Dez libras esterlinas.
Já disse que era poupada, ou fica dito agora, e não só de dinheiro mas tambem de cousas usadas, dessas que se guardam por tradição, por lembrança ou por saudade. Uns sapatos, por exemplo, uns sapatinhos rasos de fitas pretas que se cruzavam no peito do pé e principio da perna, os ultimos que usou antes de calçar botinas, trouxe-os para casa, e tirava-os de longe em longe da gaveta da commoda, com outras velharias, dizendo-me que eram pedaços de creança. Minha mãe, que tinha o mesmo genio, gostava de ouvir falar e fazer assim.
Quanto ás puras economias de dinheiro, direi um caso, e basta. Foi justamente por occasião de uma licção de astronomia, á praia da Gloria. Sabes que alguma vez a fiz cochilar um pouco. Uma noite perdeu-se em fitar o mar, com tal força e concentração, que me deu ciumes.
—Você não me ouve, Capitú.
—Eu? Ouço perfeitamente.
—O que é que eu dizia?
—Você... você falava de Sirius.
—Qual, Sirius, Capitú. Ha vinte minutos que eu falei de Sirius.
—Falava de... falava de Marte, emendou ella apressada.
Realmente, era de Marte, mas é claro que só apanhára o som da palavra, não o sentido. Fiquei serio, e o impeto que me deu foi deixar a sala; Capitú, ao percebel-o, fez-se a mais mimosa das creaturas, pegou-me na mão, confessou-me que estivera contando, isto é, sommando uns dinheiros para descobrir certa parcella que não achava. Tratava-se de uma conversão de papel em ouro. A principio suppuz que era um recurso para desentadar-me, mas d'ahi a pouco estava eu mesmo calculando tambem, já então com papel e lapis, sobre o joelho, e dava a differença que ella buscam.
—Mas que libras são essas? perguntei-lhe no fim.
Capitú fitou-me rindo, e replicou que a culpa de romper o segredo era minha. Ergueu-se, foi ao quarto e voltou com dez libras esterlinas, na mão; eram as sobras do dinheiro que eu lhe dava mensalmente para as despezas.
—Tudo isto?
—Não é muito, dez libras só; é o que a avarenta de sua mulher poude arranjar, em alguns mezes, concluiu fazendo tinir o ouro na mão.
—Quem foi o corretor?
—O seu amigo Escobar.
—Como é que elle não me disse nada?
—Foi hoje mesmo.
—Elle esteve cá?
—Pouco antes de você chegar; eu não disse para que você não desconfiasse.
Tive vontade de gastar o dobro do ouro em algum presente commemorativo, mas Capitú deteve-me. Ao contrario, consultou-me sobre o que haviamos de fazer daquellas libras.
—São suas, respondi.
—São nossas, emendou.
—Pois você guarde-as.
No dia seguinte, fui ter com Escobar ao armazem, e ri-me do segredo de ambos. Escobar sorriu e disse-me que estava para ir ao meu escriptorio contar-me tudo. A cunhadinha (continuava a dar este nome a Capitú) tinha-lhe falado naquillo por occasião da nossa ultima visita a Andarahy, e disse-lhe a razão do segredo.
—Quando contei isto a Sanchinha, concluiu elle, ficou espantada: «Como é que Capitú póde economisar, agora que tudo está tão caro?»—«Não sei, filha; sei que arranjou dez libras.»
—Vê se ella apprende tambem.
—Não creio; Sanchinha não é gastadeira, mas tambem não é poupada; o que lhe dou chega, mas só chega.
Eu, depois de alguns instantes de reflexão:
—Capitú é um anjo!
Escobar concordou de cabeça, mas sem enthusiasmo, como quem sentia não poder dizer o mesmo da mulher. Assim pensarias tu tambem, tão certo é que as virtudes das pessoas proximas nos dão tal ou qual vaidade, orgulho ou consolação.