ACTO QUARTO.
SCENA I.
Dionysa e Solina.
DIONYSA.
Oh Solina, minha amiga,
Que todo este coração
Tenho posto em vossa mão;
Amor me manda que diga,
Vergonha me diz que não.
Que farei?
Como me descobrirei? [{453}]
Porque a tamanho tormento
Mais remedio lhe não sei,
Que entregá-lo ao soffrimento.
Meu pae muito entristecido
Se vai pela serra erguida,
Ja da vida aborrecido,
Buscando o filho perdido,
Tendo a filha cá perdida!
Sem cuidar,
Foi a casa encommendar
A quem destruir lha quer:
Olhae que gentil saber,
Que vai comigo deixar
Quem me não deixa viver.
SOLINA.
Senhora, em tanto desgôsto.
Não posso meter a mão;
Mas como diz o rifão,
Mais val vergonha no rosto,
Que mágoa no coração.
E bofé, se eu tanto amasse,
E visse tempo e sazão,
Sem seu pae, sem seu irmão,
Que a nuvem triste tirasse
De cima do coração.
DIONYSA.
Ah mana! que tenho medo,
Que s'eu em tal consentisse
Que logo o mundo o sentisse,
Porque nunca houve segredo,
Que, emfim, se não descobrisse. [{454}]
SOLINA.
Se eu tantas dobras tivesse
Como quantas houve erradas,
Sem que o mundo o soubesse,
Á fé qu'eu enriquecesse,
E fosse das mais honradas.
DIONYSA.
Sabeis que tenho em vontade?
SOLINA.
Que podeis, Senhora, ter?
DIONYSA.
Fallar-lhe, só para ver
Se he por ventura verdade
O que dizeis que me quer.
SOLINA.
Bofé, mana, dizeis bem,
E eu o mandarei chamar,
Como para lhe rogar
Que hum annel, que lá me tem,
Que mo mande concertar.
DIONYSA.
Dizeis mui bem.
SOLINA.
Vou-me lá
Chamar o seu moço á sala;
E s'este parvo vem cá,
Com elle hum pouco rirá,
Que sempre amores me fala.
Vilardo, moço? [{455}]
SCENA II.
Vilardo e Solina.
VILARDO.
Quem chama?
SOLINA.
Vem cá, moço; eu te chamo.
Qu'he de teu amo?
VILARDO.
Ah que dama!
Perguntais-me por meu amo,
E não por hum que vos ama?
SOLINA.
E quem he esse amador,
Que quer ter comigo passo?
Será elle algum madrasso?
VILARDO.
Eu sou o mesmo, que o amor
Me quebra pelo espinhasso.
E mais vós sabei de mi,
Se eu a dizê-lo me atrevo,
Que desque esses olhos vi,
Que yo ni como, ni bebo,
Ni hago vida sin ti.
E mais para namorado
Não sou ora tão madraço.
SOLINA.
Sois muito desmazelado.
VILARDO.
Mas antes, de delicado [{456}]
Caio pedaço a pedaço.
E mais eu soffrer não posso
Que me façais tanto fero,
Qu'estou ja posto no osso,
Porque sou vosso e revosso,
Por vida de quanto quero.
SOLINA.
Feros está cheia a rua.
Ora estou bem aviada!
VILARDO.
Cupido, por vida tua,
Que a não faças tão crua,
Pois que te não faço nada!
Amor, Amor, mas te pido,
Que quando se for deitar,
Que le digas al oido:
Devieis-vos de lembrar
Neste tempo de hum perdido.
SOLINA.
E tu ja fazes coprinhas?
Ainda tu trovarás?
VILARDO.
Quem eu? Por estas barbinhas,
Que se vós virdes as minhas,
Que digais que não são más.
SOLINA.
Ora, pois me quereis bem,
Dizei-me huma.
VILARDO.
Ei-la aqui;
E veja o saibo que tem; [{457}]
Porque esta trovinha assi,
Saiba qu'he trova do assem.
Trova.
Passarinhos, que voais
Nesta manhãa tão serena,
Sabei que só minha pena
Póde encher mil cabeçais.
SOLINA.
O rifão está salgado.
Essa pena te dou eu?
VILARDO.
Vós e Amor, que de malvado,
Me tẽe melhor empennado,
Que nenhum virote seu.
Pois se me ouvíreis cantar!
SOLINA.
E tu es tambem cantor?
VILARDO.
Canto melhor que hum açor.
Quereis que vos venha dar
Musiqueta de primor,
E que vos mande tanger
Muito melhor que ninguem?
SOLINA.
Ja isso quizera ver.
VILARDO.
Querer-me-heis, se o eu fizer,
Algum pedaço de bem?
SOLINA.
Querer-te-hei trinta pedaços. [{458}]
VILARDO.
E esse querer dará fruito,
Que me tire destes laços?
SOLINA.
E que fruito?
VILARDO.
Dous abraços.
SOLINA.
Esse fruito custa muito.
VILARDO.
Esse he o amor qu'em vós ha?
Pezar de minha mãe torta!
SOLINA.
Ora hi, chamae logo lá
Vosso amo que venha cá,
Porque he cousa que importa.
VILARDO.
Logo?
SOLINA.
Logo nessas horas.
VILARDO.
Não estarei aqui mais?
SOLINA.
Não. Ainda ahi estais?
Vós haveis mister esporas.
VILARDO.
Irei, porque me mandais. [{459}]
SCENA III.
O pastor, e Venadoro com elle, feito pastor.
PASTOR.
Mas de un mez es ya pasado
Que en esta sierra andais;
Y es caso mal mirado
Que andeis guardando ganado
Por una que tanto amais.
Y si os determinais
En querer casar con ella,
Juro á mi que nada errais;
Y si eso es para habella,
En vano cabras guardais.
Ya me distes vuestra fé
(Sábenlo estas tierras todas):
Yo con ella me engañé,
Que luego mandar llamé
Quien festejase las bodas.
Y agora dicis con pena,
Que es dura cosa casar:
Pues volveos hora buena,
Que no habeis de engañar
Con palabras Florimena.
VENADORO.
Quem se ha de ter coração
Para tamanho temor?
Que em mim pegando estão.
De huma parte a razão.
E d'outra parte o Amor.
Tambem vejo que perdella [{460}]
Será minha perdição;
Que bem me diz a affeição,
Que pouco faço por ella,
Pois não desfaço em quem são.
PASTOR.
Digoos, si por bajeza
Dicis que no os conviene,
Daros hé una certeza,
Que en sangre y en nobleza,
Tanto como vos la tiene.
VENADORO.
Pastor, digo que daqui
Farei tudo que quizerdes;
E se mais quereis de mi,
Digo que vos dou o si
Para tudo o que quizerdes.
PASTOR.
Dios os dé su bendicion;
Y pues que casais con ella,
Yo os afirmo en conclusion,
Que aun de vos y mas della
Verná gran generacion.
Yo me voy por ella, hijo,
Tomadla asi mal compuesta;
Verná quien haga la fiesta;
Que en placer y regocijo
Nos festeje esta floresta. [{461}]
SCENA IV.
VENADORO só.
Ó ribeiras tão formosas,
Valles, campos pastoris,
Porque vos não revestis
De novas flores e rosas,
Se minha gloria sentis?
Porque não seccais, abrolhos?
E vós, ágoa, que regando,
Os olhos his alegrando,
Correi, que tambem meus olhos
D'alegres estão manando.
Ah pastora, em quem espero
Poder viver descansado!
Comtigo guardarei gado,
Que ja eu sem ti não quero
Nenhuma alteza d'estado.
Diga o que quizer a gente,
Tudo terei n'huma palha,
Porque está claro e evidente
Que não ha honra que valha
Contra a vida descontente.
SCENA V.
Tres pastores bailando, e cantando de terreiro, diante do pastor, que traz Florimena.
PASTOR.
Pues el amor os obliga
Á que hagais tan buena liga, [{462}]
Tomando á Dios por testigo,
Daqui os la entrego, amigo,
Por muger y por amiga.
VENADORO.
Consentis nisto, Senhora?
FLORIMENA.
Senhor, em tudo consento.
VENADORO.
Oh grande contentamento!
FLORIMENA.
Saiba que nunca tégora
Lhe houve inveja ao tormento.
PASTOR.
Asi lo dices, bobilla?
Oh! mala dolor os duela!
Pero no es maravilla
Quien consiente ansi la silla,
Consienta tambien la espuela.
SCENA VI.
Tornão a bailar e cantar, e acabado, entra D. Lusidardo, e o Monteiro, que andão em busca de Venadoro.
LUSIDARDO.
Tres dias ha ja que ando
Por esta larga espessura
A Venadoro buscando;
E o que delle vou achando
He como quer a Ventura. [{463}]
MONTEIRO.
Senhor, cuido que lá vejo
Huns lavradores cantar.
LUSIDARDO.
Hi diante perguntar.
MONTEIRO.
Cumprido he seu desejo,
Se a vista não m'enganar.
LUSIDARDO.
Como assi?
MONTEIRO.
Elle não vê
Aquelle pastor loução
Com huma moça pela mão?
Se Venadoro não he,
Nem eu o Monteiro são.
PASTOR.
Quien veo allá asomar,
Que se viene á nuestras bodas?
BOBO.
No los dejemos llegar,
Que nos vernan á roubar,
Juro á mi, las migas todas.
LUSIDARDO.
Oh Venadoro, meu filho!
Es tu este?
VENADORO.
Tal estou,
Que cuido que este não sou.
LUSIDARDO.
Certo que me maravilho [{464}]
De quem tanto te mudou.
Como estais assi mudado
No rosto e mais no vestido!
VENADORO.
Ando ja n'outro trocado,
Tanto, que fiquei pasmado
De como fui conhecido.
E se Vossa Mercê vem
Para me levar daqui,
Mais ha de levar que a mi;
E ha de ser quem me tem
Todo transformado em si.
BOBO.
Eso porque lo entendeis?
Por las migas por ventura?
Voto á tal no llevareis:
Por mas y por mas que andeis
No hareis tal travesura.
VENADORO.
Esta formosa donzella
Em mi teve tal poder,
Que folguei de me perder;
Pois, emfim, vim achar nella
O que não cuidei de ser.
Tanto em mi pôde este amor,
Que a tenho recebida;
E se o êrro grave for,
Aqui quero ser pastor:
Deixe-me ter esta vida.
LUSIDARDO.
He certo tal casamento? [{465}]
VENADORO.
Tenha-o por cousa segura.
LUSIDARDO.
Oh grande acontecimento!
Dest'arte sabe a ventura
Aguar hum contentamento!
PASTOR.
Óigame, Señor, á mi,
Como hombre sabio, discreto,
Porque acaeció así,
Y lo que supo hasta aqui
Lo puede tener por cierto.
Muchos años son corridos
Que en esta fuente abierta,
En estos valles floridos
Hallé dos niños nascidos,
Y á su madre casi muerta.
Los niños chicos crié,
(Y desto cierto me arreo)
Y á la madre sepulté;
Y despues un gran deseo
De saber esto tomé.
Como yo fuese enseñado
De chico á la mágica arte
Por mi padre, que es finado;
Muy conoscido y nombrado
Soy por tal en toda parte.
Yo con yervas de la sierra,
Animales y otras cosas
Haré, si el arte no se yerra,
Que desciendan á la tierra [{466}]
Las estrellas luminosas.
Soy, en fin, certificado
Que la madre de los dos
Fué Princeza de alto estado.
Y por un caso nombrado
La trajo á esta tierra Dios.
El macho, como creció,
Deseoso de otro bien,
Á la Corte se partió:
La hembra es esta por quien
Vuestro hijo se perdió.
Y si mas quiere, Señor,
De mi arte, prestamente
Dello le haré sabedor;
Mas ha de ser de tenor
Que no lo sepa la gente.
LUSIDARDO.
Mas vamos-nos, se quereis,
Que não soffro dilação,
A minha casa, e então
Lá disso me informareis,
Que caso he de admiração.
E vós, filho, não cuideis
Que a gloria de vos achar
Não he tanto d'estimar,
Qu'em qualquer 'stado que esteis,
Não folgue de vos levar. [{467}]