhando só viu céo e agua, e entre a agua e o céo, a palmeira que boiava levando Tamandaré e sua companheira.
«A corrente cavou a terra; cavando a terra, arrancou a palmeira; arrancando a palmeira, subio com ella; subió acima do valle, acima da arvore, acima da montanha.
«Todos morrêrão. A agua tocou o céo tres sões com tres noites; depois baixou: baixou até que descobrio a terra.
«Quando veio o dia, Tamandaré viu que a palmeira estava plantada no meio da varzea; e ouvio a avezinha do céo, o guanumby, que batia as azas.
«Desceu com a sua companheira, e povoou a terra.»
Pery tinha fallado com o tom inspirado que dão as crenças profundas; com o enthusiasmo das almas ricas de poesia e sentimento.
Cecilia o ouvia sorrindo, e bebia uma a uma as suas palavras como se fossem as particulas do ar que respirava; parecia-lhe que a alma de seu amigo, essa alma nobre e bella, se desprendia do seu corpo em cada uma das phrases solemnes, e vinha embeber-se no seu coração, que se abria para recebê-la.
A agua subindo molhou as pontas das largas folhas da palmeira, e uma gota, resvalando pelo leque, foi embeber-se na alva cambraia das roupas de Cecilia.
A menina, por um movimento instinctivo de terror, conchegou-se ao seu amigo; e nesse momento supremo, em que a inundação abria fauce enorme para traga-los, murmurou docemente:
—Meu Deus!... Pery!...
Então passou-se sobre esse vasto deserto d'agua e céo uma scena estupenda, heroica, sobrehumana; um espectaculo grandioso, uma sublime loucura.
Pery hallucinado suspendeu-se aos cipós que se entrelaçavão pelos ramos das arvores já cobertas d'agua, e com esforço desesperado cingindo o tronco da palmeira nos seus braços hirtos, abalou-o até ás raizes.
Tres vezes os seus musculos de aço, estorcendo-se, inclinárão a haste robusta; e tres vezes o seu corpo vergou, cedendo á retracção violenta da arvore, que voltava ao lugar que a natureza lhe havia marcado.
Luta terrivel, espantosa, louca, esvairada, luta da vida contra a materia; luta do homem contra a terra; luta da força contra a immobilidade.
Houve um momento de repouso em que o homem, concentrando todo o seu poder, estorceu-se de novo contra a arvore; o impeto foi terrivel; e pareceu que o corpo ia despedaçar-se nessa distensão horrivel.
Ambos, arvore e homem, embalançáráo-se no seio das aguas: a haste oscillou; as raizes desprendêrão-se da terra já minada profundamente pela torrente.
A cupola da palmeira, embalançando-se graciosamente, resvalou pela flôr d'agua como um ninho de garças ou alguma ilha fluctuante, formada pelas vegetações aquaticas.
Pery estava de novo sentado junto de sua senhora quasi inanimada; e, tomando-a nos braços, disse-lhe com um accento de ventura suprema:
—Tu viverás!
Cecilia abrio os olhos, e vendo seu amigo junto della, ouvindo ainda suas palavras, sentio o enlevo que deve ser o gozo da vida eterna.
—Sim?... murmurou ella; viveremos!... lá no céo, no seio de Deos, junto daquelles que amamos!...
O anjo espanejava-se para remontarão berço.
—Sobre aquelle azul que tu vês, continuou ella, Deos mora no seu throno, rodeado dos que o adorão. Nós iremos lá, Pery! Tu viverás com tua irmã, sempre!..
Ella embebeu os olhos nos olhos do seu amigo, e languida reclinou a loura fronte.
O halito ardente de Pery bafejou-lhe a face.
Fez-se no semblante da virgem um ninho de castos rubores e limpidos sorrisos: os labios abrirão como as azas purpureas de um beijo soltando o vôo.
A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia...
E sumio-se no horizonte.