CANTO SEXTO.
Tal está morta e pallida Donzella, Seccas do rosto as rosas, e perdida A branca e viva côr co'a doce vida.
Camões, Lus., C. 3.º, E. 134.ª
oberbo ondeia a crina fluctuante De Ruy o ginete bellicoso, Atravez da floresta segue ovante No accelerado trote pressuroso. Excita o nobre bruto o ledo amante, Vivo obedece o animal fogoso Á redea, ha tanto tempo abandonada, Que outra vez com vigor sente empunhada.
Seguindo vai o nobre aventureiro Transportado de goso e de alegria A direcção do campo, que o guerreiro Povo de Christo alevantado havia. Doce aspecto, risonho e lisongeiro, Em vez da dôr, lhe exalta a fantezia, Todo quanto carpira, quanto amára A fortuna propicia lhe entregára.
Do ginete nas ancas assentada Levar se deixa de Hauzeri a filha, Entregue a amor, e por amor guiada, Suave esperança nos seus olhos brilha. O rosto lindo, a fórma delicada Da natura primor, e maravilha, A pár do Cavalleiro armado e forte, Realisam Cyprina com Mavorte.
Sob o braço da Bella, que o estreita, O coração do moço arde e palpita, Elle o sente, ella o palpa, e satisfeita Partilha o goso, que innocente excita. Se ella suspira, elle o suspiro aceita, Se olha-la intenta, ella o olhar lhe evita, Pejando-se que lêa o terno amante Nimia expressão de amor em seu semblante.
Assim o bosque frondoso Vão prestes atravessando, Um silencio deleitoso Bella, e amante guardando.
Silencio, que amor prefere Á mais ardente expressão, Que no fundo da alma fere, Que transpassa o coração;
Que identifica, que enlaça Os que a mesma idéa prende, Que a compaixão, que a desgraça, Que amor, que a ternura entende.
Silencio não avalia Alma mesquinha, apoucada, Que sempre placida e fria Do sacro fogo é privada.
Em silencio a natureza Vê rolar no immenso espaço Dos orbes a redondeza Que impelliu do Eterno o braço,
Em silencio a vaga ondosa Rola no lago profundo, Séria a noute magestosa Envolve em silencio o mundo.
Em silencio o vate absorto Antes de pulsar a lira Recebe o influxo e conforto Do talento que o inspira.
Em silencio meditando Alcança o sabio a verdade, Vai-se um silencio mirrando O filho da adversidade.
Silencio da alma nascido, Caracter do sentimento, Tu es o grau mais subido Ou do goso, ou do tormento.
Atraz deixam o bosque, e as claras fontes. Que atravez a verdura vem manando, Co'a varia crista dos erguidos montes, Que se está sobre as nuvens desenhando, Tingem-se de côr varia os horisontes Co'extremo sol nas aguas mergulhando, Os monotonos cumes apparecem Que com o calmoso estio se encalvecem.
Ficava-lhes da parte, donde o dia Mais refulgente vibra os esplendores, A Arrabida, entre as nevoas, que tingia O sol cadente de purpureas côres, Com o ramo descendente, que estendia Pelos equoreos campos bolidores, Do Téjo e Sado as fozes separando Com o Cabo do Espichel que vai formando.
Não longe, e como filho da montanha, Ficava de Palmella o cume erguido, Ao longe dominando na campanha, Ao perto sobre o valle, enriquecido Pela filha gentil de terra estranha, Que ora alli sobre o ramo seu florido Ostenta a um tempo a flôr, e os pomos de ouro, De perfume e frescura almo thesouro.
Jazem-lhe á dextra as aridas campinas Onde com o vento a loura messe ondeia, Calcareas e basalticas collinas Onde a arvore a vista não recreia, Mais longe as em que a limfa cristalina Hoje em prisão marmorea se encadeia, Roubada aos campos, á verdura, ás flores, P'ra alegrar de Lisboa os moradores.
Em frente se lhe antolha o pico altivo Co'as naturaes collumnas enfeixadas, Columnas que formára o fogo activo Nas epochas remotas e apartadas, Em que inda o touro, o cervo fugitivo Não pasciam nos campos co'as manadas; Mas só nadantes monstros habitavam Mares, que até aos serros se elevavam.
Logo as nuvens rompia mais distante De Monte-junto a molle alevantada, Monte-junto, que a lomba culminante Une a Minde ao nordeste prolongada; As aguas dividindo, que ao levante Vem buscar a planicie, que regada É pelo Téjo, das que ao mar salgado Directas vão correr no opposto lado.
Do sol quasi submerso os derradeiros Raios as eminencias só douravam, Das fontes e dos valles os ligeiros Vapores os contornos desenhavam; Sobre as nevoas os cumes dos outeiros Quaes ilhas sobre o mar se alevantavam, E as aves com a ultima harmonia Davam o extremo adeos ao claro dia.
Na belleza da scena que os rodeia Fatima nem Ruy não attentavam, Amor as faculdades lhe encadeia, Ao delirio de amor se abandonavam. Qual forte olmeiro a branda vide enleia, Tal a bella e mancebo se estreitavam; É elle o seu apoio, o seu sustento, É ella de Ruy só pensamento.
Continúa o silencio dos amantes Nos vivos sentimentos engolfados, Nada sôa nos valles circumstantes Mais que do bruto os passos compassados; Só lá dos valles nos cazaes distantes Ladrar se ouvem os cães, sôar dos gados Monotonos chocalhos tangedores, Com o debil som das gaitas dos pastores.
De um fraco ribeiro, Que a calma escaceia, Que na fralda ondeia Do arido outeiro, Cortava o carreiro O leito escabroso: O solo ondoloso Alli se abatia, E a senda descia Ao váo pedragoso.
Ao pé da torrente, Gosando a frescura, De um chôpo a verdura Ornava a corrente; Da lua nascente A luz estorvando, A sombra alongando Na estreita passagem, Co'a verde folhagem A senda toldando.
O corcel, que excita O bellico amante, Na marcha prestante Um momento hesita; Logo a orelha fita E o trote accelera, Ruy, que o modéra, O fogo percebe Que o bruto concebe Na batalha féra.
Com o braço valente A lança endereça, Preme o bruto, e á préssa Transpõe a corrente. «Cinge estreitamente, «Bella, o teu consorte, «Que seu braço forte, «Por ti animado, «Do mais esforçado «Desafia o córte.»
Fatima obedece, Seu seio palpita.... N'isto uma voz grita A Bella estremece; No grito conhece A aravia expressão, Que no coração O sangue lhe esfria. Fugir quereria; Mas tenta-lo é vão.
Quem vem lá?... Com voz alta e sonorosa Na arabia lingua um mouro perguntava, Brandindo a ferrea lança temerosa O corcel co'as espóras despertava; Com haste igual de sangue sequiosa Outro mouro apoz elle se mostrava: Ruy, que os vê, e em seu valor confia; «Christo e ElRei Affonso:» respondia.
Diz. O ginete arremeça, Salta o bruto ardente e forte, Co'a lançada vôa a morte Do mouro a cotta atravessa. Espadana o sangue infido, De um só golpe a alma vôa, Cahe o mouro, e com o ruido Das armas o valle atrôa.
Torce a redea o Cavalleiro Contra o segundo inimigo; Mas menos forte o guerreiro Encarar não ousa o perigo:
Do ginete á ligeireza Da vida confia o preço, Parte, vôa, e com destreza Vibra a lança de arremeço.
Parte a hastea sibilando, O fado dirige o tiro, Cahe Fatima, e ao golpe infando Responde um longo suspiro.
Ella cahe, ella suspira, No seu seio palpitante Um covarde ferro aspira O sangue da doce amante.
Ruy no peito a sustenta Mudo, louco, exasperado, Nelle o olhar Fatima attenta Quasi da morte apagado.
Fitta nelle os olhos lindos Onde amor lucta co'a morte: «Os meus dias estão findos, «Adeus suave consorte!
«Amei-te mais do que a vida «Desde esse primeiro instante «Em que a ti fui submettida «Por teu braço triunfante;
«Nem a crença, que então tinha, «Nem a ausencia, nem meu fado, «D'esse amor, essencia minha, «Haveriam triumfado.
«Nenhum poder sobre a terra «De Ruy me apartaria, «Na ausencia, na paz, na guerra «Fatima tua seria!.....
«Mas Deus não quiz que embebido «Em doce paixão terrena, «O premio de um escolhido «Fosse corôa tão pequena:
«Não quiz esse Deus clemente «Que a dita nos deslumbrasse, «Que o nosso amor innocente «Sobre a terra se gozasse.
«Nasci de um crime, e no crime «Involuntario educada, «Esse Deus, sua Lei sublime, «Foi por mim aos pés calcada:
«Tarde conheci seu nome, «E quando a Elle voltei «Um peito, que amor consome, «Imperfeito lhe votei.
«Do sangue meu a abundancia «Possa expiar, oh Senhor, «Os erros da minha infancia, «O excesso do meu amor!
«Eu vejo a mãi, que me estende «Desde o ceo amantes braços, «Ella a alma me desprende «Dos terrenos embaraços.
«Eu vôo, oh esposo, eu vôo «Ao seio da Divindade «Jà seu hymno eterno entôo «Nos umbraes da Eternidade.
«Só d'alli, oh doce amante, «P'ra sempre a dôr se desterra; «Lá te aguardo, que um instante «Vive o homem sobre a terra!
«Mas ah, se a vida me déste «Quando á morte me arrancaste, «Deva-te a vida celeste «Aquella que tanto amaste.
«Derrama, á pressa, derrama «Nesta fronte a agua da vida «Que a seu seio Deus me chama, «Em breve por ti seguida.»
Disse. Uma força invencivel Deus infunde ao moço ardente. Desce, e no elmo terrivel Toma a agua da corrente.
Chega. Derrama-a na frente Da Virgem agonisante. Ella a sente, e ternamente Une ao peito a mão do amante.
Apertou-a contra o seio, A elle os olhos voltou, Um suspiro aos labios veio Exhalou-o, e expirou.
Dizem que junto ao ribeiro Doces cantos se escutaram, Que na noute almo luzeiro Os pastores contemplaram.
Na seguinte madrugada. Vindo ao sitio os guardadores, Viram a terra escavada Coberta de frescas flôres.
Sobre ellas um vulto annoso Candidas roupas trajando, N'um vôo ao ceo pressuroso Alva pomba contemplando.
Dizem mais: que os que souberam O caso digno de chôro, Áquella torrente deram O nome de Rio Mouro.
Que Ruy na sepultura Longo tempo suspirára, Deposta a nobre armadura, Que do martyr Pai herdára;
Que alfim do pranto exhauridos Os olhos seus se seccaram, E seus ais, e seus gemidos Para o Senhor se voltaram.
Que do ceo a queixa ouvida, Com balsamo de alta espr'ança Lhe sarou Deos a ferida, Lhe mandou da alma a bonança.
De Cintra no ermo escabroso No serro o mais retirado, Além do monte viçoso Monserrate ora chamado,
Dois penhascos se elevavam Que immensa louza cobria, E uma caverna formavam Que ao ponente a porta abria;
Alli, dos homens remoto, Dos seus proprios ignorado, Ruy sob um nome ignoto Terminou mistico fado.
Alli do nascer da aurora Té ao ultimo fulgor Entoava em voz sonora Os hymnos ao Creador.
Das plantas da penedia, Dos fructos do agreste monte, Sua comida fazia, Bebida lhe dava a fonte.
Assim consumiu seus annos Á solidão consagrados, Té que, cumpridos seus fados, Poz Deus um termo a seus damnos. Partiu-se de entre os humanos Sua alma candida e pura, Os anjos a sepultura Entre as penhas esconderam, E as memorias se perderam Da sua triste aventura.
Longo tempo abandonada Jazeu a selvagem gruta, Do lobo, e raposa astuta Foi longo tempo habitada. Té que a prole sublimada Do ultimo lume do Oriente Um asylo penitente No serro agreste erigiu, E de novo alli se ouviu O louvor do Omnipotente.
Os annos correram, Que tudo mudando Volvem derribando O mesmo que ergueram;
Da suave amante Perdeu-se a memoria, Esqueceu-se a gloria Do Joven brilhante.
No castello antigo Berço a seus amores Môchos piadores Só tem seu abrigo;
Selvagem verdura C'o a hera lustrosa Da muralha annosa Cobrem a structura:
De um lado inda a selva Se mostra virente, Matiza inda a relva Do Lena a corrente,
Inda o musgo brando. Vestindo os penedos, S'ta nos arvoredos Amor convidando;
Mas já não lastima O echo das fragoas Da triste Fatima As pena, e as magoas.
Do Téjo na borda Ind'hoje aos salgueiros O batel co'a corda Prendem os remeiros,
A humida esteira Tranquillos sulcando, Vem inda remando De noute as bateiras,
Mas da Moura linda, Do Guerreiro amante, No bronco habitante A memoria é finda.
De Cintra a viçosa As frescas torrentes Vem inda fluentes Á selva frondosa,
Das aves ainda Na matta sombria A doce harmonia Com o dia não finda,
Sua doce frescura, Suas limpidas fontes, Seus farpados montes De altiva structura, Sua luz clara e pura, Seu ceo azulado, Seu mar empolado, Que o tempo venceram, Memoria perderam Do Pár desgraçado.
Tu só, tu, fantesia inseparavel Das margens do meu Téjo, e seus verdores, Tu, ceo da patria, ceo incomparavel, Que n'alma, qual no campo, espalhas flôres: Só tu resuscitaste o lamentavel Destino de tão firmes amadores; Só tu, do tempo alevantando o manto, Sobre as campas de amor chamaste o pranto.