XXXVI

O estado do doente no dia seguinte não era mais animador. O abatimento, em que tão de subito cahira, mostrava geitos de prolongar-se e por ventura de terminar por uma solução funesta.

O padre mandou á pressa aviso a Jorge para que viesse aos Bacellos.

A carta de frei Januario chegou ás mãos de Jorge juntamente com outras de mais felizes novas. Umas eram do Porto, noticiando-lhe a decisão favoravel da importante demanda que elle sustentava, outras da baroneza e de Mauricio, participando-lhe o seu casamento e promettendo uma proxima visita á aldeia. Todas estas noticias de tão diversa indole impressionaram extraordinariamente Jorge.

Por esse lado illuminava-se-lhe o horizonte do caminho, que seguia com a constancia e a tenacidade de um animo varonil; por outro assombrava-o o estado perigoso de seu velho pae, a quem elle desejaria dar ainda a consolação de vêr como que erguida das ruinas a casa de seus antepassados.

As novas, quasi funebres, que lhe vinham dos Bacellos, enlutavam-lhe as alegrias nupciaes das cartas do irmão e de Gabriella.

Debaixo da influencia d'estas impressões oppostas, Jorge, depois de escrever um pequeno bilhete a Thomé, em resposta a outro que d'elle recebeu, communicando-lhe também o resultado da demanda, montou a cavallo e partiu a toda a pressa para os Bacellos.

O procurador recebeu-o com ar consternado, e abanando sinistramente a cabeça, conduziu-o ao quarto de D. Luiz.

Jorge sentia comprimir-se-lhe dolorosamente o coração ao aproximar-se do leito do pae.

—Elle já nem falla—dissera-lhe a meia voz o padre, que de facto ainda não conseguira obter uma só palavra do fidalgo.

Jorge afastou quasi tremendo as cortinas do leito.

D. Luiz, que jazia com os olhos fechados e n'aquella immobilidade quasi morbida em que desde a partida de Bertha cahira, não deu signal de ter percebido a chegada do filho.

Jorge, assustado com aquella impassibilidade, pegou-lhe na mão que tinha estendida por fóra da roupa, como para procurar n'ella o calor da vida.

Ao contacto da mão do filho, o fidalgo estremeceu e abriu os olhos; vendo Jorge, passou-lhe nos labios um desvanecido sorriso de affecto.

—Ah! és tu, Jorge?—disse elle com a voz ainda fraca—não te tinha visto entrar.

Frei Januario ficou estupefacto, ouvindo fallar o doente, que elle já suppunha em estado de não poder fazêl-o.

—Acha-se melhor?—perguntou Jorge, vergando-se sobre o leito.

O velho só respondeu encolhendo os hombros como exprimindo indifferença pela sua sorte, e depois fitando outra vez os olhos no filho, interrogou-o por sua vez:

—E tu?

Jorge estranhou esta solicitude no pae, tão fóra dos seus habitos, e sentiu-se commovido.

—Eu?… eu estou bom.

—Estás pallido e doente—proseguiu o pae, fitando-o.

E sem desviar os olhos, recahiu no silencio, que manteve por alguns segundos.

Depois, procurando a mão do filho e apertando-a na sua, murmurou com uma commoção a que só ultimamente era sujeito.

—És um homem, Jorge! És digno do nome que tens e da familia que representas.

Estas palavras surprenderam extraordinariamente Jorge e não menos frei
Januario, que as attribuiu ao delirio produzido pela doença.

D. Luiz acrescentou no mesmo tom:

—Saber sacrificar tudo a um dever é a principal e a mais difficil sciencia que nós temos a aprender na vida, e tu… mostras que estás bem senhor d'ella.

Julgando perceber o sentido d'estas palavras, Jorge fitou no pae um olhar perscrutador.

Elle porém fechou novamente os olhos e por muito tempo permaneceu como cahido em um somno profundo.

O filho e o padre conservaram-se ao lado do leito.

—Como vão os negocios de nossa casa?—perguntou d'ahi a pouco elle sem abrir os olhos.

Jorge communicou-lhe a boa nova que recebêra de se haver vencido a mais antiga e a mais importante demanda que sustentavam.

Na pallidez das faces do doente passou um instantaneo rubor. Os labios agitaram-se-lhe, e baixo, muito baixo, que mal o pôde ouvir o filho, murmurou:

—Será chegado o termo d'esta longa provação?!

Depois recahiu no torpor em que passára a noite e não disse mais palavra alguma.

Jorge, vendo-o a dormir, correu-lhe as cortinas do leito, diminuiu a claridade do aposento, e entregando-o á vigilancia do padre, retirou-se ao escriptorio para trabalhar nos negocios da casa.

Todo esse dia e a noite que se lhe seguiu passaram sem novidade.

Pela madrugada do dia immediato despertou a gente nos Bacellos á chegada de um numeroso cortejo de criados e portadores de bagagens, acompanhando a baroneza e Mauricio, noivos de pouco, e que vinham cumprir a promessa da sua visita.

Jorge correu a recebêl-os e cingiu nos braços commovido o irmão e a cunhada.

Passados os primeiros momentos absorvidos pelos transportes de alegria, a baroneza e Mauricio, reparando mais attentamente para o ar abatido e a pallidez de Jorge, fizeram-lh'o notar com apprehensão.

—Pelo que vejo, as tuas imprudencias continuam, Jorge?—disse a baroneza.—Ajuizado como és, não vês que pelo caminho que segues não podes realisar os teus grandes projectos?

Jorge sorriu, encolhendo os hombros.

—Que quer que lhe faça, Gabriella? A vontade do homem não rege os processos intimos da sua vida organica. Não está na minha mão modificar o andamento dos meus actos nutritivos.

—Mas podes desviar muito bem as causas que os perturbam. O excesso de trabalho…

—Não é isso, Gabriella—acudiu Mauricio—eu sempre conheci em Jorge o habito de estudar e de trabalhar sem estes effeitos. O que o mata é a louca presumpção de ser superior ás paixões, e a tentativa que faz para sacrifical-as a não sei que imaginarios deveres.

Jorge sorriu.

—Já vejo que se estabeleceu entre os noivos o communismo de segredos.
Esse soubeste-o só depois de casares.

—Suspeitei-o muito antes, bem o sabes.

—Isso é verdade, suspeitaste-o muito antes de eu proprio me convencer d'elle.

—Mas—tornou a baroneza—é preciso sahir d'isto. O Jorge suppõe-se mais forte do que é.

—Creia, Gabriella, o melhor é deixar ao tempo o cuidado de resolver as crises. Hoje o que me preoccupa é a solução dos meus negocios, que felizmente vão tomando uma face animadora.

—É verdade, disseram-me em Lisboa que se decidiu em bem a demanda que tanto te preoccupava. O que tu não sabes é que ao valimento de Mauricio com um dos desembargadores, em cujas mãos parava o processo, se deve essa prompta solução.

—Devéras?

—Não ouso crêl-o—disse Maurício—ainda que é verdade ter-lhe fallado e haver recebido d'elle a promessa de aviar depressa o processo.

—Hoje quasi posso assegurar-lhe que é certa a nossa regeneração—tornou Jorge.—Esta primeira victoria prepara-me o terreno para outras e solta-me os movimentos que tinha peiados. E os teus projectos, Mauricio?

—Vão em bom caminho. Tenho quasi certo um logar na embaixada de Londres ou de Berlim.

—Eu ainda não desespero de envelhecer embaixatriz—disse a baroneza, sorrindo, e acrescentou:—Mas que é de Bertha? Já cá não está?

—Retirou-se ha dias. Desde então recrudesceu a doença do pae.

—E para que se retirou?

—O Thomé veio buscal-a.

—Com que fim?

—Não sei… Ainda que… por algumas coisas que ouvi… quer-me parecer que fizeram conceber a Thomé certos receios. Emfim eu proprio não quiz profundar os motivos da retirada por temer que não me fosse agradavel ouvil-os.

—E querem vêr que o tio Luiz também soube? É impossivel que tudo isto não lhe tenha feito muito mal! Eu nunca vi! Esta gente toda entregue a si parece que porfia em complicar a situação. Mauricio, vamos vêr teu pae. Eeus queira que ainda seja possivel remediar o mal feito. Vens, Jorge?

Passados momentos entravam todos tres no quarto de D. Luiz, onde penetrava apenas a discreta claridade coada pelas cortinas corridas e pelas janellas meio abertas.

Frei Januario, que dormitava ao lado do leito, com o lenço vermelho em uma mão e o breviario na outra, ergueu-se ao ver a baroneza, e depois de comprimental-a dispunha-se a avisar o fidalgo.

Gabriella susteve-o, e avisinhando-se do leito, correu ella propria os pannos do cortinado e contemplou o rosto do ancião, que dormia profundamente.

Mauricio e Jorge acercaram-se tambem.

A nobre physionomia de D. Luiz, abatida pelo soffrimento physico e moral, e sobre a qual o somno parecia derramar uma serenidade, como de resignação, impressionou-os a todos.

A baroneza ajoelhou ao lado do velho, e pegando-lhe na mão beijou-a com affecto e respeito. Mauricio ajoelhou tambem ao lado de sua esposa.

D. Luiz acordou um tanto sobresaltado. Deu primeiro com a vista em Jorge e depois, desviando-a, reconheceu a sobrinha e o filho mais novo, e raiou-lhe no semblante, ao vêl-os, um clarão de alegria.

—Ó meus filhos!—exclamou elle, solevantando-se no leito e apoiando-se no braço tremulo.

Depois, passando a mão por sobre a cabeça dos noivos, acrescentou:

—Deus vos abençoe, como eu vos abençôo.

E deixou-se cahir extenuado sobre o travesseiro.

Gabriella levantou-se para amparal-o.

—Ai, Gabriella—disse elle, suspirando—finalmente parece que chegou a hora da liberdade.

—Diga que chegou a hora da resurreição. Verá como de hoje em diante tudo vae ser ventura n'esta casa. Ha de trazer-lh'a Jorge e Mauricio e eu, até eu e… e mais alguem. Quem sabe?

D. Luiz voltou os olhos para o filho mais novo.

—Mauricio—disse com a voz cançada e interrompida—és ainda muito rapaz e vaes viver em um mundo perigoso, não desprezes a conselheira que Deus collocou a teu lado.

—Como hei de desprezal-a, se a adoro?—disse Mauricio com o galanteio de um noivo ainda namorado.

A baroneza correspondeu-lhe com um sorriso, e observou:

—Nem receio o desprezo, nem creio na adoração. Deixemos as coisas nos termos ajustados. Estimemo-nos e seremos felizes.

—Nem todos podem ter a frieza do teu animo, filha—disse Mauricio a meia voz.

—Não é tempo agora de discutirmos isso. Sabes? O pae não póde por emquanto ouvir longas conversas. Acordou ha pouco e precisa de poupar a attenção. Se tu fosses com Jorge dar ordem a essas coisas que os criados trouxeram… Eu ficaria no entretanto aqui.

Jorge e Mauricio perceberam que a baroneza tinha desejos de que a deixassem só com D. Luiz, e sahiram por isso da sala.

Frei Januario, meio adormecido, não deu pela sahida dos rapazes e permaneceu entre o leito e a parede, encoberto pelo cortinado e desapercebido de Gabriella.

Esta sentou-se á cabeceira do leito e com feminil carinho começou a ageitar a travesseira do doente e a desviar-lhe da fronte as cãs desordenadas.

—Eu não esperava vir encontral-o sem enfermeira—dizia Gabriella o mais naturalmente possivel.

D. Luiz suspirou.

Ella insistiu:

—É uma coisa tão necessária! Porque ha certo cuidado que só uma mulher póde ter. É a nossa especialidade.

D. Luiz abanou a cabeça.

—Tem razão, Gabriella. É uma desconsoladora solidão a de um doente sem esses cuidados de que falla.

—Mas… porque se retirou Bertha?

D. Luiz não respondeu logo a esta pergunta, que parecia contrarial-o, porque lhe chamou á fronte uma contracção de desgosto.

—Ai, raparigas!—tornou a baroneza—ferve-lhes o sangue a final.

—Não diga isso, Gabriella, que é injusta. Bertha é um anjo de abnegação.

—Mas para que havia o anjo de abandonar o seu posto?

—Vieram buscal-a.

—Quem?

—O pae.

—Pois o Thomé da Povoa seria capaz de leval-a d'aqui contra vontade d'ella e do padrinho?

—O Thomé teve razão para o fazer. Eu mesmo lhe disse que devia leval-a.

—Ah! então não entendo.

—Ha sacrificios tão dolorosos, que não é justo exigil-os, nem permittil-os.

—E o que Bertha fazia, ficando aqui a seu lado, era d'essa natureza?

—Talvez fosse.

—Não posso conceber de que maneira.

D. Luiz cançado do esforço que fazia para fallar ou hesitando no que dissesse, não respondeu logo.

Depois murmurou:

—Aquella pobre rapariga tem uma alma nobre e heroica. Não seria ella que se trahiria por um signal de dôr, ainda quando sentisse despedaçar-se-lhe o coração.

—E corria esses riscos aqui?—perguntou a baroneza com affectada candura.

—Gabriella—continuou D. Luiz—Bertha sahiu victoriosa de uma grande lucta. O coração, porém, ainda lhe devia sangrar, e não era aqui que se lhe consolidariam as cicatrizes.

—São tão vagos esses dizeres! Ora vamos; diga-me o que houve; falle-me claro.

—Que havia de ser? Bertha é um anjo, mas sob a encarnação de mulher, tem um coração… e esse, sujeito a apaixonar-se como os outros.

Gabriella fez um gesto de quem tivera uma ideia subita.

—Ah! Já sei! Percebo agora! Era a isso que alludia? Cuidei que seria outra coisa mais grave.

D. Luiz fixou na sobrinha um olhar admirado.

—A Gabriella por certo não sabe ao que me refiro.

—Sei, sei, pois não sei! Havia muito que eu tinha descoberto esse segredo de Bertha, de Bertha e de Jorge.

—E deu-lhe tão pouca importancia?

—Apenas a que merece. Mas devéras, foi esse o motivo da retirada de
Bertha? Parece-me impossivel!

—Já não pouco imprudente havia sido a demora d'ella n'esta casa. Elles ambos são fortes, mas não devem abusar das suas forças com risco de aggravar o mal e leval-o a extremos irremediaveis.

—O mal… extremos irremediaveis… Que linguagem tão carregada para uma coisa tão simples! Pois diga-me, considera um grande mal o facto de elles gostarem um do outro?

D. Luiz encarou Gabriella devéras admirado da pergunta.

—Está a zombar, Gabriella?

—Não estou. Fallo-lhe com toda a minha seriedade. Sabe quando eu receio mal da inclinação reciproca de duas pessoas? É quando nos caracteres d'ellas ha taes contradicções que o futuro promette ser uma continuada lucta. Agora todas as mais desigualdades, desigualdades de riqueza, de posição social e de jerarchia, são facilmente niveladas por um amor verdadeiro e serio. E esta é de certo a indole do amor d'elles.

—Visto isso, achava a Gabriella muito natural que meu filho casasse com a filha de Thomé da Povoa?

A pergunta era feita com certa acrimonia, que não passou desapercebida da baroneza. Ella porém estava resolvida a atacar de frente os preconceitos do tio e não titubeou ao responder-lhe:

—Se quer que lhe diga, achava até muito conveniente.

D. Luiz moveu com certa impaciencia a cabeça.

Gabriella insistiu:

—Queria antes que eu votasse pela continuação d'este estado de coisas, que o ha de matar, que infallivelmente o mata, porque—diga o tio o que disser—a companhia de Bertha é-lhe já tão necessaria como lhe foi a de Beatriz? Queria antes que eu votasse por esta ordem de coisas, que traz definhado seu filho e que irremediavelmente o sacrificará e com elle as esperanças de regeneração d'esta casa e d'esta familia? Desengane-se, meu tio, o futuro de sua familia está indissoluvelmente ligado a Bertha.

—Póde ser.

—Está, digo-lh'o eu, que bem conheço Jorge. Elle renunciou espontaneamente ao mais violento desejo do seu coração, julgando que seria empreza ao alcance das suas forças. O resultado está-se vendo. De dia para dia cresce n'elle o abatimento e as consequencias não é difficil prevêl-as. E diga-me se vale a pena sacrificar vidas tão preciosas e tão nobres e brilhantes projectos a um capricho aristocratico?

—Capricho?!

—Capricho, sim. Se invocar toda a sua philosophia, o tio Luiz ha de reconhecer que não merece outro nome esse escrupulo.

—Não será dever?

—Em que codigo lhe é imposto?

—No da nobreza.

—O dever de quem é nobre de origem é conservar-se pelas suas acções digno d'ella. Ora hoje, meu tio, que o mundo está quasi todo descoberto e em que já passaram de moda as conquistas dos mouros e as guerras com os castelhanos, que melhor póde cumprir-se esse dever do que o faz Jorge, luctando nobremente para resgatar a sua casa e dando um grande e salutar exemplo, que oxalá que fosse seguido? Elle sim, é quem continua as gloriosas tradições dos seus avós, e olhe que não será menos util á pátria do que elles foram. Mas ha um estimulo necessario para manter n'elle aquella actividade. Elle proprio illude-se, julgando que póde prescindir d'esse estimulo. Não póde. Esse esforço ha de sacrifical-o. Agora veja o tio, em respeito a quem é sómente feito o sacrificio, se não sentirá remorsos um dia por havêl-o consentido.

D. Luiz parecia pouco satisfeito com a discussão, que o collocava entre duas forças que igualmente o opprimiam.

—A minha vida é de sacrificios; é destino. Devo estar preparado para aceital-os com resignação.

—Resignação nada christã; porque Deus não quer que nos resignemos com os males que podemos evitar, e muito menos quando é uma paixão ruim que os prepara.

—Uma paixão ruim!—exclamou o fidalgo mais exaltado—até que ponto a traz cega a corrente das ideias modernas, que já chama paixão ruim ao respeito que devemos ao esplendor das nossas casas?

—E que perderia esse esplendor com a alliança de Bertha? Não é ella uma rapariga de sentimentos nobres, cheia de virtudes e de excellentes qualidades? N'essas familias que manteem o esplendor que diz, conta muitas noivas mais dignas de seus filhos? E depois, meu tio, deixe-me dizer-lhe: nós precisamos de misturar sangue novo ao nosso, senão morremos asphyxiados n'estes ares modernos. É verdade isto, as famílias que escrupulisam em não caldearem o sangue antigo que trazem nas veias, dão de si uns descendentes quasi sempre parvos e pêcos, por isso mesmo que sahem organisados para viverem ern uma sociedade talhada por moldes que já se não usam, e não sabem viver na actual.

D. Luiz não podia ainda habituar-se a ouvir taes doutrinas irreverentemente expostas por uma das representantes d'essas vetustas familias.

Era provavel que as phrases incisivas da baroneza lhe provocassem uma resposta apaixonada, se uma inesperada occorrencia o não viesse distrahir.

Frei Januario, que ficára, como dissemos, occulto pelo cortinado do leito e desapercebido tanto da baroneza como de D. Luiz, ouvira com surpreza crescente o dialogo que temos descripto. Para elle eram ainda novidade os amores de Jorge e Bertha, porque D. Luiz já não fazia do padre o confidente dos seus segredos.

Admirado com a descoberta, mais admirado ficou ainda ao ouvir os commentarios de Gabriella a tal respeito, e as ideias revolucionarias e subversivas que sustentára contra o fidalgo.

Frei Januario, mais respeitador dos foros da fidalguia do que o mais esmerilhado aristocrata, sentiu-se provocado a protestar contra aquellas doutrinas e a vir em auxilio do fidalgo com inesperado soccorro, que por certo o faria de novo entrar nas suas boas graças.

Portanto, n'estas alturas da discussão, levantou-se do canto em que estivera occulto, e acabando de sorver os restos de uma pitada, que conservára entre os dedos, afastou a cortina e surgindo do outro lado do leito, defronte da baroneza, disse escandalizado:

—Perdoe-me v. exc.ª, snr.ª D. Gabrielia, mas eu não posso deixar de manifestar o meu espanto pelo que acabo de ouvir.

—Ah! Pois estava ahi, snr. frei Januario? Confesso que nem de tal me lembrava—disse Gabriella sorrindo.

D. Luiz franziu o sobrolho, como quem não agradecia ao padre a intervenção.

—Aqui tenho estado de noite e de dia, minha senhora—respondeu o padre em tom de censura—e fiquei, porque ninguem me mandou sahir. Além de que eu já estou costumado a ouvir e a guardar os segredos d'esta familia.

—Quem lhe diz menos disso, snr. frei Januario? Eu apenas observei que me não lembrava da sua presença ahi. Mas pelo que vejo as minhas ideias não merecem a sua approvação.

—De certo que não—tornou o padre.—O snr. D. Luiz tem razão. A nobreza è a nobreza; e mal de nós se ella se esquecia dos seus deveres e assim se misturava ás classes infimas.

—Então que mal succedia com isso ao snr. frei Januario?—perguntou a baroneza, rindo.

—A mim?

—Então não disse: «mal de nós?»

—Sim, mal de nós todos, porque a sociedade precisa d'estas distincções; senão, não ha ordem, não ha governo, tudo é anarchia e republica.

—Leu isso no evangelho?

—É o que a experiencia me tem mostrado.

—Ah! a experiencia! Muitos obsequios deve á experiencia o snr. frei
Januario!

—Porém devéras, minha senhora, v. exc.ª podia aconselhar seriamente ao snr. D. Luiz o casamento do snr. Jorge, do morgado, morgado não, que até já com isso acabaram para acabarem com todas as familias illustres, mas emfim do representante, o filho mais velho de s. exc.ª … o casamento d'elle com quem? Com a filha do Thomé da Povoa! Um homem, senhores, que eu conheci criado d'esta casa! v. exc.ª não fallava a serio ha pouco. É impossivel.

—Olhe que fallava, snr. frei Januario, fallava, fallava.

—Ó minha senhora, por quem é! Lembre-se v. exc.ª da familia a que pertence, do nome que tem e verá que se ha de envergonhar da lembrança. Bertha da Povoa! Bertha da Povoa! a filha do Thomé! Era o que me faltava vêr n'este mundo! Bertha, que o pae enfeitou com vestidos de senhora, mas que a final sempre ha de mostrar a origem d'onde sahiu! Eu sempre ouvi dizer que o que o berço dá a tumba leva, e que o pé de tamanca foge sempre para a tamanca. Havia de ter graça ouvir o snr. D. Luiz chamar filha á rapariga! e ella feita senhora na Casa Mourisca! Ora essa! Em tal não podia consentir o snr. D. Luiz ainda mesmo que quizesse. Bem vê v. exc.ª que uma pessoa da nobreza do snr. D. Luiz não tem só a consultar a sua vontade. Lá está a mais familia. Que diriam os snrs. Mellos de Ribeira-formosa? os snrs. Cunhas do Choupello? os snrs. Sotto-maiores da Fonte das Urzes, os snrs. do Cruzeiro, e toda a nobreza por essa provincia adiante? Com que olhos veriam esse casamento monstruoso as damas de todas essas familias, e em uma palavra a fidalguia do reino! V. exc.ª de certo não pensou nisto. Demais…

O padre não pôde proseguir na sua animada refutação.

Interrompeu-o D. Luiz.

Dera-se com o fidalgo um phenomeno não calculado pela experiencia do padre, ainda que natural ao espirito humano.

Sentindo-se apoiado na defeza das suas ideias por um alliado antipathico—porque o era para o fidalgo desde certo tempo, o seu ex-procurador—teve logo um desejo vehemente de recusar o auxilio e quasi o de esposar a causa opposta só para o castigar da impertinencia.

Além d'isso frei Januario levou a defeza mais longe do que devia. A maneira por que fallou de Bertha e da dependencia em que estava o fidalgo da opinião da sua parentela, irritaram o orgulhoso D. Luiz, que por isso tudo com extrema vivacidade o interrompeu dizendo:

—Cale-se, frei Januario, cale-se! Que está para ahi a dizer? Cuida que eu, querendo fazer a minha vontade, me dou ao trabalho de consultar os de Ribeira-formosa, os do Choupello ou os do Cruzeiro, ou de qualquer d'essa parentela que tenho por essa provincia adiante? Era o que me faltava! Do que convem ou não convem á dignidade do meu nome, sou eu o juiz, e não admitto ingerencias alheias. Actos que deslustram e envergonham tem-n'os elles feito que farte, e eu nunca lhes fui pedir satisfações por isso.

—Eu queria dizer…—acudiu o padre, intimidado pela irritação em que via o fidalgo.

Este interrompeu-o outra vez:

—Ora não diga nada, que é melhor. Com que olhos veriam as damas este casamento! É boa! Com os mesmos olhos com que tem visto muita miseria e muita vergonha que vae por casa dos seus. Os olhos deviam ellas empregal-os em Bertha, mas era para aprender d'ella o que é dignidade, nobreza de sentimentos e verdadeira educação. Como está ahi a dizer o frei Januario que Bertha ha de mostrar a final a origem d'onde vem? Bertha ha de mostrar que é filha de um homem honrado e de uma mulher virtuosa. Se é isso que quer dizer, tem razão. E oxalá que todas as nossas damas podessem dizer o mesmo de si. Fique sabendo que não seria ella que occupasse mal o seu logar na Casa Mourisca. Fique sabendo isto. O quarto de minha filha a poucas o franquearia eu com melhor vontade do que a ella, que parece resuscitar-m'a. Para ser nobre não basta ser do Cruzeiro ou de Ribeira-formosa. O Cruzeiro é um ninho de bebedos e a Ribeira-formosa uma gaiola de parvos. A ter de escolher entre essa gente sem dignidade e aquella que de origem obscura lhe dá todos os dias lições de deveres, de certo que não hesitaria, nem iria entre a primeira procurar noiva para meu filho. Como se formaram as familias nobres? São todas da mesma época? É claro que não. Houve tempo em que umas já eram nobres e outras não o eram; mas por um feito illustre e verdadeiramente nobre um homem obscuro d'estas ultimas mereceu que as primeiras o chamassem a seu gremio, partilhando com elle o dom que já possuiam. Pois bem, tambem nós hoje podemos fazer o mesmo que n'esses antigos tempos se fazia, e chamar a nós os espiritos fidalgos, que os ha fóra do nosso gremio; e assim podessemos também expulsar d'elle os espiritos plebeus que por cá temos!

D. Luiz, levado pela força da reacção, ia mais longe do que quizera. Por pouco estava advogando ideias manifestamente democraticas. O padre estava estupefacto, como se assistisse a um cataclismo. A propria Gabriella não esperava ouvir expender taes ideias a seu tio. Ainda que percebesse que a irritação que dominava o doente fosse a principal causa inspiradora n'aquella defeza acalorada, ainda assim lhe dava importancia. As ultimas palavras de D. Luiz, e especie de raciocinio com que pretendêra justificar a possibilidade de allianças desiguaes, realisadas certas circumstandas, davam-lhe a entender que elle já comsigo proprio previra a eventualidade e procurára argumentos que por ventura a justificassem.

Gabriella viu n'esta descoberta um optimo indicio e percebeu a conveniencia de deixar o espirito do tio sob aquella ordem de impressões e entregue ao movimento proprio que a intervenção do padre iniciára.

Por isso, sob o pretexto de que a discussão fatigára em extremo o doente e que os excessos lhe podiam ser funestos, cortou no principio a réplica do padre e obrigou-o a retirar-se da sala para deixar dormir o doente.

Ao sahir dizia ella, tomando o braço do capellão:

—Depois de se lançar o crescente na massa, cobre-se esta e deixa-se em repouso levedar. Quando era criança via fazer isto em minha casa, sempre que se cozia o pão.

O padre não entendeu o alcance da parabola. Sahiu d'alli desnorteado com o que via n'aquella casa, que elle suppunha eivada do veneno da maçonaria, unica maneira por que explicava as irregularidades que via.

Gabriella sahiu no intento de encaminhar a crise em um sentido favoravel.