ACTO QUINTO.
SCENA I.
Solina, Dionysa e Filodemo.
SOLINA.
Eis Filodemo lá vem:
Asinha acudio ao leme.
DIONYSA.
Isso he de quem quer bem;
Mas não sei se o vio alguem,
Porque quem espera teme.
Agora me quizera eu
Daqui cem mil leguas ver.
FILODEMO.
Folgára eu assi de ser,
Porqu'este cuidado meu
Fôra mais de agradecer.
Que quando por accidente
A Fortuna desastrada
Vos apartasse da gente
N'hum deserto, onde somente
Das feras fosseis guardada;
Lá por ferro, fogo e ágoa
Buscar minha morte iria;
A voz ronca, a lingua fria,
Tamanho mal, tanta mágoa
Ás montanhas contaria.
Lá, mui contente e ufano
De mostrar amor tão puro, [{468}]
Poderia ser que o dano,
Que não move hum peito humano,
Que movesse hum monte duro.
DIONYSA.
Nesse deserto apartado
De toda a conversação
Merecieis degradado
Por justiça, com pregão
Que dissesse: Por ousado.
E eu tambem merecia
Metida a grave tormento,
Pois que, como não devia,
Vim a dar consentimento
A tão sobeja ousadia.
FILODEMO.
Senhora, se me atrevi,
Fiz tudo o que Amor ordena;
E se pouco mereci,
Tudo o que perco por mi,
Mereço por minha pena.
E se Amor pôde vencer,
Levando de mi a palma,
Eu não lho pude tolher;
Que os homens não tẽe poder
Sôbre os affectos da alma.
E ainda que pudera
Resistir contra o mal meu.
Saiba que o não fizera;
Que pouco valêra eu,
Se contra vós me valêra.
Não deve logo ter culpa [{469}]
Quem se venceo d'armas tais:
Assi que nisto, e no mais,
Tomo por minha desculpa
Vós mesma que me culpais.
E se este atrevimento
Com tudo for de culpar,
Acabae de me matar;
Que aqui tenho hum soffrimento
Que tudo póde passar.
E se esta penitencia,
Que faço em me perder,
Algum bem vos merecer,
Fique em vossa consciencia
O que me podeis dever.
Que dizeis a isto, Senhora?
DIONYSA.
Eu que vos posso dizer?
Ja não tenho em mi poder,
Segundo me sinto agora,
Para poder responder.
Respondei-lhe, vós Solina,
Pois que a vós me entreguei.
SOLINA.
Bofé não responderei:
Veja ella o que determina.
DIONYSA.
Não o vejo, nem o sei.
SOLINA.
Pois eu tambem não sei nada.
DIONYSA.
Porque? [{470}]
SOLINA.
Do que eu fizer,
Se despois se arrepender,
Dirá qu'eu fui a culpada.
DIONYSA.
Eu só quero a culpa ter.
SOLINA.
Senhora, por não errar,
Não quero que fique em mim.
Esta noite no jardim
Ambos podem praticar
Como isto venha a bom fim.
Lá poderão ajustar
Entr'ambos o parecer;
Qu'eu não m'hei nisso de achar,
Que não quero temperar
O que outrem ha de comer.
DIONYSA.
Vós vêdes a torvação,
Que lá nessa casa vae?
SOLINA.
Dá-me cá no coração
Que he vindo o Senhor seu pae
Com o Senhor seu irmão.
DIONYSA.
Filodemo, hi-vos embora,
Fallae depois com Solina.
SOLINA.
Vamos-nos tambem, Senhora.
Receber seu pae lá fóra;
Não venha sentir a mina. [{471}]
SCENA II.
Vilardo e Doloroso, que vem dar hum descante a Solina com os Musicos.
VILARDO.
Assi que te contava, Doloroso, destas em que sempre andão rugindo as sedas.
DOLOROSO.
Avante, que bem sei que o não dizeis polas sedas de Veneza.
VILARDO.
Ja sabeis que esta nossa Solina he tão Celestina, que não ha quem a traga a nós.
DOLOROSO.
Logo parece moça brigosa, que por dá cá aquellas palhas, dará e tomará quatro espaldeiradas; e ao outro dia quem ha de cuidar que huma mulher de sua arte ha de querer bem a hum parvo como a ti? porque estas taes são como homens sisudos; se de noite se achão em algum arruido, onde possão fugir sem serem conhecidos, facilmente o fazem; e ao outro dia quem ha de cuidar que hum tão honrado havia de fugir? Outros dizem: Bem pode ser, porque noite escura he capa de Judeos e de envergonhados.
VILARDO.
Mui gentil comparação he esta. Mas assi que te dizia, o outro dia assi zombando lhe prometti de lhe dar huma musica, e ja chamei outros dous meus amigos, que logo hão de vir aqui ter comnosco.
DOLOROSO.
Que tal he a musica que determinas de lhe dar? [{472}] Não seja de siso; porque será a maior parvoice do mundo, porque não concerta com a parvoice que tu finges.
VILARDO.
A musica não he senão das nossas; mas faço-te queixume, que nem com hum cão de busca pude achar humas nesperas por toda esta terra.
DOLOROSO.
Nem as acharás senão alugadas; mas eu não sou de opinião que teus amores te custem dinheiro. Ora ja lá apparecem os outros companheiros, e eu tambem ajudarei de telhinha ou de assovio; e vem-me isto á popa, porque daqui iremos á porta da minha padeirinha, porque ando com ella n'hum certo requerimento.
VILARDO.
Vossas Mercês vem ao proprio: boa seja a vinda. As guitarras vem temperadas?
DOLOROSO.
Tudo vem como cumpre: mandae vigiar a Justiça entretanto.
VILARDO.
Ora sus: fazei como se temperasseis cabeça de pescada com seu figado e bucho, e canada e meia, que nunca meu pae fez tamanho gasto na sua Missa nova.
Neste passo se dá a musica com todos quatro, hum tange guitarra, outro pentem, outro telhinha, outro canta cantigas muito velhas, e no melhor diz Vilardo:
Estae assi quedos, que eu sinto quem quer que he.
DOLOROSO.
Justiça, pelo corpo de tal! Ora sus: aqui não ha outro valhacouto que nos valha, que pôr os pés ao caminho, e mostrar-lhe as ferraduras. [{473}]
SCENA III.
O MONTEIRO só.
Como he gracioso este mundo, e como he galante! E quão gracioso sería quem o pudesse ver de palanque com carta d'alforria ao pescoço, porque não podessem entender nelle Meirinhos, Almotacés da limpeza, trabalhos, esperanças, temores, com toda a outra cabedella de enfadamentos! Ora notae bem de quantas côres teceo a Fortuna esta manta d'Alentejo: perdeo-se Venadoro na caça, eis a casa toda envolta como rio: o pae enfadado, a irmãa triste, a gente desgostosa; tudo, emfim, fóra do couce; e o galante aposentado nos matos com trajos mudados como camaleão, decepado dos pés e das mãos, por huma serranica d'Alentejo; e veio acaso a sahir de maneira fóra da madre, que a recebeo por mulher; e rapa oleo e chrisma de quem he, e renega todas as lembranças de seu pae; pois tanto tomou ao pé da letra o que Deos disse: Por esta deixarás teu pae e mãe. E attentae isto por me fazer mercê: cuidareis que este caso era solus peregrinus: sabei que os não dá a fortuna senão aos pares, como quédas. Dionysa mais mimosa e mais guardada de seu pae que bicho de seda, moça sem fel como pombinha, que nos annos não tinha feito inda o enequim; mais formosa que huma manhãa do S. João, mais mansa que o Rio Tejo, mais branda que hum Soneto de Garcilasso, mais delicada que hum pucarinho de Natal; emfim, que por meia hora de sua conversação se poderá soffrer huma pipa com cobra e gallo e doninha, como a parricida, [{474}] com tanto que dissesse o pregão o porque; porque vos não fieis em castanhas (não sei se diga, se o cale, que de magoado me trava pola manga a falla da garganta; mas, com tudo, não ha quem se tenha) seu pae a achou esta noite no jardim com Filodemo, mais arrependida do tempo que perdêra, que do que alli perdia: eu, coitado de mi, que meta os dentes nos cabeçaes se desejar ave de penna.
SCENA IV.
Duriano e o Monteiro.
DURIANO, como cantando.
Ti ri ri, ti ri rão.
MONTEIRO.
Que he isso, Senhor Duriano? Que descuidos são esses? Onde he cá a ida agora?
DURIANO.
Vou assi como parvo, porque o melhor he não saber homem nada de si.
MONTEIRO.
Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube aproveitar do tempo que ficou só em casa?
DURIANO.
Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa, se não he isso caso para sahir com elle a desafio.
MONTEIRO.
Porque? [{475}]
DURIANO.
Porque não basta que lhe dê a Fortuna gostos tão medidos sôbre o funil, que lhe põe nos braços Dionysa, a mais formosa dama que nunca espalhou cabellos ao vento, senão ainda para o assegurar em sua boa ventura, lhe vem a descobrir, que he filho de não sei quem, nem quem não.
MONTEIRO.
Esses são outros quinhentos. Cujo filho dizem que he? que eu ouvi ja sôbre isso não sei que fábulas.
DURIANO.
Dir-vo-lo-hei; pasmareis, que não he menos que Principe, e peor ainda. Nunca ouvistes dizer de hum irmão do Senhor Dom Lusidardo que aggravado del Rei, se foi para os Reinos de Dinamarca?
MONTEIRO.
Tudo isso ouvi ja.
DURIANO.
Pois esse galante, em satisfação de muitas mercês que ElRei de Dinamarca lhe fizera, meteo-se d'amores com huma sua filha, a mais moça; e como era bom justador, manso, discreto, galante, partes que a qualquer mulher abalão, desejou ella de ver geração delle; senão quando, livre-nos Deos! se lhe começou d'encurtar o vestido; e porque estes sirgos não se desistem em nove dias, senão em nove mezes, foi-lhe a elle então necessario acolher-se com ella, porque não colhessem a ella com elle: acolheu-se em huma galé; e vêde la Princeza em huma galera nueva, con el marinero á ser marinera. Finalmente, vindo navegando todo esse Oceano Germanico, bancos de Frandes, [{476}] mar d'Inglaterra, e trazidos á costa d'Hespanha, não os quiz a Ventura deixar gozar do repouso que nella buscavão: deo-lhe subitamente tamanha tormenta, que sem remedio deo a galé á costa, onde feita pedaços, morrêrão todos desastradamente, sem escapar mais que a Princeza com o que trazia na barriga, a quem parece que a Fortuna guardava para dar o descanso, que a seu pae e mãe negára. Sahio finalmente a moça na praia, tal qual o temeroso naufragio deixaria huma Princeza mais delicada que hum arminho; e indo assi a pobre mulher pola terra estranha e despovoada, e sem quem a encaminhasse por onde, despois de ter perdido toda a esperança de ter algum remedio, derão-lhe as dores de parto junto de huma fonte, aonde em breve espaço lançou duas crianças, macho e femia, como vizagras. E como a fraca compreição da delicada mulher não pudesse sustentar tantos e tão desacostumados trabalhos, facilmente deo a vida, que tanto havia que desejava de dar, deixando vivos aquelles dous retratos della e de seu pae, que por causa de seus nascimentos a vida lhe tirárão, como acontece a viboras. E como as crianças fossem destinadas ao que vêdes, não faltou hum pastor que as criasse, que alli veio ter, dando a mãe a alma a Deos: de maneira que, por não gastar mais palavras, o macho he vosso amigo Filodemo, e a femia he a serrana Florimena, mulher que he ja de Venadoro.
MONTEIRO.
Estranhas cousas me contais. Assi que logo de seu pae herdou Filodemo namorar a filha do Senhor [{477}] que serve: não haverá logo por mal o Senhor Dom Lusidardo tomar por genro e nora, quem acha por sobrinhos.
DURIANO.
Sabei que chora de prazer com elles, que ja diz que acha que Filodemo se parece natural com seu irmão, e Florimena com sua mãe.
MONTEIRO.
Dae-me a entender, como se creo tão de ligeiro o Senhor Dom Lusidardo de quem isso contou.
DURIANO.
No caso não ha dúvida, porque o pastor que hi achastes, lhe certificou todo o caso; e fez ao pastor muitas mercês, e mandou fazer muitas festas solemnes. Venadoro, casado com sua mulher e prima, e Filodemo, que o mesmo parentesco tẽe com a Senhora Dionysa, estão fóra de crer tamanho contentamento; cuido que zombão delle.
MONTEIRO.
Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse velhaco de Filodemo; pois de meu matalote se me tornou Senhor. Creio que vem o Senhor Dom Lusidardo: dissimulemos.
SCENA V.
Dom Lusidardo com Venadoro, que traz Florimena pela mão, e Filodemo a Dionysa.
LUSIDARDO.
Quem não ficará pasmado
De ver que por tal caminho [{478}]
Tẽe a Ventura ordenado
Filodemo, meu criado,
Vir ser meu genro e sobrinho!
Quem não pasmará agora
De ver a ventura minha,
Que tẽe tornado n'hum'hora
Florimena, huma pastora,
Ser minha nora e sobrinha!
Dem-se graças ao Senhor,
Cujo segredo he profundo;
Pois que vemos que quiz dar
A ventura e o amor
Por prazeres deste mundo.