CANTO QUINTO.
Quaes no profundo reino os nus espritos Fizeram descançar de eterna pena C'uma voz de uma angelica Sirena
Camões, Lus., C. 10.º, E. 5.ª
agaroso vem marchando Na vereda um cavalleiro, Nobre ginete montando; Traz o rosto do guerreiro, Que a vizeira alevantada Deixa contemplar inteiro, Co'a acerba dôr concentrada Negra sombra de tristeza Profundamente gravou.
Dos olhos seus a viveza Apaga a melancholia, Da intensa magoa a dureza. Tormento de mais de um dia, Froixa luz de escaça esperança Se lê na fisionomia. Pena, que a velhice avança, Infausta paixão ardente Causas são de tal mudança.
Como o tronco florescente, Que ha pouco altivo, e frondoso Ornava a selva virente, Que o furor do vento iroso Rebramando enfurecido Desafiava orgulhoso, De insecto voraz roido Na raiz que o alimenta, Murcho abate o cume erguido, Alta a copa não sustenta, Perde da folha a verdura, Que a seiva não alimenta, Guarda só do lenho a altura, Merencorio documento Da perdida formosura; Assim, desde o atroz momento Que Fatima lhe roubou, Com saudade, amor, tormento De Ruy o ser mudou.
No fundo d'alma Do triste amante, Nem um instante Ha tregoa e calma. Pena incessante Que nada acalma. Cada dia com o tempo reforçada, Lhe consume a existencia desgraçada.
Já, qual soía Quando ditoso, Não impellia O bellicoso Da Andaluzia Filho fogoso Apoz o corredor que a lebre alcança, Ou o gamo leve, que no campo avança.
Lá no torneio Já não brilhava, Marcio recreio, Que outr'ora ornava De audacia cheio, Onde arrancava Dextro e valente o premio em nobre luta; Tanto a amarga tristeza a alma lhe enluta!
Mesto, isolado, Ermos outeiros Corre, apartado Dos cavalleiros; Só animado Entre os guerreiros Se mostra ainda em frente do inimigo, Quando a tuba guerreira o chama ao perigo.
Ignora o infeliz qual seja a sorte D'aquella por quem só lhe é cara a vida, D'aquella sem a qual da espada ao corte A existencia quizera ver perdida. Nas aguas a deixára entregue á morte, Nas aguas víra a Virgem submergida, Longe d'ella com força irresistivel Arrebatado n'esse instante horrivel.
Do agoureiro Ermita a milagrosa, Subita apparição, prompta partida, A aréola da frente luminosa, A antiga prophecia d'elle ouvida: A lembrança da Mãi terna e saudosa, Do martyr Pai a ultima ferida, Seus preceitos, legados á consorte, Sellados pela fria mão da morte.
As palavras do Ermita, os seus furores Contra elle, tão prompto castigados; Seus primeiros desejos, seus ardores Pelo ceo, como acinte, perturbados; Os olhos de Fatima encantadores, Quaes por ultimo os vira aos ceos alçados, A angelica expressão do seu semblante, Tudo a Ruy se pinta em cada instante.
O socego na noute em vão procura, Foge o somno a seus olhos vigilantes; A incerteza, entre as penas a mais dura, Se afferra, roaz cancro, a seus instantes; Se ao cançaço a final cede a natura, Entre um tropel de sonhos delirantes Vagando sem cessar o pensamento, Em logar do repouso acha o tormento.
Tal era o miserando, infausto estado De Ruy, que ao acaso caminhava, Só, distante dos seus, e confiado No valor, que a desdita não coarctava; Não distante do muro alevantado, Que a maura gente ainda povoava, Na montanha, que surge graciosa, Qual no deserto a oazis frondosa.
Em frente do mancebo se estendia Prodiga de bellezas a natura: Da primeva, robusta penedia A variada, asperrima structura, Que em agulhas, em picos se erigia, Varios na massa, varios na figura, Erectos estes, estes inclinados, Selvosos uns, os outros despojados.
Ruinas da vetusta natureza, Monumentos de um mundo transpassado, Culminantes elevam núa a aspereza Os cumes de granito descarnados; Em quanto, circumdando a redondeza Das fraldas, se divisam cumulados Das destruidas rochas os fragmentos Attestando o poder dos elementos.
Alli a aerea marcha pressurosa Pára a nevoa do vento saccudida, Alli pára a procella magestosa Nas enroladas nuvens envolvida, A lymfa alimentando, que abundosa Dos penhascos nas veias repartida Surde em cascatas, em limpidas fontes, Em arroios gentis desce dos montes.
Lá se veem de granito á massa ingente Do chão calcareo as zonas encostadas, Áquem e álem partidas variamente, Jazer rotas, confusas, deslocadas; Quaes se de interno esforço e de repente Nos fundos alicerces abalados Como involucro fragil rebentassem, E ao novo serro o dia franqueassem.
Mais abaixo porem ledo se estende O selvatico manto de verdura, Onde o bafo do estio nunca offende A flôr mimosa, amante da frescura, Onde da hervosa penha se desprende Com murmurio suave a fonte pura, E a mil viçosas plantas succos dando Saudosa corre entre ellas serpejando.
No valle agreste e umbroso o medronheiro O rubicundo fructo tem pendente Á sombra do robusto castanheiro, Cuja folha intercepta o sol ardente; O carvalho frondoso, o alto olmeiro Cinge a hera lustrosa estreitamente; Do pinheiro co'as copas elevadas As massas de verdura são coroadas.
Na solidão do bosque as tenras aves, Incolas primitivas da floresta, Chamam a vida co'as canções suaves Musica natural que amor empresta; Respondem-lhe de longe os tons mais graves, Merencoria harmonia lenta e mesta Das ondas, que escumando entre os penedos Batem da roca os asperos rochedos.
De Alboracim as aguas misturando Do salso mar co'as vagas amargosas, De um lado corre o Téjo, saudando Por derradeiro as praias arenosas; Vão-se do outro os olhos alongando Pelas tumidas ondas procellosas, Que com o tempo sulcarão triumfantes Saudando o patrio sólo as náos ovantes.
Ainda então sobre a penha virente Orientaes trophéos não consagrára De Diu o vencedor, nem o eminente Excelso pico a torre rematára; Inda a pedra lavrada artistamente O Alcacer real não levantára; Nem a limfa liberta conhecêra A marmorea bacia, que a prendêra;
Inda a riqueza então não erigira Do prazer a morada caprixosa, Nem o muro importuno prohibira O transito na selva magestosa; Inda o tronco indignado não sentira Do ferro a cortadura injuriosa, Nem do cordão tyranno a fantesia Immolàra a belleza á symetria.
Tal era o quadro que ante o olho amante Do misero Ruy se desdobrava: Parou, e parecia que um instante A amarga dôr no peito se adoçava. Menos pezado e triste no semblante Os olhos pelos cumes alongava; Mas foi curta a impressão, curta a surpreza, Prompto volveu á habitual tristeza.
Qual um instante só brilha o luzeiro Do claro sol no meio da procella; Tal da alegria um raio do guerreiro Um momento sómente o vulto assella. Entranha-se na selva, que primeira No seu transito está frondosa, e bella, Segue da agua o arroio fugitivo Co'a frente baixa, o rosto pensativo.
Assim caminha, quando o pensamento Sente por modo estranho perturbado. Não, não é illusão, um doce accento Sôa no bosque, terno, e magoado, Em vez do som facticio de instrumento Do murmurio do arroio acompanhado, Merencoria harmonia, canto lindo Qual o da rôla seu amor carpindo.
«Oh doce voz! oh canto mavioso! «Ah! que se ella vivêra, assim cantára, «Assim o nosso amor puro, extremoso, «Solitaria, e saudosa lamentára! «Mas, oh noute cruel, fado horroroso! «Nas aguas para sempre a bella, a cara!... Mais não disse, que os olhos se alagaram E os soluços as vozes lhe cortaram.
A VOZ.
«Bosques sombrios, profundos retiros, «Aguas correntes, aves namoradas «Inda uma vez escutai os suspiros, «Da desditosa, entre as mais desgraçadas; «Inda uma vez escutai meu tormento, «Do meu penar e da minha anciedade «Origem foi um puro sentimento, «Morro de amor, expiro de saudade!
«Á dura morte eu por elle arrancada «A gratidão um dever me inspirou, «Vi-o, fallou-me, e d'esta alma encantada «No mesmo instante o dominio usurpou. «Verde floresta, escuta o meu tormento, «Aves, ouvi minha triste anciedade, «Victima sou de um puro sentimento, «Morro de amor, expiro de saudade.
«Elle partiu namorado da gloria, «Elle partiu sem curar do meu fado, «De quem o adóra ah talvez a memoria «Não haverá nem sequer conservado. «Por derradeiro escutai meu tormento, «Por derradeiro ouvi minha anciedade; «Se elle trahiu tão puro sentimento «Mate-me amor, morra eu de saudade.
«Mas se fiel, se constante e amoroso «Quaes os inspira elle sente os amores, «Aves, cantai, e tu, bosque viçoso, «Dá novo brilho a teus gentis verdores; «Mais que a alegria é feliz meu tormento, «Mais que o prazer feliz minha anciedade, «Que é dom do ceo por um tal sentimento «Morrer de amor, expirar de saudade.
Assim cantava a voz melodiosa O canto com suspiros alternando, A saudosa canção, queixa amorosa Iam da selva os echos imitando. A dôr pungente, a angustia que affanosa Iam do moço a vida definhando Mais rapido dissipa o doce accento, Do que a nevoa ligeira aparta o vento.
N'um instante da moura aos pés se lança Ruy, subido ao auge da ventura: «Vida da minha vida, amor, e esperança «Dos dias meus, modello da ternura! «Que alma ingrata poderá ter mudança «Sendo de ti amada, oh Virgem pura?.... «Não, mil mortes soffrêra o teu amante «Primeiro que esquecer-te um só instante.
Dize-lo; as mãos da Virgem commovida Apertar contra os labios abrazados O mesmo é p'ra Ruy, que a queixa ouvida Completa os seus desejos extremados. «Certo do teu amor, Virgem querida, «Quem de Ruy póde igualar os fados?... «Todo o cruel tormento que hei soffrido «Um só accento teu fez esquecido!....
«Sorte propicia, acaso venturoso, «Que o ser me restitue para a ventura, «Que prodigio feliz do ceo piedoso, «Que força superior á da natura, «O pôde produzir?... Desde o horroroso «Momento em que surgiu por desventura «Esse fantasma horrivel, despiedado «Contra mim acintoso, e conjurado:
«Dês que, do odio seu fructo execrando, «Te vi ante meus olhos submergida, «Em vão nas fundas aguas procurando, «Louco de magoa e dôr, salvar-te a vida, «Que o barbaro fantasma, oh crime infando! «Com mais que humana força e desmedida «De ti me arrebatou; que Anjo divino «Protegeu, doce amada, o teu destino?...
«Indelevel lembrança! Instante horrivel «Em que, de quanto amava separado «Pelo monstro a meus rogos insensivel, «Na solitaria margem fui deixado! «Por toda a parte em meu furor terrivel «Em vão o procurei desesperado, «Riu-se o fado de mim, e até est'hora «Roubou-o á minha sanha vingadora.
«Mas se elle existe acaso entre os viventes, «Se um fantasma não é, parto do averno, «Que a perseguir meus passos innocentes «A ira suscitou do negro inferno; «Por essas magoas juro tão pungentes «Que hei soffrido, por meu amor eterno, «Que saciando n'elle a minha furia, «Heide lavar a tua, e minha injuria.
FATIMA.
«Ah suspende! mais não digas! «Sim suspende, oh bem amado, «Illudido, alucinado, «Taes blasfemias não prosigas!
«Esse, que acusas de morte «Só nas aguas me salvou, «Só elle me confortou «Na tyranna, adversa sorte.
«Se ainda conservo a vida, «Se inda me estás contemplando, «Ao Ancião venerando «Minha existencia é devida.
RUY.
«Como?... Aquelle que arrancar-te «Ousou a meu peito amante, «Que em magoa e dôr incessante «Me fez continuo chorar-te,
«Da tua lei o inimigo, «Da tua raça execrado, «Pôde aliviar teu fado, «Protector para comtigo!....
FATIMA.
«Prodigios o ceo clemente, «Que meus olhos desvendou, «Por esse mesmo operou, «Que blasfemas imprudente!
«Desde o momento horroroso, «Em que de ti separada, «De quanto amava affastada «Fui no caso lastimoso.
«A taça da desventura «Misera esgotar devia, «Trazendo-me cada dia «Nova dôr, nova amargura.
«Mal de Cintra o alto muro «Me recebeu malfadada, «Foi minha alma transpassada «Dos golpes pelo mais duro.
«Soube que o Padre querido «Tão digno do meu amor, «Ao despeito, á magoa, á dôr «Tinha infeliz succumbido.
«Inda bem me não feria «Este golpe acerbo, amaro, «Que do meu unico amparo «Se apagára a luz do dia;
«De Hauzeri o irmão restante «Que affavel me agazalhára, «Que por filha me adoptára «Viu chegado o ultimo instante.
«Solitaria, abandonada, «Sem amigos, sem parentes, «De amor nas chammas ardentes «Por mór tormento abrazada,
«Ignorando se vivia «O só ser que ainda amava, «Se o jurado amor guardava, «Se em outras chammas ardia,
«Succumbi, em vão luctando «Contra tanta desventura, «E aos golpes da sorte dura «Senti a força expirando:
«Nem já o pranto, allivio aos desgraçados, «Os olhos meus vertiam, «Nem já ais, nem suspiros, que exhalados «As penas alliviam, «Soltar podia. Opressos, suffocados «Minha alma consumiam «Em silencio os tormentos, morta a esperança «De poder minha sorte ter mudança.
«Uma noute em que só de horror cercada «Ao pezo de meus males succumbia «De pura luz me vejo rodeada «Igual á que no ceo precede o dia. «De espanto e de terror sobresaltada, «Quando convulso o corpo meu tremia, «No centro do clarão o proprio vejo «Que ás aguas me arrancára lá no Téjo.
«Era o mesmo; porém mais magestoso «Ora de mim se vinha aproximando; «Qual um astro celeste e radioso «Brilhava o seu semblante venerando, «Um aroma suave e precioso «Estavam suas vestes exhalando, «Na mão tinha uma Cruz resplandecente «Co'a imagem do seu Deus n'ella pendente.
«Co'a voz a um tempo grave, meiga, e branda, «Com aspecto sereno, e enternecido, «Disse: Victima triste e miseranda «Até agora de um fado endurecido, «Um Deus Clemente, oh filha, a ti me manda; «Um Deus, a quem um ai, um só gemido «De verdadeira dôr, de penitencia «Move com os peccadores á clemencia.
«Surge da magoa horrivel que te oprime, «Cobra força, renasça o teu alento, «Pela esperança do dom alto e sublime «Com que o ceo quer sarar teu soffrimento. «Fructo innocente de expiado crime «Serás da pena qual da culpa isento, «Em ti meu sangue não será contado «Entre aquelle, que o ceo tem rejeitado!
«Uma filha, ai de mim! eu tive outr'ora, «Como tu a formára a natureza; «Tinha ella então, como tu tens agora, «Esse dote funesto da belleza. «Uma chamma tyranna, abrazadora «Illudiu da sua alma a singelleza, «Ligou-a o nó de amor, e da desgraça «Ao inimigo audaz da propria raça.
«Aos braços de Hauzeri, de amor levada, «Funesto effeito das paixões ardentes, «Cuidando ser feliz, foi desgraçada «Victima das angustias mais pungentes. «O Deus, o Pai, a Patria abandonada «Á misera continuo são presentes, «O roedor remorso, a magoa dura «Lhe foram escavando a sepultura.
«Chegado da infeliz o ultimo instante, «Odios, malquerenças, queixas expiraram, «Paterno pranto, com o do esposa amante «Da morte o leito unidos lhe regaram. «Resignados os olhos seus brilhantes «Pela ultima vez aos ceos se alçaram, «Um suspiro exhalou, cuja piedade «As iras aplacou da Divindade.
«Fructo infeliz de amor, e de fraqueza «Junto à Mãi expirante tu jazias, «Por ti fallava ainda a natureza, «Tu só na terra a alma lhe prendias. «Tomou-te entre seus braços com viveza, «Tu que a trama cortáras de seus dias, «E com a voz, cortada já da morte, «Assim fallou ao Padre e ao Consorte.
«Padre, se ingrata filha, angustia e dores, «Por premio a teu amor só sube dar-te «Neste fructo infeliz de meus ardores «Possas ter quem se empenhe em consolar-te, «E tu, por quem soffri tormento e dores «Sem uma hora se quer cessar de amar-te, «Consente que ella entregue ao pai que imploro «Possa rogar por mim ao Deus que adoro.
«Assim fallou a triste, e resignada «O golpe recebeu da dura morte, «Partiu do erro a alma já purgada «A repartir nos ecos do justo a sorte. «Mas de Hauzeri em vão a prenda amada «Reclamei, em memoria da Consorte; «Arrancar-lha não pude, e separado «Fui desde então p'ra sempre do teu fado.
«Supplicas, pranto, rogos, ameaças «Para salvar-te estereis empregando, «Fui no ermo chorar minhas desgraças «Aos ceos dos ceos a causa confiando, «Continuo sobre ti de Deus as graças «Com penitentes lagrymas chamando. «Até que a Deus tocou minha agonia, «Deus que benigno a salvação te envia.
«Em quanto fallava «A cruz me estendia; «E a dôr que a pungia «Na alma abrandava; «Do Deos que invocava «Tocar-me sentia, «Já menos soffria «Já mais me animava, «E quando acordava «E a mim me volvia «Achava-me o dia «Outra do que estava, «Livre da interna lucta, e na bonança «Começando a antever a luz da esperança.
«A celeste vizão reproduzida «Cada noute a minha alma soccorria, «Cada noute na fé santa instruida, «O santo Avô mais firme me fazia. «A antiga exasperação, o tedio a vida «Em merencoria dôr se convertia, «Dissera-me feliz, se a um sentimento «Conseguisse esquivar meu pensamento.
Assim Fatima ao transportado amante O terno coração patenteava; Ruy de puro goso delirante No gesto a paixão viva retratava; Vivo rubor da Virgem no semblante Da alma os sentimentos debuchava; A selva, as aves, o arroio, as flôres Formando um templo digno a taes amores.