CANTO QUARTO.
Mas quem póde livrar-se por ventura Dos laços que amor arma brandamente Entre as rosas, e a neve humana pura, O ouro, e o alabastro transparente?
Camões, Lus., C. 3.º, E. 142.ª
a socegada noite o astro cadente P'ra plaga occidental já se inclinava: Precursora do Sol resplandecente A matutina estrella scintilava. Do Téjo sobre a placida corrente Nem a mais leve brisa volitava, Jazia a folha immovel no arvoredo Tudo dormia socegado, e quedo.
Apenas o silencio prolongado Lá do longinquo charco interrompia A grasnadora raã, do ramo alçado O triste mocho, que agoureiro pia. Eis que ao longo do rio socegado Um fraco som parece que se ouvia Compassado, moroso, e similhante Ao surdo murmurar de agua distante.
Distingue-se melhor, em força cresce Pouco a pouco se vem approximando, Com o murmurio das aguas já parece Ouvir-se o som do lenho em lenho dando, Saltando a limpha a espaços resplandece, O cristal se desliza sussurrando. «Alerta companheiros com presteza «Os remos esforçai, que é certa a preza!
Assim brada uma voz, e vigorosos Montam nove o batel, que a sombra escura Dos salgueiros encobre, que viçosos A orla adornam da corrente pura: Oito aos remos se lançam pressurosos, Em quanto o Chefe empunha a cana dura, Guiando a barca, que qual seta vôa Ao mourisco batel, que tem na prôa.
«Nazarenos!... na lingua arabia grita A gente do batel sobresaltada. «Nazarenos» bradando, esforça, excita O maioral a gente ao remo usada. «Leva remos p'ra já, raça maldicta, «Rendei-vos, perros, ou ireis á espada, Gritam da barca, que veloz singrando Vai o batel dos mouros alcançando.
«Lança o croque, a fateicha, afferra, atraca, «Que não possa escapar-se a gente infida, Brada o Chefe Christão, que prompto ataca O batel que desiste da fugida. Por defende-lo o mouro a espada sacca, Trava-se atroz peleija tão renhida Nos barcos afferrados, qual na terra Soe tenaz mostrar-se a horrivel guerra.
Do christão bando ao impeto primeiro Dos infieis o barco fôra entrado, Não sem que tres christãos o derradeiro Termo houvessem nas aguas encontrado; Mas logo, atraz dos bancos do remeiro, Peleija o bando mouro intrincheirado Como quem não curando já da vida Antes do que captiva a quer perdida.
Brilha no ár vibrando a espada núa, Penetra pelas armas a estocada, Céva no roxo sangue a raiva crúa Do talhador alfange a cutilada. Nenhum pensa em ceder, nenhum recúa Em quanto a força em sangue derramada Ao braço não fallece, e a mão pendente Não deixa o ferro matador jacente.
Já dos nove christãos que accommetteram Tres a morte nas aguas encontraram, Cinco do peito aberta a vida deram Que á estocada os mouros lhe arrancaram; Mas as vidas bem caras lhes venderam Que oito tambem dos perros expiraram, E dos sete que restam, tres feridos Vão a vida exhalando entre gemidos.
Mas o Chefe Christão só no perigo Crescer sente o valor co'horror e estrago, Qual raio abrazador sobre o inimigo Cahe, bradando em voz alta «San-Tiago. Morte, espanto, e terror leva comsigo, Faz-se o batel de sangue um bruto lago, Onde o maioral mouro acaba a vida E o Christão Chefe a dextra tem ferida.
Dos mouros uns ao ferro a vida entregam Outros da barca pavidos saltando Escapados á morte á margem chegam Com o sangue as puras aguas maculando. Assim ao só Ruy a barca legam, Que era elle o que indomito pugnando Tinto no proprio sangue generoso De tantos triumfára valoroso.
Ruy, que junto aos muros de Leiria, Principal instrumento da victoria, O que perdêra em paz, e em alegria Co'indomito valor ganhára em gloria, Que Affonso prezador da valentia, Conservando seus feitos na memoria, Quando á mão de Mafalda a mão ligára Com pompa augusta Cavalleiro armára,
E depois, quando o genio seu guerreiro A empreza concebeu agigantada De surprehender com bando aventureiro, Com imprevista, subita escalada, O sitio forte, erguido, e sobranceiro, Onde a Virgem Irene sepultada Do Téjo, que soberbo aos mares vem, Por milagrosa campa as aguas tem,
Para que gente moura, ou rica preza Com mais difficuldade lhe escapasse, De Ruy commettêra a gentileza Que nas margens do Téjo se emboscasse, E com a usada, indomita braveza Qualquer batel no rio lhe tomasse P'ra que os de Agar vencidos não sentissem N'agua ou terra por onde lhe fugissem.
Com animo esforçado o bravo moço Assim cumprido o real mando havia, E dos mouros com o barbaro destroço Das feridas o sangue confundia. Da desigual peleija o alvoroço Que de Ruy dobrára a valentia Cessado tinha, e o braço seu ferido Sente com o corpo já desfallecido,
A ferida estancar em vão procura Co'a mão esquerda o Joven animoso, Que a mão, co'a dôr pungente mal segura, Recusa o ministerio caridoso. Do sangue á perda emfim cede a natura, Succumbe á dôr o moço vigoroso. Seu corpo sob as armas desfallece, Cahe prostrado na barca que estremece.
Mas antes que do Téjo na corrente Fosse a ordem real executada, Pelo ardente valor da christãa gente Com temerario arrojo era assaltada De Santarem a arce, que imprudente, E no escarpado accesso confiada, De Hauzeri sob o mando, que a regia, O poder dos de Christo escarnecia.
Meias adormecidas, sem cuidado As vélas sobre o muro mal vigiam, Quando a escada fatal alevantado Tem o nobre Moniz, que os mais seguiam. Acorda tarde o mouro alvoraçado, Que os confusos clamores desafiam, Que os Christãos da muralha já senhores, Em breve as portas entram vencedores.
De Affonso no poder cahiu dest'arte Aquella, que no cume se assentava, Soberba dominando a toda a parte A campina feliz, que o Téjo lava. Inutil foi p'ra o mouro circumdar-te De fortes torreões, co'a gente brava Procurar preservar-te e defender-te, Se uma noute bastou para render-te.
Noute cruel e horrivel, em que o córte Da espada anniquillou a audacia tua! Em que a tyranna, despiedada morte A fome saciou barbara e crúa! Em que rios de sangue por tal sorte O fio fez correr da espada núa, Que apenas a seus golpes escaparam Tres, que o fugido alcaide acompanharam.
De Sevilha em alta torre O Rei mouro está sentado: D'alli co'a vista discorre Pelo campo dilatado Que o Guadalquivir percorre.
Eis que p'ra banda do rio Quatro vê vir cavalgando. Um dos quaes o senhorio Parece que tem do bando, Que segue o seu alvedrio.
Vem todos de pó cobertos, Os ginetes vem cançados, Mostras claras, signaes certos De marchar afadigados Mostram aos olhos expertos.
Por Deus!» o Rei mouro brada-- Do presago coração O agouro não me agrada! Trazem nova de afflicção Esses que vejo na estrada.
Aquelle que vem na frente No cavallo mais formoso, É Hauzeri certamente, Que contra o Christão fogoso Accode a pedir-nos gente.
Pelo Profeta vos digo, Que se agua aos brutos não dão Santarem está em perigo De em breve cahir na mão Do Christão nosso inimigo;
Porem se a sêde que tem Aos corceis deixam matar, É tomada Santarem, E a nova funesta a dar Fugitivo Hauzeri vem!»--
Mal do Rei mouro acabavam Os discursos agoureiros, Que logo ao rio chegavam Os cançados cavalleiros E beber aos brutos davam.
Não tarda que desmontado Ante o mouro commovido Tivesse Hauzeri narrado O desastre acontecido, O caso desventurado.
Como Affonso se partira Com sua bellica gente, Como a marcha lhe encobrira, Sobre a villa confidente Como inesperado cahira:
Como as vélas surprehendidas São no muro degoladas, As escadas erigidas, As muralhas assaltadas, E as fortes portas partidas:
Como a gente, por tal sorte De susto e trevas tomada, Ou passa do somno á morte, Ou corre desacordada Encontrar da espada o córte:
Como emfim, perdida a esperança, Da arce os Christãos senhores, Cevando-se na matança, Se esquivára aos vencedores, A buscar prompta vingança,
E das aguas confiando A filha, que preservára Com tres só, dos de seu mando, Pr'a elle Rei caminhára Submetter-lhe o caso infando.
Assim os mouros souberam De Irene os muros tomados; Grande terror conceberam, Ao vêr a quanto arrojados Os de Christo se atreveram.
Porem do Téjo á placida corrente; As barcas sem governo abandonadas, Pouco a pouco do rio brandamente Foram ás verdes margens encostadas: Das aguas no remanso mollemente, De verdes espadanas rodeadas, Com o descer da maré firmes ficaram E no lado bojudo se inclinaram.
Á luz volve Ruy, renasce á vida; Mas qual surpreza, qual doce portento! Já não goteja o sangue da ferida, Já o não punge a dôr e sofrimento; Ao recobrar a sensação, perdida Do sangue no espectaculo cruento. Abre os olhos, contempla a formosura Que qual sonho perdera na espessura.
Em vez da scena barbara horrorosa, Onde á força da dôr ficou jacente, Volve a si, reclinado na viçosa Relva, que esmalta a borda da corrente. Co'escudo, e lança, a espada bellicosa Dos ramos de um salgueiro está pendente, E a matutina brisa fresca, e pura Junta o sussurro ao da agua que murmura.
Jaz a seu lado o elmo desprendido, Do duro peso a frente libertada; O peito, antes das armas opprimido. Livre a aura respira embalsamada; Com tella delicada está cingido O braço, que ferira imiga espada, E a linda moura, lagrymas chorando, Lhe está no seio a frente sustentando.
«Visão!... visão do Ceo, sem pár encanto «Inefavel prazer, que me aviventas, «Doce illusão de amor!..... mas esse pranto «Suspende, ah sim, com elle me atormentas. «Nesse rosto tão bello, puro, e santo, «Com cujo aspecto a vida me sustentas, «Deixa vêr um sorriso, um gesto amante; «Vê-lo sequer n'um derradeiro instante!
«Ah deixa que em meus braços amorosos «Aperte a imagem que p'ra mim é vida; «Que unidos n'um só ser, ambos ditosos «Nossa essencia vejamos confundida! «Ah Fatima, dos dias meus ditosos «Delicias e prazer, Virgem querida, «Ja não ha quem de mim possa apartar-te «Tu das-me a vida, vivo só p'ra amar-te!
Disse Ruy: e a Moura, a quem a ardente Força de um terno amor vence e domina, Sobre o peito do amante a linda frente, Desfeita em meigo pranto, amante inclina. Ruy no peito a aperta vehemente, Triumfa amor, amor só predomina!..... Quando a barca de subito estremece, Co'a luz do raio a margem resplandece.
Retumba do trovão o som tremendo, Da distante montanha os echos gemem, Do rio a calma subito rompendo Na borda antes tranquilla as aguas frémem. Á Virgem delirante o choque horrendo A razão restitue; seus membros tremem, Arranca-se assustada espavorida Dos braços com que o moço a tem cingida.
«Suspende, ah sim suspende, ó bem amado, «De ti me afasta a propria natureza. «Não contemplas o Ceo de horror toldado, «O rio, o campo envoltos na tristeza. «Foge Christão, que o meu funesto fado, «Sem igual nos rigores, na dureza, «Não me fez para ti, nem consentíra «Que amor em doce laço nos uníra.
«Foge, oh Christão invicto, e generoso, «A quem prouvéra ao Ceo que ora não visse; «Mas já que fez teu braço poderoso «Que em teu poder segunda vez cahisse, «Que a teus olhos meu peito o desditoso «Amor sem esperanças descobrisse, «Só te resta fugir sem mais demora «Quem, por seu mal, e por teu mal, te adora.
Isto a Moura dizia; mas o amante Nem o trovão, nem seu carpir ouvia, Transportado de amor, e delirante De novo a moça com ardor cingia. De virginal rubor tinto o semblante Fatima seus transportes combatia; Mas a modestia mais lhe agrava a sorte; Que o amor de Ruy torna mais forte.
Combate ainda em pranto suffocada, Ora emprega o rigôr, ora a ternura, Ora Ruy argue com voz irada, Ora lhe pinta a extrema desventura, Cego o moço prosegue...... quando alçada De repente ante os dois surge a figura, De Ruy á memoria não estranha, Do venerando Ermita da montanha.
O mesmo era, que alli achado havia Na piedosa oração todo engolfado, A mesma longa barba lhe descia Sobre o peito, no vulto magoado Outra expressão porém ora se lia, E com semblante triste mais que irado, Do insano mancebo a mão tomando, Lhe diz com tom de voz sereno e brando.
«Tu, filho de Ruy, tu de seus feitos «Assim procuras igualar a gloria? «Assim do Pai os ultimos preceitos, «Filho ingrato, conservas na memoria? «Á Mãi, que o ser te deu, nutrio aos peitos, «Foi esta a promettida alta victoria, «Quando do martyr Pai armas sagradas «Te entregou de seu sangue inda esmaltadas.
«Julgas-te generoso, porque a vida «Nos campos das peleijas arriscaste, «Porque valente e audaz da gente infida «Na dura guerra o impeto domaste, «Porque esta moça só, desprotegida «Nos conquistados muros preservaste; «Mas, quando, oh moço audaz, assim fizeste, «De imperio sobre ti que prova déste?....
«Tu, que esquecendo as leis de cavalleiro, «Quando uma Virgem timida, innocente, «Acaba de salvar-te o derradeiro «Sopro da vida, a teu desejo ardente, «Sem respeitar seu desamparo inteiro, «Buscas sacrifica-la impaciente, «Abusar da imprudencia e juventude; «Que assim curas da honra e da virtude!
«Mas Deus a protegeu, o o ceo piedoso «Que guardada lhe tem mais nobre sorte «Soube arranca-la ao moço impetuoso «Que ella arrancado havia ás mãos da morte. «Dóma, oh mancebo, o genio teu fogoso, «Sabe ás paixões oppor uma alma forte, «Que em vão procura a honra e busca a gloria «Quem aos desejos seus cede a victoria.
«Sabe não tarda a hora que ha marcado «A eterna, e insondavel Providencia «P'ra que d'ella, e de ti se cumpra o fado, «Que não pode prever mortal prudencia, «Mal de quem, com seu sopro envenenado. «Pertender profanar essa innocencia! «Mal de ti, se a cumprir te não dás préssa «Do ceo a ordem, que por mim se expréssa!
«Não distante d'aqui, na opposta margem «Um barco mouro o Téjo vem subindo, «Procura Santarem sua viagem, «Um irmão de Hauzeri vem conduzindo; «Saia-mos-lhe ao encontro na passagem, «Da nova aquelles mouros instruindo, «Volverão, esta Virgem lhes daremos, «E assim a Lei sagrada cumpriremos.»
Fallando assim, do Ermita venerando A voz era solemne, e magestosa, Via-se a frente calva circumdando Uma aréola clara e luminosa; Subjugado Ruy cede a seu mando, Já na agua nada a barca pressurosa, Já, proximos da opposta ribanceira, Sentem remar dos mouros a bateira.
Porem ao som do remo, que devia Para sempre talvez roubar-lhe a amada, No coração do moço renascia A tempestade apenas abafada; Se co'amor o respeito combatia, Não dura a luta na alma apaixonada, Cede o respeito, e o moço exasperado Ao velho falla assim com gesto irado.
«Quem, oh velho agoureiro! dependente «Coustituiu de ti o meu destino?.... «Vate de malles, barbaro inclemente, «P'ra que simulas leis do ceo benino?..... «Vai, cessa de ligar teimosamente «A minha sorte ao fado teu mofino, «De perseguir meus dias, de insultar-me, «E co'escuro provir de ameaçar-me.
«É tua de Hauzeri acaso a filha?.... «Acaso nos combates me ajudaste?.... «Este braço, esta espada que aqui brilha «Acaso foste tu que os animaste?... «Esta de amor suave maravilha «Acaso foste tu quem a salvaste?... «Não. Entrega-la a barbaros imigos «Só sabes querer, e expo-la a novos perigos.
«Ah! se longe de tudo á dôr votado, «Aborreces o mundo, e seus deveres, «Volve ao ermo dos homens sequestrado, «Céva na solidão teus desprazeres, «Não venhas com teu halito empestado «Murchar da vida a flôr aos outros seres, «Nem blasfemes o ceo, querendo que eu veja «Desleixada, a que o ceo quer que eu proteja.
«E póde querer o ceo, que eu a innocencia «Nas mãos dos infieis de novo entregue, «Que Fatima infeliz da Fé na ausencia «O Deus que a protegeu blasfeme e negue?... «Póde querer, que a abandone sem clemencia «Ao funesto destino que a persegue?.... «Não, não póde tal querer; nem separado «Soffrerei ser de um bem que o ceo me ha dado.
«Aparta-te de mim tu que o projectas, «Aparta-te de mim, antes que iroso «Pelas expressões tuas indiscretas «Me leve o sangue a extremo perigoso! «Ao zelo que por mim, por ella affectas «Prestes pôe termo, foge pressuroso, «Deixa-me, oh velho insano, ao meu destino, «Poupa-me algum funesto desatino!
Immovel, qual rochedo, o velho Ermita Do mancebo os transportes escuitava, A compaixão, que seu penar lhe excita, No gesto enternecido se mostrava. Pallida, e sem alento a moça afflicta Aos ceos os lindos olhos levantava, Como quem do poder soberano e forte Submissa, e resignada espera a sorte.
N'isto do batel mouro percutida É a barca do remo abandonada: N'agua mergulha a borda, compellida Do veleiro batel pela pancada. Aquella vê Ruy, que lhe era vida, No rio desparecer precipitada, Grita, lança-se ao rio a soccorre-la, Mergulha em vão, em vão quer recolhe-la.
Mas o braço do Ermita mysterioso Fatima sobre as aguas amparando Longe a leva do amante impetuoso, Que em vão a está nas aguas procurando, Clama ao batel dos mouros pressuroso, E a filha de Hauzeri prompto entregando, Volve a Ruy, arrastra-o da corrente, E desparece á vista em continente.