XXXVII
Mauricio veio ao encontro da baroneza assim que esta sahiu do quarto de
D. Luiz.
—Como deixaste meu pae?—perguntou elle.
—Mal e bem.
—Que queres dizer com isso?
—Mal, porque me inquieta o abatimento em que o vejo. N'aquella idade!… Bem, porque o acho em excellentes disposições de se lhe applicar um remedio heroico.
—Qual?
—Queres principiar hoje a tua carreira diplomatica?
—De que maneira?
—Vaes já d'aqui a casa do Thomé da Povoa.
—Sim, e depois?
—É uma visita que lhe deves, visto que não te lembraste de lhe dar parte do nosso casamento.
—É verdade que não.
—Vae pois visitar Thòmé. Repara que nem sequer me lembro de ter ciumes de Bertha.
—É uma prova de confiança, que te mereço.
—Sim? Mereces? Diz-te isso a consciencia? Bom será. Vamos adiante. Em casa de Thomé contas qual o estado de teu pae. Fazes sentir a necessidade de que Bertha volte para aqui, ou para o reanimar, do que só ella é capaz n'este mundo, ou pelo menos para suavizar-lhe os ultimos momentos e despedir-se d'elle. É provavel que encontres objecções em Thomé, mas insiste; dize que teu pae se mostra magoado com a ausencia de Bertha, e que é um peccado imperdoavel prolongar-lhe essa dôr tão facil de remediar. Finalmente não voltes sem ter resolvido Bertha a vir hoje mesmo para aqui.
—E quaes são os teus projectos?
—Ora quaes hão de ser? São casar Bertha com Jorge. Está claro.
—Has de encontrar dificuldades.
—Já me pareceram maiores. O padre fez nos, sem querer, um grande serviço. Metteu-se a advogar com tanto calor a aristocracia, que por pouco fazia de teu pae um democrata.
—Devéras?
—É verdade. Agora quatro caricias de Bertha devem consummar a victoria.
Vossês os homens levam-se por isso.
—Parece-te?
—Veremos se me engano.
Mauricio encarregou-se da mensagem que lhe incumbia a mulher e partiu para casa de Thomé, onde foi recebido com caloroso affecto.
Expondo o principal fim da sua visita, não encontrou grande opposição em Thomé contra o regresso da filha para os Bacellos. Elle proprio prometteu leval-a.
Efectivamente horas depois, Bertha era de novo conduzida pela baroneza para junto da cabeceira do enfermo, que em todo aquelle tempo continuára a manifestar signaes da mais profunda depressão de forças.
D. Luiz dormitava quando Bertha se lhe aproximou do leito. A rapariga correu cautelosamente o cortinado para contemplar a figura do ancião. Commoveu-a o aspecto de abatimento que crescêra n'elle desde que Bertha o deixára. D. Luiz tinha o somno agitado por sonhos febricitantes, e sonhando, soltava gemidos surdos, palavras mal articuladas, estremecia e suava como sob a influencia de uma afflictiva impressão.
Bertha veio encontral-o em um d'estes estados e curvou-se compadecida para enxugar o suor que lhe orvalhava a fronte.
O doente acordou então e fitou os olhos n'ella.
Immediatamente lhe distendeu as feições contrahidas um sorriso de alegria.
Por algum tempo não fallou, como se estivesse duvidando da realidade do que via e suspeitando-a de ser a continuação de um sonho.
Foi Bertha a primeira que fallou.
—Está melhor?—interrogou ella, sorrindo.
O tom d'aquella voz e a particular inflexão da pergunta, com que já estavam familiarisados os ouvidos do doente, parece que o convenceram de que não dormia.
Estendendo para a afilhada a mão magra e ardente, murmurou profundamente commovido:
—Então sempre voltaste?
—Como me disseram que tinha passado mais inquieto estes ultimos dias…
—Fizeste bem. Havia de custar-me a morrer sem me despedir de ti.
—Quem falla aqui em morrer? Agora que o inverno passou e que este tempo está a dar vida a tudo é que o padrinho se lembra d'isso? Pois veremos. Dentro de poucos dias é preciso continuarmos aquelles nossos passeios na quinta.
D. Luiz sorriu tristemente e fechou os olhos como para reter uma lagrima, que, apesar d'isso, lhe passou por entre as palpebras e lhe rolou vagarosa pelas faces descarnadas.
Bertha murmurou ao ouvido do velho:
—Chore á vontade, que estou eu só aqui. Chore, que lhe faz bem.
Como se a densa tristeza que pesava sobre o coração d'aquelle homem só esperasse aquellas palavras para se fundir em lagrimas, o pranto inundou-lhe o rosto, que elle quasi escondeu no seio de Bertha.
Aquella expansão foi-lhe salutar. O somno seguinte foi mais tranquillo e menos cortado por sonhos fatigadores. Comtudo o estado do doente era ainda muito grave, e na aldeia e immediações corria já voz do proximo fallecimento do fidalgo da Casa Mourisca.
A parentela das visinhanças a cada momento vinha ou mandava aos Bacellos saber novas do fidalgo. Thomé da Povoa passava alli a maior parte do seu tempo; a propria Anna do Védor viera offerecer os seus serviços á familia, e raras vezes se desviava da casa.
Bertha continuava assiduamente junto do leito do enfermo, sem perder a esperança de o vêr sahir victorioso d'aquella tremenda crise.
Ninguem a desviava d'alli. Retinha-a a vontade propria assim como a do doente, a quem a menor contrariedade podia ser fatal.
A baroneza não só não insistia para que Bertha cedesse a outrem o campo, mas nem deixava que alguem insistisse. Dizia ella que a juventude de Bertha podia bem com aquelle sacrificio, e que era provavel que Deus não deixasse sem recompensa a caridade.
Durante tres dias a familia reunida nos Bacellos passava o tempo, por assim dizer, na espectativa do triste acontecimento que se preparava.
Jorge interrompeu os seus trabalhos, Mauricio nunca sahia de casa, e a baroneza passeiava constantemente entre a sala, onde quasi sempre permaneciam os dois irmãos, ás vezes na companhia de Thomé, e o quarto do enfermo, que mal consentia junto de si outra pessoa além de Bertha.
Uma noite, D. Luiz, depois d'aquelles tres dias de febre e quasi de delirio, conseguira adormecer de um somno mais tranquillo e reparador. Não foram os sonhos incoherentes, absurdos e fatigadores que o atormentaram d'esta vez; mas um sonhar grato, sem visões febris, e durante o qual a imagem da filha por vezes lhe appareceu sorrindo-lhe e fallando-lhe com o carinho de que elle ainda se recordava com a mais pungente saudade do seu coração. Esta imagem transformava-se-lhe ás vezes por insensivel transição na imagem de Bertha, e tão similhantes, tão confundidas lhe appareciam, que elle nem sabia ao acordar com qual das duas sonhára. Umas vezes era a filha que lhe fallava com a voz e sob a figura de Bertha; outras Bertha revestindo a imagem de Beatriz.
Despertou d'este somno por alta e calada noite. No aposento era completo o silencio. Interrompia-o sómente o bater cadenciado da pendula do corredor. A tenue claridade de uma pequena lampada alumiava a scena.
D. Luiz depois de acordado tentou avivar as gratas impressões que lhe deixára o sonho.
Pensou na filha e no passado; nas tristezas presentes, nas venturas perdidas e nas desgraças por vir.
Áquella hora da noite, na solidão e repouso da camara de um doente o espirito ergue-se superior á habitual esphera onde ordinariamente pára e contempla com a vista de aguia as suas paixões e preconceitos; vê-os fluctuar como nuvens nas regiões inferiores. É n'esses momentos que a consciencia nos julga; a parte mais etherea do nosso ser parece então erguer-se lucida como nunca e contemplar compadecida os maus instinctos, as prevenções arreigadas, os falsos preconceitos que no tracto commum da vida em tão viciosas direcções nos solicitam.
Emquanto o mundo dorme, dormem com elle no nosso coração as paixões que o mundo alimenta.
N'aquelle momento D. Luiz não era o mesmo homem moral que conhecemos.
Luzia-lhe a verdade resplandecente á sua imaginação fascinada.
No meio da corrente dos seus pensamentos distrahiu-o um quasi imperceptivel respirar que ouviu a seu lado. Voltou-se.
Era Bertha que, cedendo ás fadigas de tão continuadas vigilias, adormecêra junto do leito do doente.
D. Luiz ficou a contemplal-a assim.
A luz do velador dava-lhe no rosto, em que se desenhava a mais doce expressão da serenidade de espirito.
Pendia-lhe a cabeça sobre as travesseiras do leito e uma madeixa de cabello soltando-se-lhe, viera afagar-lhe a fronte, abrindo caminho por entre os dedos que a sustinham.
D. Luiz ergueu-se a pouco e pouco no leito para melhor observar aquella figura angelica de mulher, adormecida ao seu lado.
Traduziam as feições do velho o extasi, em que o arrebatára aquella contemplação. Parecia-lhe uma visão sobrenatural. Com movimentos cautelosos para não a acordar, encostou os braços ás almofadas da cama e apoiando a cabeça entre as mãos, assim permaneceu immovel, abstracto, com os olhos fitos em Bertha e o espirito subindo ás regiões mais limpas dos espessos nevoeiros do mundo.
Era um expressivo grupo o d'aquella rapariga adormecida e o d'aquelle velho pallido, descarnado, meio erguido no leito, contemplando-a em um quasi rapto de adoração. Áquella hora, no meio d'aquelle silencio, alumiado por aquella luz, a scena era mysteriosamente solemne e imponente.
Horas talvez durou aquella contemplação silenciosa.
De repente accentuou-se no rosto do fidalgo uma expressão de energia e firmeza que a doença e a preoccupação de espirito havia muito lhe tinham dissipado.
Curvando-se mais sobre o rosto de Bertha, desviou com extrema delicadeza a madeixa que lhe cahia sobre a fronte e murmurava como para si:
—Por que és tu que vélas a meu lado? Que laços te prendem a mim? Porque dedicas a este velho a tua juventude?… E não se recompensa esta abnegação? Pagam-te sacrificando-te aos seus… preconceitos.
E continuava a contemplal-a em silencio; depois voltava a murmurar:
—Beatriz, se fosse viva, chamar-te-ia irmã; havia de querer-te junto de si, no seu quarto. E eu… porque não hei de chamar-te filha?…
Não disse mais o velho, mas curvando-se ainda mais, poisou na fronte da rapariga um beijo expressivo de paternal affecto.
Pela madrugada o doente mostrou-se algum tanto inquieto a ponto de sobresaltar Bertha, que o espiava com solicitude.
Á interrogação que ella lhe dirigiu para saber a causa da agitação em que o via, D. Luiz não respondeu logo; porém, momentos depois, olhou para a afilhada com uma expressão singular, pegou-lhe nas mãos, apertou-as com affecto, e disse-lhe com manifesta commoção:
—Bertha, vae chamar Jorge. Que me venha fallar. Preciso de conversar com elle quanto antes.
Bertha sahiu do quarto com os olhos arrasados de agua.
Aquellas palavras tinham para ella uma dolorosa significação.
D. Luiz que mandava chamar o filho mais velho, o directo successor do seu nome e da sua casa, era por que um d'aquelles presentimentos, que nos advertem da proximidade da nossa hora final, indicava-lhe ter chegado a occasião de despedir-se do filho e de dar-lhe os derradeiros conselhos de pae.
Todos nos Bacellos formaram a mesma conjectura. Jorge ergueu-se precipitadamente do leito, assim que soube que o pae lhe queria fallar.
A nova espalhou-se em toda a casa e pôz todos em alvoroço. Em breve transpirou fóra que o fidalgo da Casa Mourisca já se despedira dos filhos, e que em poucas horas seria com Deus.
Á casa de Thomé e da Anna do Védor chegou a noticia e trouxe até os Bacellos esses antigos commensaes da familia, cujo representante actual chegava á hora mais solemne da vida. A boa Luiza acompanhou o marido no intento de oferecer os seus serviços n'aquelles momentos de dôr e confusão.
Jorge entrou commovido e pallido no quarto do pae, onde ninguem mais o seguiu.
O pobre rapaz ia preparado para uma scena dilacerante; esperava assistir á agonia do velho.
Tremiam-lhe as pernas ao aproximar-se do leito.
D. Luiz percebendo-o chegar, dirigiu-se-lhe com voz debil mas firme:
—És tu, Jorge?
—Sou eu, meu pae.
—Chega-te mais para aqui. Assim.
E fitando o filho com o olhar ainda cheio de expressão e vida, continuou depois de um demorado silencio:
—Jorge, tu não és feliz.
Jorge olhou para o pae, espantado pela inesperada observação que lhe ouvia.
—Tens uma nobre alma, tomaste sobre os hombros uma pesada tarefa, dedicaste ao cumprimento d'ella a tua vida inteira, e como se isso não fosse bastante, sacrificaste-lhe ainda os teus mais ardentes affectos. Jorge, não será o sacrificio superior ás tuas forças?
Jorge baixou a cabeça sem responder.
A estranheza causada pelas palavras do pae, tão differentes das que esperava, perturbara-o a ponto de não saber o que dissesse.
—Falla, Jorge—proseguiu o velho.—Vá, nunca viste em mim um confidente, porque o meu caracter serio e reservado afugentava as tuas expansões de criança; mas a doença quebrou-me e hoje posso escutar-te. Tu soffres, Jorge, e soffres por minha causa, não é verdade?
—Meu pae—dizia Jorge cada vez mais embaraçado.
—Eu sei tudo. Sei do amor que se te formou no coração e que disputou o teu pensamento aos projectos de rehabilitação que emprehendeste para salvar esta casa da ruina que os nossos e eu lhe preparamos; sei da tenacidade com que combateste esse amor, da coragem com que o sacrificavas aos meus principios aristocraticos, apesar de vêres apenas n'elles meros preconceitos de classe.
—Creia, meu pae, que respeito as suas opiniões e que…
—Ouve-me. Orgulho-me com o teu caracter; vi n'elle a nobre tempera de um verdadeiro fidalgo e desde então creio devéras que a regeneração da nossa casa, emprehendida por um homem como tu, não póde deixar de realisar-se. Vou sem este pêso para a sepultura. Os meus erros ser-me-hão relevados por o facto de te ter por filho. Tu rehabilitarás a minha memoria. Jorge, o meu coração não tem já a dureza de outros tempos, males de toda a especie acabaram de vencêl-o; agora é um coração de homem. Por isso me é intoleravel a ideia do teu sacrificio. Se tu participasses dos meus… preconceitos, era justo que lhes sacrificasses todos os affectos; sentirias na satisfação interior a compensação do sacrificio. Mas sacrificares-te só por meu respeito, sem teres a mesma fé no objecto a que te sacrificas… n'isso não posso eu consentir. Reunirei as minhas forças para subjugar alguns restos de vaidade que se revoltem, e antes de morrer desviarei o unico obstaculo da tua felicidade, dizendo-te: «Podes ser feliz, Jorge.» Além de que, tu és nobre bastante para ennobreceres aquella que cingires ao coração e ficares nobre ainda.
Jorge percebeu o sentido das palavras do pae. Em extremo surprendido pela inesperada condescendencia do homem que elie julgava incapaz de transigir com taes ideias, era vez de deixar-se penetrar da alegria que este successo parecia dever inspirar-lhe, disse com mal sustentada serenidade:
—Por muito doloroso que seja para mim o sacrificio de que falla, meu pae, talvez seja mais ainda para si o que emprehende, querendo dispensar-me d'elle. Creia, senhor, que eu não discuto a legitimidade das suas opiniões, respeito-as; e a satisfação intima que me virá da consciencia de as ter respeitado, será tambem para mim uma poderosa compensação.
—E a ella? Quem a compensará?—perguntou D. Luiz, com inflexão de dor.
—A ella? É de Bertha que falla? Se eu não soubesse que aquella alma nobre e forte está á altura do sacrificio, talvez me fallecesse a coragem para tental-o.
—É uma nobre alma devéras—tornou D. Luiz, como fallando para si.—E quem a apreciará? A que destino a condemnaremos se a expulsarmos das regiões para onde os seus nobres instinctos a chamam? Pobre d'ella! E tu, tu que a amas, tens a certeza de poderes levar ao fim o sacrificio? Não é certo que a tua saude já se tem resentido do esforço que fazes? Vê bem, Jorge! Na tua idade os affectos são mais violentos do que na minha. E comtudo eu proprio quero já tanto a essa rapariga, que sinto que estes restos de vida que ainda possuo devo-os á sua presença. O que não será comtigo?
Jorge nunca previra a situação em que se achava. Havia imaginado a possibilidade de ser levado pela força da sua paixão a uma lucta aberta com os preconceitos paternos, e esforçara-se por evitar essa temerosa crise.
Esta era a menos provavel hypothese que antevira. Mas que fosse o pae quem advogasse a causa do seu coração de rapaz contra as inflexiveis exigencias da orgulhosa classe a que pertencia, nunca o podéra suppôr, pois que não tinha seguido passo a passo as transformações que haviam operado no caracter varonil d'aquelle velho a acção combinada da doença e dos carinhos de Bertha.
Por isso sentia-se agora irresoluto, sem saber se devia ceder ao coração e ás insinuações do pae, se resistir em nome do dever, que elle chegára a convencer-se oppôr-se á satisfação dos seus ardentes votos.
Na hesitação do filho, D. Luiz julgou perceber que o orgulho aristocratico penetrára já n'aquelle coração de vinte annos, e elle que sabia por si as resistencias que esse orgulho gerava, assustou-se com a apprehensão de ficar vencido pela obstinação do filho.
Assustou-se, dizemos, porque o espirito do fidalgo estava completamente subjugado. O egoismo da sua idade não podia já passar sem os carinhos de filha. Não queria revelar-se inteiro e desejava que fosse a paixão do filho que apparentemente explicasse a transigencia.
Era ainda custoso ao seu orgulho ceder, mas já não tinha fortaleza para resistir. Anciava por isso que Jorge lhe fornecesse o pretexto. Vendo-o vacillar, tremeu já de encontrar um obstaculo insuperavel.
Jorge pela sua parte era victima de um quasi estonteamento, que não lhe deixava ainda vêr claro. Tão costumado estava a acreditar que invenciveis resistencias se erguiam contra a mais ardente aspiração de sua alma, que ao vêl-as removidas de subito, olhava em volta de si como aguardando que surgissem outras em seu logar, e sem poder crêr que a felicidade viesse collocar-se-lhe ao alcance da mão.
D. Luiz insistiu:
—Não, Jorge, não aceito o teu sacrificio. Estou para despir as vaidades do mundo. Na outra vida, onde os primeiros são os ultimos, não me perseguirão estas paixões mundanas.
—A ter um de nós de luctar com uma paixão, para condescender com a do outro, compete-me fazêl-o. Na minha idade é mais fácil tentar estas luctas com exito.
D. Luiz a custo reprimiu a sua impaciencia.
—E ella? Jorge, lembra-te de que essa menina ama-te, e talvez não tenha a força de alma que tu tens.
—Seria para Bertha peior tormento magoal-o, meu pae. Sei-o da bôca d'ella. Nunca aceitaria o seu sacrificio.
D. Luiz fechou por momentos os olhos, como para concentrar o espirito; depois disse quasi a medo:
—Sacrificio! Maior sacrificio seria o meu se renunciasse a têl-a junto de mim e a chamar-lhe filha. Não sei mesmo se para tanto me restam ainda forças. Eu já não sou o homem forte que fui, Jorge. Quasi mereço compaixão.
Jorge estremeceu ao ouvir estas palavras. Como que raiou uma subita claridade no seu espirito.
—Que quer dizer, meu pae? Pois não é por meu respeito que insiste…
—Queres obrigar-me a confessar toda a minha fraqueza, Jorge? Pois bem, confessarei. Fazendo a tua felicidade, farás também a minha. O logar de tua irmã só póde ser occupado por Bertha. Outra qualquer profanal-o-ia.
Jorge d'esta vez não o deixou concluir. Cedendo á paixão que emfim se expandia, pegou nas mãos descarnadas do pae e levando-as calorosamente aos labios, exclamou:
—Oh! obrigado, meu pae. É Deus que o inspira; é o espirito de minha irmã que o aconselha. Obrigado. Agora sim, desanuvia-se-me o horizonte e creio, creio deveras na felicidade. Triumpho! Obrigado, obrigado.
E beijando-lhe mais uma vez a mão, correu para a porta chamando Bertha.
Toda a familia e os amigos que tinham vindo para os Bacellos, ao saberem do estado do velho fidalgo, achavam-se na sala immediata, aguardando anciosos o termo da conferencia entre o pae e o filho e por ventura o triste desenlace que havia muito se esperava.
Quando se ouviu a voz de Jorge, todos julgaram que se havia realisado emfim o acontecimento que se receiava, e correram para a porta.
Jorge, quasi desorientado, foi ao encontro de Bertha, e conduzindo-a á cabeceira do leito do doente, disse suffocado de contentamento:
—Bertha, o nosso sacrificio é inutil. Meu pae não o aceita, e prefere vêr-nos felizes. Ajoelha ao lado d'elle e beija a mão de teu pae.
Bertha obedeceu banhada em lagrimas de commoção.
A baroneza não reprimiu uma exclamação de alegria e de triumpho.
Mauricio correu a abraçar Jorge.
A Anna do Védor quasi levantou ao ar a boa Luiza, que temia acreditar no que julgára entender nas palavras de Jorge.
Sómente Thomé da Povoa ficou immovel e calado. Ao ouvir Jorge, ao ver a filha ajoelhada junto do fidalgo e acariciada por elle, um clarão de alegria passou no rosto do honrado lavrador e brilharam-lhe nos olhos as lagrimas. Mas este relampago dissipou-se cedo e carregou-se-lhe o semblante de tristeza.
Assim que Jorge, procurando-o com os olhos, se dirigiu para elle, estendendo-lhe os braços, Thomé afastou-o brandamente de si, dizendo-lhe:
—Custa-me desfazer essa alegria, senhor, essa alegria que me faz quasi chorar, que é sincera da sua parte. Mas quanto mais cedo, melhor será. Isto não póde ser.
Todos fitaram estupefactos o fazendeiro. Ninguem esperára que a resistencia se levantasse d'alli. Anna do Védor resmungou:
—Temol-a travada!
—Valha-nos Deus!—gemeu Luiza.
Bertha fitou no pae os olhos ainda lacrimosos.
A fronte de D. Luiz contrahiu-se de novo.
—Que quer dizer com essas palavras, Thomé?—perguntou Jorge, emquanto que Mauricio e a baroneza secundaram a pergunta com um olhar interrogador.
—Ha brios a que se não póde faltar—insistiu Thomé—ainda quando se nos despedace o coração e o dos filhos. Que se diria de mim? Como explicariam por ahi o meu proceder n'esta casa? Que pensaria alli o snr. D. Luiz, que já uma vez me suspeitou de forjar intrigas infames e de ter ambições indignas de um homem de bem? Creia no que lhe digo, snr. Jorge, mais vale que sacrifiquemos todos um pouco das nossas affeições para não termos desgostos maiores.
—Que desgostos póde receiar, Thomé, quando eu lhe peço que me conceda a mão de Bertha?
—O snr. Jorge falla cego pela affeição que sente e é ella que não o deixa vêr o que eu vejo.
—Não seja obstinado, Thomé—disse a baroneza.—Bem vê que d'onde era mais de esperar a resistencia, já ella cahiu.
—V. exc.ª não fallaria assim se soubesse tudo. Ha dias, snr.ª baroneza, n'esta mesma sala, vendo-me offendido no meu caracter, suspeitado de tenções que nunca tive, e desesperado por não poder justificar-me, porque de facto tudo se levantava contra mim, fiz um protesto que não posso deixar de cumprir. Se lhe faltasse, eu proprio daria razão a quem me chamasse, frente a frente, intriguista, falso, miseravel…
D. Luiz atalhou, dizendo:
—Protestou o Thomé da Povoa que se o casamento de sua filha com Jorge dependesse do seu consentimento, elle o recusaria, ainda mesmo quando da recusa se seguisse a morte para ambos; e que para o não recusar seria necessario que eu, o pae de Jorge, o senhor da Casa Mourisca, o unico, segundo o pensar do mundo, de quem deveria partir opposição a essa alliança, pedisse a elle, Thomé da Povoa, como favor, esse consentimento.
Thomé fez um signal affirmativo, olhando para a baroneza, para Mauricio e para Jorge como perguntando-lhes se a tão solemne protesto era possivel faltar.
—Pois bem—continuou o fidalgo, depois de uma curta pausa, e fechando os olhos á imitação de quem se prepara a vencer um precipicio, cuja vista o faz recuar.—Pois bem, sou eu quem peço a Thomé da Povoa… como favor… que permitta que Bertha seja a esposa de meu filho.
E ao acabar de dizer estas palavras tingiram-se-lhe as faces de uma vermelhidão intensa.
Thomé fixou os olhos no rosto do fidalgo e leu n'aquelles signaes a revelação do esforço gigante que elle fizera para conseguir pronunciar tão nobres e generosas palavras.
Não estava no animo de Thomé resistir mais tempo.
Correu para o leito, ajoelhou ao lado do doente, e pegando-lhe na mão, exclamou, cortada a voz pelos soluços:
—Snr. D. Luiz, v. exc.ª venceu. Digam o que quizerem. O meu orgulho não dá para mais. Bertha, sê feliz…
O pranto não o deixou concluir, a phrase perdeu-a soluçando sobre as mãos do fidalgo.
Não faltaram lagrimas e sorrisos aos que presenciavam a scena.
Passada esta explosão de sentimento, Jorge, tomando a mão de Bertha, disse para Thomé:
—Aceito a felicidade que me offerece, Thomé, e prometto ser digno da esposa que me confia. Mas á minha propria felicidade sou obrigado a impôr condições, para que no futuro nenhuma nuvem a perturbe. A nossa casa não está ainda, como sabe, livre dos encargos que por tanto tempo pesaram sobre ella. As dificuldades principiam a aplanar-se e a administração entrou no verdadeiro caminho. E ao seu auxilio e conselho devo principalmente este resultado. O meu orgulho porém, visto que todos aqui attendem a orgulhos, o meu orgulho exige que eu só por mim realise esta obra que emprehendi, que á força do meu trabalho satisfaça os compromissos contrahidos. Quando receber Bertha, quero recebêl-a em minha casa, e que se não diga que foi ella quem me abriu as portas fechadas pela miseria. Por isso esperarei até então para realisar a minha felicidade.
—Muito bem, Jorge!—exclamou o fidalgo, fulgurando-lhe o olhar de alegria.
—É justo—concordou Thomé.—Comprehendo esse desejo da sua parte, e nada tenho a dizer contra.
—Mais ainda—proseguiu Jorge—posso aceitar a esposa que me oferece, e orgulhar-me d'ella e da alliança com a sua familia, que é honrada e generosa, mas uma coisa ha que não posso aceitar sem humilhação. É a parte que pertencer a Bertna da herança paterna. Não quero que se diga que eu restaurei a minha casa á custa da sua. Até aqui ainda chegam os meus preconceitos aristocraticos, devo confessal-o.
—Bem, Jorge, muito bem!—bradou o fidalgo—quem pensa d'essa maneira e assim procede, póde transmittir a sua nobreza, mas não a perde.
—Eu porém é que não posso desherdar minha filha. Essa condição é impossível—disse Thomé friamente.
—A parte a que tiver direito cedo-a em favor de meus irmãos—disse timidamente Bertha.
—Teus irmãos não precisam da tua desistencia, Bertha.
—Thomé—insistiu Jorge—sabe que o meu constante pensamento é manter ao nome de minha familia o prestigio e o respeito que sempre teve na provincia; não queira annullar os esforços que emprego para o conseguir.
—E quer que eu lhe sacrifique a minha reputação? Que se dirá de mim?
A baroneza, prevendo que as dificuldades cresciam, e que esta lucta de sentimentos generosos poderia fazer surgir novos obstaculos, entreveio dizendo:
—As clausulas do contracto são uma circumstancia secundaria e que só na presença de um tabellião se regulam. Eu por mim não posso aturar taes discussões, sobre tudo se o noivo toma parte n'ellas. Olhem que frieza de namorado! Deixemos isso tudo para depois.
—Diz bem v. exc.ª—apoiou a Anna do Védor—o tudo é que elles casem, e depois os homens que deslindem lá esse negocio do dinheiro como quizerem. Mas sempre lhes digo que oiçam um advogado para não fazerem tolices. Mas o fidalgo! O fidalgo é que sempre a deu em cheio! Sim senhor! Nunca o esperei! Quem d'antes lhe fosse dizer… Mas bom foi e verá como até nosso Senhor lhe ha de dar saude. E vossemecê, Luiza, que diz a isto? Ande lá, que teve um sancto a pedir por si. Eu bem lhe disse, mulher: cara alegre e confiança n'aquelle que está lá em cima. E aqui para nós, talvez que a mim deva alguma coisa. E tu, rapariga? Apesar de me engeitares o Clemente, olha que não te quero mal. Não quero, porque eu se estivesse no teu logar, faria o mesmo. E o Thomé ainda com o nariz torcido! Ó homem de Deus, vossê que mais quer? Sempre a gente! louvado seja Deus!
Mauricio aproximou-se de Anna sorrindo:
—Já que vae correndo a roda, venha lá a minha ração.
—Que queres que eu te diga? Cuidas que por estares casado me mereces mais aquella? Olha agora! O que me admira é que houvesse quem te quizesse. Perdoe-me a senhora, mas não lhe gabo o gosto. A seu tempo conhecerá a joia. Lá aquillo é outro barro.
E apontava para Jorge.
Todos riram das francas observações da desenganada matrona.
E emquanto D. Luiz conversava com Bertha, Jorge com Thomé, e Mauricio e a baroneza com Luiza e Anna do Védor, assomou á porta a cabeça de frei Januario, que ficou espantado de achar tanta gente reunida no quarto do fidalgo.
—Ha alguma novidade?—perguntou elle inquieto.
Foi a Anna do Védor quem lhe respondeu:
—Ha, sim senhor. E póde já preparar-se, porque não lhe faltará que fazer qualquer dia. Case-me bem estes noivos, ouviu?
O padre olhou espantado para os circumstantes.
—Quê? Pois então?…
—Estão vencidos os obstaculos—respondeu a baroneza á incompleta pergunta.
—Ah!—observou apenas o padre.
E pensava comsigo:
—Digam lá que não anda n'isto a maçonaria!
O resto do dia passou-se pacificamente. D. Luiz dormiu com socego e deu mais algumas esperanças aos que o rodeavam.
Não havia alli coração que não encerrasse um fermento de felicidade.