NOTAS DE RODAPÉ:
[30] Quia nonnulli Sacrarum scripturarum verba & sententias, ad profana quæque detorquent; ad scurrilia, scilicet, fabulosa, vana, adulationes, detractiones, superstitiones, impias & diabolicas incantationes, divinationes, sortes, libellos etiam famosos: ad tollendam bujusmodi irreverentiam, prohibet S. Synodus, ne quisquam quomodolibet verba scripturæ Sacræ ad hæc, & similia audeat usurpare: atque bujusmodi temeratores & violatores verbi Dei, juris & arbitrii pœnis per Episcopos coerceantur. Trident. Sess. I.
[31] Diodor. Sic. l. 1. sect.2.
[32] Exodi XIII. 18.
[33] חמשים
[34] Rupert. in Johann. I. = Tostat. in Matth. X. = Jansen. = Alapide Harm. in Johann. I. &c.
[35] Aug. in Johann. Homil. 7. & in Ps. 65.
[36] In Job. XXXII. 15.
[37] XXI. 25.
[38] Ad Philipp. II. 6.
[39] Est autem quid deceat oratori videndum, non in sententiis solum, sed etiam in verbis. Non enim omnis fortuna, non omnis honos, non omnis auctoritas, non omnis ætas, nec vero locus, aut tempus, aut auditor omnis, eodem aut verborum genere tractandus est, aut sententiarum: semperque in omni parte orationis, ut vitæ, quid deceat, est considerandum: quod in re de qua agitur positum est & in personis eorum, qui dicunt, & eorum, qui audiunt =. Cicer. Orat. num. 21.
[40] Atque illud primum videamus, quale sit, quod vel maxime desiderat diligentiam, ut fiat quasi structura quædam, (verborum) nec tamen fiat operose: nam esset cum infinitus, tum puerilis labor. Cicer. Orat. num. 44.
CARTA SEXTA.
SUMARIO.
Continua-se a mesma materia da-Retorica. Fazem-se algumas reflexoens, sobre o que é verdadeira Retorica, e origem dela. Que coiza sejam figuras, e como devemos uzar delas. Diversidade dos-estilos, e modo de os-praticar: e vicios dos-que os-nam-admitem, e praticam. Qual seja o metodo de persuadir. Qual o metodo dos-panegiricos, e outros sermoens. Como se-deve ensinar Retorica aos rapazes, e ainda aos mestres. Algumas reflexoens, sobre as obras do-P. Antonio Vieira.
Nam intenda V. P. que ei-de faltar à promesa: pois nam só com promtidam, mas com muito gosto executarei nesta carta, o que prometi na ultima: e direi o como se-devem intender, as coizas que dise, para emendar os defeitos, que nestes Retoricos vulgares s’incontram: e que eu apontei na carta pasada. Digo pois, que o primeiro, e mais importante ponto que deve advertir, quem quer formar, o bom gosto literario, é, fugir totalmente destas Retoricas comuas, nam só manuscritas, mas tambem impresas. Estou persuadido, que elas sam a primeira ruina dos-estudos: porque inspiram mui maos principios, e nam ensinam o que devem. Ouso louvar muito nestes paîzes, o Candidatus Rhetoricæ do-P. Pomei, o Ariadne Rhetorum do-Juglar &c. e mestres conheso eu, que nam tem mais noticia da-Retorica, que a que dá o dito livro, ou outro semelhante. Isto porem é mera iluzam: porque para nam saber nada, nam á melhores livros, que os ditos. Estes, e outros tais autores, fazem uma enumerasam das-partes da-Retorica, mui seca e descarnada. propoem mil questoens, e nam rezolvem nenhuma bem. todo o livro consiste em divizoens, e subdivizoens, que enfadam antes de s’intenderem. Mas o pior é, quando ensinam a servir-se, dos-lugares Retoricos: quando mostram os diversos modos, de ampliar um argumento: dizem mil coizas inutis, e que mais facilmente s’aprendem, lendo os bons autores, que estudando as tais observasoens.
Este em carne é o defeito, em que caiem os Logicos Peripateticos, quando se-dilatam muito, sobre a fórma silogistica, e ponte dos-asnos: despois de dizerem muito, sam obrigados a reconhecer, que nada daquilo serve, para coiza alguma: e que na pratica do-argumentar, nam só sam inutis, mas até imposiveis as tais regras. Nam achei até aqui Peripatetico algum, que, devendo em algum ato publico, provar de repente alguma propozisam, que lhe-duvidasem; se-servise de tal metodo: nem menos achei omem algum, que, senam intendeo, e estudou bem a materia, que á-de tratar; servindo-se unicamente dos-lugares Retoricos, fizese coiza capaz. Chama-se perder inutilmente o seu tempo, querer ensinar todas aquelas arengas: das-quais unicamente rezulta, a desvanecida opiniam de uma ciencia, que nam tem. Os rapazes que estudáram aquilo, persuadem-se, que sam Retoricos da-primeira esfera: que podem, com a ajuda de quatro adjetivos e sinonimos, e quatro descrisoens afetadisimas, arengar de repente, em qualquer materia. Intendem, que nam á orasam, que nam observe a dispozisam, que eles lem na sua Retorica. julgam, que nam á discurso oratorio, sem todas aquelas mexerofadas. Finalmente, como nam lhe-explicam, o verdadeiro uzo da-Retorica, e artificio da-verdadeira eloquencia; persuadem-se, que só nos-discursos academicos, tem ela lugar. De que nace, que despois de perderem bem tempo nas escolas, a que chamam de Retorica, ficam totalmente ignorantes dela.
Isto suposto, é necesario desterrar uma, e admetir outra sorte de Retorica. Ja asentamos, que a Retorica deve ser em Portuguez, para os que nacèram em Portugal: porque, asim s’intendem os preceitos: e na sua mesma lingua se-mostram, os exemplos. Nam avemos de carregar os rapazes, com dois pezos: intender a lingua, e intender a Retorica: tambem nam avemos fingir os Omens, como nam sam; imaginando rapazes mui agudos, e espertos. Tudo isto é iluzam. Os rapazes sam de diversas capacidades: e muitos sam rudes. comumente aprendem Retorica, quando ainda nam intendem bem Latim. E asim, é necesario falar-lhe em Portuguez: muito mais, porque ou queiram ser Pregadores, ou Advogados, ou Istoricos &c. tudo isto se-faz cá em Portuguez: e é loucura ensinar em Latim uma coiza, que pola maior parte, se á-de executar, em Vulgar. Esta é a primeira regra do-Metodo, facilitar a inteligencia. Nam tenho até aqui visto, (pode ser que aja) Retorica Portugueza impresa. Certo sugeito mostrou-me á tempos, alguns apontamentos que fizera: mas nam mereciam o nome de Retorica. tenho visto varios livros de conceitos: mas nam era coiza, que merecese ler-se. Sei porem, que atualmente se-copeia, uma Retorica Portugueza, que me-parece propria para formar, o bom gosto da-Eloquencia. Um amigo meu mui particular a-compoz, para uzo seu. pedio-me noticia, dos-melhores autores nesta materia: e deles copiou, o que conconduzia, para o seu intento. uzou comigo a amizade, de consultar-me na dispozisam dela. teve a moderasam de ouvir, e nam desprezar, as minhas reflexoens. cuido que felizmente conseguio, o seu intento: devo fazer esta justisa, à sua grande capacidade. Nam sei, se a-determina divulgar: o que se puder ser, procurarei de a-comunicar a V. P. seguro, de que nam lhe-dezagradará. Mas, tornando ao fio das-minhas reflexoens:
Ja dise ao principio, que sendo a Retorica, arte de persuadir, tinha lugar em todo o discurso, que seja proferido com este fim. Doque se-segue, que a Retorica tem tanta extensam, quanta qualquer lingua: o que muitos nam intendem, ainda dos-que lem as Retoricas. Parece paradoxo a muitos, destes enfarinhados nos-estudos, dizer-se, que n’uma carta, que é escrita com estilo simplez; n’uma Poezia, na Istoria, e n’um discurso familiar &c. deve ter lugar a Retorica. E isto provèm de intenderem, que a Retorica consiste, em figuras mui dezuzadas, tropos mui estudados &c. e asim parece-lhe, que nam se-caza uma coiza com outra. Mas por-pouco que estes tais, examinasem a materia; conheceriam, que tudo se-deve tomar, em diverso sentido.
Nam á lingua neste mundo, tam fecunda de palavras, que posa expremir, todas as ideias do-intendimento: A fecundidade que tem a mente, em formar conceitos, e a facilidade com que de uma mesma coiza, fórma infinitas ideias, é tal; que pode empobrecer, todas as linguas do-mundo. Seriam necesarias muitas palavras, para um omem poder dizer sofrivelmente, o que intende. Mas isto pediria tempo infinito, e o comercio umano se-faria insoportavel. Conhecèram os Omens muito bem isto, e cuidáram em lhe-pór o remedio. Daqui naceo a necesidade de servir-se, de algum modo de expremir, que, aindaque nam diga tudo, excite diversas ideias no-intendimento, e poupe o trabalho, de proferir muitas palavras. A experiencia mostrou, que as nosas ideias tem uma certa uniam, com que mutuamente se-ajudam: proferida uma das-quais, todas as outras se-aprezentam. Isto asim posto, os Omens souberam aproveitar-se, desta experiencia; e comesáram a servir-se de um nome por-outro, para poder excitar a ideia, do-que queriam. Um nome que significava uma coiza, aplicou-se para significar outra; e se-transportou da-sua significasam propria para outra, por-cauza de certo respeito, ou relasám, ou ordem, ou nexo, que uma coiza tem com outra. A isto chamáram Tropo, palavra Grega, que significa transpozisam: e estes modos de falar, chamáram-se Figuras: as quais podem ser infinitas: mas os Retoricos as-reduzîram a pequeno numero, contando as mais uzuais: e destas se-faz memoria, nas comuas Retoricas, com diversos nomes.
Estes Tropos, Metaforas, ou Metonimias, que significam o mesmo, tem grande uzo, e sam necesarias em todas as linguas, e ornam muito: nam só porque encurtam o discurso, e fazem mais gostoza a conversasam; mas tambem porque exprimem melhor, o que se-quer dizer, doque outras palavras. Diz mais às vezes, uma só metafora, que um longo discurso: e com uma só palavra, é mais bem intendido um omem, doque com a fecundidade de infinitas. Quem ouve dizer, que Alexandre era um raio da-guerra; a ideia do-raio, que é uma coiza sensivel, exprime bem o grande poder, com que este omem sugeitava tudo: a velocidade das-suas conquistas: o eco das-suas vitorias; que atroava tudo, e ainda as mais remotas Nasoens. Este justamente é o carater de Alexandre: como ja a Escritura tinha delineado. Uma só ideia excita mil outras, ao intento. E como os Omens estam acostumados, a estas imagens sensiveis; os tropos que delas se deduzem, valem infinito. Apenas o comum dos-Omens pode intender, e julgar de outra sorte.
Sam boas, asim é: mas o uzo é que as-faz racionaveis: quero dizer, que se-devem uzar em tempo, e lugar proprio, e quando o discurso o-pede. O que nam advertindo os ignorantes, servem-se pouco sabiamente das-Figuras; e com muito estudo, falam bem mal. Nam á maior beleza em uma cara, que os olhos: mas se um rosto nacèse com mais de dois; se chegáse a ter meia duzia, serîa um monstro. Deve aver figuras: mas á-de aver proporsam, eleisam, dispozisam: ou seja no-discurso familiar, ou na Istoria, ou na Cadeira. Este é o grande segredo do-falar bem: o qual como muitos, segundo adverti, nam chegam a penetrar, quando ouvem falar em Tropos, tremem de pés e cabesa: e persuadem-se, que é algum enima singularisimo, rezervado para algum ato publico, ou coiza semelhante.
Como as palavras sam as que significam, o que pasa dentro d’alma, ouve necesidade de procurar palavras, para expremir, nam só o que a alma conhece, mas tambem o que quer; ao que chamamos, afetos da-alma, ou paixoens. O Omem nem sempre se-acha, na mesma dispozisam de animo: mas esporiado de alguma coiza, saie fóra de si, e entam fala de outra maneira, mui diferente. As expresoens com que se declara isto, se-chamam Figuras; com a diferensa, que os Tropos sam figuras das-vozes: e estas que aqui digo, sam figuras do-animo. É incrivel, a diversidade destas vozes do-animo. Um omem agitado, nam só no-exterior do-rosto, mostra a sua perturbasam, mas tambem no-modo do-seu discurso. As paixoens violentas, alteram a bela armonia dos-umores: engrosam os objetos: impedem que a alma dè a devida atensam, ao que julga: no-mesmo instante a-transportam, de uma coiza para outra: sam como o mar alterado, que joga a pela com um navio. Onde, agitadas com tanta confuzam, as fibras do-cerebro, a alma, que em virtude daquela armonioza dependencia, que estableceo Deus entre ela e o corpo; deve conhecer todas as imagens, que elas lhe-prezentam; nam tem, se me-é licito explicar asim, repouzo algum. A alma agitada, imprime novo movimento nas fibras, e estas na machina: de que nacem as palavras: com as quais dando-se dezafogo à ira, que moveo a machina, se-dá tambem repouzo, à alma.
Sendo pois as nosas palavras, consequencias dos-movimentos d’alma, e conrespondendo perfeitamente, aos nosos pensamentos; é claro, que o discurso de um omem, que está sumamente agitado, deve ser dezigual. Algumas vezes parece este omem difuzo, e fórma uma exata pintura, das-coizas que sam objeto, da-sua paixam: e cuidando que o-nam-intendem bem, repete a mesma coiza, em cem diferentes maneiras. Algumas vezes interrompe o discurso, e sepára as palavras umas das-outras, dizendo de uma só vez, bastantes coizas. Muitas vezes vareia o discurso, com mil proguntas, com exclamasoens, com frequentisimas digresoens. Finalmente um discurso destes vareia-se, com infinitos modos de falar: os quais modos sam tam proprios, daquelas paixoens d’onde nacem, que, ouvindo-os proferir, fica um omem formando, justa-ideia da-paixam. Estas pois sam as tanto celebres Figuras do-animo: as quais nenhuma outra coiza sam mais, que modos de falar particulares, e diferentes dos-modos de falar natural e uzual.
Estas Figuras, que sam as naturais pinturas das-paixoens, sam sumamente utis, e necesarias no-comercio umano. Um pintor famozo, (dise um grande Retorico, de quem eu aqui sigo as pizadas) que quer delinear um painel istoriado, nam só pinta as figuras, que devem intrar no-quadro; mas procura, que cada uma esteja naquele ato, que exprima, o paraque ele ali a-poem: nem só isto, mas até no-rosto lhe-pinta, aqueles acidentes, que denotam a paixam, de que sam produzidos. Explico-me melhor. Um omem agitado, e alterado com a colera, nam tem o rosto sereno; mas fica palido: abre uns olhos, que parecem cheios de fogo: carrega a vizeira: finalmente mostra no-rosto mil acidentes, que sam os carateres da-Colera. Isto pois é o que procura imitar, o pintor: e se chega a imitálo bem, só este é o bom pintor. O Retorico nam tem cores, com que imitar a natureza, como o pintor: mas tem palavras, para imitar aquelas, que profere um omem dominado da-paixam, que ele quer persuadir: e como estas paixoens tenham, diferentes carateres; é necesario que se-sirva de diferentes figuras, para as-expremir[41].
Alem disto, ninguem pode persuadir outro, sem que excite nele aquela paixam, que lhe quer persuadir: porque as paixoens sam os instrumentos; e, para me-servir de uma expresam filozofica, as machinas que abalam a alma, e a-inclinam para onde querem. Ora para excitar estas paixoens nos-outros, é necesario, que um omem se-mostre dominado, da-mesma paixam:[42] porque, suposta aquela particular dispozisam, e semelhansa dos-nosos corpos, deixamo-nos persuadir daquela paixam, que vemos nos-outros: dos-mesmos sentimentos: dos-mesmos afetos: se nam se-acha algum obstaculo, que empesa o curso da-natureza. Naturalmente inclinamos a ter compaixam, de uma pesoa, que mostra estar sumamente aflita: rimos quando nos-achamos, em um grande divertimento dos-sentidos. Polo contrario, nam choramos, nem mostramos compaixam, de uma pesoa que ri; aindaque verdadeiramente seja mizeravel. É necesario ter um animo mui nobre, para se-vestir dos-sentimentos, e necesidades dos-outros, semque lhas-exponham. Nam obram os Omens comumente asim: obram porem asim, quando recebem o movimento, do-impulso das-paixoens. Esta é a simpatia das-paixoens: (se acazo tal voz, significa coiza alguma) e daqui se-mostra bem, a necesidade das-Figuras, para efeito de persuadir.
Nam me-cansarei, em dar o numero das-Figuras, e explicar o que significam, e quando se uza delas. Disto abundam muito, as Retoricas ordinarias: aindaque sam poucas, que o-expliquem de um modo, que se-posa perceber. As Figuras sam infinitas: mas os Retoricos reduzem-nas, a umas certas regras gerais, e-mais comuas. Direi somente, que estas Figuras, sam as verdadeiras, armas da-alma, com que ela faz guerra às outras almas; ou vence, ou é vencida: e produzem juntamente mil outros efeitos. Primeiramente, elas declaram aquelas verdades, que sam oscuras; e excitam nos-Omens a atensam, para as-perceber. Aquela grande repetisam, aqueles muitos sinonimos, nam sam inutis na Retorica[43]: antes sam de infinito preso: porque mostram o que se-pertende em tanta luz, e de tantas partes; que é imposivel o-ignorálo: imprimem com tanta forsa uma verdade, descobrem todas as circunstancias com tanta clareza; que é imposivel nam admetilas. Mas no-mesmo tempo estas Figuras, se sam bem naturais, e se pintam bem a origem de que nacem; movem de tal sorte a alma, que a-arrastam e conduzem, para aquele objeto, de que se-fez a imagem[44]. E como a alma nam pode ver uma verdade clara, sem a-receber; daqui nace, que por-forsa admite o objeto, e consente: e temos o omem persuadido.
Estas sam as Figuras, que sam a baze da-Eloquencia. Mas nam intenda V. P. que eu quero persuadir indiferentemente, toda a sorte de Figuras, e uzo delas: estou mui longe diso, e defendo constantemente, que só no-bom uzo delas, é que está a Eloquencia, principalmente sublime. Isto é o que eu dezejára refletisem comigo algumas pesoas, que, por-nam-advertirem este importante ponto, dam à luz partos monstruozos. Se as nosas paixoens sam mal ordenadas; se nam se-excitam quando deve ser; é coiza clara, que as Figuras só servirám, de pintar a confuzam das-nosas ideias, e a pouca eleisam do-noso juizo. Um omem que s’enfada quando nam deve; que em um discurso placido, introduz mil Figuras fortes; que progunta; que responde; que exclama; e mostra grande paixam, aindaque nam aja de persuadir, ou disputar com alguem: é um verdadeiro louco, que guiado, da-sua destemperada imaginasam, empunha a espada, para combater com um inimigo imaginario. Pois este é o retrato de muitos autores, que julgam nam serem bons escritores, se nam uzam de todas as sutilezas d’arte: Semelhantes nisto a um omem de Provincia, com que eu jantei uma vez, que para mostrar que tivera boa educasam, comia as uvas com o garfo.
Outros, que devem persuadir, e tem materia para empregar, boa Retorica; só estudam palavras, que tenham cadencia armonioza, mas tam afetada, que pola maior parte degenera em verso. Fazem mil reflexoens inutilisimas: procuram falar sempre por-sentensas: cuidam em introduzir conceitos sutis, e divizoens importunas: com as quais arengas nam procuram persuadir, mas agradar, e conseguir fama de eloquentes. E estes eu os-reputo muito mais ignorantes, que os primeiros, pola sua afetasam. O certo é, que uns e outros nam intendem, nem o fim, nem os limites da-Retorica: e que em lugar de estimasam, conseguem desprezo.
As Figuras devem-se empregar, em toda a ocaziam. Temos Figuras para tudo: negocios graves, mediocres, e para a mesma conversasam familiar. Basta persuadir-se, de uma importante verdade, que é, que a Figura nam se-deve procurar, mas naturalmente aprezentar-se: porque, como tenho mostrado, sam consequencias das-paixoens. Observe V. P. um omem rustico, que nam seja totalmente estupido, ou uma molher de juizo, mas nam doutora: entre com eles em um discurso familiar, sobre alguma materia, que lhe-pertensa: dificulte-lhe conceder-lhe alguma coiza, que a eles paresa verdadeira, ou que na realidade o-seja: e observe miudamente, quantas Figuras introduzem no-discurso. E finalmente, achará mais forsa, nas suas razoens, quando sam em materia verdadeira, doque nos-discursos, de muitos Oradores de fama. Eu fiz esta experiencia muitas vezes: e sempre tirei por-fruto, da-minha meditasam, que as Figuras ám-de ser naturais: e que somente se-fala bem, quando se-fala animado, de algum verdadeiro interese, e se-deixa guiar, de uma paixam arrezoada.
V. P. observará isto, nos-seus proprios discursos, ainda naqueles, que parecem menos considerados, e que sam proferidos, quazi por-impulso da-natureza. As coleras nam sam iguais, nem as paixoens: e asim á Figuras nestes mesmos discursos. Fazem-se antitezes, por-cauza de grandes movimentos, e tambem por-ligeiras comosoens. O dezejo que um omem tem, de expremir-se, e de persuadir as coizas que diz, tem varias destas Figuras. Na conversasam mais placida, repetem-se sem reparo, os mesmos termos muitas vezes. servimo-nos de diversas expresoens, para significar o mesmo. permitem os mais escrupulozos criticos, fazer alguma breve descrisam, e procurar alguma semelhansa, para explicar melhor a materia. pode-se proguntar o parecer dos-que ouvem, sobre o que se-profere; e mostrar-lhe, que é necesario refletir, sobre algumas das-circunstancias alegadas. Tudo isto pratica-se todas as oras, ou se-pode praticar, sem enfado de quem ouve, e sem incorrer na censura, de quem observa. Ora as Figuras nam sam verdes nem azuis, sam em carne estas mesmas que apontamos, e outras a estas semelhantes. E eisaqui, que nam só nas orasoens, e discursos estudados, mas em todo o discurso, tem lugar as Figuras. Em uma palavra, primeiro ouveram Figuras, doque ouvèse arte de Retorica: aqual nada mais é, doque a observasam das-naturais Figuras. E asim todo o estudo de um omem, verdadeiramente eloquente, consiste, em observar bem, a necesidade da-materia; e intrar tanto dentro nela, que posa formar um discurso natural, mas no-mesmo tempo eficaz: e em que as Figuras fujam-lhe da-boca, sem que ele vá detraz delas, para ornar o discurso. Muito necesario é, estudar a natureza: estudar o carater das-Paixoens: falar naturalmente: que só asim se-fala eloquente, e sò asim se-persuade. Este é o primeiro ponto, ou o mais importante, em materia de Retorica.
O segundo, e de nam menor consequencia, está, em saber proporcionar o estilo, ao argumento que se-trata. Consiste o estilo, em certas maneiras de s’explicar, e certas particulares expresoens, que cada omem uza: as quais comumente seguem o impeto do-fogo, que cadaum tem: nam se achando dois omens, que sejam perfeitamente iguais no-estilo, como nem menos no-temperamento. Digo pois, que o estilo se-deve regular, segundo a materia, que se-trata[45]. As expresoens magnificas e nobres, ornam as coizas, de uma certa magestade, e mostram o grande conceito que delas fórma, quem asim fala: se a materia nada tem de extraordinario, antes é sumamente vil; impropriamente se-lhe-aplicam, tais expresoens. Polo contrario, as coizas que se-podem considerar sem comosam, devem-se dizer com estilo simplez: outras mais estudadamente: o que faz a variedade de estilos: que os mestres da-arte reduzem comumente, a trez. Querem dizer, que ou o discurso é sumamente nobre, ou sumamente trivial, ou mediocre: à primeira, conresponde o estilo sublime: à segunda, o estilo simplez: à terceira, o mediocre. A prudencia e inteligencia com que se-devem aplicar, estes trez generos d’eloquencia, é o principal emprego, do-Retorico.
SUBLIME.
Quando se-quer dar uma alta ideia, de alguma coiza, é necesario refletir no-mesmo tempo, em muitas circunstancias. Por-muito nobre que seja o sugeito, de que se-trata, pode ter mil imperfeisoens: onde é necesario procurar, de o-por à vista d’aquela parte, que melhor parece; para poder impremir, uma justa ideia da-sua grandeza: procurando quanto pode ser, de lhe-cobrir, ou disfarsar os defeitos, sem prejuizo da-verdade: voltando-o e revoltando-o de todas as melhores partes, para poder mostrar, até as minimas perfeisoens que tem: e tendo muito cuidado, de nam sair com alguma expresam, ou pensamento, que destrua o que se-tem fabricado. Caiem neste defeito infinitas pesoas, ainda d’aquelas, que nam sam decepadas: Oradores, Istoricos &c. mas sobre tudo os Poetas: que, por-forsa do-consoante, ou da-quantidade do-verso, dizem mil coizas ou mal ditas, ou mal aplicadas. Li um soneto de certo Espanhol, que descrevia um nariz grande: o qual, despois de ter dito muita coiza do-dito nariz, conclue desfazendo, quanto encarecèra. Porei somente os tercetos.
Erase un espolon de una galera.
Erase una piramide de Egito.
Las dose Tribus de narizes era.
Erase un narizissimo infinito.
Muchissima nariz, nariz tan fiera,
Que en la cara de Anás fuera delito.
Despois dos-quatro versos antecedentes, em que exagerava terrivelmente o tal nariz, saie com uma frioleira, que destrue tudo. Admetida de grasa, a comua opiniam do-vulgo, de que os Judeos tem narizes grandes: admetida novamente a frioleira, de que Anás, por-ser Pontifice, o-devese ter maior: é certo, que nam teria um nariz maior, que todo o corpo. Demos-lhe, que fose tam grande: que proporsam tem isto, com uma piramide, e nariz infinito? Destes exemplos acho a cada paso: de que concluo, que estes nam sabem, as leis da-Retorica, nem da-Poezia.
Quanto ás expresoens, aindaque as-dezejo nobres, e com armonia sonora; devem porem uzar-se, com moderasam. Prudentemente se-comparou um discurso, no-genero sublime, com um palacio magnifico: neste á-de aver cazas para os amos, para os criados, e tambem estrevarias para os cavalos. Estas nam ám-de ser, como as anticameras, nem ornadas como os gabinetes: mas ám-de ter certa magnificencia rustica, e proporsam ao todo: ám-de ser todas as partes no-seu genero, belas, grandes, magestozas. Um palacio que tem um portam pequenino, parece coiza Mourisca, e nam de Architeto inteligente. tudo á-de ser grande, mas no-mesmo tempo proporcionado. Damesma sorte em um discurso, nem todos os pensamentos podem ser exquizitos, ou a locusam sublime: á-de aver pensamentos bons, exquizitos, e mediocres: a locusam damesma sorte, em alguns lugares sublime; v. g. nas perorasoens, e exagerasoens &c. em outras mediocre; v. g. nos-exordios, nas confirmasoens de provas &c. e em outras simplez e natural, como nas narrasoens, e outros lugares. Mas todas estas coizas ám-de ter proporsam entre si: devem ser ornadas e vestidas daquela tal grandeza, que mostre serem partes, de uma coiza grande. Asim se-compoem, um discurso perfeito.
Esta magnificencia de expresoens grandiozas, e armoniozas, convem ao estilo sublime, com a distribuisam dita, de aplicar as melhores, às coizas que merecem maior atensam. Tambem no-estilo sublime devem intrar, reflexoens judiciozas, e varias sentensas, que excitem a atensam. Nele tem seu proprio lugar, as Figuras grandes: Sendo certo, que um argumento nobre, nam se-pode tratar, sem alguma particular comosam: de que nace aquele modo de expremir-se, em que consistem as Figuras. Devem porem praticarse, segundo as observasoens asima feitas.
Esta porem é a maior dificuldade, do-estilo Sublime: e sam poucos os omens, que saibam abrasar, uma distribuisam moderada de ornamentos, no-discurso. A maior parte dos-que escrevem, sam como aquelas pesoas, que nam tem educasam de Corte. Estas, para se-mostrarem bem informadas, e de boa eleisam; carregam tanto os vestidos de oiro, e a cabesa de joias; que em lugar de parecerem bem, ofendem a vista. O pior é, que no-defeito que repreendemos, caiem tambem os que sam da-Corte, como os que sam de fóra: e é mais dificultozo emendar-se. Um omem que tem má eleisam no-vestir, tem tantos censores à vista, que à forsa de critica, e de observasam, consegue a emenda. Nam asim o que escreve: sam poucos os que censurem, porque sam pouquisimos os que saibam, como se-deve censurar. Alem diso, nam á algum, que prezuma tam mal do-seu juizo, que leia por-livros, que lhe-mostrem, as suas imperfeisoens. Busca somente aqueles, que mais lhe-agradam, e sam mais uzuais: e em vez de s’emendar, confirma-se na sua má eleisam. V. P. nam achará um Pregador, que estude por-Cicero, Demostenes, M. Seneca, Quintiliano: ou leia alguns, dos-que compuzeram boas reflexoens, sobre as ditas obras: achará porem muitos, que estudam por-sermonarios, e muito maos: e estes nam podem escrever melhor, doque lem nos-tais autores.
Outros escritores, querendo-se distinguir do-Comum, nam gostam senam, de expresoens grandes: e de tal sorte se-deixam guiar, por-este furor; que nam produzem palavra, que nam seja de pé e meio; e que nam acabe d’estoiro, como uma bomba. As palavras e fraze natural, o modo de s’expremir uzual, aindaque seja o mais proprio da-materia, nada vale. desprezam tudo, o que nam é estrondozo. Nenhum destes dirá: Petrus amavit Joannem: nam senhor: mas querem perifraze: Accidit ut Petrus amore prosequeretur Joannem; ou alguma fraze mais comprida. Estes omens vem todas as coizas, por-microscopio: tudo lhe-parece gigantesco: ou, para melhor dizer, tudo transformam. A sua cabesa é como a de D. Quixote: a quem moinhos pareciam palacios; e nam avia coiza para ele, que nam fose magestoza. Daqui nace, que tudo exprimem pola mesma maneira. o discurso comesa por-Figura, e acaba em Figura. Este é o vicio comum destes paîzes; mas muito principalmente dos-Poetas, e Oradores.
Estes omens confundem o Eloquente, com o Arrogante; a Exagerasam com a Inverosimilidade: sem advertirem, que sam coizas bem diferentes. Ora este é o verdadeiro carater da-ignorancia: tanto mais dificultozo de s’ evitar, quanto é certo, que muitos omens grandes em outro genero, tem caido neste defeito. Este é o ponto que se-deve advertir, com mais circunspesam: este o defeito que se-deve fugir, com mais cautela. O que se-consegue primeiro, com alguma reflexam judicioza: segundo, com a lisam de bons autores, que falem como devem, e proporcionem o estilo, ao asumto. Nam á coiza mais ridicula, doque uma grande afetasam de palavras sonoras, em coizas onde nam devem intrar[46]. Em lugar de engrandecerem quem fala, mostram a pobreza do-seu intendimento: que nam tendo cabedal, de dar palavras para tudo, pede-as emprestadas, ou furta sem advertencia, as que incontra.
Verá tambem V. P. que muitos, querendo falar elegante, acabam tudo em tom de verso: Porque nam chego a amar, nam poso padecer: e com este ar, e er; ir, e or; e consonancias semelhantes, vam enchendo o discurso, que deveriam cuidar de ornar, com bons pensamentos e conceitos. Isto é mais vulgar, doque V. P. imagina: e acha-se muita gente de bigode, que chama a isto elegancia. Eu sei que o numero oratorio, ou armonia dos-periodos, de que Cicero fala em varios lugares, é uma grande beleza, em todo o discurso, principalmente oratorio[47]: mas sei, que é muito diferente, do-que condeno. Nam á regra exata, para o numero oratorio: a orelha é a que ensina, quando o periodo é armoniozo[48]. Mas é necesario que tenha mui más orelhas, quem nam distingue, que as consonancias que apontamos, em lugar de agradarem, ofendem, e sam uma afetasam. Em Portugal sam rarisimos, os que observam o numero, ainda nos-discursos estudados. Ou afetam verso, e isto é vicio[49]: ou declinam para outro extremo, que é a languideza, e tambem isto é vicio insoportavel. A mediania é que se-busca; e quem bem intende o que é numero, nas cartas, e no-discurso familiar, sem advertir o-pratica. Para isto quer-se boa orelha, acostumada a ouvir ler, e pronunciar bem. Pecam alem disto; em fazer periodos tam compridos, que nam se podem ler de um jato: o que tambem é falta de numero. A lisam dos-bons livros remedeia isto, e introduz um omem, na verdadeira estrada da-Eloquencia. Mas é necesario, lelos sem prejuizos, e com animo de aprender. O estilo Sublime tem seu proprio lugar, nas orasoens, e sermoens: na Poezia Eroica, e Tragica: e pode às vezes ter lugar, na Istoria, quando s’ introduzem a falar, algumas pesoas. As orasoens de Cicero, os poemas Epicos de Omero, e Virgilio, sam de estilo sublime.
SIMPLEZ.
Ao estilo Sublime contrapomos, o estilo Simplez ou umilde. Asim como as coizas grandes, devem explicar-se magnificamente; asim o que é umilde, deve-se dizer com estilo mui simplez, e modo d’ expremir mui natural. As expresoens do-estilo simplez sam tiradas, dos-modos mais comuns de falar a lingua: e isto nam se-pode fazer, sem perfeito conhecimento, da-dita lingua. Esta é, segundo os mestres d’arte, a grande dificuldade, do-estilo simplez. Facil coiza é a um omem, de alguma literatura; ornar o discurso com figuras: antes todos propendemos para iso: nam só porque o discurso s’ encurta; mas porque talvez nos-explicamos melhor, com uma figura, doque com muitas palavras. Polo contrario, para nos-explicarmos naturalmente e sem figura, é necesario buscar o termo proprio, que exprima o que se-quer: o qual nem sempre se-acha, ou ao menos, nam sem dificuldade: e sempre se-quer perfeita inteligencia da-lingua, para o-executar. Alem disto, as Figuras encantam o leitor, e impedem-lhe penetrar e descobrir os vicios, que se-cobrem, com tam ricos vestidos. Nam asim no-estilo simplez, o qual, como nam faz pompa de ornamentos, deixa considerar miudamente, todos os pensamentos do-escritor. Por-iso se-diz, que o estilo simplez é, o lapis Lydius do-Juizo.
Isto que digo, das-expresoens comuas e naturais, deve-se intender com proporsam. Nam quero dizer, que um omem civil fale, como a plebe; mas que fale naturalmente. A materia do-estilo umilde, nam pede elevasam de figuras &c. mas nem por-iso se-deve expremir, com aquelas toscas palavras, de que uza o povo ignorante. Nam é o mesmo estilo baixo, que estilo simplez: o estilo baixo, sam modos de falar dos-ignorantes e pouco cultos: o estilo simplez, é modo de falar natural e sem ornamentos; mas com palavras proprias, e puras. Pode um pensamento, ter estilo sublime, e nam ser pensamento sublime: e pode achar-se um pensamento sublime, com estilo simplez. Explico-me. Para ser sublime o estilo, basta que eu vista um pensamento, e o-orne com figuras proprias, aindaque o pensamento nada tenha, de sublime. Polo contrario, chamamos simplezmente sublime, (com os Retoricos) àquela beleza e galantaria de um pensamento, que agrada e eleva o leitor, aindaque seja proferida, com as mais simplezes palavras. Desorteque o sublime pode-se achar, em um só pensamento, ou figura &c. Importa muito intender, e distinguir isto, para nam ser enfandonho nas conversasoens, e nas obras que pedem estilo umilde. V. P. tem um bom exemplo de estilo simplez, nas Cartas familiares de Cicero, principalmente nas que escreve aos de sua caza: nas Eglogas &c. de Virgilio: nas Fabulas de Fedro: Cartas de Plinio a algumas pesoas: e outras obras da-Antiguidade. Em Portuguez as Cartas do-P. Vieira, tirando algumas que degeneram em sermam &c. podem-se ler, para o estilo simplez. E estas sam as melhoras obras, do-dito Religiozo.
MEDIOCRE.
Do-que a V. P. tenho dito fica claro, qual é o estilo Mediocre: aquele digo, que partecipa de um e outro estilo. Tambem este estilo nam é pouco dificultozo: porque é necesario, conservar uma mediania, que nam degenere em viciozos extremos: e sam poucos aqueles, que conhecem as coizas, na sua justa proporsam, e formam aquela ideia, que merecem. Ja dise, que a materia é a que determina, qual á-de ser o estilo: e asim uma materia mediocre, pede um estilo proporcionado. A maior parte das-coizas de que falamos, sam mediocres: e daqui vem, que neste estilo de falar, deve-se empregar um omem, que quer falar bem; e conseguir fama, de omem eloquente. Um omem de juizo, que conhece as coizas como sam, fórma delas ideias justas, e verdadeiras; e as-explica com as palavras, que sam mais proprias. D’ onde vem, que o estilo mediocre compete propriamente, às Ciencias todas, à Istoria, e outras coizas d’este genero: nas-quais se-reprezentam coizas nam vis, mas mediocres; porem reprezentam-se, damesma sorte que sam, e com palavras proprias. Tambem as cartas de negocios graves, ou eruditas, e aquelas de ceremonia a pesoas grandes &c. costumam ser neste estilo. É porem de advertir, que o estilo mediocre, admite todos os ornamentos d’arte: beleza de figuras, metaforas, pensamentos finos, belas discrisoens, armonia do-numero, e da-cadencia: Contudo nam tem a vivacidade, e grandeza do-sublime. Participa de um e outro, sem se-asemelhar a nenhum. tem mais forsa e abundancia que o simplez; menos elevasam que o sublime: e prosegue com paso igual, e mui brandamente. Alegam-se por-bons exemplos neste genero, as Georgicas de Virgilio: a maior parte das-cartas de Cicero a Pomponio Atico: &c. os Comentarios de Cezar &c. aindaque estes, por-nam terem ornamentos, quazi pertencem ao simplez: as vidas de Cornelio Nepote. &c.
Quem bem intende isto, fica perfeitamente instruido do-modo, com que deve aplicar-se, a diferentes materias. O estilo da-Istoria pede clareza, e brevidade. aquela, para explicar todos os acidentes da-materia: esta, paraque, sem longas frazes, que suspendem a atensam, descreva as coizas que deve, com um fio de discurso continuado, e sem ser interrompido com aqueles movimentos, que constituem o Orador[50]. Porque neste cazo nam pode conservar, uma certa inalterabilidade, e quietasam de animo, que é tam necesaria, para nam inclinar mais para uma parte, que para outra; e dizer as coizas com verdade, e sem exagerasam. Pode porem o Istorico, mostrar a sua eloquencia, no-referir as arengas, que s’ introduzem na Istoria; no-pintar as paixoens &c. mas tudo isto com advertencia, e sem perder de vista a verdade. É pois a Istoria aquela materia na qual, despois da-Oratoria, mais se mostra, a eloquencia vigoroza.
Em segundo lugar fica claro, qual deve ser o estilo Dogmatico ou Didascalico, a que por-outro nome chamamos, estilo Cientifico. Aqui nam se-trata de persuadir, omens apaixonados, excitando as armas, comque a alma se-move para esta, ou aquela parte. O primeiro postulado que se-poem, no-principio dos-Tratados modernos é, que o leitor se-dispa, de todo o genero de prejuizos, e paixoens: e que examine as razoens, como merecem. Onde supondo-se um leitor docil, nam é necesario, seguir o estilo veemente[51]. Mas nisto á mais, e menos, segundo as Ciencias. A Geometria, que explica verdades claras, e que nam interesam ninguem, deve-se tratar placidisimamente, com aquelas palavras, que sam precizamente necesarias, para a explicasam dos-termos &c. A Logica, Fizica, Metafizica pedem ja um estilo mais ornado: ja se-disputa com omens, que tem suas prevensoens: as verdades nam sam tam claras: é permetido servir-se de um estilo mais nervozo. Principalmente na era prezente, em que a Filozofia, despida daquela antiga e ridicula severidade, trata-se oje em todas as linguas, e com vocabulos proprios, e se-familiariza com todos. Onde pode tratar-se em estilo familiar, por-carta, em dialogo, ou de outra maneira; emque pode ter lugar, um genero de eloquencia mais ornada. A Teologia pode ser tratada, com estilo mais elevado. Somos interesados em defender, a verdade da-religiam, contra os Ateos, e Infieîs, e Erejes. Este interese nam pode menos, que acender em nós, alguma paixam bem devida. Onde nam é maravilha, se algumas vezes nos-transportamos, falando de Teologia, e seguimos um estilo mais elevado e viril. Nam digo, que tudo se aja de tratar, em estilo oratorio, ou que se-devem defender as questoens, com ironias &c. e nam com razoens solidas: serîa isto um erro consideravel, e mui condenavel: digo somente, que ja é permetido, servir-se de alguma figura, e uzar de estilo mais elegante. Os antigos Padres uzáram deste estilo, quem mais, e quem menos. E oje todos os omens de melhor doutrina, nam desprezando a fórma da-Escola, uzam porem dela com tanta moderasam, que comumente expoem as suas sentensas, sem aquele estilo das-escolas, que até aqui reinava. O que faz que seja mais bela a Teologia: mais concludente o discurso: e poem à vista, e na sua luz todas as razoens: porque só asim as-intendem todos, e se-evitam palavras, que nada significam nas escolas. Quanto às outras Ciencias profanas, pola maior parte tratam-se mais placidamente, segundo a necesidade da-materia.
Em terceiro lugar fica claro, qual é o estilo dos-Poetas. Querem os Poetas, (diz um Retorico) agradar, e elevar o animo dos-ouvintes, com coizas extraordinarias e maravilhozas: e nam podendo chegar ao fim que se-propoem, senam sustentando a sublimidade das-coizas que dizem, com o sublime das-palavras que uzam; daqui vem, que nam se-sugeitam às leis do-uzo comum; mas formam, para se-explicar, um idioma novo. Tudo neles é grande e extraordinario; imaginasam, conceito, e palavras. Daqui nace, que as figuras devem ser, as suas mimozas, Alem diso, como as verdades abstratas nam agradam, porem sim as coizas, que entram polos sentidos; fica claro, que querendo o Poeta agradar, deve procurar metaforas, com que reprezente as coizas sensiveis, e quazi palpaveis: porque asim é que imprimem, uma particular comosam. Este é o principio, que obrigou os antigos Poetas, a romperem com certas ideias, que nos-parecem chimeras. Cada Virtude, e cada Paixam na Poezia, é uma Deuza: porque a descrisam destas Deuzas tam medonhas, ou tam engrasadas, faz outra impresam no-animo, doque a simplez palavra de Virtude, ou Vicio.
Est Deus in nobis, agitante calescimus illo.
Quando uma vez s’esquenta, a imaginasam do-Poeta, nam fala como os demais omens: e asim nam é maravilha, que encha o discurso de Figuras, e ingenhe tantas fabulas e fingimentos. Isto é tam proprio dos-Poetas, que até os sagrados Poetas, para se-explicarem, servem-se de todo o genero de metaforas. Isto porem deve intender-se dos-poemas, que tem por-objeto, materia grande: os divertimentos dos-pastores, que compoem as Eglogas; as istorias que dam materia às Comedias; e mil outras poezias, que se-podem considerar com menos paixam, devem ser tratadas, por-outro estilo. A regra geral, que ao principio demos, é infalivel, e consiste nisto: A qualidade da-materia deve determinar o estilo, aindaque posa ser mais ou menos ornado: o que s’intenda tanto da-Proza, como do-Verso. Isto quanto ao estilo. quanto pois às regras do-Poema, nam é aqui, o proprio lugar, de as-explicar: porque eu nam faso tratado, mas reflexoens.
Dirmeám alguns, que estas advertencias conduzem, para fazer uma obra solida, mas nam para a-fazer bela, e ornada: que é o principal emprego da-Retorica. E com efeito esta é a costumada cantilena, destes vulgares Oradores, que ignoram as belezas da-arte. Em algumas partes, temos notado este defeito: e aqui, para o-confutar melhor, faremos outra advertencia. Digo pois, que este ingano comum, fica suficientemente asima convencido: sendo certo, que nam se-requerem outras regras, para falar com elegancia, e ornato, doque as que asima démos, para falar com propriedade. A mesmisima coiza se-pode expremir, com diversos nomes, segundo o modo com que se-considera. A maior beleza e ornamento de uma compozisam, aquilo que eleva um leitor racionavel e judiciozo, (que sam os que podem fazer lei) é a exasam, e propriedade com que se-acha disposta, e executada uma-obra. Quem nam intende este ponto, é noviso na Retorica. Mas, declarando isto melhor aos principiantes:
Tem a Retorica ornamentos naturais, e artificiais: aqueles entram necesariamente em qualquer obra: estes com parcimonia. O primeiro ornamento é a verdade, ou semelhansa das-palavras com as ideias, e objeto delas. A mais medonha cobra pintada, agrada: as coizas mais ordinarias, quando sam bem explicadas, nam podem dezagradar. Deve o discurso ter primeiramente, clareza nas expresoens, para poder insinuar-se no-animo; armonia, e facil pronuncia. Estes sam os naturais. Entre os artificiais, poem-se as Figuras todas, os Tropos, as magnificas expresoens, as aluzoens, alguma ingenhoza aplicasam &c. as quais sam às vezes tambem recebidas, como a mesma verdade: e elevam a alma com o encanto oculto da-grandeza, para a qual ela tem propensam natural. Nestes é em que se-deve empregar o juizo, distribuindo-os com muita parcimonia, e boa eleisam. Nenhuma coiza orna, que nam seja racionavel: quando os ornamentos sam repetidos, ou estam muito juntos, sam importunos, e dezagradam muito: confundem a vista, e cobrem toda a beleza do-sugeito. Ja nisto falámos larguisimamente. Finalmente quando o ornamento, nam se-funda em verdade, aindaque um pouco encarecida; é uma afetasam ridicula, que mostra nacer, de um ingenho mui trivial. Os ignorantes sam, os que procuram com cuidado, estas ridicularias, para aquistar fama de doutos por-esta via, visto que a-nam-podem por-outra.
Outro defeito ainda acho, em que comumente caiem, e vem aser, encher o discurso de alegasoens importunas, de pasos Latinos, de versinhos, e outras coizas que incontram. Podem as aluzoens, alegasoens &c. ter lugar, quando á necesidade de ouvir as palavras, na mesma lingua original; ou para mostrar a sinceridade, de quem as-cita; ou a elegancia, de quem as-escreveo: o que raras vezes sucede: tudo o mais é tempo perdido, e trabalho mui escuzado. Este dezejo de parecer erudito, com a repetisam de mil pasos de autores, tem alucinado infinita gente. Conheci um, que nam abria a boca, que nam repetise um verso de Marcial, de Juvenal &c. Examine V.P. este ponto, e achará, que o defeito é mais geral, doque nam parece. Conheso pouquisimos estudantes desa Universidade, falo principalmente dos-Opozitores, e dos-que tem prezunsam de literatura; cuja conversasam seja toleravel. Para dizerem, que agora é dia; sairám com um, e talvez muitos textos do-Digesto, ou Codigo &c. Nam deixam pasar coiza, que nam ornem com algum versinho moderno: e quem sabe mais disto, é mais ciente. Aquele, Erubescimus sine lege loqui, intendem-no tam nû e crû, que é uma piedade. Tambem entre os Religiozos, nam falta desta fazenda: aquele, tandem, item, a parte rei, cum hoc quod, hoc unum est; e outras destas palavras, sam mui frequentes nos-seus discursos: e tambem seus textos da-Escritura, e seus versinhos Latinos. Isto entra em todas as conversasoens, aindaque sejam de idiotas, e molheres: antes nese cazo melhor, porque se-grangeia fama sem embaraso.
Este mao modo de pensar, e discorrer, pasou ja das-conversasoens, para as compozisoens: e por-iso V. P. ve tantos discursos, ou sermoens, ou orasoens, que se-nam-podem sofrer. Tenho lido mil orasoens modernas * * * e rarisima achei, em que nam intráse Plinio o moso, claro ou oculto: mas pola maior parte entra claro: e às vezes a orasam tem mais palavras de Plinio, doque de quem a-compoz. Ouvîram dizer, que o Panegirico de Plinio, é o mais suportavel, que nos-deixou a Antiguidade; e sem mais exame, enchem tudo de Plinio. Outros pasam do-Panegirico às Cartas: um destes é o P. * * que no-elogio funebre de Julio de Melo, faz uma istoria, em que introduz muitos periodos, tirados de varias cartas de Plinio, que dizem o mesmo, que ele repete. Este modo de elogiar, é totalmente novo, e ignoto à Antiguidade: mas nem por-ser novo cuido que agradará, aos que intendem a materia. Nestes Panegiricos achará V. P. duas coizas comumente: uma, é Plinio, e algum autor semelhante: a segunda, é o Sol, com as Estrelas. Mais vara menos vara, aqui vem dar todos. Serîa porem melhor, que estes autores puzesem departe, Plinio; e disesem alguma coiza de sua caza: e nam dezenquietasem as Estrelas, trazendo-as para uma coiza, para a qual nam calsam bem. Nam é este, o modo de elogiar. disto se-rim todos os omens que sabem.
Até as aprovasoens dos-livros, andam cheias destes textos, às vezes arrastadisimos, e talvez tirados da-Escritura, para provar uma frioleira. Os que nam trazem textos, introduzem razoens bem desnecesarias, e difundem-se em elogios, tam excesivamente encarecidos, que ninguem os-pode ler sem nauzea. Aindaque disesem a verdade, e bem; sempre era um grande defeito, e impropriedade. Vi á anos a vida do-Infante D. Luiz, em 4.o escrita polo Conde de Vimiozo; da-qual as aprovasoens, sem encarecimento algum, compoem metade do-volume. E nam só fazem isto nos-livros; mas em papeis avulsos, e breves. Vi uma Egloga, escrita por-um certo Felipe Jozé da-Gama, no-nacimento de um neto de Joam Alvares da-Costa; cujas aprovasoens eram maiores, que a obra. O pior é, que tinha uma aprovasam do-Conde da-Ericeira, D. Francisco Xavier de Menezes, que caîa na mesma simplicidade. Com efeito, este era o carater do-dito Conde: que, para mostrar que sabia muito, carregava as suas pinturas, com tantos ornamentos, e doutrina, que pareciam ridiculas. Ele era um omem erudito: mas ignorava totalmente aquilo, a que chamam modo, metodo, e criterio. comtantoque falàse muito, nam lhe-importava se dizia bem. E naverdade na dita aprovasam da-Egloga, tem coizas indignas. Deixa logo o argumento, e pasa a descobrir entre Joam Alvares da-Costa e Asinio Pollio, grande uniformidade. despois, difunde-se sobre os louvores da-Poezia. finalmente faz uma selada tal, que nam vi coiza mais confuza. Eu nam disputo agora, se a dita Egloga merece eses louvores: concedo tudo de grasa: o que digo é, que se-explicava em duas palavras: e é grande impropriedade fazer uma censura eterna istoriada, para uma brevisima Egloga. Certamente o P. Estacio de Almeida, que em materia de Poezia Latina, cuido que sabe alguma coiza mais, que o dito Conde; mostrou o seu juizo na aprovasam, contentando-se com dizer, que era digna de s’impremir. E isto deviam tambem fazer os outros: deixando de fazer Panegiricos, a coizas que nam merecem, ou que merecem menos: e fazèlos de um modo, que merece mais rizo a erudisam que trazem, que a que lhe-falta. O P. D. Manoel Caietano de Souza, tambem seguia esta opiniam. Compoz o Sargentomór Manoel Coelho, uma Explicasam das-oito partes da-orasam: mas tam pequenina, que nem menos se-lhe-deve chamar livro, mas caderninho. (foi impresa em Lisboa, no-ano 1726.) Sucede que D. Manoel aprova esta obra: e aqui, tomando as coizas desde o principio, faz uma longuisima censura, e um catalogo dos-Gramaticos do-Reino &c. Tudo coizas desnecesarias! E sei eu, que, se ouvèse de impremir-se em outro Reino, se-contentariam com escrever, Imprimatur. Com esta advertencia observe V. P., as aprovasoens dos-livros, e verá, que ainda nam digo metade, do-que devia. Neste particular de aprovasoens, nam vi omem em Portugal mais moderado, que Fr. Manoel Guilherme: fugia quanto podia de mentiras e afetasoens; e claramente dizia, o seu parecer. Mas oje sucede o contrario: porque às vezes fazem-se empenhos, para determinar os censores: e estes tais, nam censuram o livro, mas agradecem a eleisam. E sei eu tambem, que quando o P. * * * impremio a sua obra * * tendo feito um Teologo, a censura difuza; foram-lhe pedir novamente, que se-dilatáse mais, e louváse a obra com maior extensam. E nam podendo livrar-se do-empenho, que era forte; acrecentou alguns sinonimos, para satisfazer às partes: o que sei da-mesma boca do-censor. Onde com estes exemplos, nam devemos admirar-nos, se incontramos os elogios tam frequentemente * * *
Mas, tornando à dita erudisam afetada, digo, que a este modo de ornar e discorrer, chamam os Retoricos, ornamentos falsos. Porque os outros, podem ter lugar no-discurso, e só se-procura a parcimonia: estes, de nenhum modo devem intrar nele. Ja gran tempo é, que os omens de juizo clamáram, contra este abuzo: principalmente porque, bem examinada a coiza, é uma solenisima impostura, e azilo de ignorancia: sendo certo, que estes tais nunca tem menos erudisam, que quando mostram ter tanta. Quem ouve aquela machina de textos, persuade-se que é um omem, de erudisam infinita: mas nada menos: e eu poso jurar de muitos, que nam abriram os livros que citam, aindaque sejam bem uzuais. Remedeiam-se com o Theatrum Vitæ Humanæ, Polyantea de Langio, e outros destes armazens, em que polo A. B. C. acham-se as materias, dispostas. De que vem, que os omens inteligentes nam podem menos, que rir-se de tais compozisoens. Lembro-me, que um leitor de certa Religiam, querendo persuadir-me, que um seu amigo sabia Latim perfeitamente; dizia-me, que lia sempre por-Plutarco: e carregava muito em Plutarco. Ouvi esta muzica algum tempo; e nam podendo sofrer mais, proguntei-lhe, se Plutarco era bom Latino. Aqui o omem: Poisque, iso tem duvida? na antiguidade nam acha V. P. um Latino, como Plutarco. O que daqui se-seguio foi, ficar eu formando mui mao conceito, dele, e do-seu amigo. De um, por-dizer o que nam sabia: pois se tivese aberto Plutarco, ou acharia o texto Grego com a versam Latina; ou tendo somente a versam, acharia no-frontispicio, o nome do-tradutor. Do-outro, porque aindaque a tradusam, nam seja barbara, contudo nam é livro para se-imitar: falo da-versam de Curserio, e Xilandro, &c.
Tambem nam é pequeno defeito, a grande repetisam de sentensas, sem necesidade. Persuadem-se muitos, que, falando por-sentensas, ficam graduados como sutilisimos, e fundadisimos letrados. Lèram em Seneca Filozofo, ou Lucano, ou Tacito, ou algum semelhante, uma quantidade destas sentensas; e, sem mais exame, nem advertencia, adotam aquele estilo; e deitam mais sentensas pola boca fóra, que uma carranca de xafariz nam deita agua. Verdadeiramente é um divertimento, bem digno de se-procurar em oras ociozas, ter uma conversasam com um destes. Eu gozei esta felicidade algumas vezes: e nam me-podia satisfazer de observar, aquela circunspesam magistral, com que proferem as palavras, em tom decizivo e com toda a magistralidade, de um Padre de Concilio. Ja eu lhe-perdoára a materia: o que nam poso sofrer é, o modo com que se-explicam. Se eles tivesem observado e intendido, que aquele mesmo Seneca foi o primeiro, que comesou a perverter, o bom gosto da-Latinidade, com tam enfadonhas sentensas: com as quais perdeo entre os seus, e entre todos os que se-seguîram de alguma estimasam; aquele conceito, que poderia aquistar, se fose mais parco de ornamentos; saberiam entam, com que olhos se-devem ler, certos autores. Mas eu falo em um suposto, que me-parece falso, e vem aser; que estes tais profiram, verdadeiras sentensas: falam como se fose por-sentensas; mas nam sei se o que dizem, merece este nome. Porque a Sentensa deve, em poucas palavras, dizer muito, e dize-lo com modo singular: o que raras vezes se-acha neles.
Note tambem V. P. outro defeito de eloquencia, no-mesmo frontispicio dos-livros. Estam estes seus autores, tam preocupados polas esquipasoens, que nam se-contentam, de pór o titulo do-livro claro: mas ou inventam um estrambotico, ou acrecentam algum epiteto, que oscurece o negocio. v. g. Cristais, d’alma, fraze do-corasam: Fenix renacida: Alivio de tristes, consolasam de queixozos: e outras coizas destas, que quando eu as-leio, me-vem à memoria, o Belorofonte literario, Clypeus Mundi, e outros titulos ridiculos, que só estavam bem, na boca de D. Quixote de la Mancha. E isto nam só achará V. P. entre os Antigos, mas entre estes Modernos. Traduz um Bacharel os Epigramas do-P. Reis, em verso Portuguez, e dá-lhe este titulo: Imagens conceituozas. Ora, falemos sem paixam, intende V. P. que, lendo-se estes titulos, poderá um omem advinhar, o que contem estes livros? Eu nam tenho dificuldade em apostar, que nam: e digo mais, que este autor nam intendeo, o que quer dizer aquele titulo: pois, a falar verdade, nam á maior despropozito, que a uniam daquelas duas palavras, para explicar a dita versam. E ponho agora de parte a loucura, de traduzir em Portuguez, epigramas destes Latinos, cuja galantaria nam consiste, em um conceito nobre; mas em palavrinhas, ou equivocos, que perdem o pico, na tradusam. Mas nam pára nisto o abuzo: antes chegou a termos, de se-nam-chamarem as coizas, com os seus nomes, porem com outros muito diferentes. Vi concluzoens de Logica, que se-intitulavam: Regnum Algarbiense in quatuor vicos distinctum: Vicus primus, de Signis: secundus, de Enunciatione &c. que se-podia intender, ser uma carta geografica. Outras de Filozofia intitulavam-se: Pigmenta Philosophica. Finalmente chamavam-lhe como queriam. E isto é mui frequente, nas escolas da-Companhia: e nam faltou ja quem me-disèse, que eram titulos ingenhozos. Estes titulos, Conclusiones, Propositiones, Theses, nam prestam ja para nada: sam coizas dos-antigos, e nomes mui ordinarios. E que chama V. P. a isto, senam jurar, de nam dizer as coizas direitas, mas de falar em Persiano, ou Chinez?
E se V. P. examinar este defeito, achará, que sam poucos os autores, que nam caiam nele. Outros acrecentam epitetos afetados. v.g. Regras da-lingua Portugueza, Espelho da-lingua Latina: deixando agora muitos outros, que podia acrecentar. Contudo eu intendo, que era mais natural, e nobre dizer: Regras da-Gramatica Portugueza, para introduzir os rapazes, na Gramatica Latina: ou ainda mais breve, e melhor: Introdusam para a Gramatica Latina: e falando asim, todos o-intenderiam. Que fizesem isto nos-dois ultimos seculos, paciencia: mas agora, que o mundo abrio os olhos, e todos procuram explicar-se bem; nam se-pode sofrer: e vale o mesmo que mostrar, que nam intendem em que consiste, a elegancia da-lingua, e a forsa da-eloquencia. Os seicentistas sam os que caîram, nesta ridicularia: os antigos doutos todos, a-evitàram: e se algum se-desviou dela, nam teve sequazes, e deve ser reprovado. Os titulos dos-Antigos, todos sam simplezes: Cornelius Celsus, de Re Medica: Caii Julii Cæsaris, de Bello Gallico &c. Ciceronis Orationes, Epistolæ, de Finibus bonorum &c. e outros a estes semelhantes. Estas palavras mostram bem, o de que se-trata: e aquela nobre simplicidade encanta mais, que todas as afetasoens, a quem intende, que coiza é Eloquencia. Os Modernos doutos, quando nam sam anonimos, que querem brincar; servem-se de titulos sezudos, breves, e claros: e nisto é em que oje se-cuida. Com efeito nos-titulos se-mostra, o juizo do-autor. Eles sam os que apontam a materia: e devem nam dizer mentiras, e falar em lingua, que todos intendam.
Pertencem a esta clase, os que nas Concluzoens publicas, poem por-questam principal uma coiza, que nam significa nada, e nam pertence à materia. Confeso a V. P. que quando a primeira vez, vi neste Reino estas concluzoens, fiquei pasmado: e quando vi, que a dita questam nam se-disputa, nem serve de nada, ainda me-admirei mais. Um destes imprime umas Concluzoens de Logica: dedica-as a Cristo Crucificado: (porque estes mosos tem tanta devosam, que em nenhum lugar a-podem encubrir) e poem por-questam principal: Se ficou mais gloriozo Cristo na cruz, que no-Tabor. Outro faz umas concluzoens de Materia Primeira, e poem por-questam: Utrum in Lunæ concavo degant homines? Finalmente é bem raro aquele, que poem questam principal, tirada das-concluzoens: mas ou da-dedicatoria, ou de outra coiza, que nam significa nada. E estarám às vezes semanas inteiras, lambicando o ingenho, para excogitar uma questam sutilisima, que calse bem à dedicatoria. E que chama V. P. a isto? senam dizer mentiras: servir-se de palavras que nam significam nada: improprias ao argumento: só para mostrar, que tem ingenho. Saiem eles logo dizendo, que é um costume antigo: E eu respondo, que é mao costume: e que se-deve emendar. Na minha Italia poem-se as concluzoens simplezmente, sem estes rodeios. Se as concluzoens sam dedicadas a Cardiais, ou Bispos, ou outras pesoas grandes; estes vam asistir em publico, asentados defronte do-Defendente: o qual porem está na cadeira: e ali faz ao principio um comprimento Latino, à pesoa a quem dedica, breve, e claro: e procura falar em lingua, que todos intendam, e mostrar a sua doutrina sem sutilezas, nem coizas que meresam rizadas.
Nem intenda V. P. que estes defeitos que aqui aponto, sam de um ou dois autores: nam senhor, sam gerais. Leia V.P. estas obras Portuguezas modernas, principalmente orasoens Academicas, em que fazem ostentasam, de toda a erudisam e advertencia; e confirmará o que digo. * * * Entre os modernos, o Conde da-Ericeira tem muito disto, como ja disemos. Comesa as suas coizas com uns rodeios, e umas oscuridades, que sem comentos nam se-intendem. Daqui pasa a acarretar, tudo quanto leo: e comumente dezempara o asumto, para dizer o que lhe-ocorre. v.g. No-elogio Funebre de Francisco Dionizio de Almeida diz, que tomava por-empenho, descrever o elogio de Tito Pomponio Atico, que morrèra no-dito dia. Mas sem falar em Atico, mete outras noticias estrangeiras, e diz mui pouco do-defunto. Promete encarecer a perda do-defunto: mas nada disto faz. O mesmo Conde no-elogio do-Papa Inocencio XIII. declara logo, que nam seguirá os preceitos da-Retorica, mas da-Istoria: e com efeito faz um catalogo difuzisimo e insoportavel, da-gerasam do-dito Papa: e deste nam diz nada. Devendo porem saber, que a obrigasam sua era, exaltar as virtudes do-seu eroe, e nam as dos-pasados. Pois asimcomo nenhuma molher feisima merece ser louvada, porque é filha, de uma molher mui bonita: antes polo contrario, a fermozura da-maen dá ocaziam, paraque nos-admiremos da-filha: asim tambem as virtudes dos-pasados, nam servem de panegirico aos prezentes: é necesario mostrar, que estes excedem os seus maiores, nas mesmas asoens. Do-que fica claro, que o dito Conde sabia pouco, elogiar. E nam se podia esperar menos, de um omem que protesta, de nam seguir a Retorica. E quantos parentes, quero dizer, apaixonados, nam vemos deste fidalgo! Mas sem nomiar mais ninguem, provarei tudo com outra orasam, feita na morte, de D. Manoel Caietano de Souza: da-qual porem nam sei quem é o autor, nem onde foi impresa; porque uma que achei em certa parte, e ainda conservo, nam tem as primeiras folhas, e comesa na folha 7. Mas seja quem for, é moderno: vistoque o Souza morreo á pouco tempo: e se V. P. a-tem lido, achará uma grande prova do-que digo.
Este omem faz uma orasam, que é um groso volume. Primeiro defeito do-panegirico. Confeso, que asisti a muitas e diferentes exequias, de Pontifices, Imperadores, Reis, Principes soberanos, Cardiais, e Senhores grandes: e nunca vi alguma, que chegáse à metade desta. Mas isto é nada. tudo o que ele diz do-tal Souza, podia-se reduzir à quarta parte, e ainda serîa longa. Consiste pois este grande volume, emque o tal Panegirista, para mostrar que era erudito, verteo nela, quanta erudisam tinha. Explicarmeei se diser, que ali se-acha o Teatro de los Dioses, e Theatrum Vitæ Humanæ, em corpo e alma. Nam diz coiza alguma, para que nam traga um bocado de antiguidade, comumente arrastada. v.g. Para dizer, que o Souza unia a piedade com a ciencia[52]; introduz a parentezis de uma pagina, em que entra Alexandre, Cezar, Cipiam &c. Para dizer, que o dito nam quizera mostrar a sua ciencia, senam em Lisboa[53]; nomeia Universidades sem tom nem som: saltando de Bolonha aos Paizes Baixos: de Pariz outra vez a Padua: de Espanha a Germania &c. e a cada paso mete fabulas, sem pés nem cabesa. E este justamente é o defeito, que eu asima condenava. Sobre o que me-lembro das-grasas, de um omem mui douto, que foi Monsenhor Sergardi: Este quando se-achava em alguma parte, em que algum destes, que tinham lido alguma fabula, ou istoria, a-queriam introduzir ou bem ou mal; dizia-lhe galantemente: Diga, meu senhor, diga tudo o que tem estudado, esta noite.
Nam falo ja em alguns erros de istoria: como dizer, Que a barca de S. Pedro navegou polo Tibre: Que por ele tambem intráram, as Troianas galés de Eneas: e outros semelhantes[54]. Um bocadinho que estudáse mais de Istoria, e Geografia, lhe-mostraria, como as coizas ou foram, ou nam foram: e lhe-ensinaria, que o lugar em que dezembarcou Eneas, nam foi o Tibre, polo qual nunca navegou. Chama aos Romanos, decendentes de Eneas, e Ascanio. como se Eneas fose o Noé dos-Lavinios, Albanos, e Romanos! Mas a isto chamo eu venialidades: o que nam poso sofrer, sam outras falsidades, que diz naquele panegirico; principalmente quando quer saîr, fóra de Portugal. Neste cazo o omem transforma tudo. Um comprimento feito a D. Manoel Caietano, uma carta escrita mais cortezmente, sam autenticas provas, da-sua imensa literatura. Que pouco informado é, da-politica dos-outros Reinos, este Panegirista! e quam pouco sabe distinguir, o encarecer uma coiza, e o inventala! Pode o Retorico dilatar, e exagerar muito um argumento: mas sempre dentro dos-limites da-verosimilidade. Ora é uma parvoice manifesta dizer, Que o Souza foi a Roma, para espantar todo o orbe literario: Que em todo o mundo se-ouviam, os brados da-sua fama: Que a Europa suspensa e admirada confesou, que excedia a sua mesma fama &c.[55]: Que a Europa confesou, que a sua erudisam era maior, que todos os encarecimentos, com que o-celebravam no-mundo, as mesmas cem bocas da-Fama[56]. Isto sam mentiras mui manifestas: e a isto chama-se satirizar, e nam, elogiar. Nam pára aqui a galhofa: diz, Que nam se-sabe em Portugal, que os Reinos estrangeiros desem, nestes ultimos tempos, um omem, que se-posa comparar ao Souza[57]. Que o-nam-saiba ele, concedo: vistoque pola sua orasam, mostra saber muui pouco: mas que o-ignorem outros Portuguezes, nego redondamente. Conheso eu omens, que sabem distinguir muito bem D. Manoel Caietano, de infinitos omens, muito mais doutos que ele.
Eu creio que D. Manoel Caietano foi douto, e soube mais, doque o comum dos-Portuguezes: aindaque eu nam poso julgar por-experiencia, porque nunca o-tratei: mas polas suas obras o-discorro: mas nam sam elas tais, que ponham um omem, na primeira esfera dos-doutos. E sei eu muito bem, que a sua Expeditio Hispanica, é mui pouco estimada em muitas partes: e que nam pode obrigar, os omens mais doutos, e de uma critica purgada; a que mudasem de opiniam, sobre a vinda de Santiago: e eu sou um daqueles, que ainda nam se pode persuadir, das-suas razoens. Mas querèlo comparar, com outros grandes omens da-Europa, é mostrar, que nam intende este oficio. Que semelhansa tem o P. Souza, com Petavio, Sirmondo, Launoi, Arnaud d’Andilly, Valois, Morin, Huet, Bossuet, Tomassin, Noris, Calmet, Mabillon, e outros muitos Catolicos? ou com algum dos-Erejes, como Grotio, Scaligero, Usserio, Selden, J. Gerardo Vossio, Daniel Heinsio, Dallé, Samuel Petit, Saumaise, Bochart, Lightfoot, Hottinger, Joam Gronovio, Luiz de Dieu, e outros muitos que deixo? os quais todos vivèram no-seculo pasado, e muitos deles alcansáram D. Manoel Caietano, e morrèram neste seculo? Que semelhansa, torno adizer, em vastidam de noticias, em antiguidades, linguas orientais, Teologia &c.? tanta como o dia com a noite. Estes é que foram conhecidos, em todo o mundo douto, e seram eternamente venerados. Bem mostra este Panegirista, que nam sabe que coiza é erudisam, quando fala desta sorte. Nam falo na Filozofia, pois todos sabem, que omens florecèram, no-fim do-seculo pasado, e no-prezente: dos-quais a D. Manoel Caietano, (que dizem era Peripatetico, ou aindaque o-nam-fose) á bem legoas de distancia. Em tudo se-mostra o Panegirista, pouco informado do-mundo: e, polo que vejo, cuido que era algum pobre Religiozo, que nunca saîra de Portugal; e asim vivia mui satisfeito da-sua terra: pois chega a dizer, que as Universidades de Portugal, até no-edificio, excedem muito, as dos-outros Reinos[58]. No-que mostra intender tanto de Architetura, como de erudisam. Mui diferentemente me-falou um Portuguez, que estivera em Roma, e tinha outros conhecimentos: o qual confesou limpamente, que em materia de bom gosto, valia mais uma só janela da-Sapiencia, ou Universidade Romana, ou do-Colegio Romano dos-Jezuitas, que todas as Universidades, e Colegios de Portugal: e nam era encarecida a propozisam. Este é o motivo, meu amigo e senhor, porque os Estrangeiros nam crem, em nenhum destes panegiricos: porque dizem, que os Portuguezes, namobstanteque comumente sejam invejozos, e digam mal uns dos-outros; quando porem tomam o empenho de elogiar, mentem dezencaixadamente, e tudo transformam: e até dizem mal dos-outros todos, para elogiar o seu eroe. Se louvam um Santo, nam só nam á Santo igual ao seu; mas quazi chegam a dizer mal, dos-outros todos. O mesmo faz o noso Panegirista.
Que um omem fasa uma orasam mui mal: que se-explique infelizmente: que introduza na-orasam, quantas coizas leo: que ignore o estilo de elogiar, e amplificar os argumentos: que seja languido e sem grasa na compozisam: que nam saiba, manejar a sua lingua: que ignore a colocasam das-palavras, e armonia dos-periodos: como faz este Panegirista; nam serîa grande coiza: o que nam poso sofrer é, que tenha prezumsam desmedida, e que diga mal dos-outros, e d’aquilo que nam intende. O que se-faz nestas orasoens, e com especialidade o autor desta. Para dizer, que o Souza estudou em Portugal, e nam fóra dele; emprega quatro boas paginas[59], dizendo mal, dos-que vam estudar fóra de Portugal: porquanto cá em Portugal, segundo ele diz, tudo se-acha, e muito melhor, que nos-outros Reinos. Os mesmos livros: omens mais doutos: Universidades melhores, e mais florentes da-Europa: Portugal é o Reino da-Sabedoria; do-qual os Estrangeiros podiam participar com mais razam, doque os Portuguezes deles: e outras semelhantes. E que diz V. P. a esta propozisam? á coiza mais estupida! E concedem-se licensas, a semelhantes escritos! Senhor Panegirista, responderia eu, nam basta ter os livros, é necesario intendèlos: e iso é o que os praguentos dizem, que muitos cá nam sabem. Todos os Latinos nas escolas lem Cicero; e poucos o-intendem; e muito menos o-imitam. Mas, suponhamos que o-sabem alguns; Porventura, sabem-no ou ensinam-no nesas Universidades? nam senhor, que eu prezenciei tudo o contrario. Alem diso, aqui nam á exercicio de linguas, Filozofia boa, Matematicas, Teologias Pozitivas &c. Istoria, Medicina verdadeira, e outras faculdades: se me-nacer alguma duvida, a quem o-ei-de proguntar? Alem diso, esa falta de exercicio é cauza, de que se-ignorem muitos livros: pois é certo, que em Portugal, nam se-conhecem livros bons, que sam bem vulgares em outros Reinos: e o Panegirista é um deles; que por-nam conhecer os autores, diz muita falsidade, no-seu Panegirico. Despois que se-fundou a Academia da-Istoria, quantos livros nam se-conhecem, que antigamente se-ignoravam? Concedo, que se em Portugal se-introduzisem outros estudos, com o andar do-tempo fariam o mesmo, que nos-outros paîzes: mas como ainda estamos mui longe d’esa epoca, nam é maravilha, que muitos vam estudar fóra, o que cá se-nam-sabe. Prouvera a Deus, que fosem muitos mais: e que estudasem bem: e viesem introduzir ese bom gosto, em Portugal.
Quanto ao que diz o Panegirista, que os Estrangeiros podiam aprender, dos-Portuguezes; tem muita razam: mas deixo a V. P. o-determinar, se á-de ser em armas, ou letras. Se ele soubèse o conceito, que aqueles tem dos-Portuguezes, ficaria mui admirado. E para nam buscar exemplos remotos, direi a V.P. que eu falei em certa Cidade, com um Religiozo, que viera instruir em Rilhafoles, os ordinandos: e me-dise, que ficára pasmado, de ver a ignorancia destes paîzes, principalmente dos-Clerigos: muitos dos-quais, nam obstante terem fama de doutos, necesitavam aprender, os primeiros rudimentos da-Fé. Este falava por-experiencia; pois estivera dois anos em Portugal: era alemdiso um omem de virtude, e mui moderado no-falar. Veja V. P. que conceito eles tem disto. Pode-se notar no-mesmo Panegirista, a incoerencia: Quando lhe-tem conta, para avultar a ciencia do-Souza; Roma é uma Cidade cheia de omens doutos: a Arcadia é uma coiza famozisima: é um congreso de Virgilios, e Oracios. Quando nam lhe-tem conta, os Estrangeiros nam sabem nada: e tudo podem aprender, dos-Portuguezes: quem intenderá tal omem! Em uma palavra, este omem cuido nam fez coiza pior, na sua vida. Todas as comparasoens que faz, sam arrastadas, e inverosimeis: as exclamasoens, que frequentemente introduz, fóra do-propozito, e do-lugar: as parentezis longuisimas, superfluas, e insoportaveis: a fraze afetada, mas sem elevasam ou nobreza; repetindo em cada regra a Ilustrisima, a um Religiozo, e a um morto. Finalmente nam sabe dar forsa, aos argumentos que traz, dilatando-os com artificio retorico.
Mas nam quero falar mais nesta materia, porque parece que faso grande cazo, de uma coiza que o-nam-merece. é fazer grande favor ao autor, criticar-lhe os defeitos, que sam infinitos. Antes devo pedir a V. P. perdam, de o-ter demorado, com semelhante orasam: o que fiz por-duas razoens: Primeira, paraque V. P. vise, a infinita distancia que poem, entre sermam funebre na igreja, e orasam funebre na academia: como se os preceitos da-Retorica fosem diferentes! Segunda, paraque vise pintados em uma só orasam, todos os defeitos que lhe-tenho apontado, reinarem nestes paîzes: pois sendo este um dos-modernos, caie em todos eles, nam dizendo o que deve; e dizendo o que nam deve. Os quais sam mui consideraveis defeitos, de Retorica.
O que até aqui tenho exposto a V. P. bastantemente mostra, o que eu tinha proposto: e dá uma verdadeira ideia, do-que é Retorica, em que se-deve uzar, e como se-deve uzar. E com efeito menos ainda basta: poisque tendo V. P. grande compreensam de materias, e mais que tudo, formando juizo exato das-coizas; nam lhe-podem ser ocultas, estas que aponto; e nam pode deixar de falar, com belisima Retorica. Mas á juizos tam sepultados na materia, que nam podem considerar outras coizas, senam aquelas que uma vez vîram: nem receberám a verdade mais clara, e demonstrada, se nam é proposta com aqueles termos, e por-aquele metodo, que uma vez ouvîram. Isto me-obriga a fazer alguma reflexam, sobre as partes da-Retorica, ou sobre estas Retoricas uzuais, e principalmente sobre o estilo do-pulpito: vistoque nestes paîzes, para isto inclinam mais: e nisto é que necesitam, de melhor diresam; para os-livrar daqueles ridiculos prejuizos, de que estam cheios.
METODO DE PERSUADIR.
Manifesta loucura é persuadir-se, que é necesario saber tudo, o que dizem as Retoricas, para ser Orador[60]. Ja adverti a V. P. que estas Retoricas comuas, eram pola maior parte uma lista de nomes, e divizoens, impertinentes de se-aprenderem, e dificultozas para se-conservarem: mas tudo isto podia suceder, aindaque a materia fose boa. Porem eu nam paro aqui, mas digo, que nam só polo modo com que o-dizem, mas iso mesmo que dizem, tem pouquisima ou nenhuma utilidade; e nada conduz para o fim, de falar bem, e persuadir. E digo da-maior parte delas, o que lá dise Cicero de outra Retorica, que escrevèra Cleantes, Que para nam saber falar, nam avia coisa melhor[61]. Sam sinco as partes da-Retorica: Procurar meios de persuadir: dispolos: falálos bem: estudálos de memoria: e pronunciálos com as asoens que se-devem. A isto ajuntam, os trez meios de persuadir, que sam as provas, os costumes, e as paixoens dos-ouvintes. Dizem alem diso, que qualquer discurso oratorio deve ter exordio: despois, narrar o fato: despois proválo, e responder aos motivos contrarios: finalmente perorasam, na qual se-faz um epilogo dos-motivos, e se-excita novamente, o animo dos-ouvintes. Tudo isto é verdade: mas se pararmos aqui, pouco saberemos de Retorica. Eu direi alguma coiza da-Invensam: sobre as outras, reporto-me a eses livros comuns; e só tocarei, o que me-for necesario.
Para buscar argumentos ou provas, que persuadam, o que pertende o Orador; propoem os Retoricos uma lista de nomes, aque chamam, lugares comuns: os quais ensinam, considerar o argumento de tantas partes, e voltálo de tantas maneiras, que seja facil, dizer muita coiza do-tal sugeito. Confeso, que estas considerasoens genericas, dam materia para falar muito; e em tal ou qual cazo, podem nam ser inutis: mas, seguindo o parecer dos-omens de exata critica, constantemente digo, que estes lugares nada menos ensinam, que a falar bem: suministram ideias gerais, palavras sem sustancia, narizes de cera, que se-aplicam a tudo, e nam persuadem nada em particular. Um destes que cre muito nos-Topicos, falará uma ora inteira, sem dizer coiza alguma com propozito: justamente como os Logicos da-Escola. Estes escrevem longuisimos tratados de Syllogismo, dam mil regras, para discorrer com propriedade, e sem falencia; e para provar tudo o que ocorrer. A ouvilos na cadeira, julgará um omem, que sam letrados universais: mas introduza-os V. P. em um discurso particular, e verá, que tudo aquilo é palhada: concluirám um discurso pior, doque nam fará, um oficial ignorante. Muitas vezes nam sabem nem comesálo, nem acabálo: e se lhe-metem a pena na mam, é lastima ver, como escrevem as suas razoens. O mesmo Cicero, que tam apaixonado era pola Retorica, e seus preceitos, que escreveo um livro dos-Topicos; contudo reconhece, que é necesario muito juizo, para se-servir destes lugares, em modo que nam digamos parvoices[62].
Quem pois reflete nisto, intende o conceito que se-deve fazer, de semelhantes lugares. Se nam fose permetido falar, senam naquilo que se-sabe, a maior parte destes, que fazem profisam de falar em publico, ficaria calada. Ninguem é capaz de discorrer em uma materia; se é que a-nam-tem estudado fundamentalmente: e nunca poderá deduzir, boas consequencias, se acazo nam posûe bem, os principios. Pode um Fizico estar cheio de silogismos, até os olhos; ter lido quantas ridicularias se-tem dito, sobre os apetites da-Materia; se acazo nam tem bem examinado, as experiencias: nam poderá explicar, qualquer uzual fenomeno. Pode um Teologo saber, a quinta esencia da-fórma silogistica; mas se nam sabe bem, em que textos se-fundam os Dogmas, nam será Teologo senam de nome.
Isto suposto, a primeira e importantisima regra da-Invensam é, intender bem a materia, que se-trata[63]: porque só asim facilmente se-incontram, os argumentos proporcionados ao sugeito: e tam facilmente se-incontram, que naturalmente se-aprezentam, caiem da-boca, e da-pena. Este é o grande defeito, destes Pregadores Portuguezes. Propoem-lhe uma materia, que eles ignoram: e em lugar de estudarem o que devem, formam logo ideia, do-que querem dizer; e despois procuram os textos, que fasam ao intento: e se os-nam-acham, violentamente os-arrastam: porque finalmente, seja como for, deve-se provar, o que se-propoz. Ora a Escritura nem sempre dá textos literais, para confirmar todas as chimeras, que os Pregadores propoem: e asim é necesario recorrer, a algum destes comentadores Peripateticos: muitos dos-quais adotam nos-comentarios, as sutilezas: e, se falta este, nunca falta um destes Asceticos, que provam tudo o que querem: e temos o sermam feito. Se o Pregador tivese estudado a materia, conheceria, que verdades importantes, como sam as da-religiam, nam se-podem provar com sutilezas, mas com razoens solidas: razoens solidas nam se-podem achar, para provar conceitos ridiculos: de que vem, que necesariamente um omem que sabe a materia, deve desprezar estas puerilidades; e considerar todos os sermonarios, talhados por esta medida, como livros que nam se-devem ler.
Que seria do-mundo Retorico, se todos os omens um dia, abrisem os olhos! Eu seguro a V. P. que de cemmil livros, que se-acham nesta materia, pouquisimos se-poderiam conservar; e alguns deles, só por-fazer favor, aos seus autores. Pois aquilo que entam fariam todos, devem oje fazer os omens, que se-querem aproveitar a si, e aos outros. Quando eu era rapaz, e somente conhecia os autores polo sobrescrito, considerava mais felizes, e doutos aqueles omens, que posuiam mais livros, doque os que tinham menos: porque, dizia eu, aqueles gozam a lisam, de mais autores, e de mais omens insignes. Naquele tempo, Escritor, e Doutor, eram sinonimos no-meu Vocabulario. Eu era um daqueles, (que por-nosos pecados, ainda vemos oje tantos) que medîa a Ciencia a palmos: quanto mais livros, mais ciencia: e o livro maior sempre me-parecia, tezoiro mais preciozo. Mas despois que me-familiarizei, com aqueles mortos: que revolvi muitas, e grandes livrarias: que consultei omens doutisimos: que li atentamente os Criticos: e finalmente que tomei o trabalho de examinar, com os proprios olhos, o merecimento de muitas das-ditas obras: transformei-me neste particular: e formo tam diferente conceito do-mundo; que se explicáse tudo o que intendo, nam conservaria tam boa conrespondencia, com tanta gente. Ora isto que se-pode dizer, de toda a sorte de livros, aplico eu oje aos sermonarios, e outros que tratam de Retorica: e conclûo, que pouquisimos destes livros se-podem ler, e ainda eses com cuidado.
É coiza digna de observar, que nestes paîzes, a maior parte dos-que estudam, confundem o Ingenho, com o Juizo: o Juizo, com a Doutrina: esta, com o Criterio: sendo coizas na verdade bem diferentes. Pode um omem ser ingenhozo, porque pode unir diferentes ideias que elevem, ao que chamamos Ingenho; e nam ter uma oitava de Juizo: porque finalmente o Juizo é aquela faculdade da-alma, que sepára uma coiza da-outra, e conhece cadauma, como é em si. Pode este omem ter Juizo, e nam ter Doutrina, porque nam tem estudado. Pode ter alguma Doutrina, e nam ter aquela que é necesaria, para formar bom Criterio. Isto parece-me bem claro. Mas nam o-intendem asim aqueles, que por-verem um, que ideiou varias chimeras, e formou algumas ideias sutis, mas ridiculas; logo o-batizam, por-omem de juizo, e grande doutor. E daqui entam nace, que as ideias daquele tal omem, sam recebidas com mais respeito, doque nam eram as respostas, em Delfos. Mas, tornando ao argumento.
Para persuadir, quer-se em primeiro lugar, boa Logica, que dè os verdadeiros ditames, para julgar bem[64]: em segundo lugar, um juizo claro, que os execute. Sem estes primeiros principios. sam superfluos todos os ditames. Da-Logica em seu lugar falaremos. Decendo pois ao particular digo, que só a verdade ou verosimilidade, é a que pode persuadir um omem; e é aquela valente arma, com que nos-acomete a razam. Ninguem deixa de se-persuadir, de uma verdade clara. Verdade é que muitos se-persuadem, da-aparencia: mas tambem é certo, que os-move a verdade, que nela imaginam. Asimque só a verdade é a que persuade, quando se-lhe-dá atensam. A forsa que os omens fazem, para divertir os olhos do-intendimento, para outra parte; é a que impede, que a verdade nam triumfe, produzindo o seu efeito, que é a persuazam. Nisto é que está o empenho do-Orador, em descobrir a verdade: mostrála em toda a sua clareza: e manifestar o erro oposto. Nisto se-distingue o verdadeiro Orador, do-Declamador. Este, contentando-se das-aparencias, veste o erro com a mascara da-verdade: o Orador porem descobre e manifesta o erro, e poem a verdade em toda a sua luz.
Orar nam é inganar, é sim introduzir no-animo, alguma verdade importante. Mas muitas vezes os Oradores, tem mais necesidade, de convencer o erro, doque establecer alguma verdade notoria. Ninguem toma o trabalho de persuadir, que Deus castiga, e premeia: isto sabem todos os ouvintes: o ponto está em mover os omens à penitencia, mostrando o grande erro, de a-deferir para a ora da-morte. Em descobrir o erro, é que deve cuidar muito o Orador. Os omens nam se-inganam nas consequencias, porque comumente deduzem-nas muito bem: o em que se-inganam é, nos-principios; porque, por-falta de exame, recebem uns falsos, como se fosem verdadeiros. Deve pois o Orador, mostrar a falsidade destes principios. deve mostrar-lhe em que diseram bem, e em que faláram inganados. Desta sorte mostrando-lhe a verdade, se a materia o-pede; ou, se é notoria, descobrindo-lhe bem o erro, se-consegue o fim da-persuazam.
Mas nam basta isto, para persuadir: e sam necesarias outras circunstancias, para introduzir no-animo, a verdade. A primeira é, a atensam. Que importa, que o Sol alumeie o Mundo, se eu depropozito me-retiro em uma caza oscura; ou polo menos, nam dou atensam aos objetos, que se-me-propoem? Damesma sorte importa pouco, que a verdade seja notoria, e o erro muito bem convencido; se eu nam faso atensam para uma, nem para outra coiza. Deve pois com cuidado o Orador, excitar a atensam: e como as coizas ordinarias, nam conseguem isto, mas sim a singularidade e novidade; deve o Orador, vestir iso mesmo que diz, de uma certa novidade, que o-reprezente singular. As Figuras dam esta novidade às coizas: e por-iso elas sam, as que movem muito a atensam: dando a intender, que o objeto é novo, é grande, é singular. Certo amigo meu, descrevendo a cara de uma molher, igualmente feia, e desvanecida; soube dar tal novidade a este asumto, que é bem umilde, e esteril; que com gosto se-lia a descrisam, do-principio até o fim. Porei aqui um soneto, que fez ao dito asumto, e que tem o mesmo artificio.
Es feia: mas desorte, que orroroza
À tua vista é bela a feialdade.
Mas tens fortuna tal, que a enormidade
Te-consegue os tributos de formoza.
Cara tam feia, coiza tam pasmoza
Todos observam, e move a raridade.
Nam desperta o comum, a curzidade:
Ser rara, é que te-adûla vaidoza.
Ama-se o Belo, e cega o mesmo afeto.
O Feio, pois nam liga o pensamento,
Deixa miudamente ver o objeto.
Iso faz, que se-observe ese portento.
Quanto estás obrigada, a ese aspeto;
Se no-enorme te-dá merecimento!
O outro importante ponto, de excitar a atensam é, nam mostrar o objeto, que se-propoem, senam quando a atensam, ja nam é necesaria. Embebido o omem da-curiozidade, de saber o que se-propoem, vendo sempre coizas novas, e que prometem despois de si, outras maiores; vai seguindo com a considerasam o Orador, atéque lhe-explique, a inteira sustancia do-negocio. Asim se-conserva o ouvinte atento; e, estando atento, se-lhe-introduzem, as verdades que se-querem. Nos-Poetas de algum nome verá V. P. este artificio, bem executado: e tambem em muitos Prozadores. O mesmo Gracian no-seu Criticon, ingenha desorte a narrasam, das-figuras que introduz; que acaba o capitulo, quando se-á-de explicar, algum grande fato: e rezervando a solusam, para o seguinte, conduz o leitor, desde o principio até o fim, sempre com curiozidade de ler. Este tambem é o artificio mais comum, das-orasoens de Cicero, e de alguns Oradores modernos, que o-souberam imitar: como eruditamente adverte, um grande Retorico da-minha Religiam[65]. E nisto é que se-distingue o Orador, do-Filozofo. Ambos tem por-objeto, a Verdade: mas o Filozofo nam costuma, mover a vontade: contenta-se, de expor as razoens: porem se acazo nam acha um leitor, sem prejuizos e preocupasoens nam conclue nada. Mas o Orador move as paixoens: excita a curiozidade: mostra a verdade de tantos modos, com tanta clareza, com tanta eficacia: desfaz os prejuizos com tanto estudo; que finalmente convence o ouvinte.
O 3.o ponto importante é, saber ganhar a vontade, ou insinuar-se, no-animo dos-ouvîntes. A Verdade, diz o proverbio, é amargoza: e uma verdade nua e crua, proposta a uma pesoa, que as-nam-coze bem, é dura de digerir. Deve pois o Retorico, insinuar-se galantemente, no-animo dos-ouvintes: propondo-lhe a verdade, vestida de um tal modo, que ele a-admita, quazi sem advertir. V.P. ja sabe, que as pirolas de quinaquina, e outras tais amargozas, se-cobrem com marmelada, ou obreia branca, para se-engulirem sem dificuldade. Eu sei muito bem, que este negocio, nam está na esfera, de todos os Pregadores. Requer grande pratica do-mundo: grande-conhecimento dos-omens: do-modo com que obram, e com que se-excitam as paixoens: finalmente uma Filozofia particular, que descubra a origem de todos os movimentos do-animo: lisam de bons autores: e perfeita sagacidade: qualidades todas que pouquisimos chegam a conhecer, quanto mais posuîr.
Julga-se comumente, e nam sem razam, que o conceito que os ouvintes tem, da-virtude e merecimento do-Pregador; conduz muito, para se-persuadirem. Quem vai ouvir um omem, de quem é fama comua, ser muito santo, ou muito douto; vai meio convertido, ou persuadido. Em todas as Aldeias, á-de aver um barbeiro, que julgue de sermoens: o qual é estimado, como o omem mais inteligente. Os Aldeioens talvez nam ouvem, o que diz o Pregador; mas estam atentisimos aos movimentos, que faz o barbeiro: se este aprova o discurso, o Pregador é famozo. Asim se-vive nam só nas Aldeias, mas tambem nas Cidades. Sam poucos os omens capazes, de julgarem por-si: mas vem, ouvem, e julgam, polos sentidos dos-outros. A prevensam pois com que se-ouve um omem, é aquela que, entre a maior parte dos-omens, decide do-seu merecimento: e esta tal opiniam de merecimento, é a que faz receber com agrado, os discursos: os quais, quando nam acham opozisam no-animo, produzem todo o seu efeito. E asim deve o Pregador, mostrar-se digno de o-ser: deve pregar primeiro com as obras, que só entam os seus discursos, seram bem recebidos, e os seus ouvintes ficarám persuadidos, do-que lhe-propoem. Mas devem estas virtudes ser verdadeiras, porque sem iso, nada conclûem.
Em 4.ᵒ lugar, deve cuidar muito o Orador, em nam ofender com palavras, os seus ouvintes. Os Omens nam gostam, de repreensoens publicas: e parece que com razam. Tudo se-pode persuadir, com bom modo: e facilmente concordamos no-que nos-dizem, se ouvimos as razoens, propostas com amizade, e com brandura: e propostas por-um omem, que nam faz vaidade da-Eloquencia: que nam ostenta triumfos: mas que utilmente se-serve dela, para nos-inclinar, para onde devemos.
Em quinto lugar, é necesario tambem, mostrar aos ouvintes a utilidade, daquilo que lhe-propoem: mostrar-se parcial dos-seus intereses, para os-poder trazer, para a parte contraria. Nós facilmente damos orelhas àqueles, que intendemos obram, polo noso mesmo motivo; e estam persuadidos, da-mesma paixam. Por-iso é muitas vezes necesario, nam condenar tudo quanto eles dizem: louvar alguma parte, para podermos condenar a outra, com mais eficacia, e efeito. É necesario, saber dizer mal nas ocazioens, modificando a censura, com alguns elogios. Observei sempre, que um omem que nega tudo, ou concede tudo, nam conclûe nada. Devemos dar lugar à prevensam; e algumas vezes dar tempo à colera: esfogada a qual, entam é que pode ter lugar, a persuazam. Para isto requer-se doutrina, prudencia, afabilidade, e outras muitas virtudes.
Deve em 6.ᵒ lugar, saber excitar propriamente, as paixoens; e inspirar aquelas que sam proprias, para mover o Omem. Sam as paixoens as que nos-movem: e nam á coiza, que nam posa fazer um omem, se-acazo se-lhe-excitou, a paixam proporcionada. Nisto pois é que deve estudar o Orador: inspirando aquelas, que sam necesarias, para abrasar a verdade que propoem. Para isto é necesario, estudar bem as paixoens do-animo; porque, sem estas machinas, é certo, que nada obram os Omens. Isto que até aqui temos dito, abrasa todo o genero de orasoens, e sermoens: mas especialmente se-devem notar algumas coizas, para a eloquencia do-pulpito: que compreende duas sortes de orasoens, Panegiricas, e Morais.
Em primeiro lugar é uma ridicularia e impropriedade, tomar um texto da-Escritura, para fazer um panegirico Funebre. Nam é o asumto, explicar a Escritura: mas sim engrandecer, as virtudes todas daquele omem; paraque todos o-imitem: e consolar o auditorio da-sua perda, com a vista dos-monumentos, das-suas singulares prerogativas. Onde deve-se descrever a vida dele; tomando as asoens mais famozas, e deixando menudencias ridiculas, que nam dam maior ideia, da-dita pesoa. Devem-se narrar, e engrandecer as asoens: deve-se na exagerasam empregar todo o artificio da-Retorica; sem degenerar naquelas ridicularias, que todos os momentos vemos: a Istoria, o exemplo pode dar novo lustre, às mesmas virtudes. Mas sempre devemos ter diante dos-olhos, que uma coiza é orasam, em que se-persuade, a execusam da-virtude; e outra panegirico: naquela tem lugar, os textos da-Escritura; nesta de nenhuma sorte. Em uma palavra, todo o artificio que se-deve praticar, em todas as orasoens exornativas, que ou louvam, ou vituperam; consiste em narrar, e amplificar. Desorteque, para nam fazer istoria, deve nam só narrar; mas de tal sorte distribuir a narrasam, que despois de narrar um fato, ou uma serie de fatos, que pertensem ao mesmo ponto; os-amplifique: e asim mostre o seu juizo, na narrasam; e a sua eloquencia, na amplificasam[66]. Como todas as orasoens do-genero demonstrativo, tenham estado de comparasam, porque nam se-disputa, an res sit, mas quanta sit: deve ser o principal artificio do-Orador, introduzir a controversia conjetural; com que manifeste, a grandeza da-asám, considerando miudamente todas as coizas, que a-podem relevar. Despois, conjeturar das-virtudes pasadas, o que ele faria nestas, ou em outras circunstancias &c. Podem tambem nestes panegiricos ter lugar, diversos outros artificios, de controversia Definitiva, Translativa, e Judicial; praticados polos antigos Retoricos: os quais conduzem muito, para este mesmo fim.
Quanto à dispozisam dos-argumentos, aconselha Cicero, que primeiro se-toquem, os bens externos, quero dizer, da-gerasam: despois, os do-corpo, e os do-animo. Quanto às asoens, que ou se-siga a ordem dos-tempos, ou se-reduzam a diversos titulos de virtudes[67]. Desta sorte narrando, e amplificando, se-poderá formar, um panegirico perfeito.
Pasando daqui aos panegiricos de Santos, em quanto se-puderem evitar temas, será mais arrezoado: mas quando ou o costume, ou o genio obrigue, a tomar algumas palavras da-Escritura; nam é necesario, esquadrinhar profecias, nem procurar de acomodalas literalmente: basta que as ditas tenham alguma analogia, com a materia de que se-trata. Pode-se seguir a sentensa da-Escritura, para comesar o sermam; sem a-introduzir novamente, no-corpo dele. Isto tenho visto fazer, a omens muito grandes: e parece-me que um tal exemplo, se-deve preferir aos outros. No-corpo da-obra, deve-se seguir o mesmo estilo, das-outras orasoens laudatorias; narrar, e amplificar. Mas como a vida dos-Santos, principalmente antigos, é ja nota a todos; para evitar o fastio a estes delicados, pode escolher uma, ou duas asoens mais famozas, e delas formar o seu panegirico. E este metodo é o mais frequente, quando se-fala em Santos antigos: cujas asoens todas ou sam bem notas, ou deles somente sabemos, uma ou outra virtude, mas publica a todo o mundo: ou algum grande privilegio, concedido por-Deus ao dito omem: e este o-engrandecem, com todo o artificio da-Retorica. Mas nos-modernos, cuja vida nam é mui notoria; é melhor, seguir a ordem dos-tempos, ou virtudes, e explicar toda a vida do-Beato. O grande Orador Paulo Segneri, pregando de S.Estevam, engrandece a virtude deste Martir, com varias considerasoens. 1.ᵃ ser S.Estevam o primeiro, que dèse a vida pola Fé. 2.ᵃ tela dado por-uma fé, que entam comesava, e era ainda desconhecida. 3.ᵃ tela dado nam só sem esperansa, de receber aplauzos, mas com certeza moral, de experimentar oprobrios e derrizoens. 4.ᵃ ter dado o proprio sangue por-um, de quem nam tinha recebido, tam privilegiados favores, como recebèram os Apostolos. 5.ᵃ porque uma tal asám mereceo, comunicar a Paulo, e outros que o perseguiam, a sua mesma fé. Com este exemplo, se-podem tecer mil panegiricos: advertindo muito, que estes pontos, nam se-devem provar separadamente, como fazem neste Reino; porque este metodo destrue, a uniformidade do-sermam, e impede o exercicio oratorio: mas de um se-deve pasar a outro, de modo tal que, sem advertir o ouvinte, se-veja introduzido na considerasam, de uma nova prerogativa; com que o Pregador vai requintando, as virtudes que narra; e seguidamente o-conduz ao fim, de o-persuadir, que é grande o sugeito, de que se-trata. E nisto se-compreende tudo, o que pertence ao genero laudatorio, quero dizer, aos sermoens em que se-louva alguma pesoa, ou alguma asám de piedade.
A outra especie de sermoens, a que chamam Morais, podem em certo modo pertencer, ao genero demonstrativo: o qual nam só compreende, os que louvam alguma asám, mas os que vitupèram outras: como sam os morais, que pintam o Vicio mui feio, para mover os Omens, a que abrasem a Virtude oposta. Mas como nisto entra a persuazam, e admoestasam, que sam proprias do-genero deliberativo; podemos chamar-lhe, mixtos de ambos os generos. Mas chamem-lhe como quizerem, o mesmo artificio, que asima disemos, se-pratica nos-outros; deve praticar-se nestes, com sua proporsam: quero dizer, que se-tome um asumto singular, e proprio do-que se-quer dizer; e que se-busquem argumentos, e se-dilatem demaneira, que sempre se-vá subindo; para chegar a persuadir-se, o que se-quer. Isto suposto deve o Pregador, fugir de dois extremos: um, de querer agradar muito, dizendo galantarias, e enchendo a orasam de pensamentos sutis, de aplicasoens chimericas, e outras coizas destas: outro, de nam querer agradar coiza alguma, como fazem certos misionarios, que propoem as verdades tam nuas e cruas, que infinitamente dezagradam. Contra os primeiros, ja asima dise alguma coiza, repreendendo as afetasoens, onde nam entram: sendo certo que nam entram tais coizas, em materias tam sezudas e graves. Mas porque á muita gente, que, querendo fugir do-primeiro defeito, caie no-ultimo; e para cubrir a propria ignorancia, despreza todos os ornamentos da-Retorica; é necesario mostrar a estes, o seu ingano, com o exemplo dos-omens doutos, e pios.
O Pregador Evangelico deve instruir, e mover: e nam se-insinuando, no-animo dos-ouvintes, nam conseguirá o persuadilos. Onde, diz com muita razam S. Agostinho[68], que o Orador Cristam, deve saber uzar, dos-livros dos-Etnicos; principalmente dos-Retoricos, para agradar, e persuadir: o que prova com exemplos, de muitos Padres, que fizeram o mesmo. Semelhante pensamento expoem S. Jeronimo, escrevendo a Magno Orador Romano: e S. Gregorio Nazianzeno diz mui claramente[69], que todos os seus estudos profanos tinha deixado, menos a Retorica: na qual experimentava todos os dias, infinitas utilidades; e que dela se-servîra, e servia sempre. S. Bazilio, S. Ambrozio, e outros SS. mui doutos nas letras profanas, praticáram o mesmo: e nas suas obras conhecemos nós, como podemos uzar, dos-tais autores. Onde deve o Pregador, ter sempre na memoria, aquelas palavras de S. Agostinho no-lugar citado: Volumus non solum intelligenter, sed libenter audiri. e em outra parte: Nolumus fastidiri etiam quod submisse dicamus ..... Illa quoque eloquentia generis temperati, apud eloquentem Ecclesiasticum, nec inornata relinquitur, nec indecenter ornatur. Deve alem diso o Pregador, nam só instruir, e agradar; mas principalmente mover: o que conseguirá por-meio do-genero sublime, e patetico, quando se-trata de persuadir, as obras boas: porque no-saber mover é que consiste, o verdadeiro triumfo da-eloquencia. E para fazer isto, nam se-requerem, como jà dise, sutilezas, mas razoens fortes, e bem dispostas, e exageradas. &c.
Isto é obrigasam. Quanto ao meio de o-conseguir, deve, despois de bom fundamento, nas letras umanas, ter grande lisam da-Escritura, e dos-Padres que apontamos: cujas homilias ensinam, como se-deve pregar, para tirar fruto. Nam creio, que aja Pregador ou Misionario, que queira ser mais santo, mais douto, e mas zelante, da-onra de Deus; que os que apontamos, e outros semelhantes, como S. Joam Crizostomo &c. e tendo eles praticado isto, com tanto louvor; eles tambem devem ser, os nosos mestres. Especialmente se-deve ler S. Agostinho, nos-livros de Doctrina Christiana, onde explica bem a materia.
Mas porque a maior parte destes, prezados de Criticos, e Retoricos, que nam sabem a istoria Ecleziastica, nem Literaria; intenderám, que estes Padres só cuidavam na virtude, e nam sam bons para se-imitarem, na eloquencia &c. será necesario explicar-lhe em breve, quem eles eram. Bazilio Cesareense, ou Magno, de quem aqui falamos, estudou muitos anos, na mais famoza escola, que era Atenas. foi um dos-mais famozos Filozofos, Gramatico, e Retorico insignisimo. as suas homilias sam um perfeitisimo modelo de eloquencia: e o grande Photio chega a dizer, que se-podem igualar, a Demostenes. Leva a palma principalmente, nos-Panegiricos. Gregorio Nisseno seguio as pasadas, de seu irmam Bazilio. foi publico profesor de Retorica, e insigne Filozofo: e tam amante das-letras profanas, e especialmente da-Retorica, que S. Gregorio Nazianzeno, amigo comum de ambos, na carta 43. condena, este seu nimio estudo. O estilo dele é sublime, e juntamente agradavel. S. Gregorio Nazianzeno foi condicipulo, e amigo de S. Bazilio. Na eloquencia querem muitos, que exceda ao mesmo Bazilio. finalmente é tam sublime na pureza, e elegancia; que o grande Erasmo diz, que nam se-pode traduzir bem em Latim, por-cauza da-magnificencia &c. S. Ambrozio era eruditisimo em Grego, e Latim, mais doque comumente se-nam-cre. o seu estilo é concizo, e agudo, e quazi semelhante ao de Seneca; aindaque melhor. Nam era grande Retorico: mas é fluido, e proprio para convencer os erros com doutrina, piedade, e gravidade. S. Jeronimo todos sabem que era um omem eloquentisimo, em Latim, e Grego &c. e mui versado nos-livros dos-Etnicos, e na Filozofia Grega, e Istoria; e sumamente veemente: Onde pode-se aprender nele, muita coiza boa. S. Agostinho aindaque nem na pureza da-lingua, nem no-estilo seja igual a Jeronimo, e outros asima; contudo na sutileza, e no-mesmo tempo na profundidade do-juizo, talvez o-excede. Certamente que aindaque fose, profesor de Retorica, nam fez grande aproveitamento; nem chegou à erudisam dos-outros. Mas dele se-pode aprender muito: principalmente nos-ditos livros de Doctrina Christiana, emque ensina que dotes se-requerem, para interpretar bem as Escrituras; e fazer as outras obrigasoens de um Ecleziastico. Asimque dele se-podem aprender, muitos ditames. S. Joam Crizostomo tambem era doutisimo. Alem da-pureza da-lingua, que parece um verdadeiro Atico, une trez coizas admiravelmente; que sam a facundia, a erudisam, e a facilidade: desorteque ninguem tratou as materias, com mais clareza, e naturalidade. Alem diso é singular nisto, que acomodou a sua doutrina, à capacidade dos-ouvintes; e por-iso agrada a todos: em modo que para pregar ao povo, as suas obras ensinam muito. Estes sam os Santos, que propomos ao estudante; e nam só porque sam santos, e mui versados nas doutrinas sagradas; mas especialmente porque o-sam nas profanas: com as quais formáram o bom gosto, e intendèram melhor as sagradas. Porque muitos nam tem, estes principios de letras umanas, aplicadas às divinas; por-iso vemos tantos Pregadores, que nam sabem abrir a boca. E porque nas mesmas letras umanas, muitos as-nam-estudáram como deviam, nem chegáram a conhecer, qual era o bom gosto, da-Eloquencia; por-iso tambem V.P. ve todos os dias omens, que nam só nam sabem, fazer um papel sofrivelmente; mas nem menos conhecer nos-outros, as delicadezas da-Oratoria. Desorteque se acazo lhe-mostram, uma orasam bem feita; nam lhe agrada: ou só vam buscar nela, as coizas menos sofriveis; palavrinhas, e coizas semelhantes: sem olharem para o todo da-orasam, para a proporsam, e dispozisam das-partes, o modo de dilatar os argumentos, de aclarar uma verdade; a verosimilidade dos-mesmos argumentos, e outras particularidades, em que consiste a eloquencia. A este modo pois de examinar, como eles fazem, chamo eu, julgar com os cotovelos: e tudo isto nace, de terem estudado mal.
Tambem outra coiza importante, deve advertir o Pregador, que sam as asoens. parece isto nada, e é uma principal parte na Oratoria. Nisto pecam bastantemente em Portugal. Vemos Pregadores, que peneiram no-pulpito, movendo os brasos e maons orizontalmente, com afetasam vergonhoza. vemos outros, que amasam, e dam estocadas com os brasos, arregasando as mangas, e fazendo mil coizas e posturas improprias. Nam pode V.P. crer, quanto isto desfigura o Orador, e esfria o animo dos-que o-ouvem. Um papel bom, quando é mal reprezentado, nam vale nada: o que todos os dias experimentamos. Bem nota é a istoria de Demostenes, o qual tendo ja dezesperado, de poder orar em publico, pola infelicidade da-sua pronuncia; um Comediante o animou, com a esperansa de reprezentar bem: e deo-lhe tais lisoens, que foi a cauza principal, do-grande nome, e aceitasam que ao despois teve.
Os Romanos, que sabiam quanto importava, reprezentar bem o seu papel, desorte se-exercitavam nisto, que tomavam lisoens dos-Comediantes; como o mesmo Cicero de si confesa. E com efeito, nam podiam tomar melhores mestres: porque os Comicos eram tam insignes nisto, que falavam somente, com as asoens. Nos-ultimos tempos da-Republica, se-introduzîram nos teatros, os Pantomimos: que era uma especie de Comediantes, que com as asoens somente explicavam, o que outro, que estava imovel no-fim do-teatro, dizia. Desorteque um falava; e o Pantomimo animava com a asám, a expresam do-outro. Tal era a diligencia, com que sabiam com a asám, acompanhar os movimentos do-animo! Isto faziam aqueles que sabiam, que coiza era Retorica: e isto deve fazer qualquer omem, que á-de orar em publico.
Os nosos Italianos sam os unicos, entre todas as Nasoens, que melhor exprimam com a asám, o que dizem: e nam só quando oram, mas tambem quando recîtam versos. Os Inglezes nam se-movem, quando recîtam: os Francezes esfogueteiam, e cantam: os Espanhoes choram: outros tem outros defeitos. Mas pola maior parte convem todos, que os Italianos, sam os mais expresivos: e um grande ingenho Francez, do-seculo pasado, chegou a dizer, que os nosos Italianos naturalmente eram, Comediantes. Porem em Portugal, á muita falta disto. Dos-Pregadores é notorio, que nam só lhe-falta a asám, mas até o tom da-voz, que nam acompanha com a asám. Confeso a V.P. que nunca pude sofrer a afetasam, com que muitos pregam a Paixam, ou as Lagrimas. Estudam uma voz flebile, mas com modo tal, que em lugar de fazer chorar, provoca o rizo: muito mais se consideramos o que dizem, com a dita voz flebile. Eles circunscrevem o estilo patetico, na dita voz: e asentam que ela basta, para mover. Loucuras! O mesmo digo, quando fazem a exclamasam para o Sepulcro, nos-sermoens de Quaresma. todo o ponto está, em gritar muito: pedir mil mizericordias: e com isto se-contentam. Mas a falar a verdade, estes nam sabem o seu oficio. O estilo patetico, é a coiza mais dificultoza, da-Retorica, como confesa Cicero[70]: e nele é que consiste o triumfo, e aplauzo da-eloquencia. Nam é pequena dificuldade, ou para melhor dizer, é coiza admiravel, que as palavras que profere um omem, ajam de mover em mil ouvintes, os mesmos sentimentos, que quer o Orador: amor da-Virtude: odio do-Vicio: aborrecimento de si mesmo! Que cuida V.P. que será necesario, para conseguir isto? É necesaria doutrina admiravel: particular conhecimento das-paixoens umanas; como se-excitam, e adormecem: asoens proprias: e em uma palavra, saber uzar das-Figuras, na ultima perfeisam: e isto nam se-faz com voz flebile, nem com gritarias, mas com outras virtudes oratorias. Nam digo, que quem prega estes sermoens, esteja rindo: digo sim, que deixe aquelas afetasoens, e reconhesa em que consiste, o mover os animos: qual é a asám, qual a voz proporcionada.
Mas pior que tudo é, quando recîtam versos: rarisimo vi, que pronunciáse verso bem. Comumente vam detraz do-consoante, e fazem pauza, nam no-fim do-sentido, mas no-fim do-verso: o que é erro manifesto. Parece isto pior, quando recîtam versos Latinos, nos-quais nam á consoante: de que vem, que um carmen pronunciado por-um deles, e por-outro que o-saiba animar com a voz, e asám, parece diferente. Este defeito deve emendar o omem, que quér ser perfeito. deve exercitar-se em caza, diante de algum amigo bem informado; para ver, se expremio bem, a asám que quer. Só asim conseguirá, ser ouvido com gosto.
Mas eu quero parar, neste ponto: porque se deixo correr a pena, em lugar de reflexoens, escreverei um tratado de Retorica. Reconheso que já caî, no-mesmo defeito que condeno: mas a materia é tam fecunda, e as reflexoens ocorrèram-me, com tanta promtidam, que nam pude deixar, de as-admetir. Direi porem a V. P., que lendo o que tenho escrito, acho que é suficiente, para introduzir um moso no-estudo, da-verdadeira Eloquencia. e quem se-capacitar bem destas reflexoens; e comesar a ler os bons autores, tanto Latinos, como Vulgares; e observar neles, o artificio das-orasoens; sem ler mais outra Retorica, pode sair gravisimo Orador. Esta prezunsam nam nace de mim, mas damesma qualidade dos-preceitos: os quais sam tam antigos, como os Oradores: que é o mesmo que dizer, sam os mesmos que executou Demostenes, e Eschines, e Isocrates: que nos-deixou escritos Aristoteles, Demetrio, e Longino: que praticou e ensinou com tanto louvor Cicero, M. Seneca, e Quintiliano, e outros autores antigos. As Retoricas comuas nam apontam, senam alguns nomes, que eu aqui nam quiz apontar: sem saber os quais, pode um omem ser, muito bom Retorico, se souber imitar estes treslados. Como tambem pode um omem, com exata lisam de bons livros, discorrer bem, sem saber as especies de silogismos, que apontam os Logicos.
Neste pouco que tenho proposto, cuido que cheguei, ao verdadeiro principio da-Eloquencia. Nam apontei o artificio, dos-diversos estados de controversias oratorias; porque nam era ese o meu argumento; nem tambem se-acha, nas Retoricas ordinarias: e somente se-pode aprender, nos-mesmos autores originais. O meu Religiozo que asima aponto, explica muito bem estes artificios, dando os exemplos originais: mas tambem se-demora com minucias: e como escreve em lingua estrangeira, nam é para o cazo. Outros, de que eu me-aproveitei mui bem, tambem escrevem em linguas estrangeiras, ou sam difuzisimos. Neste cazo para dizer a V. P. o meu parecer, aconselho ao estudante Portuguez, que nam tem alguma boa Retorica Portugueza; que, despois de intender bem, o que aqui lhe-aponto, tome alguma ideia, da-distribuisam da-orasam; a saber, exordio, narrasam, provas, epilogo: que leia brevemente, o nome das-figuras das-palavras, e do-animo: o que o mestre facilmente podia explicar. Posto isto, segue-se ler um autor Portuguez, no-qual posa fazer, as reflexoens necesarias. Mas aqui esta a dificuldade: e eu que nam costumo inganar ninguém, devendo dizer-lhe sinceramente o que intendo; digo, que nam acho algum, que posa ser modelo.
Dos-sermoens nam tenho que dizer, sendoque ja expliquei, o que eram. As orasoens Academicas, que se-lem nos-Anonimos &c. nam merecem que se-leiam. Algum elogio da-Academia Real, que é mais toleravel, peca por-outro principio: porque é mera istoria, sem artificio algum retorico. * * * E aos que respondem, que tambem os Francezes praticam o mesmo, nos-elogios dos-seus Academicos; respondo o mesmo: que os ditos elogios sam istorias, e nam panegiricos: e asim o-julgam todos, os que tem voto na materia. Li nam á muitos dias o do-Cardial de Polignac, que teve ultimamente seus aplauzos: e achei que o autor, se ouvèse de escrever a istoria do-dito, nam se-serviria, nem de outras palavras, nem pensamentos, nem frazes. Com efeito eu julgo, que aqueles omens nam querem fazer outra coiza, que explicar em breve, a vida, e merecimentos dos-seus Academicos. Onde como eles nos-dispensem, de lhe-chamar orasam, ou panegirico; concedemos-lhe tudo o mais: mas devemos porem reconhecer, que nam sam obras no-genero Oratorio: e que nam sam para se-imitarem. Onde neste cazo deve o mestre, tomar sobre si o trabalho, de explicar tudo em Cicero: servindo-se para isto do-P. Cigne Jezuita: o qual, seguindo o metodo de um certo Inglez, faz a analize das-orasoens de Cicero. E asim nelas deve o mestre, mostrar o artificio da-Oratoria, fazendo as seguintes reflexoens. Notar primeiro a forsa das-razoens, dispostas com boa ordem, unidas naturalmente, e amplificadas com artificio. Notar a verosimilidade das-ideias: a pureza e elegancia das-palavras: a moderasam e propriedade dos-epitetos: o numero oratorio, que consiste em certa colocasam armonioza de palavras, mas que nam degenere em verso: a introdusam das-figuras, quando é necesario excitar as paixoens: as precausoens que observa, para nam dezagradar. Observando bem isto, na lisam dos-autores, bastava para conseguir, o bom gosto da-Eloquencia.
Deve porem unir-se com isto, o exercicio. Onde o mestre comporá, uma breve orasam Portugueza, segundo as regras da-arte: e mostrará nela aos dicipulos, o artificio e galantaria dela. Fazendo-se isto em Portuguez, facilmente se-aprende: e só asim podem eles, intender bem os preceitos, e executálos. Isto nam fazem em Portugal os mestres, e quazi se-envergonham, de escrever em Portuguez: sem advertirem, que a Retorica nestes paîzes, mais se-exercita em Vulgar, que em Latim. Mas por-esta razam sucede, que saiem todos da-Retorica, sem saberem dela mais, que o nome. Porem, tornando ao estudante, tendo-lhe proposto um modelo, de fazer uma breve orasam; será necesario exercitálo. Isto facilmente se-faz, propondo-lhe na escola um asumto, e proguntando-lhe, o que eles diriam em tal cazo, para defender v.g. ou acuzar aquela pesoa. Certamente um rapaz com a logica natural, dirá algumas razoens, que lhe-ocorrem: pois vemos, que a nenhum rapaz faltam razoens, para se-desculpar dos-erros que faz, quando o-querem castigar. A um rapaz pode dar, a incumbencia de acuzar, e a outro de defender. Despois que ambos tem dito o seu parecer, deverá o mestre, suministrar alguma razam mais; e ordenar aos rapazes, que as-escrevam, e fasam as suas orasoens, do-melhor modo que puderem. Isto feito, deve o mestre emendar os erros, tanto de lingua, como de Retorica; dando-lhe razam, de tudo o que faz: e variando sucesivamente os asumtos. Desta sorte aprende-se mais Retorica, em uma semana; doque polo metodo vulgar, em dez anos.
Quando o estudante sabe bem, que coiza é Retorica, no-resto do-ano se-pode empregar, em compor Orasoens Latinas: ou traduzindo, as que compoz em Portuguez, o que é mais acertado ao principio: ou compondo outras novas. Para quem ja intende Latim, e sabe compor bem em Portuguez, isto é um divertimento, sem ter dificuldade alguma. Terá pois o mestre cuidado, de lhe-encomendar, que leia os trez livros de Oratore de Cicero, e Orator ad M. Brutum, como tambem o de Oratoriis Partitionibus: os quais dois ultimos sam a quinta esencia, de toda a Retorica. Encomende-lhe que se-familiarize, com as Orasoens de Cicero, para aprender os seus modos de explicar. As outras reflexoens sam iguais, em ambas as linguas, com sua proporsam: e tambem o modo de emendar os defeitos, que os estudantes cometem. Desta sorte é sem duvida que em um ano, podiam saber muito facilmente Retorica, e mui solidamente.
Quanto aos mestres, sou de parecer, que leiam atentamente, nam só os ditos livros, que apontamos de Cicero, e alguns outros, pertencentes também à Retorica; mas os de Quintiliano, em que faz belisimas reflexoens, sobre ela. Valla diz[71], que ninguem pode, intender bem Quintiliano, sem primeiro saber bem Cicero: nem menos seguir perfeitamente Cicero, sem obedecer aos preceitos, de Quintiliano. O certo é, que Quintiliano é um Retorico insigne, e um grande Critico, que toda a sua vida empregou em refletir, e ensinar: e tem maravilhoza eloquencia: e dele podem tirar os mestres, as necesarias reflexoens, para comunicar a seu tempo, aos rapazes. Se o mestre quizese, mais alguma noticia particular, e ver as fontes, de toda a Retorica; devia ler os livros Retoricos de Aristoteles, que é o mestre nesta materia, e os ditos sam a sua melhor obra: nela bebèram todos. Podia servir-se da-versam Latina, se nam intendèse o Grego. A este ajunto um famozo Critico, e Retorico, que é Dionizio Longino, no-seu tratadinho de Sublimi stilo: em que faz admiraveis reflexoens, servindo-se tambem da-Versam[72]. E quem quizese mais, podia ler o Demetrio Falereo: aindaque nos-outros acha-se tudo. A estes quatro, Aristoteles, Cicero, Quintiliano, e Longino, se-reduz tudo o que á melhor na Antiguidade, sobre a Retorica. Aconselharia tambem ao mestre, que lese os panegiricos Latinos, que temos dos-Antigos, comesando em Plinio, e pasando aos outros que se intitulam, Panegyrici Veteres; que cuido sam uns quinze, compostos no-quarto, e quinto seculo: nam para os-seguir em tudo: mas para os-conferir com os antigos, ver em que diferem, e aproveitar-se deles, em alguma coiza menos má. Advertindo nestes ultimos, que o que aconselhamos nam é a lingua, que tem seus defeitos; mas algum pensamento &c. Retoricas modernas nam aconselho nenhuma, nem a dicipulos, nem a mestres: tirando o Vossio, nas suas Instituisoens Oratorias, que é famozo: o qual podiam ler uns, e outros, quando quizesem particularizar, alguma noticia. Aindaque quem le, e intende bem, o livro Orator de Cicero, nam necesita mais: mas como é breve, pode-se permetir, ler alguma coiza mais.
Aconselharia tambem, que aprendesem bem a lingua Italiana, para lerem as famozas tradusoens que se-acham, dos-Antigos Oradores Gregos, e Romanos, feitas por-omens insignes: como tambem para lerem as belisimas obras, em materia de Eloquencia; que os nosos Italianos tem produzido, e produzem todos os dias. Ninguem nos-disputa a prerogativa, de que a Eloquencia sempre se-conservou, em Italia. Os Francezes, que nam cedem facilmente, no-particular de literatura, fazem-nos este elogio. E aindaque eles abundem de omens doutos, nesta faculdade; vemos que na Italia se-conservou sempre, com mais extensam, e pureza. Quem le o P. Paulo Segneri Jezuita, o Cardial Cassini Capucinho, e ainda o mesmo Monsenhor Barberini, tambem Capuchinho, e mil outros de diversas Religioens, e Seculares sem numero; parece-lhe que conversa, com o mesmo Cicero: porque formados sobre estes antigos modelos, em nada se-distinguem, dos-originais. Acrecenta-se a isto a lingua, que, despois da-Latina, é a mais bela, e armonica, para a Eloquencia. Tem mais os Modernos, outra circunstancia; vem aser, que tendo-se aplicado a diversas materias, nam só profanas, mas sagradas, de que nam á vestigio, nos-antigos Retoricos; fizeram aos nosos olhos mais familiar esta faculdade, e mais facil de se-imitar: porque dam belisimos exemplos, em tudo. Desta sorte familiarizando-se muito, com os Antigos, e Modernos; observando em que diferem, e em que sam louvados; se-pode conseguir, a verdadeira Eloquencia.
Conheso, que se eu faláse com outra pesoa, que nam fose V. P. se-escandalizaria muito, que eu nam aconselháse aqui, a leitura do-P. Vieira, do-Baram Conego Regular, do-Bispo de Martiria, do-Arcebispo de Cranganor, e de alguns outros, que nam aponto; persuadindo-se, que estes omens sam originais, de toda a estimasam. E nam sei se V.P., aindaque superior no-criterio aos outros, intende, que algum deles podia ter lugar, entre outros que louvo. Mas eu, meu amigo e senhor, nam tenho nisto parcialidade alguma; e julgo, segundo o que intendo, na minha conciencia. Verdadeiramente é coiza indigna, de todo o omem ingenuo, quanto mais de um Religiozo; desprezar autores, que o-nam-meresam, e sejam em simesmos dignos, de todo o louvor: mas nam é menos indigno, aprovar um escritor, contra aquilo que intendo. Eu ja fiz a minha solene protesta, na primeira carta, e nesta da-Retorica tambem; que nam pertendia defraudar ninguem, da-sua justa estimasam: e novamente aqui repito, que estimo infinitamente qualquer destes Religiozos: mas eu os-distingo muito das-suas obras, que nada estimo.
E comesando polo mais famozo, o P. Vieira teve mui bom talento; grande facilidade para se-explicar; falou mui bem a sua lingua; e nas suas cartas é autor, que se-pode ler com gosto, e utilidade. Quanto aos sermoens, e orasoens, deixou-se arrebatar, do-estilo do-seu tempo; e talvez foi aquele que com o seu exemplo, deu materia a tanta sutileza, que sam as que destruem a Eloquencia. Nos-seus sermoens, nam achará V. P. artificio algum retorico, nem uma Eloquencia que persuada. Muitos, que gostam daquelas galantarias, lendo-o sairám divertidos: mas nenhum omem de juizo exato, sairá persuadido delas. Sam daquelas teias de aranha, bonitas para se-observarem, mas que nam prendem ninguem. Eu comparo esta sorte de sermoens, aos equivocos: que parecem bonitos, quando se-ouvem a primeira vez; mas quando se-examinam de perto, nam concluem nada. Porque finalmente se V. P. le os tais sermoens, e examina as provas e artificio delas; verá muitas coizas, que cheiram a Metafizica das-escolas: mas nam achará alguma, das-que asima aponto, como necesarias. Os exemplos que asima apontei, sam comumente tirados, dos-seus sermoens: e com eles à vista, poderá V. P. conhecer, quantas coizas eu deixei, que podia apontar. Se pois isto se-chama pregar, e pregar bem, eu o-deixo considerar, aos dezapaixonados.
O dezejo que o P. Antonio Vieira, em quazi todos os sermoens mostra, de agradar ao Publico, ainda quando às vezes o-critica; deixa bem compreender, que se-conformava muito, com o estilo corruto do-seu seculo. Tinha ingenho, imaginasam fecunda, e deixando-se conduzir, do-impeto do-seu fogo, ou talvez procurando de excitar em si, uma especie de entuziasmo; rompia nas primeiras ideias, que lhe-ocorriam; que sempre eram sutis, polo costume que tinha, de ideiar asim. Eu falo com V.P. que tem grande noticia dos-ditos sermoens, em virtude da-qual conhece, com que razam eu-digo isto: que se-faláse com outro, serîa mui facil, provar tudo quanto escrevo. Mas nam poso deixar de insinuar, que a maior prova do-que proponho, é a sua decantada obra, Clavis Prophetarum: de que nos-dá uma ideia, no-livro que intitula, Istoria do-Futuro. Neste livro acha V.P., uma chimera mui bem ideiada, e que a ninguem mais ocorreo. Promete provar primeiro, que á-de aver no-mundo, um novo Imperio: mostrar, que Imperio á-de ser: determinar, as suas grandezas e felicidades: explicar, por-que meios se-á-de introduzir: individuar, em que terra, em que tempo, e em que pesoa á-de comesar este Imperio[73]: o qual á-de ser tam grande como todo o mundo, sem iperbole, nem sinedoche[74]. Prova isto, segundo diz, com uma profecia de S. Frei Gil: com o juramento d’El-Rei D. Afonso: e com outras provas deste calibre. Diz tambem, que a maior parte, á-de sair da-Escritura; na qual estam reveladas, todas estas coizas. Quanto ao Imperador, aindaque claramente o-nam-explica, dá muito bem a intender, que sairá de Portugal; porque aos Portuguezes é que propoem, estas felicidades. Alem disto em outra parte[75] declara mui bem, que este Imperador será o filho primogenito, do-Serenisimo Rei D. Pedro II. e pretende proválo com os mesmos fundamentos, com que prova o Imperio, na Istoria do-Futuro. E nas cartas que escreve, a algumas pesoas, lhe-explica, que as felicidades de Portugal, estam muito vizinhas.
Eu nam entro aqui a disputar, se estes fundamentos, (nam falo das-Escrituras, pois é loucura persuadir-se, que falam em tal materia) sejam bastantes, para afirmar tal paradoxo: é bem claro, que isto tem aparencias de comedia; e bem parece obra feita, para divertir o tempo. Mas aindaque fose verdade, que as conquistas feitas, estivesem tam distintamente profetizadas, na Sagrada escritura; e despois do-suceso se-intendesem; fica em pé a dificuldade, de tirar da-Escritura, as conquistas futuras, deste novo Imperador. E quanto aos expozitores que ele aponta, e às profecias destes modernos, em que se-funda; creio nam faremos injuria ao P. Vieira, se nos-rirmos de todas estas provas, esperando, que as-procure mais fundadas. Mas o que digo a V.P. é, que na dispozisam deste livro preambulo, se-ve o estilo do-P. Antonio Vieira: porque tudo prova com a Escritura. Ainda as coizas mais triviais, as profanas, e a mesma justisima exaltasam de D. Joam IV. ele as-quer provar aos Espanhoes, com as Escrituras. O pior é, que pola major parte, funda-se em palavrinhas da-Vulgata. E este é mui mao modo de interpretar: porque nam tendo Deus falado em Latim, mas em Ebraico, Caldaico, e alguma coiza em Grego; é necesario saber estas linguas, para alcansar, a verdadeira inteligencia do-original. Sem estas preparasoens, nenhum interprete se-mete a dizer, coizas novas: mostrando a experiencia, que comumente se-inganam, e só podem dizer, sutilezas pouco sofriveis.
E eu creio que nam sam mui toleraveis, as que ele aqui escreve: observando-se suma contrariedade, na interpretasam que dá, aos seus mesmos fundamentos. Umas vezes, a decimasexta gerasam, é o Cardial Rei D. Enrique:[76] e ainda lhe-faz a merce, de nam contar a vida d’El-Rei D.Alfonso I. que cuido devia ser o primeiro, no-catalogo. Outras vezes, a decimasexta gerasam é D. Joam IV.; e D. Pedro II. é a prole atenuada[77]: e como ao dito Rei nam se-pode aplicar, a palavra atenuada; procura aplicála a seu filho, o Principe entam nacido. Eisque morre o tal Principe ainda menino: Neste cazo o noso interprete excogita a saida, de lhe-ir dar no-Ceo, a investidura do-Imperio[78]: e comesa com outra metafizica pior, que a primeira. Finalmente despois de muitas observasoens, fica desmentida a verdade, do-juramento d’El-Rei D. Alfonso: e o Imperio do-mundo, que tam claramente estava profetizado, e prometido ao tal Principe, lá vai polos ares: e nem menos á aparencia, que se-torne outra vez a restablecer: pois do-tempo em que ele escrevia até este, vam bons 80. anos; e ainda nam vemos aparencias diso. Eisaqui tem V. P. o que sam todas estas chimeras, da-Istoria do-Futuro; e das-coizas que tem parentesco, com ela.
Ora estas sutilezas do-P. Vieira, cuido que tem arruinado, muita gente: porque formando grande conceito, do-seu talento; o-imitáram tanto à letra, que nada agradou, que nam cheiráse ao mesmo estilo. Ja é coiza muito antiga, que em materia de literatura, um omem seja o treslado, para que olhem os outros do-seu tempo. Quando em uma Cidade um sugeito consegue, fama de eloquente, os outros o-imitam; e às vezes por-seculos inteiros, se-conserva o mesmo estilo[79]. Aquele Seneca a quem chamam o Filozofo, nam se-duvida, que tinha grande ingenho, e doutrina: mas querendo-se singularizar; entre os antecedentes, comesou a fazer um estilo tam florido; que foi a primeira cauza, de se-perder o bom gosto da-Eloquencia, que reinára no-tempo de Augusto. Multæ in eo claræque sententiæ: (diz um Orador grande) multa etiam morum gratia legenda: sed in eloquendo corrupta pleraque: atque eo perniciosissima, quod abundant dulcibus vitiis. Vettes eum suo igenio dixisse, alieno judicio. nam si aliqua contempsisset, si parum concupisset, si non omnia sua amasset, si rerum pondera minutissimis sententiis non fregisset; consensu potius eruditorum, quam puerorum amore comprobaretur[80]. Palavras que me-parecem cortadas, para o P. Antonio Vieira: do-qual creio que se-pode dizer, que se, servindo-se do-seu ingenho, seguise outro estilo; serîa um grande omem: quando porem nam se-ocupáse com o argumento, da-Istoria do-Futuro.
E daqui compreenderá V.P. que conceito se-deve formar, daqueles muitos epitetos, com que os apaixonados o-louvam. Chamam-lhe, Mestre do-pulpito: Principe dos-Oradores: Mestre universal de todos os declamadores Evangelicos: Aguia Evangelica: e mil coizas destas. Outros lem as suas obras de joelhos, em sinal de respeito: e á omens de tam pouca considerasam, que imprimem estas noticias[81]; e nam se-envergonham de dizer, Que o mundo sem contradisam, lhe-deo a coroa, de Principe dos-Oradores. Mas este censor, que nam fez maior jornada, que de Lisboa a Madrid; nam era juiz competente, nesta matéria: nam só, porque tinha visto pouco mundo; mas porque tendo somente conversado, com os que liam o Vieira de joelhos; e nam sendo a Eloquencia, e belas Letras profisam sua, segundo mostra; tinha impedimento dirimente, para votar com acerto. Isto pois que digo destes, aplico a todos os outros. Criados com o prejuizo, de que o Vieira foi, um grande Orador; e ouvindo sempre repetir isto aos velhos, que bebèram aquela doutrina; nam é maravilha, que digam tantas coizas dele, e que o-imitem tam cegamente.
V.P. pode fazer uma experiencia, que eu ja fiz, e vem aser: quando ouvir a um destes, gabar muito o Vieira, e louválo com alguns dos-ditos epitetos; fasa-me a merce de lhe-proguntar primeiramente, emque consiste ser grande Orador: despois, que lhe-explique, que qualidades oratorias sam, as que excedem no-P. Vieira. Se lhe-responder bem ao primeiro ponto, estou certo, que nam responderá ao segundo: mas a experiencia mostrará, que o primeiro nam terá resposta. Eu aindaque nam costumo ofender ninguem, e muito menos na sua cara; achando-me porem com certa pesoa, que me-dise maravilhas do-tal autor, rezolvi-me a fazer-lhe esta progunta. Leu V.M. bem as obras de Lysias, Isocrates, Iseus, Demostenes, Eschines, Teofrasto, e Cicero, e tudo o que á de bom na Antiguidade? observou miudamente as delicadezas, e singularidades daqueles; e a diferensa que se-acha entre eles, e Plinio, e alguns outros mais inferiores, como Nazario, Auzonio, Pacato &c.? leu os antigos Retoricos, Aristoteles, Cicero, Quintiliano &c. ou algum destes modernos, que deram belisimos preceitos, como Vossio, Cavalcanti, e Platina: e outros que nas suas orasoens os-executáram, como Policiano, Mureto, Vavaflor, Cuneo, Gravina, Paolino, Politi &c.? Diz, nam senhor. Pois sem tais preparasoens, conclui eu, nam entro em discurso com V. M. sobre estas materias, porque nos-nam-intenderemos. Onde vem V. P. a conhecer, que as aprovasoens destes omens, nam devem fazer forsa a ninguem, para reconhecer por-grande Orador, o P. Vieira.
Eu que tenho visto mais algum mundo: e falado com bastante gente douta: e conhecido em Roma omens, que tinham tratado, com os que ouviram o P. Vieira: nam achei nada doque ouso dizer dele. Bem sim, que foi um Religiozo estimavel, polas suas prendas, e virtudes: o que tudo pode estar, sem ser mestre dos-Oradores. Falei com muitos Religiozos da-Companhia, que tinham dele perfeita noticia; e me-faláram como de um omem, que era estimado em Portugal, mas nam em Roma. Acrecente V.P. a isto, que muitos opusculos do-Vieira, foram compostos em Italiano: e até os mesmos sermoens se-acham traduzidos nele, por-um seu apaixonado, ao menos um tomo que vi á anos: e asim pode-se julgar, com todo o conhecimento da-materia. Vejo sim, que os mesmos Jezuitas, e todos os omens doutos, reconhecem o merecimento, do-P.Paulo Segneri Jezuita, e de varios outros Oradores damesma, e de diferente Religiam; que sam reconhecidos e venerados, como Oradores da-primeira esfera: e que tanto se-distinguem dos-sermoens do-Vieira, como o dia da-noite. De que venho a concluir, que quatro Portuguezes, ou Espanhoes, que dizem o contrario, nam podem fazer mudar de conceito, ao mundo inteligente.
Ainda nas suas mesmas cartas, que louvo, acho coizas que reprovar. Deste numero é a afetasam, de repetir em cada regra, o tratamento da-pesoa, com quem fala. Pois aindaque nos-discursos familiares, posa ter às vezes lugar iso; nas cartas, é enfadonho: e as pesoas, e Nasoens cultas, fogem todas dese vicio. Nem vale o-dizer, que em Latim se-costuma: porque na tal lingua, nam ofende os ouvidos; vistoque o tratamento comumente nam se-distingue, das-diversas inflexoens do-Verbo. Os nosos Italianos, que participam mais do-Latim, uzam da-palavra Ella, para evitarem aquela repetisam: e ainda esta com moderasam. E oje os que escrevem melhor, despois de darem o tratamento, uma ou duas vezes, ou em carta particular, ou prologo de livro; servem-se da-palavra Vostra, que se-refere a Alteza, Eminencia, Santidade, Excelencia &c. nam só porque esta Elipsi, nam prejudica, ao respeito que se-deve, aos Senhores grandes; mas porque sendo mais simplez e natural, é tambem mais nobre; e se-evita a ridicula afetasam de alguns modernos, chegando-se mais ao estilo, da-Antiguidade. E, valha a verdade, este periodo: Excelentisimo senhor, a excelentisima pesoa de Vosa Excelencia guarde Deus, como Portugal, e os criados de Vosa Excelencia avemos mister: com que o Vieira fecha muitas cartas, ao Marquez de Gouveia, e outras pesoas; nam se-pode ler sem nauzea: achando-se muitas vezes, em quatro regras das-suas cartas, cinco vezes Vosa Senhoria &c.
O segundo reparo caie, sobre a fetasam de muitos periodos, e cartas inteiras. O que o mesmo coletor delas nam oculta, quando diz, que muitas nam publicára, por-nam serem tanto naturais. De que eu cuido, nam se-pode produzir melhor prova, que a carta que o P. Argote publicou, nas suas Regras Portuguezas; e que é escrita ao Cardial Lancastro: a qual é composta naquele estilo, que chamamos dos-Seicentos. Basta ler o primeiro periodo: Com melhor saude que o ano pasado; e com menos vida, porque ele pasou: a segunda parte do-qual, é noticia mui digna, de se-mandar a um Cardial, porque é coiza mui recondita. O que se-segue no-segundo paragrafo, sam, Sepulturas do-segredo: resurreisoens da-confiansa: exequias no-templo do-dezingano: estatuas da-ingratidam, e coizas semelhantes, que oje tem ranso. E nam sei se se-pode perdoar, a um omem douto como o P. Argote, o trazer a tal carta, para exemplo de construsam facil, e boa locusam. Conheso, que muitas vezes as cartas damesma pesoa, nam sam iguais: ou porque algumas escreveo, quando era moso, e sabia pouco; ou porque as-fez muito em presa. Conheso isto, e o-perdoo: o que reprovo é, que o coletor nam soubèse separar umas, das-outras, impremindo as melhores.
E aqui noto incidentemente, que o que fez o prologo da-colesam, que eu ignoro quem fose, dise uma falsidade, quando afirmou; Que nas linguas vulgares, tem todas as Nasoens escritores, mas nam em grande numero, deste estilo. Eu lhe-poso nomiar, somente na Italiana, nam digo duzias, mas centos: publicadas muitos e muitos anos antes, que saisem à luz, as do-Vieira: e entre estes escritores, muitos de purisima locusam, e estilo inimitavel. E o que mais é de admirar, omens que tratáram as Ciencias, mas principalmente todas as partes da-melhor Filozofia; com tal clareza, propriedade, e metodo, que envergonham os Filozofos da-Escola: os quais, empregados toda a sua vida nela, explicam-se muito mal. Na lingua Franceza, á infinitos tomos de cartas, em todas as materias; e alguns famozos. Deixo a Ingleza, e Olandeza, nas quais sei que se-tem seguido, este estilo. Onde, nam avendo coiza mais uzual, que estes escritores; mostra-se o tal coletor, mui pouco informado do-mundo.
O terceiro reparo que faso é, sobre a Ortografia, que nada me-agrada. Nelas acho mui praticado aquele estilo, que se-deve desterrar, da-lingua Portugueza; e vem aser, a duplicasam escuzada, de muitas consoantes; e mil outras, que na minha primeira carta mostrei a V. P. que nam deviam seguir, os omens doutos. Onde persuado-me, que neste particular, tam longe está de ser omem insigne, que eu o-nam-porei por-exemplar, a um principiante.
Ora eisaqui tem V. P. que as mesmas cartas do-Vieira, que eu julgo serem a sua melhor obra; aindaque tenham muita coiza boa, sejam facis, e as palavras nam sejam más; contudo, nam merecem aqueles cegos, e encarecidos louvores, que lhe-dam estes apaixonados: os quais ou estam preocupados, polas mesmas opinioens; ou julgam por-cabesa alheia; e nunca tiveram a paciencia, de examinar bem a materia. Defeito mui antigo nestes censores: que aprovam os livros comumente, sem os-lerem: e nam se-contentam de aproválos, mas os-elogiam, e tam encarecidamente, que perdem toda a fé. Deixo aos omens de melhor juizo, fazer a analize das-tais obras, com mais tempo, que eu nam tenho.
Mas eu ja vejo, que me-tenho aberto muito com V.P. o que fiz, confiado na nosa amizade. Certamente nam disera tanto com outro: pois sei certamente, que quem nam tiver examinado isto, me-terá quazi por-louco. Eu sempre fugi, desta sorte de conversasoens, com pesoas que sabem pouco: porque me-ensina a experiencia, que se-perde o tempo, e o conceito. Mate-me Deus com gente, que me-intenda: e que me-nam condene, sem perceber as minhas razoens, e responder a elas. Porque aquilo de reprovar um escritor, somente porque impugna os defeitos, de que eu gosto; sem ter o sofrimento de examinar, as dificuldades que propoem; aindaque seja uzo mui comum, nam sei porem se é concludente. Emfim com V.P. nam á este perigo: porque eu sei muito bem, que ao seu talento, nada se-encobre: e que mais para exercitar o seu juizo, doque para aprender alguma coiza nova, é que tem a bondade, de me-consultar.
Mas sempre devo declarar-lhe, que o juizo que formo das-obras, do-P.Antonio Vieira; deve ser intendido, com todo o respeito devido, à sua memoria. Eu estimo muito este Religiozo, polas suas virtudes, e capacidade. Vejo nas suas cartas retratado, um animo grande: um dezinterese nobre: uma viva paixam polos aumentos do-seu Reino: e ardente dezejo de se-sacrificar por-ele: e, para nam ocultar coiza alguma, vejo a suma ingratidam dos-seus nacionais, que conrespondèram a tantas finezas, com asoens indignas: e nam só nam souberam estimar, tam grande omem, mas pozitivamente o-opremîram, e a sua familia. Estas circunstancias todas mo-pintam, mais estimavel: e se eu vivèse no seu tempo, serîa o seu maior amigo. Deve tambem o que digo intender-se, sem a minima ofeza da-Religiam da-Companhia: a qual tem produzido, tantos omens grandes neste genero; que sem dor alguma pode ouvir declarar, que um dos-seus Religiozos, nam iguala, nem chega, à gloria de muitos outros: o que provèm menos do-talento, que do-infeliz estilo daquele tempo, que nam conhecia, outro gosto de Eloquencia. Damesma sorte que Plinio Cecilio, aindaque tivese talento, e indole insigne; nam pode menos que participar, do-estilo do-seu seculo; que degenerava muito, da-magestade da-primeira Eloquencia. Unicamente devo advertir isto a V. P., para justificar o meu proceder, contra aquela acuzasam, que me-podiam fazer aqueles, que, ouvindo-me falar d’eloquencia Portugueza, visem que nam citava, o P. Vieira.
O conceito que formo, dos-sermoens e orasoens do-Vieira, com mais razam se-deve aplicar, a todos os outros sermonarios; que V. P. conhece, estarem muitos furos abaixo do-Vieira. Digo pois, que o Orador, que quer avultar no-mundo literario, deve deixar todos os sermonarios Portuguezes, ou Espanhoes; e seguir a estrada que asima lhe-abrimos: que parece ser, a verdadeira estrada da-Eloquencia: e isto parece-me que basta, para regular o metodo da-Oratoria. Deve a isto ajuntar, o continuo exercicio de compor: e exercitar-se juntamente em particular, para poder falar em publico: sendo certo que o exercicio de compor, e falar conduz muito, para beber os principios, e sabèlos uzar a seu tempo, com dezembaraso. Perdoe-me V. P. a extensam desta, que desde o principio eu prevî, que serîa comprida: e conserve-me muito na sua memoria. Deus guarde etc.