NOTAS DE RODAPÉ:

[29] Veja-se Ludovicus Cappellus in Arcano punctuationis, contra J. Buxtorf. Filium.

CARTA QUINTA.
SUMARIO.

Discorre-se da-utilidade, e necesidade da-Retorica. Mao metodo com que se-trata em Portugal. Vicios dos-Pregadores: que sam totalmente ignorantes de Retorica. Que absolutamente deve deixar o antigo estilo, quem quer saber Retorica.

Finalmente é tempo, de pasar-mos à Retorica: para com ela completar os estudos, das-escolas baixas. Sei que V.P. tem gosto, de ouvir-me falar dos-outros: e me-faz a merce nesta sua dizer, que imprime as minhas cartas, na memoria: mas sei tambem, que de todos os estudos das-Umanidades, de nenhum tem mais empenho, que da-Retorica. Pois se bem me-lembro das-nosas conversasoens, conheci entam em V. P. um ardente dezejo, de me-ouvir falar nesta materia; e de querer instruir-se, dos-particulares estilos de Retorica, e muito principalmente dos-sermoens, de outros paîzes: porque me-dise, que nam lhe-agradava, o estilo deste Reino: o qual muitas vezes seguîra, por-necesidade. Nesta carta direi brevemente, o que me ocorre, sobre os defeitos, e tambem sobre o modo de os-evitar.

A Retorica naceo na Grecia, como todos os outros melhores estudos: e de la se-espalhou, polas mais partes da-Europa. É mais moderna, que a Gramatica: mas teve a mesma origem. Querendo os omens na Grecia, persuadir aos Povos, varias coizas; foi necesario que observasem, como eles se-persuadiam: e quais eram os meios, comque se-moviam, as paixoens do-animo. De que naceo esta arte, a que chamam Retorica: que é quazi tam antiga, como a Filozofia; quero dizer, que comesou a florecer, despois da-metade do-quarto milenario. Agradou esta erudisam aos Romanos, que se-reguláram polo mesmo metodo: e tanto se-entregáram a ela, que, se nam excedèram aos Gregos, na ciencia; sem duvida excedèram-nos na aplicasam, e exercicio: porque na verdade chegáram a namorar-se, da-sua galantaria, e utilidade. Dos-Romanos a-recebèram os outros Povos, e Nasoens: entre as quais as que mostráram mais juizo, aplicáram-se a ela com cuidado, polos mesmos motivos.

E, na verdade, nam á coiza mais util, que a Retorica: mas nam á alguma, que com mais negligencia se-trate, neste Reino. Se V.P. observar, o que os mestres ensinam nas escolas, achará, que é uma embrulhada, que nenhum omem, quanto mais rapaz, pode intender. Primeiramente, ensinam a Retorica, em Latim. Erro consideravel: porque nada tem a Retorica, com o Latim: sendoque os seus preceitos compreendem, e se-exercitam em todas as linguas. Daqui nace o primeiro dano, que é, que os rapazes nam a-intendem, porque ainda nam intendem Latim: e nace tambem o primeiro engano, que é, persuadirem-se os ditos rapazes, que a Retorica só serve, para as orasoens Latinas. Asim me-respondèram muitos, nam sò rapazes, mas tambem sacerdotes. Do-que eu conclui, que saiem da-Retorica, como nela intráram: e examinando as Retoricas, que eles aprendem, fiquei tambem persuadido, serem elas tais, que nam podiam produzir, outro fruto.

E, valha a verdade, nam só os rapazes que estudam, mas nam sei se os mesmos mestres, vivem persuadidos desta razam: porque observo, que falando-lhe muito, em exemplos Latinos, nam se-servem dos-vulgares, para mostrar o artificio da-Retorica. Como se os preceitos só servisem, para compor Latim, e orasoens estudadas: ou como se nas linguas vulgares, nos-discursos familiares, nam pudesem ter lugar, os preceitos da-Arte! E com isto ficam novamente persuadidos os estudantes, que só para orasoens Latinas, serve a Retorica.

Mas por-pouco que se-examine, o que é Retorica, acharseá, que é Arte de persuadir: e por consequencia, que é a unica coiza, que se-acha, e serve no-comercio umano; e a mais necesaria para ele. Onde quem diz, que só serve para persuadir na cadeira, ou no-pulpito; conhece pouco, o que é Retorica. Confeso, que nos-pulpitos, e cadeiras faz a Retorica gala, de todos os seus ornamentos: mas nam se-limita neles: todo o lugar é teatro para a Retorica. Nam agrada um livro, se nam é escrito com arte: nam persuade um discurso, se nam é formado com metodo. finalmente uma carta, uma resposta, todo o exercicio da-lingua, necesita da-diresam da-Retorica. A mesma Filozofia, serve-se utilmente da-elegancia. A Teologia tem necesidade dela; porque (como adverte um omem douto) nam pode explicar as verdades espirituais, que sam o seu objeto, senam vestindo-as de palavras sensiveis, com que as-persuada. A Lei ou Civil, ou Canonica, nam se-pode dispensar, da-Retorica. Como á-de orar um Advogado, informar o Juiz, defender o Reo; se ele nam sabe, em que lugar devem estar as provas, ou de que prova á-de servir-se, para aclarar a verdade da-sua cauza, e excitar os afetos do-Juiz? Como á-de compor uma escritura, se ele nam sabe, o metodo de a-tecer, de dilatar os argumentos, e servir-se das-suas proprias razoens?

O discurso de um omem despido de todo o artificio, nam pode menos, que ser um Cahos. Poderá ter boas razoens: excogitar provas mui fortes: mas se as-nam-sabe dispor com ordem, quem poderá intendèlo? quem se-persuadirá delas? A dispozisam das-partes, dá nova alma ao todo: convida a conhecer as proporsoens: mostra a relasam e dependencia, que umas tem das-outras: coloca na sua justa proporsam, o que de outra sorte nam se-poderia intender. Os diamantes, os rubis, e outras pedras preciozas sam belas, e servem de grande ornamento: mas segundo o lugar em que estam. Encastoadas com artificio, mostram toda a sua galantaria, e dam novo lustre à mesma prata, e oiro que as-rodeia; e ornam muito as pesoas, que as-trazem: postas porem sem ordem em um monte, ou misturadas com outras pedras, nam parecem preciozas, mas ou pedras groseiras, ou cristais. Os astros, que compoem a beleza do-Universo, nam tem em si mesmos, beleza alguma: mas a proporsam os-faz vistozos. Quem vise a Lua de perto, acharia um globo, sem diversidade alguma deste terreste: o mesmo digo, dos-outros planetas opacos. Quem examináse de vizinho o Sol, nam veria mais, que uma fogueira: o mesmo digo, dos-outros igneos. Mas todos estes vastos globos, postos na sua justa proporsam, fazem tal efeito, mostram tam extraordinaria beleza; que é um famozo argumento, para ver, a suprema mam que os-criou. O Sol posto no-centro do-Universo, segundo a ipoteze (que agora suponho) de Copernico, dá luz aos mais planetas, alma ao Mundo, vigor à terra, utilidade aos omens, e gloria ao seu criador. Se se-chegáse mais vizinho a nós, queimaria tudo: e acabava-se o Mundo. E eisaqui o efeito, da-boa proporsam e ordem.

Um omem douto advertidamente chamou à Retorica, a Perspetiva da-razam: porque na ordem inteletual faz o mesmo, que a Perspetiva, nas distancias locais. Em uma taboa liza, ideia a pintura um palacio, com imensa profundidade: e muitas vezes com tal artificio, e tam semelhante ao natural, que se-enganam os olhos. Nam sam as cores que originam, esta delicioza equivocasam; porque com uma só cor, se-consegue o mesmo intento: mas a dispozisam das-partes, o saber pór cada uma na sua justa distancia, o saber-lhe dar as sombras, com proporsam da-arte, produz este maravilhozo efeito: e faz que eu veja, reconhesa, e admire, o que de outra sorte nam poderia ver. Este mesmo é o cazo da-Retorica. Ela tem forsa tal, que me-obriga a descobrir, o que eu de outra sorte nam verîa. Os materiais podem ser simplezes, as razoens mui singelas; mas a dispozisam delas fará efeitos tais, que sem ela nam se-conseguiriam. eu verei, e intenderei, o que sem ela nam é facil intender. Ora de toda esta doutrina se-conclúe, a extensam da-Retorica: porque sendo ela a que dá alma, a todos os discursos; e novo pezo, a todas as razoens; fica claro, que tem lugar em toda a parte, em que se arrezoa e discorre.

Dirmeám, e ja mo-diseram alguns, que este discurso é dirigido, a introduzir um estilo afetado nas conversasoens; e carregar todos com o pezo, de falar por-tropos e figuras: nam proferir discurso, que nam seja segundo as regras da-arte: cuja afetasam é pior, que falar sem Retorica. Mas esta objesam é igualmente distante, da-boa razam, que do-meu intento; e é unicamente fundada, em nam saber, que coiza é Retorica. Permita-me V.P. que eu me-dilate alguma coiza, neste particular, para explicar o que digo, o que devo, e livrar a muita gente, deste prejuizo.

Os rapazes, que estudam nestes paîzes, nam sabem nada de Retorica, porque lha-nam-ensinam: Os que sam adiantados, e continuáram os estudos, sabem ainda menos; porque bebèram principios, tam contrarios à boa razam, que ficam imposibilitados, para se-emendarem. Em todo este discurso protesto, que nam falo daqueles omens, que com raro juizo, e fina critica se-dezenganáram, das-preocupasoens comuas, e seguem outra estrada: dos-quais eu conheso alguns: falo somente do-Comum, e falo fundado nas suas obras: nas quais se-reconhece a verdade, de quanto digo. Estam todos persuadidos, que a Eloquencia consiste na afetasam, e singularidade: e, por-esta regra, querendo ser eloquentes, procuram de ser mui afetados nas palavras, mui singulares nas ideias, e mui fóra de-propozito nas aplicasoens. Tem V.P. mui belo exemplo nos-sermoens: que eu, para maior clareza, dividirei em varias especies.

Encomenda-se um sermam v.g. de Exequias, de um General. O meu bom Pregador mostra aqui, todo o seu ingenho, e eloquencia. Saie logo um texto da-Escritura, para tema: e á-de ser do-testamento Velho, porque á-de ser profetico. No-sermam mostra o Pregador, que estava revelado, na escritura da-Antiga igreja, que aquele General avia fazer famozas asoens: e nam só asoens in genere eroicas, mas especialmente estava revelado, que avia ganhar a batalha do-Canal, ou das-Linhas de Elvas. E isto estava profetizado, com tanta individuasam, que nam se-podia dezejar mais. Despois, vai recolhendo as outras profecias, da-vida daquele General. Mostra, que a batalha de Saul contra os Filisteos, era figura da-grande batalha, que o seu eroe ganhou. Se sucedeo, que nesta batalha algum piquete, dése principio à asám; se era em partes montuozas; nam deixa de observar, que tudo iso tinha ja sucedido a Jonatas, e ao seu escudeiro: onde vem, que até aquela circunstancia, estava profetizada. Pasa adiante, e comesa a levantar, e requintar pensamentos. Diz, que o seu eroe, era maior que Saul, nam só de corpo, mas tambem de animo: que era mais afortunado que David: mais prudente que Salamam: E se nam á logo um texto claro, com que se-prove isto, nam falta um expozitor, que diga uma palavra, da-qual o Pregador conclue manifestamente, que o texto nam se-pode intender, de outra sorte.

Daqui pasa um pouco mais para baixo. Mostra, que Alexandre Magno, em sua comparasam, era um ridiculo: que o seu eroe tinha um corasam, ao menos, como metade da-America: que fez coizas, que a ninguem vieram à imaginasam: e que somente a ele se-pode aplicar o, Siluit terra in conspectu ejus. Se tem alguma noticia de-Istoria, nam deixa de mostrar, que Julio Cezar, Paulo Emilio, Quinto Fabio, Anibal, Pirro, &c. podiam ser seus dicipulos. E outras coizas destas, que se o dito General fose vivo, e as-ouvise, nam podia deixar de envergonharse, de tal panegirico. Isto quanto ao asumto. Quanto à dispozisam: Despois de um grande exordio, e comumente improprio, divide o sermam em trez pontos: raras vezes em dois: rarisimas conclue com um só discurso. Promete mostrar em cada um, que o seu eroe teve uma singularidade, a maior do-mundo: o que tudo quer tirar, da-Sagrada escritura. Pede a grasa, paraque Deus lhe-inspire, o que deve dizer, em materia de tanta importancia: e prosegue o sermam, na fórma dita.

Se pois as exequias sam de Molher, saie logo, o Mulierem fortem quis inveniet? e nam a-tendo achado o Sabio, afirma ele, que a gloria de achar esta mulher, estava rezervada à sua diligencia. E, aindaque a Senhora fose Religioza, e de animo pacifico; nam pode deixar de intrar, o fato de Judita; em que ele mostra, que a dita Senhora é Judita: a sua espada eram as diciplinas, e cilicios: Olofernes era a figura do-mundo, que ela matou, e prostrou com facilidade, &c. Mas como na escritura Antiga, á poucos exemplos de molheres eroicas, recorre logo à Nova, e la vai buscar, a Molher do-Dragam, e outras destas figuras. Finalmente, discorre das-virtudes da-dita Senhora, polo estilo das-do-General.

Nam me-negará V.P. que esta é a pratica deste Reino: porque lhe-mostrarei, muitos livros impresos, em que se-acham estes sermoens; e de omens que tiveram, e conservam grande fama. Progunto agora: acha V.P. que isto é pregar? que é saber discorrer? que é ser eloquente? Em primeiro lugar, o tema da-Escritura, e as provas tiradas dela, sam erro de toda a considerasam. Estes Pregadores nam devem ter lido, o concilio de Trento[30], que proibe, uzar das-palavras sagradas, aplicadas a coiza profana: nam devem saber, que é expresamente proibido, explicar a Escritura, senam segundo a expozisam, dos-SS.PP. da-Igreja. Concedo, que um expozitor moderno, disèse alguma propozisam, que se-pudese aplicar ao asumto: por-iso ei-de seguila? quantos destes expozitores, nam vemos todos os dias, que nam sabem o que dizem? que omem prudente faz cazo, de semelhantes escritores, que nam fundam a sua expozisam, na doutrina da-Igreja? Despois diso, quem poderá defender aquelas provas, tiradas da-Escritura? Ou quer o Pregador dizer, que os fatos da-Antiga igreja, eram figura do-seu asumto; e esta é uma propozisam temeraria, por-nam lhe-dar outro nome; e contraria à comua doutrina dos-Padres, e da-Igreja: ou nam se-persuade disto; e nam se-livra da-censura, fulminada por-muitos canones, por-abuzar imprudentemente, de palavras sacrosantas. Porque eu nam acho, que semelhante aplicasam seja outra coiza mais, que aplicar com grande irreverencia, umas palavras santas, a um sentido, para que nam foram proferidas: e a um sentido indigno, profano, e falso: que é o mesmo, que condena o Concilio.

Respondem alguns, que isto quando muito prova, que a aplicasam nam é boa; por-ser de coiza sagrada, a uma profana: mas nam prova, que no-sermam nam se-observáram, os preceitos da-Oratoria. Mas esta mesma resposta mostra, que nam intendem, que coiza é Retorica. Se a Retorica é arte de persuadir, quem mais se-persuadio com provas, que nam fazem ao cazo? Que omem de juizo á-de intender, que aquele General foi grande, porque Saul o-foi tambem? que parentesco tem uma coiza, com outra? E como a obrigasam daquele panegirista seja, mostrar, e engrandecer, as virtudes do-seu eroe; todas as provas que tirar da-Escritura, nam concluem para o seu intento. Conheso, que alguma vez se-pode alegar, um paso da-Escritura, damesma sorte que se-cita um paso, da-istoria Profana: porque a istoria da-Escritura, tambem na materia de Politica ensina muito: mas neste sentido nam se-servem, os Oradores deste Reino, como é coiza notoria: porem sim, no-sentido de profecia. Se pois aquele paso, nada faz ao cazo, com que razam o-alega? Pode-se chamar Orador, um omem que se-funda em razoens, que nam conduzem, para o seu intento? Temos ja, que a este omem falta, a principal parte de Orador, que é Inventio: o saber buscar razoens proprias, para o seu intento, e que pròvem o que ele quer. Peca logo na aplicasam: e niso mesmo peca, contra a Retorica.

Suponha V.P. que da-outra parte estava outro Orador, que respondèse aos argumentos. suponha que o cazo sucedia no-Egito, aonde antigamente se-expunham os cadaveres, diante dos-juizes, para serem julgados. Um publico acuzador, referia todos os defeitos, e respondia aos louvores, que nam eram fundados. Se o omem era de boa fama, dava-se a sentensa a seu favor, e enterrava-se com onra e panegirico, acompanhado de grandes louvores do-Povo: se era condenado, privava-se de sepultura, e a sua memoria ficava abominavel[31]. Que coiza julga V.P. que diria o noso Pregador, neste cazo? parece-me, que ficaria convencido de falsidade, o Orador; e envergonhada a fama do-eroe, que ele nam soubera defender.

Ora esmeuce V.P. as mais partes daquele sermam, e verá quantas faltas de Retorica, ali se-incontram. Que má dispozisam dos-argumentos! que arrastada confirmasam das-provas! Isto é supondo, que o paso que ele cita, tenha alguma semelhansa, com o que quer provar. Mas nam ve V. P. quantas coizas os Pregadores inculcam, que de nenhum modo se-seguem, do-texto? Este é o segundo ponto, que nam me-parece de pouco momento, nesta materia: e isto melhor se-conhece, quando querem esquadrinhar, as palavras dos-Profetas, ou dos-livros cientificos. Primeiramente tomam umas palavras troncadas, (que se fosem inteiras, eram contrarias ao asumto) e delas deduzem o seu pensamento. E que diz V.P. a este modo de comentar? parece-me que isto é aquilo mesmo, a que, em bom Portuguez, se-chama, impostura: porque é tirar pensamentos de um texto, que nam diz tal coiza. Despois, recorrem a um expozitor, ou S. Padre, o qual talvez guiado do-furor do-seu zelo, ou com exceso retorico, dise alguma propozisam, que, para nam ser erezia, é necesario tomála muitos furos abaixo, do-que soa: no-que concordam todos os Criticos, e Teologos. Aqui o meu Pregador, sem perder nem menos uma silaba, traduz a propozisam como se-acha: e nela Levanta uma machina de paradoxos, com que pertende provar, coizas mui verdadeiras, e sezudas. Nam cito exemplos, porque falo com V.P. que sabe mui bem, de quem eu falo. E averá quem me-negue, que isto é faltar à Retorica? averá quem se-atreva a dizer, que isto é saber elogiar? Se os argumentos sam verdadeiros, sempre sam fóra do-asumto: se o-nam-sam, nam deixam de ser imposturas: e nam sei qual destas, é pior falta de Retorica. Mas prosigamos o exame, e vejamos o que fazem, nos-outros asumtos.

Saie um sermam de asám de grasas a Deus, por-algum grande beneficio concedido; como saude, batalha &c. ou por-alguma asám má castigada, com gloria de Deus; como o roubo do-Sacramento em S.Engracia, Ato da-Fé &c. Intende V.P. que por-mudarem de asumto, mudam de metodo? nam senhor: e a pratica mostra o contrario. O argumento dos-primeiros dois sermoens deve ser, dar grasas a Deus, por-tam especial beneficio: e excitar a piedade dos-Fieis, para que o-louvem, por-este favor que fez. Este é o asumto: e a este fim deve o Pregador dirigir, todos os seus particulares argumentos. Mas iso é o que ele nam faz. O que ele cuida é, buscar algum conceito sutil, e singular, com que posa dizer alguma novidade, e mostrar o seu ingenho. Eu li um sermam do * * * que pertencia a uma destas clases: em que o Pregador, por-querer dizer uma novidade teologica, dise uma erezia: que somente o-nam-foi na sua boca, porque nam intendeo, o que dise: aindaque tivese bastantes anos, ensinado Teologia. La achou porem um S.Padre moderno, que cuido fose S. Bernardo, que lhe-deo materia ao conceito. Mas a verdade é, que o dito S. que frequentemente uza de iperboles, nam dise literalmente, o que ele supoz. Mas fose o que fose, o sermam teve mil aplauzos, e impremio-se com onra * * *. Ja se-sabe, que a saude ou batalha, á-de ser profetizada, na Escritura do-Antigo testamento, ou polo menos do-Evangelho, e com sinais mui particulares: porque segundo estes autores, nam á sermam sem tema sagrado; seja o que for. Se o tema nam calsa bem, nam falta quem o estenda: que este é o comum refugio, de todos estes senhores.

Contou-me pesoa mui verdadeira, que, achando-se em certa Cidade deste Reino, sucedèra, que a molher de um tangedor de rabeca, fazendo voto por-uma infermidade perigoza; quando se-vîra livre, quizera agradecer ao Santo, o tal beneficio, com uma festa estrondoza, e com sermam. O dito amigo conhecia o Pregador: e incontrando-se com ele, dise-lhe: Que tema toma vosè? ao que ele respondeo, Ja tenho escolhido as palavras: Surge, ascende Bethel; fac ibi altare &c. Reproguntou o meu amigo, Que conexam tem iso, com o que vosè quer dizer? ao que o Pregador respondeo seriamente: O texto é otimo: porque que Jacob era rabequista, iso provo eu logo, com dez expozitores. E com efeito o sermam, saio semelhante à promesa.

Eu mesmo asisti uma vez a um sermam, de asám de grasas, porque Deus concedèra chuva, despois de uma grande esterilidade. É necesario advertir, que se-tinham feito varias procisoens, com imagens milagrozas, semque Deus ouvise, os clamores do-Povo. Na ultima, leváram um Cristo com a cruz; e sucedeo, que pouco despois choveo alguma coiza. O meu Pregador, que tinha fama de grande letrado, prometeo mostrar no-sermam, que a chuva nam podia vir, por-outro estilo. E provou isto, com a nuvem de Elias: a qual asimque a pareceo, desfez-se o ceo em tempestades. Mostrou pois, com dois expozitores modernos, que aquela nuvem, era Cristo com a cruz às costas. Faltavam algumas circunstancias, entre as quais era, a da-tempestade seguida; que ca nam tinha exemplo. Remediou o omem a isto, prometendo em pouco tempo, a tempestade. (o que podia seguramente profetizar; porque despois de uma grande elevasam de vapores, uma vez que estes comesam a mover-se, é claro, que ám-de cair) Sucedeo o cazo da-grande chuva: e o meu Pregador, alem da-fama de Orador, saio com a de Profeta; que lhe-frutou muito bem. Os que sabiam pouco, estavam pasmados, da-felicidade de ingenho do-omem: mas um dos-que estavam no-confeso, e tinha pezado bem o sermam, falou-me em diferente maneira. E destes sermoens, pudera eu citar infinitos.

Se o sermam é do-dezagravo do-Sacramento, ja se sabe, que somente pregará bem, quem mostrar, que á textos expresisimos, em que se-declara, que no-ano N. sendo Bispo N. Mordomo da-festa N. às tantas oras do-dia, avia suceder a dita coiza. Mas nam basta isto, é porem necesario, algum novo pensamento, que comumente prova tudo o contrario, do-que quer persuadir. E aqui devem intrar, todas as outras circunstancias, que apontámos. Nam se-lembra o Pregador, que o asumto sempre é o mesmo: que é, dar grasas a Deus, por-descobrir, com altisima providencia, os sacrilegos: e com iso mostrar, a sua mizericordia, mansidam, e justisa: e que este asumto sempre se-deve inculcar, variando unicamente as palavras, com mais ou menos ingenho, segundo o cabedal de quem fala. Nam adverte, que faria muito maior impresam, pintar a atrocidade daquele delito, de uma parte; e da-outra, as infinitas virtudes, que Deus quiz mostrar, naquele castigo. Nada disto lembra ao Pregador. o que emporta é, subtilizar bem. Mas o que dali se-segue é, sair o auditorio tam persuadido, da-pouca capacidade do-Pregador, como pouco persuadido, do-que ele determinára persuadir-lhe.

E que nam diz um destes amigos, quando se-lhe-encomenda um sermam de Intrada, ou Profisam de Freira! Aquele sermam nada mais é, doque um panegirico da-eleisam, e perseveransa da-Freira, e outras boas qualidades; acompanhado de uma exortasam, para perseverar na virtude. Isto é o que deve dizer o Pregador: mas isto é o que nenhum diz. O que importa é, mostrar, que esta Freira era tanto do-agrado de Deus, que mandou ao mundo um, ou muitos escritores Sagrados, para lhe-comporem a vida, muitos seculos antes de nacer. Um amigo meu teve a incumbencia, de um destes sermoens: e logo lhe-advertîram, que teria mui boa paga, se acháse na Escritura, toda a vida da-Freira. Ela era Dominicana, e mui devota do-Rozario: tinha sido Pupila alguns anos, no-dito Convento: o sermam era na oitava da-festa do-Rozario. Ele, que somente queria um bom prezente, tomou as palavras do-capitulo IV. do-Cantico: Veni de Libano sponsa mea, veni de Libano, veni: coronaberis. Mostrou, que a Freira tivera tres estados, de Pupila, Novisa e Profesa: e que a cadaum conrespondia sua vocasam, e seu veni, com que Deus a-chamava, por-boca de Salamam. Que o Libano, reprezentava o Mundo, donde Deus a-chamava para o Claustro. Coronaberis, explicava a Religiam, que é toda consagrada ao Rozario: e que no-mesmo Rozario, que é uma coroa de rozas, achava o premio da-sua eleisam, e obediencia. Acomodou novamente isto ao Rozario, dividido em misterios dolorozos, gozozos, e gloriozos; cada especie dos-quais conrespondia, aos seus trez estados: o que ele provou, com textos expresisimos. Desorteque a concluzam do-negocio foi, que todas as circunstancias da-vida da-Freira, estavam profetizadas com tanta clareza, por-Salamam; que qualquer cego reconheceria, que aquele texto somente falava, da-Senhora D. Fulana, filha de Fulano, moradora em tal parte, Freira em estoutra, &c. O que eu sei é, que toda esta metafizica frutou, cinco moedas, e um bom prezente: e que as Freiras nam cabiam na pele de contentes. E isto sucede todos os dias: e alguma vez eu o-tenho prezenciado, nestas festas.

Se o sermam é do-Ato da-Fe, comumente declinam para dois extremos: ou nam chegam a dizer, o que devem; ou dizem muito mais, do-que nam devem. O Santo Oficio justamente manda pregar, àqueles omens penitenciados, para os-alumiar na sua cegueira: e esta é uma ideia sacrosanta. Mas eu nam sei, se os tais Judeos ficam persuadidos: o que sei é, que os sermoens que eu leio, nam sam proprios, para os-persuadir. Avemos asentar em primeiro lugar nisto, que estes Judeos Portuguezes, sam ignorantisimos diso mesmo, que querem profesar. Nam sabem mais, senam que o Sabado se-deve guardar: e outras noticias gerais. de lingua Ebraica nada sabem: menos de Caldaica: que sam as duas linguas, em que estam escritos, os ritos e costumes Judaicos. Isto é sem duvida: e quem ouve os procesos, conhece claramente, qual é a sua ignorancia neste ponto. Quanto à ignorancia dos-ritos Judaicos, nam é necesario alegar, testemunhas Orientais, nem ir buscar os Rabinos, Maimonides, Jacob Baal-aturim, Joseph Caro &c. basta que V. P. leia o Sigonio, Menochio, Cuneo, Reimero, Spencero, que escrevèram eruditamente, de Republica Hebræorum: ou algum dos-outros, que tratáram das-escolas, e ritos, como Selden, Godvvin &c. e ficará mui bem persuadido, que estes seus Portuguezes, nam sabem que coiza é ser Judeo: e sam Judeos, mais por-genio depravado, que por-erudisam.

Isto suposto, alguns Pregadores, como o Cranganor, para mostrarem a sua erudisam Rabinica, entram em certas materias dificultozas, e procuram noticias mui particulares, tiradas dos-que impugnáram os Rabinos; para mostrarem aos Judeos, o seu ingano. Copeiam fielmente, toda a noticia que se-lhe-oferece, na tal materia: nam sem se-inganar algumas vezes, como sucedeo ao dito Cranganor; que por-nam ter inteligencia, das-ditas linguas, nem da-istoria Judaica, nem ter nunca aberto o Talmud; servio-se algumas vezes de argumentos, que tem mui boas respostas. (devemos confesar em obzequio da-verdade, que entre os Ebreos ouveram sempre, omens mui doutos, que propuzeram tais dificuldades sobre a Escritura, que fazem suar muitos Catolicos doutisimos, para lhe-responder. onde sem exquizita erudisam, é melhor nam tocar, semelhantes materias) Finalmente à forsa de ajuntarem noticias, em lugar de um sermam, fazem um tratado Contra Judæos. O que digo, com boa paz do-dito Arcebispo, e seus apaixonados: porque nam quero diminuir-lhe a estimasam: mas somente trazelo para exemplo, do-que aponto.

O que se-segue daqui é, que com todo este trabalho, nem fazem sermam, nem podem persuadir; pois nam proporcionam as provas, ao asumto. Porque inculcar erudisam Rabinica, a omens totalmente ignorantes destas materias, é manifestamente zombar do-seu emprego, e do-auditorio: e tanto vale isto, como se lhe-pregasem em Persiano, ou discorresem em diferente materia. Alem diso, á grande diversidade, entre uma disputa, e um sermam; entre uma disertasam, e uma exortasam: e perde o seu tempo e a sua fama, quem confunde estes dois nomes, e o significado deles. Ora eisaqui tem V. P. o que fazem estes, com quererem dizer muito.

Os outros, que asima apontamos, seguirem diversa estrada, nam sei se os-chame, mais condenaveis. Estes sam aqueles, que querem pregar aos Judeos, polo estilo dos-outros sermoens, com conceitos sutis, e pensamentos exquizitos. E nam é necesario muito para intender, que se os Catolicos Romanos, que estudamos aquela doutrina, que eles inculcam; os-nam-intendemos, e nos-dezagradam muito; que coiza sucederá, aos Judeos? Ouve às vezes V. P. propor um asumto, que parece ao intento: segue com o pensamento, o Pregador no-seu discurso: e quando nam se-precata, este o-dezempára, e infere uma consequencia tal, que obriga a rir. Seguro a V. P. que, tendo lido alguma coiza nesta materia, e tendo observado muito; somente neste genero achei, um sermam Portuguez, que se-pudese ler: aindaque tambem carregava no-silogismo, e intrava bem dentro na Metafizica: mas foi o que vi menos mao.

Mas, colhamos as velas, parece a V. P. que este modo de pregar é louvavel, ou toleravel? parece-lhe, que está fóra da-jurisdisam, de uma arrezoada critica? O nam proporcionar as provas ao auditorio, ou seja dizendo-lhe, o que eles nam chegam a intender; ou falando-lhe com ideias, de que ninguem se-pode persuadir; é erro da-primeira esfera. Temos outro modo de pregar, aos Ebreos idiotas, deixando de parte, toda a verdade especulativa, e servindo-se unicamente, de exemplos sensiveis: os quais, bem discorridos, produzem efeitos, que talvez se-nam-alcansam, com erudisam mui exquizita.

De todos os argumentos, que se-oferecem para persuadir, a extinsam da-Antiga igreja, deve o orador escolher, os menos embrulhados; e persuadilos, com a forsa da-sua eloquencia. Niso é que consiste a arte, em dilatar os argumentos, que nam sam reconditos. A vinda de Cristo ao mundo, é oje bem clara: e para o-ser mais, é necesario ter cuidado, em dispor os-argumentos, e fugir das-sutilezas. Nam á verdade mais notoria, que a existencia de um Deus: e é observasam dos-melhores Filozofos, e Teologos, que os antigos Padres para a-provarem, nam se-serviam de sutilezas inauditas: mas contentavam-se com a prova mais trivial, que é, a existencia do-Mundo, e principalmente deste noso globo terreste. Esta unica prova, bem explicada e esmeusada, convenceo o intendimento umano muito mais, doque nam fizeram, despois do-undecimo seculo, todas as sutilezas dos-Dialeticos: e ainda oje os melhores Filozofos asentam, que só nela nam se-acham sofismas. Isto é ao que nós chamamos, saber conhecer o merecimento das-provas, e saber manejar a eloquencia. Mas os nosos Pregadores, intendem o contrario: e só cuidam em procurar ideias, que a ninguem tenham ocorrido: e por-iso nacem aqueles sermoens, de que o mundo Literario se-ri.

A outra especie de sermoens, em que com mais facilidade, se-dizem despropozitos, sam os Panegiricos de Santos. Esta especie compreende, muitas sortes de sermoens: nos-quais á infinitas coizas, que condenar. Ouvirá V. P. coizas, que cauzam orror. v.g. Devem pregar um sermam de S. Antonio: em que deviam referir, as virtudes do-Santo: ilustrálas com o artificio da-Retorica; para animar os fieis a imitálo. Mas isto, que era a obrigasam do-Panegirista, parece coiza mui trivial, aos Pregadores modernos. Julgariam que ficavam dezacreditados, se-dizesem só esta verdade. É necesario levantar machina: e fazer uma trepesa, composta de mil ridicularias. Dividem pois o sermam, nas-trez partes solitas: em cada uma das-quais prometem provar coizas, que nada tem de verosimel. v.g. Que S. Antonio nam foi omem, mas anjo: e a este seguem-se outros pontos, damesma especie. Concluem pois, que se a Fé nam estudáse cautelas, chegariam a dizer, que se equivocava com Deus. Eu tenho ouvido isto, algumas vezes: e contou-me pesoa de muita autoridade, que ouvira ele mesmo, em certa Cidade do-Reino, propor estes trez pontos: Que o Santo de que pregava, era grande omem: grande anjo: e grande Deus. e que tudo isto avia de sair, do-Evangelho. E segurou-me a dita pesoa, que, ouvindo isto, saîra da-igreja, sem querer esperar polas provas: tam escandalizado ficou!

Lembra-me ao intento, o que escreve um autor, mui acreditado em Portugal. Pregava ele de S. Antonio, com o costumado tema, Vos estis lux mundi: e querendo dizer alguma coiza singular, tirou este asumto: ==Que uma vez que S. Antonio naceo em Portugal, nam fora verdadeiro Portuguez, se nam fora luz do-mundo. porque o ser luz do-mundo nos-outros omens, é só privilegio da-Grasa: nos-Portuguezes, é tambem obrigasam da-Natureza==.Pareceo-me argumento nam só singular, mas inaudito, querer fazer que os Portuguezes, fosem Apostolos por-natureza: muito mais, porque se o Pregador prováse o que prometia, tam longe estava, de fazer ao Santo um Panegirico, que lhe-preparava uma Satira: e desmentia com as suas provas, aquelas singularidades, que queria descobrir no-Santo: pois quando muito se-diria, que pregava de todos os Portuguezes. Com esta opiniam examinei as provas: as quais se-reduziam a isto. Que Cristo constituira os Portuguezes, Apostolos das-Nasoens estrangeiras: e que asim o-prometèra, a El-Rei D. Afonso I. e, como se nam ouvèse, quem negáse tal coiza, chama-lhe verdade autentica. A isto acrecenta, uma profecia de S. Tomé, (nam sei em que archivo a-achou) que os Infieis se-conquistariam na India, com as armas de Portugal: nam com as de ferro, mas com as do-escudo, que sam as Quinas: as quais Cristo, diz ele, deu aos Portuguezes, por-armas. E como S. Antonio era Portuguez, avia conquistar Infieis, como fez: e avia conquistálos com as Quinas: que nam só de Portugal, mas tambem sam as armas, da-minha Religiam.

Pareceo duro ao Pregador dizer, que os Indios se-aviam conquistar com as Quinas, e nam com as espadas: mas a isto, achou ele genuina solusam, na saida que os Ebreos fizeram, do-Egito. Pondéra, que, sendo-lhe proibidas as armas, diga a Vulgata[32]: Armati ascenderunt filii Israel de terra Aegypti==. Examina pois, que armas eram estas: e logo as-acha, no-original Ebreo, que diz: Ascenderunt filii Israel quini, & quini== A sim, diz o Pregador, saîram os Ebreos com quinas; pois esas lhe-servirám de armas, ascenderunt armati. Confirma isto, com as cinco pedras de David, das-quais afirma, que eram as cinco chagas de Cristo, tiradas da-torrente do-seu sangue, com as quais derrubou o gigante. Esta é a virtude das quinas. Por-iso S. Antonio seguio as bandeiras das-quinas, para mostrar que era Portuguez, derrubando com elas, o Filisteo da-Erezia. Até aqui o Pregador.

Esta em sustancia é a primeira prova do-dito sermam; na qual achará V. P. materia, para mil reflexoens. Deixo as istoricas, pois é bem claro, que sam mui ligeiras provas, para afirmar tal paradoxo. Esta aparisam ao Rei D. Afonso: a redoma de vidro cheia de olio, que veio do-Ceo a Clodoveo: e outras destas coizas, que se-acham nas istorias, sam boas para divertir rapazes: e os Criticos as-conservam todas, no-mesmo armario, em que guardam as penas da-Fenix. Mas nam poso perdoar-lhe, a má interpretasam, e aplicasam do-texto. Este autor certamente nam leo o texto Ebreo, ou se o leo, nam o-chegou a intender: porque o texto diz uma coiza, muito diferente, doque ele supoem. É verdade, que o texto Ebreo serve-se de uma palavra,[33] que em Latim quer dizer, Quintati: como se diseramos, de cinco em cinco: mas este modo de falar nam é proprio; é translato, e deduzido do-estilo belico. Donde vem, que explicando os antigos Ebreos, a dita expresam, asentam todos que quer significar, armados. Só diversificam, para explicar particularmente, a forsa da-dita palavra. Kimchi diz asim: Cingidos de armas, na quinta costa. outros explicam: Cingidos com cinco generos de armas. Sepharadi verte: Quinque turmis ascenderunt, sub quatuor vexillis. Nam Moises cum senioribus Israel, in medio quatuor turmarum manebat. Alem diso, todos os omens mais doutos na lingua Ebreia, expondo a dita expresam, despois de porem o termo proprio e literal, que é Quintati, acrecentam, id est, Accinti, Expediti: que é o mesmo que, Armati, Parati. Desorteque com grandisima advertencia, o tradutor da-Vulgata dise, Armati. E quer dizer o Ebreo, que os Israelitas saîram armados, e em fórma de batalha; promtos para acometerem, e se-defenderem. E isto é coiza certa, entre os doutos.

O que suposto, veja V. P. que parentesco tem isto, com as quinas. Alem diso, suponhamos que verdadeiramente se-devia intender, de cinco em cinco: que tiramos daqui para o intento? poderia dizer o texto, que îam quini, & quini: mas nunca dise: ideo armati, quia quini & quini: e é pesima Logica aquela, que de duas coizas sem conexam, tira tal consequencia. Tambem é falso dizer, que os Ebreos saîram dezarmados: quando lemos o contrario: pois nam só as batalhas que deram, mas as obras que fizeram no-campo, mostram bem, que nam só armas, mas toda a sorte de instrumentos, leváram do-Egito. Ja nam falo na aplicasam da-profecia, a S. Antonio: pois se S. Tomè falou das-Indias, que tem isto que fazer, com S. Antonio, que pregou na Europa? Nam falo nas pedras de David, cuja aplicasam tem tanta proporsam, como á entre um, e cinco.

Isto que unicamente disemos, basta paraque V.P. intenda, o conceito que se-deve fazer, de semelhantes sermoens: os quais nada mais sam, que um mero jogo de palavras, sem verdade, nem verosimilidade alguma: e que se-desfazem em vento, quando, se-examinam de perto. Eu parei no-primeiro ponto: avia ainda quatro que examinar: mas eses deixo eu, à sua considerasam. Ora intende V.P. que o Santo fica elogiado, com tal panegirico: que o auditorio ficará persuadido: que o Orador merece ser louvado, por-tal sermam? Sei a resposta que V.P. me-á-de dar, porque sabe dar às coizas, a sua justa estimasam: mas nem todos sam do-seu parecer. e apostarei eu, e V.P. nam mo-negará, que mais gente estuda, polo tal autor, doque pola Escritura, e SS. Padres.

O mesmo autor em outra parte, devendo pregar de S. Bartolomeo, e sucedendo isto em uma Cidade, em que se-estava para eleger, um grande Prelado, que nam tinha conexam com a festa; tomou por-tema estas palavras, de S. Lucas: Elegit duodecim ex ipsis, quos & Apostolos nominavit: e em vez de pregar de S. Bartolomeo, pregou das-obrigasoens das-eleisoens: sem dizer em todo o corpo do-sermam, uma só palavra de S. Bartolomeo. No-ultimo paragrafo, lembrou-se da-sua falta: e, para remediar o cazo, diz mui secamente, que tudo o que disera, se-devia aplicar, ao dito Santo. Porque sendo ele o sexto Apostolo, estava no meio, que é o lugar de mais autoridade: E a razam disto era, porque conrespondendo ele à 6.a pedra da-nova Jeruzalem, que era o Sardio; esta no-Racional de Aram, era a primeira: onde ficava claro, que o sexto Apostolo, devia ser o primeiro. Acha nova semelhansa entre S. Bartolomeo, e o Sardio: porque esta, segundo Plinio, é de cor de carne viva: e conseguintemente, um belo retrato de S. Bartolomeo, que ficou em carne viva, e sem pele. E tornando das-peles vivas, às eleisoens, acaba o sermam, damesma sorte que o-comesou.

Progunto agora: que outra coiza avia ele dizer, se pregáse das-eleisoens? Nam ignora V.P. que os sermoens panegiricos, pertencem ao genero demonstrativo; e quem jamais pode sofrer, que um Orador, que deve elogiar Pedro, faláse de Paulo? Julga V.P. que se-pode chamar justa digresam, nam falar uma palavra no-asumto, para se-meter em materîa alheia; e que por-titulo nenhum pertencia ao Pregador? Mas examinemos ese pouco que diz, de S.Bartolomeo: eu nam acho ali coiza, que nam seja inverosimel. Aquilo de querer, que S. Bartolomeo fose criado Apostolo na 6.ᵃ eleisam, é falso; porque tal nam diz o Evangelho. O que eu acho no-Evangelho é, que Cristo, despois do-jejum de 40. dias, pasando defronte de Joam, e dizendo este: Ecce Agnus Dei: dois seus dicipulos seguîram Cristo: um deles era André, que incontrando de tarde, seu irmam Simam, o-conduzio a Cristo. No-dia seguinte Cristo chamou Filipe: e este, incontrando Natanael, convidou-o para seguir Cristo. Pouco despois, tornando Cristo de Cafarnaum, tornou a chamar Simam, e André; que provavelmente se-tinham apartado de Cristo, para exercitarem o seu oficio: e nunca mais se-apartáram dele: e no-mesmo caminho chamou Jacob, e Joam. Se pois Natanael é o mesmo que Bartolomeo, como alguns doutos modernos[34] conjeturam, com muito fundamento; em tal cazo é o 4.ᵒ eleito: ou o segundo, fazendo outra contra. Se Natanael é diferente de Bartolomeo, como diz S. Agostinho[35], e Gregorio Magno[36], neste cazo devemos confesar, que nam sabemos, quando foi chamado Bartolomeo. O certo é, que o Evangelho nam explica, circunstancia alguma da-sua vocasam, e da-sua vida, com o nome de Bartolomeo. Nem menos da-Istoria temos, como morreo Bartolomeo; avendo grande disparidade de pareceres: aindaque a mais comua é, que morrèse esfolado. O motivo que teve o Pregador foi, ver que em S.Lucas, despois das-ditas palavras, nomeia-se em 6.ᵒ lugar Bartolomeo: e asim intendeo, que foram todos eleitos, naquela ocaziam. Um bocadinho que soubèse mais de Istoria, lhe-pouparia este erro, tam censuravel em um Teologo. Mas aindaque isto asim fose; nam bastava para lhe-chamar, a 6.ᵃ eleisam, por-ser uma só: e muito menos deveria esta circunstancia, dar materia a um sermam.

A outra coiza, que o 6.ᵒ Apostolo fose mais nobre, que o primeiro, é uma ideia nova: o que só poderia intender-se, se puzese-mos os Apostolos em linha, ou dobrase-mos a linha em angulo. Despois diso seguirseîa, nam que o 6.ᵒ era mais nobre que o primeiro: mas sim, que 6.ᵒ e primeiro era o mesmo. E ja em lugar de XII. que entam se-nomeiam, se-reduzem os Apostolos a XI. Tambem aquilo de querer, que S. Bartolomeo seja maior, que S. Pedro, nam sei se se-pode sofrer. Mas pior que tudo é o cazo, da-pedra Sardio. Se esta, por-ser de cor de carne, se-chama carnerina, tanta semelhansa tem com Bartolomeo, como com os mais Apostolos: porque todos eram de carne, e carne vivente. Mas o noso Pregador fundou-se na palavra, viva: que aplicada à carne, significa em Portuguez, (mas nam na lingua de Plinio) carne sem pele: e daî é que tirou o pensamento: que, como asima dizia, se-reduz, a um mero jogo de palavras. Este é o costume destes Pregadores: quando se-examinam as suas provas, com sangue frio; nada mais sam, que um mero trocadilho de palavras, sem verdade, nem ainda verosimilidade: sem a qual é certo, que ninguem se-pode persuadir. Ora eu podia citar destes exemplos, a milhares, e sem sair do-mesmo Pregador: mas é coiza enfadonha, e tambem escuzada, para quem, como V. P., tem tanta pratica destes panegiricos.

Se o panegirico é de N. Senhora, parece a estes tais, que nam á coiza, que nam seja licito dizer, em obzequio seu: Sem advertirem, que a Santisima Virgem, se-daria por-mais bem servida, sem tais sermoens, com a simplez relasam, das-suas grandes virtudes. O pior é, que á autores, que fomentam estes sermoens, com livros bem grandes compostos ao intento, a que chamam conceitos predicaveis. Os Espanhoes abundam muito disto: e ajuntam uma infinidade de paradoxos, que cuidam provar, com algumas expresoens figuradas, que se-acham nos-SS. Padres. Achei um Espanhol, chamado Bartolomeo de los Rios, que compoz um groso volume, todo tecido destas iperboles. Ele prova, que N.Senhora é meza do-Sacramento: é pam: é vinho: é Cristo em carne. finalmente diz tanta coiza insolita, que nam sei como puderam vir à imaginasam, de um omem prudente. E tudo isto tira de umas iperboles, de S. Anselmo, Bernardo, e alguns asceticos mais modernos. Estranho modo de provar! servir-se das-figuras de que uzáram os Padres, separálas do-contexto, para provar uma propozisam absoluta. Se valèse esta Logica, e Retorica, com as mesmas palavras da-Escritura, se-poderia provar muita coiza falsa, e ridicula. Nós temos em S.Joam, uma iperbole bem famoza.[37] Sunt autem & alia multa, quæ fecit Jesus: quæ scribantur per singula, nec ipsum, arbitror, mundum capere posse eos, qui scribendi sunt, libros==. Quem daqui quizese provar mui seriamente, que uma livraria grande como o Mundo, nam compreenderia, todas as asoens de Cristo, serîa louco: porque todos os Padres intendem o texto, iperbolicamente: e a Escritura abunda muito, destas expresoens. O mesmo digo, das-expresoens figuradas dos-Padres. Comque, semelhantes autores sam a origem, de todos estes danos: porque os ignorantes, que nam sabem distinguir o branco do-negro, servem-se de semelhantes livros, como de oraculos.

Mas, sem buscar exemplos de longe, tornemos ao meu Pregador asima, e verá V.P. provas bem eficazes, do-que lhe digo. Pregava ele da-Asumsam da-Senhora, na igreja de N. S. da-Gloria; com o tema, Maria optimam partem elegit. Protesta em primeiro lugar, que nam lhe-agrada coiza alguma, do-que tem dito os PP. e Expozitores todos: e que quer, coiza mais fina. Os Padres o mais que diseram foi: Que Maria escolheo a maior gloria, entre todos os bemaventurados. o noso Pregador parecendolhe, que, dizendo aquilo, diziam uma bagatela; sobe de ponto, e diz: Que a comparasam de gloria a gloria, nam se-deve fazer só, entre a gloria de Maria, e a gloria de todas as outras criaturas umanas, e angelicas: senam com a gloria do-mesmo Criador delas, a quem Maria criou. A palavra optimam (continua ele) a tudo se-estende: porque sendo superlativa, poem as coizas no-supremo lugar: do-qual se-nam-exclue Deus, antes se-inclue esencialmente. Neste tam remontado sentido pertendo provar, e mostrar oje, que a gloria de Maria, comparada com a gloria do-mesmo Deus; e fazendo da-gloria de Deus, e da-gloria de Maria, duas partes; a melhor parte, é a de Maria==. Até aqui o Pregador.

Bastava a propozisam do-asumto, para provar o que digo: mas peso a V. P. um bocadinho de sofrimento, para ouvir a expozisam, e a primeira prova. Aindaque a gloria de Deus, (diz ele) é infinitamente maior, que a de Maria; a melhor parte que pode escolher uma maen é, que a gloria de seu filho seja a maior. Como Maria é maen de Deus, e Deus filho de Maria; mais se-gloreia a Senhora, de que seu filho goze, esa infinidade de gloria, doque se a gozára em si mesma. E daqui se-segue, que considerada a gloria de Deus, e a gloria de Maria, em duas partes; porque a parte de Deus é a maxima; a parte de Maria é a otima==. Posto isto, prova com Seneca, Ovidio, Plutarco, e Claudiano, que os Filhos podem vencer os Pais, em beneficios, e em gloria: e que isto é, o que mais deve dezejar um Pai. De que conclue: Que se entre a gloria de Deus, e de sua maen, fora a escolha da-mesma Senhora, o que a Senhora avia escolher para si é, que seu Filho a-excedèse, e vencèse na mesma gloria; como verdadeiramente a-excede e vence==. Despois disto produz alguns Padres, que, escrevendo a diversas pesoas, dezejavam, que os Filhos deles excedesem aos proprios Pais: traz outros exemplos da-Escritura; e conclue com uma prova teologica, que diz o contrario, do-que ele quer provar. Este o sermam em breve: no-qual nam á pouco, que observar.

Primeiramente o asumto que tira é tal, que se tivese a infelicidade, de o-provar direitamente, dizia uma erezia. cauza orror somente ouvir propolo. A explicasam é pior, que o mesmo asumto. N. Senhora nam podia escolher uma coiza, emque nam entra liberdade: como é, ser a gloria de um tal filho maior, que a da maen: porque iso era necesario. Teve a Senhora liberdade para aceitar, ou nam aceitar, o ser maen de Cristo: mas nada, de liberdade, sobre a gloria. Na supozisam imposivel, que à Senhora desem a escolher, o tomar para si a gloria toda do-Filho; ou contentar-se de ter um filho, que a-tivese asim; eu nam sei o que a Senhora diria: nem pertence ao Pregador, advinhálo. É verosimel, que a Senhora nam deixaria de escolher para si, uma gloria de tanta dignidade. Mas de supozisoens imposiveis, que omem prudente tirou jamais, consequencias absolutas? Fica logo claro, que aqui nam ouveram, duas partes de gloria: entre as quais a da-Maen fose maior, que a do-Filho. E quanto a estas sutilezas metafizicas, nam provam, nem concluem coiza alguma, quando se-á-de persuadir, alguma coiza verdadeira.

Quanto à prova teologica, é ela tal, que me-envergonho saise da-boca, de quem estudou Teologia. Propoem as palavras de S. Paulo[38]: Non rapinam arbitratus est, se esse æqualem Deo: sed semetipsum exinanivit, formam servi accipiens, in similitudinem hominum factus, & habitu inventus est ut homo. propter quod & Deus exaltavit illum: & dedit illi nomen, quod est supra omne nomen==. Daqui deduz, Que recebeo o Filho do-Pai, por-verdadeira e propria eleisam, o oficio e dignidade de Redemtor do-genero Umano, fazendo-se juntamente omem: e com esta nova, e inefavel dignidade, recebeo um nome sobre todo o nome, que é o nome de Jezus: mais sublime e veneravel, polo que é, e polo que significa, que o mesmo nome de Deus: In nomine Jesu omne genu flectatur. Recebeo a potestade judiciaria: Pater non judicat quemquam: sed omne judicium dedit Filio. Recebeo o primeiro trono, entre as pesoas da-SS. Trindade: Dixit Dominus Domino meo, sede a dextris meis. Se pois o Padre podia tomar tudo isto para si, porque o-nam-tomou todo? por-nenhuma outra razam, senam porque era filho.... intendendo, que quando fosem de seu filho, entam eram mais suas: e que mais e melhor as-gozava nele, que em si mesmo==. Sam palavras do-Pregador. Aplica isto à Senhora, e conclue, Que por-iso elegeo a melhor parte: Maria optimam partem elegit.

Nam me-quero demorar muito neste exame, porque serîa nunca acabar: direi somente de pasagem, que o noso Pregador com todo este discurso desfaz, quanto pertendèra mostrar. Concedamos-lhe tudo de barato, e que o Filho teve maior gloria que o Pai. &c. progunto: ou daqui se-segue, que desa maior gloria do-Filho, rezultou no-Pai maior gloria, doque tinha o Filho, ou nam? Se rezultou maior gloria; ficam desmentidas todas as provas do-Pregador, com que quer mostrar, que o Filho excede ao Pai, na gloria. Se nam rezultou maior gloria; nunca se-pode dizer, que o Pai escolheo meliorem, immo & optimam partem. paraque serve pois toda aquela arenga, se nam á-de provar, o que quer? De toda esta metafizica pois, com que o Pregador enche o sermam, o que se-segue é, que se-contradiz a si mesmo.

Mas quem poderá admetir, as provas do-Pregador, tomadas literalmente, como ele as toma? Em primeiro lugar é falso, que o Pai dèse ao Filho, com propria eleisam somente sua, a grandeza de Redemtor: porque sendo a Incarnasam, obra ad extra, como lhe-chamam os Teologos, todas as trez pesoas com uma unica vontade, concorrèram para ela. E isto nam sam Teologias exquizitas: mas os primeiros elementos da-Fé. Polo contrario, o noso Pregador supoem mui distintamente, que o Pai tinha uma vontade, e o Filho outra: porque sem esta supozisam, nam corre o argumento. E semelhante supozisam, nam sei como os Qualificadores a-deixáram pasar. Em-segundo lugar é falso, que o nome de Jezus seja maior, que o nome de Deus. Aquele supra omne nomen nam se-intende, compreendendo o nome de Deus. É falso, que o Pai abjudicase de si, a potestade judiciaria. É falso, que o Filho tenha o primeiro trono, entre as pesoas da-SS. Trindade. Todos aqueles textos, se-devem intender, com seu gram de sal, segundo a expozisam dos-antigos Santos, e doutrina da-Igreja. É falso finalmente, que a gloria do-Filho, que lhe-rezulta da-redemsam, seja maior que a do-Pai. Ora tudo isto era necesario, que fose verdade, paraque a paridade fose boa, e prováse, o que o Pregador queria.

Alguns me-respondèram ja, que as palavras dos-textos mostravam, o que o Pregador dizia: e que nos-sermoens nam se-deve procurar, rigor teologico. Esta é a cantilena comua, destes apaixonados por-tais sermoens. A isto ja respondi varias vezes, e nesta mesma carta. O que dalî se-segue é, que tais sermoens sam trocadilhos de palavras: e que páram na superficie, sem profundarem o sentido. Semelhantes nisto a outro sermam, que eu li, em que o autor, para provar a negrura da-Morte, trazia o texto: Lanarum nigræ nullum colorem imbibunt. como se bastáse alguma semelhansa de palavras, para provar pensamentos graves! Tambem é falso dizer, que nos-sermoens nam se-deve buscar, rigor teologico. Eu intendo por este nome, verdade teologica: e suposto isto constantemente defendo, que nenhum sermam se-deve tolerar entre Catolicos, que tenha propozisoens contrarias, à dita verdade. As ampliasoens, as iperboles, as delicadezas, podem ter lugar nas orasoens: mas devem ser de outra qualidade, que as que aponto. Eu deixei o sermam quazi no-fim, em que avia outro pensamento, bem galante: mas nam tenho tempo, para me-demorar tanto, com estas coizas. Do-que até aqui tenho dito, cuido ficará V.P. persuadido, do-que afirmo, se quizer ter o trabalho, de ajuntar as minhas reflexoens, com a leitura do-tal sermam. * * *

Esta materia de panegiricos é tam ampla, que serîa necesario um grande volume, para tocar levemente, o que lhe-pertence. Acham-se porem outros panegiricos, que rigorozamente o-sam, e eu considero divididos, em varias clases. Compreende a primeira aqueles, que tratam de varias asoens de Cristo, como Mandato, Sacramento, Resurreisam, Acensam &c. Aqui é onde os Pregadores lambicam o ingenho, para dizerem coizas mui singulares: e aqui é onde se-mostra, a quinta esencia de toda a sutileza. Aquele, Cum dilexisset suos, in finem dilexit: tem-se espremido de tantas maneiras, que eu ja nam sei, que coiza boa pode botar de si: e Pregador conheso eu, que, aplicando o texto a mui diferente asumto, em lugar de pregar de Cristo, pregou de si. Nas provas porem concordam estes sermoens, com os antecedentes, com a unica diferensa de mais, ou menos. Sobre o da-Resurreisam, ja se-sabe, que os melhores Pregadores dizem suas galantarias, e nam poucas parvoices, improprias daquele lugar, e da-materia que tratam: como tambem pouco decentes, a qualquer outro lugar sezudo. Ajunto a esta, outra quinta especie de sermoens, tambem panegiricos, que sam os louvores de algumas obras pias, como Publicasam do-Jubileo, Obras de Mizericordia, Procisoens &c. Estes ja sabemos, que sem profecia nam podem pasar: porque como ja dise a V. P. muitas vezes, este é um pecado nacional destes paizes, para o qual ainda até aqui, nam ouve redemsam. Com o que asima dise dos-outros, pode-se intender o que se-deve dizer destes. o defeito é geral: e asim a resposta sempre é a mesma.

Quanto aos sermoens das-Domingas de Quaresma, e Misoens, devo confesar, que tem menos defeitos, que os outros: porem sempre conservam os esenciais. Tambem neles (de Quaresma) á sutilezas, asumtos impropriisimos, pesima dispozisam de provas, e outras coizas destas. O que verdadeiramente nam poso sofrer é, que estes seus Pregadores Portuguezes, procurem singularizar-se, com esquipaticos asumtos, nos-mesmos sermoens da-Quaresma. O Pregador da-menhan, dizem que explica o Evangelho: o de tarde, toma um asumto mais geral, que distribue em sinco Domingas, sem se-sugeitar ao Evangelho do-dia. Aqui pois move a compaixam ouvir, o que alguns excogitam, e quanto trabalham para descobrir na Escritura, um numero de cinco, que seja acomodavel, ao dito asumto. Uns, vam buscar, as cinco pedras de David: para atirar ao auditorio, uma seixada espiritual cada Dominga. Asumto improprio, e só coiza digna de um menino, que nam intende, o que é eloquencia: sendo certo, que dezemparam logo o seixo, para falarem em outra materia. Outros, vam buscar no-Cardial Ugo, que afeta ser moral, e misteriozo, algumas palavras gerais, que posam calsar às cinco Domingas. Tudo isto sam arengas: mas estes ainda sam mais toleraveis. Os que eu nam poso sofrer sam, os que, saindo fora do-numero de cinco, por-se-quererem singularizar dos outros, tomam ideias mais improprias. Tal foi um Pregador de boa fama, que ouvi, o qual tomou por-asumto, explicar o Racional de Aram, ou aquele pano que trazia o Sumo Sacerdote dos-Ebreos, no-peito, em dias de funsam, com doze pedras preciozas cravadas, em que estavam esculpidos, os nomes das-doze tribus. Este titulo de sermam agradou muito, aos que tem o juizo nos-cotovelos, que sam os mais. Concorri eu tambem, para ouvir o sermam, porque cazualmente naquele dia, achava-me na dita Cidade: e como ja se-falava muito nas tais Domingas, que foram pregadas em outra parte, fui ouvir, que asumto tirava do-Racional: e como acomodava as doze pedras, com as cinco Domingas. Com efeito o meu bom Pregador, escolheo entre as pedras, as que lhe parecèram, e regeitou as outras. Galante modo de explicar, o Racional de Aram! Do-sermam nada digo, porque a coiza fala de si. Saindo eu para fora, incontrei um Religiozo da-Companhia meu amigo, e um dos-omens de melhor juizo, que eu tenho cá visto; o qual apertando-me a mam, me-dise: Amigo, o Racional é uma peste: o pobre Aram nam esperava, que o-tratasem tam mal: e concluio dizendo, que tudo aquilo era uma parvoise.

Com efeito eu nam acho, que proporsam tenha uma coiza, com outra: ou para que ei-de ir buscar um titulo, que nada tem que fazer, com o sermam. Nam sei como estes Pregadores ingenhozos, nam tem buscado, os cinco escudos das-armas de Portugal, ou as cinco quinas: em que se-podia dizer, muita coiza boa. Nam sei como nam se-tem apegado, às cinco torres de Lisboa, a de S.Giam, do-Bugio, de Belem, a Torre Velha, e o Forte da-caza da-India: daqui podiam sair muitos tiros espirituais, e se-podia dizer, muita coiza bonita. Nam sei como nam explicam, os cinco dedos da-mam, e mil outras coizas, que se-podem compreender, debaixo desta ideia de cinco.

Mas, a falar a verdade, tudo isto sam rapaziadas: e os que procuram estes asumtos, nam sabem o seu oficio, nem de que cor é, pregar. Eu intendo que o Pregador de tarde, deve tirar do-Evangelho, um asumto proprio para o auditorio. Nem me-digam, que o de menhan ja explicou o Evangelho. os que asim falam, nam sabem que coiza é Escritura. O mesmo Evangelho, pode dar infinitos asumtos. Nam é necesario, que todos se-sirvam das-mesmas palavras: podem-se escolher outras: procurar os SS. Padres, e tirar um asumto proprio: para iso servem os Expozitores. Na quinta Dominga de Quaresma, todos se-servem das-palavras: Se Veritatem dico vobis &c e pregam da-Verdade em geral. Um omem que eu conheci, pregando em um Convento de Freiras, tomou as ultimas palavras: Tulerunt ergo lapides ut jacerent in eum. Jesus autem abscondit se, & exivit de templo. Daqui tirou este asumto: Que Cristo nesta asám quizera ensinar-nos, com quanta diligencia devemos fugir, de profanar os Templos. porque nam só se-escondeo Cristo: mas fugio. Com a primeira asám, evitava a profanasam com a obra, impedindo a morte: com o sair, evitava a profanasam com a intensam, fugindo da-prezensa de omens; que ainda conservavam os dezejos, de o-profanar. Acomodou isto ao intento, mostrando, quanto Deus abominava, a profanasam dos-Templos. Nam avia asumto mais proprio, ao lugar: porque nam avia lugar mais profanado com asoens, e intensoens pecaminozas. Este era um asumto novo: nam sutil, e ridiculo; mas verdadeiro, e mui proprio: E isto chama-se pregar: o mais, é falar de alto. Quem tem ingenho, e leitura, pode tirar infinitos asumtos, do-mesmo Evangelho, acomodados ao seu cazo.

Mas quando o Pregador nam quizese, servir-se do-Evangelho, pouco importaria: bastava que escolhese um Vicio, para o-condenar, em cada Dominga, digo dos-que mais reinam naquela Cidade. Porque os sermoens de Quaresma, sam rigoroza misam: e se-deve buscar, argumento proprio para isto. Quero ainda conceder, que cada um destes cinco sermoens, deva ter relasam, com os outros, e compor um corpo de doutrina: digo ainda neste cazo, que é fácil a um omem de juizo, buscar um argumento natural, e solido, que se-posa dividir em cinco partes; para explicar cada parte, em sua tarde: Sem dizer ridicularias e sutilezas; mas coizas, verdadeiras, utis, e graves: e aplicando sempre o sermam, à necesidade do-auditorio. Este é o defeito geral, da-maior parte destes Pregadores, que comumente se-servem de ideias gerais, que nam calsam bem ao auditorio; e de que nam se-tira fruto algum: pois tam ridiculo é, falando a omens doutos, querer-lhe explicar, as pesoas da-Trindade &c. como falando a pesoas ignorantes, servir-se de ideias especulativas; ou, falando às Freiras, pregar da-politica de Machiavelo, e aos Rusticos, do-Principium quo in divinis: da-Existencia definitiva e circunscritiva na Eucaristia &c. como eu ja ouvi a alguns pregadores, e mestres. A isto chama-se, nam saber o decoro, quero dizer, nam saber tratar a materia, nem aplicar os argumentos aos ouvintes: coiza que condenam os Retoricos[39].

Tambem notei em certos Pregadores, alem dos-ditos, certos defeitos, que nam sam de pequena considerasam. Omens á, que aplicam os sermoens, às suas particulares intensoens; e em lugar de pregarem, do-que devem, pregam de si: E como o tema nam dá para isto, dezempáram logo o asumto, para meterem outros pensamentos mui alheios: e querendo dizer tudo, nam dizem coiza que valha. Alguns, despedem-se no-sermam, das-pesoas suas conhecidas: * * * outros, fazem satira aos Prelados, ou ao governo politico da-Cidade &c. ou, a pesoas particulares, ou aos seus mesmos ouvintes. E neste ultimo ponto, nam só caiem os ignorantes, mas pola maior parte, os de maior doutrina, e prezumsam: e por iso às vezes as provas, sam tam arrastadas, que é uma piedade ouvilos. Eu quero conceder de barato, que seja verdade o que dizem: mas nam é aquele o seu lugar: e sempre tem promto o argumento: V. P. foi chamado para pregar disto, e nam daquilo. Este nam é pequeno defeito de Retorica: pois é alienar os animos dos-ouvintes: de que se-segue, nam se-poder obter a persuazam.

Estes sam os defeitos mais gerais, mas comuns, de todos estes seus Pregadores. Dos-quais se-conclue claramente, que lhes-falta a principal parte da-Retorica, que è a Invensam: da-qual falta nacem, todos os outros defeitos, que impedem o bom gosto da-eloquencia. Criados desde a primeira mocidade, com aquele pesimo estilo, de buscar conceitos exquizitos, e dividir a orasam em tantas partes, quantos eles sam; perdem os melhores argumentos, que lhe-dariam materia, para tecer uma orasam continuada; que persuadise o auditorio, e fose digna de se-ouvir. Nam reprovo as divizoens, quando sam necesarias, e a materia as-pede: reprovo sim muito, o acomodar a materia às divizoens, para fazer a costumada trepesa.

Desta falta, de nam saber buscar as provas, nace a segunda, e tam importante, da-Dispozisam. Pois nam tendo argumentos proprios, nam podem dispolos em maneira, que formem uma orasam unida: na qual o exordio, ou seja unido, ou separado, forme um perfeito corpo com o todo: e em que as partes observem, a sua justa proporsam, e tal, que umas sirvam de aclarar as outras: e conduzam para o fim, de persuadir o que se-quer. Desta mesma falta nace, a da-Locusam: sendo certo, que quem nam acha um argumento, acomodado ao que quer, mas vai buscando sutilezas; nam incontra com palavras proprias, para expremir um pensamento sezudo, e nobre: nem acha aquelas que sam necesarias, para ornar com armonia os pensamentos; desorteque fasam uma orasam armonioza, e agradavel, sem ser afetada: o que nam tem pouca dificuldade[40]. De que vem, que comumente enchem o discurso, de mil tropos e figuras, fóra do-seu lugar; que mostram, o pouco talento do-Pregador, e a ignorancia, da-sua propria lingua. Nace daqui tambem, nam saber escrever uma carta, ou formar qualquer outro discurso, que posa persuadir. Finalmente nace, o nam saber discorrer com propriedade, em materia alguma. Leia V. P. as cartas que se-acham de Frei Pedro de Sá, e Frei Lucas de Santa Catarina, e outros semelhantes: leia os seus discursos: e verá, que cartas, orasoens, sermoens &c. tudo é o mesmo. Nam se-acha mais, que equivocos, palavras sem significado, pensamentos inverosimeis, encarecimentos inauditos, em uma palavra, uma lingua nova, que serve para toda a sorte de asumtos, sem distinsam. Os ignorantes gostam muito disto, e copeiam esta sorte de papeis, com todo o cuidado, e acumulam quantos podem: mas os que verdadeiramente intendem a materia, nam podem menos que rir-se, de tais escritos; dos-quais toda a alma cristan deve fugir, como contrarios, à boa eloquencia. A razam de tudo isto é a mesma: porque quem bebe aquele estilo, de sutilezas, afetasoens, e singularidades; nam sabe distinguir os estilos, proprios dos-diversos argumentos, que se-lhe-oferecem: e asim nam sabe, nem pode fazer coiza boa, nem chegar a persuadir ninguem.

É uma prova manifesta disto, a infinita distancia que eles poem, entre sermam funebres na Igreja, e orasam funebre na Academia. Nesta nam á tema: comumente nam á divizam de pontos: nam á textos da-Escritura: á menos sutilezas: e acha-se um discurso continuado, ainda-que cheio de mil impropriedades, e ridiculos encarecimentos: No-outro acha-se tudo o contrario. De que provèm esta grande mudansa? eu o-direi: De nam saber, o que é Retorica: porque os preceitos em ambas as partes, sam os mesmos. No-pulpito, poso uzar de mais asám do-corpo; e animar com a voz o discurso: na-academia recito com mais brandura. Mas o papel em ambas as partes é o mesmo: e doque se-faz na academia, podiam eles inferir, o que devem fazer no-pulpito.

Porem aqui me-parece, que ouso dizer a V. P. que ja que apontei os defeitos, aponte o modo de os-emendar. Mas isto; P. muito reverendo, nam é negocio que se-posa fazer, com tanta brevidade, pois pediria um tratado inteiro. O que tenho dito, bastava para um omem de juizo: e a lisam dos-bons autores, completaria tudo. Contudoiso, para obedecer a V. P. nam deixarei de fazer alguma reflexam, adquerida parte com a lisam dos-outros, parte com a minha propria experiencia, e reflexam: as quais V. P. aplicará, aos cazos particulares. Mas como isto pede mais tempo, quero rezerválo para outra carta: e acabo esta, com pedir a V. P., me-conserve na sua grasa. Deus guarde &c.