Ciumes do mar.

Se não fosse a astronomia, não descobriria eu tão cedo as dez libras de Capitú; mas não é por isso que torno a ella, é para que não cuides que a vaidade de professor é que me fez padecer com a desattenção de Capitú e ter ciumes do mar. Não, meu amigo. Venho explicar-te que tive taes ciumes pelo que podia estar na cabeça de minha mulher, não fóra ou acima della. É sabido que as distracções de uma pessoa pódem ser culpadas, metade culpadas, um terço, um quinto, um decimo de culpadas, pois que em materia de culpa a graduação é infinita. A recordação de uns simples olhos basta para fixar outros que os recordem e se deleitem com a imaginação delles. Não é mister peccado effectivo e mortal, nem papel trocado, simples palavra, aceno, suspiro ou signal ainda mais miudo e leve. Um anonymo ou anonyma que passe na esquina da rua faz com que mettamos Sirius dentro do Marte, e tu sabes, leitor, a differença que ha de um a outro na distancia e no tamanho, mas a astronomia tem dessas confusões. Foi isto que mo fez empallidecer, calar e querer fugir da sala para voltar. Deus sabe quando; provavelmente, dez minutos depois. Dez minutos depois, estaria eu outra vez na sala, ao piano ou á janella, continuando a licção interrompida:

—Marte está a distancia de...

Tão pouco tempo? Sim, tão pouco tempo, dez minutos. Os meus ciumes eram intensos, mas curtos; com pouco derrubaria tudo, mas com o mesmo pouco ou menos reconstruiria o ceu, a terra e as estrellas.

A verdade é que fiquei mais amigo de Capitú, se era possivel, ella ainda mais meiga, o ar mais brando, as noites mais claras, e Deus mais Deus. E não foram propriamente as dez libras esterlinas que fizeram isto, nem o sentimento de economia que revelavam e que eu conhecia, mas as cautelas que Capitú empregou para o fim de descobrir-me um dia o cuidado de todos os dias. Escobar tambem se me fez mais pegado ao coração. As nossas visitas foram-se tornando mais proximas, e as nossas conversações mais intimas.


[CVIII]